3.7 Application `a la r´esolution des syst`emes d’´equations lin´eaires
3.7.5 Seconde s´erie d’exp´erimentations
A primeira fase de implementação de um projecto agrícola no meio do mato adivinha-se bastante complicada. Este caso não foi excepção. Os primeiros tempos foram de azáfama. O empreendedor, em Maputo, dirigiu-se a uma cooperativa para comprar alguns utensílios agrícolas - catanas, machados, serrotes – e também comida não perecível (fundamentalmente amendoim, que é um condimento básico alimentar na zona visada, mas também peixe seco, sal, arroz, farinha, óleo, etc.). A primeira vez que decidiu transportar todos estes mantimentos, deslocou-se numa carrinha com uma tonelada. Terá chegado à zona do futuro empreendimento e terá dito ao grupo de dez pessoas que por lá aparecia: “Estão aqui enxadas, estão aqui catanas, estão com muita fome, mas
querem comer. Vamos trabalhar”. E assim começou o embrião de um
programa de comida por trabalho.
Nas palavras do empreendedor, esta era a modalidade de transacção mais adequada às circunstâncias. “Não fazia sentido nenhum pagar. O dinheiro
não tinha grande expressão. Não havia nenhuma estrutura comercial. As pessoas não iam comprar nada. Não havia nada à venda. As pessoas queriam era a comida. E pronto, chegámos a um acordo. Eu próprio não tinha experiência sobre .. qual a relação que podia estabelecer entre a comida e a quantidade de trabalho. Mas eles próprios por tradição já têm isso. Já têm
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aquilo que eles chamam a “porção”. A porção de terra para cultivar. Então uma porção de terra equivale a tantos copos de farinha (...) isto facilitou um pouco os acordos de transacção da comida pelo trabalho. Na fase inicial vinham famílias inteiras. Vinha o marido, a mulher e os filhos. E quantos mais viessem, mais comida levavam para casa naquele dia. E se calhar no dia seguinte já não vinham. Vinham outros”.
Um local com comida disponível em troca de trabalho, num contexto completamente vazio de oportunidades, torna-se um chamariz apelativo. A notícia começa a espalhar-se. “E cada vez vem mais gente. E eu sou obrigado a
comprar mais utensílios. E já não posso levar as coisas numa carrinha de uma tonelada, já tenho que comprar camiões. Então começo efectivamente a drenar comida. Durante um ano praticamente. Durante toda a seca de 92 e 93 eu fui alimentando a população daquela zona. Cheguei a ter quinhentas pessoas ali. A arrancar as árvores e a limpar o mato (...) [as pessoas tinham conhecimento
através do] passa-palavra… enfim, alguns [deslocados] nesse movimento de
voltar para a terra, iam lá ver o que estava a acontecer e ouviam dizer que há um projecto naquela zona e apareciam. Eu cheguei a ter gente que vinham dali a 30 ou 40 quilómetros. Era uma época de muita fome. Muita fome mesmo. Eu vi gente a andar, a cair e a morrer de fome”.
Através da quantidade de pessoas referida, se pode ter uma noção da intensidade e amplitude desta oportunidade de trabalho naquela região. E também se depreende que as alternativas seriam escassas.
Como já havíamos mencionado, o projecto não tinha inicialmente uma perspectiva económica a suportá-lo. Se assim fosse, a forma mais fácil de “montar o negócio” e conseguir um retorno rápido do investimento, seria a introdução de maquinaria e mão-de-obra assalariada. No entanto, com base numa responsabilidade social de fundo, o funcionamento do empreendimento tomou outro rumo. O empreendedor explica o seu raciocínio da altura da seguinte forma: “Eu queria uma reinserção ali (...) do ponto de vista técnico,
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tinha muito poucos trabalhadores e a coisa era muito mais rápida. Mas iria criar ali um pólo completamente desinserido do resto da população. Em vez de criar empatia em relação àquele pólo, iria criar antipatia. Na história daquela zona, a primeira vez que uma lâmpada eléctrica acendeu, que não fosse um carro, foi naquele projecto. A primeira vez que se abriu uma torneira e saiu água foi naquele projecto. As pessoas ficaram muito admiradas. Vinha gente para assistir a uma lâmpada acesa. Corriam. Acendia uma lâmpada e vinha todo o mundo para ver (...) à medida que as pessoas foram aparecendo, eu fui- me apercebendo da realidade. Fui vendo que as pessoas não tinham alternativas de fixação, não sabiam por onde começar. O que eu lhes estava a dar era meramente comida, portanto não ia ajudá-los em tudo. As pessoas comiam de facto. Mas não tinham mais nada, não podiam fazer mais nada (...) há aqui uma situação de deslocados de guerra, de refugiados que se foram embora e que vão reaparecendo. Esta gente toda está a vir por alguma razão
(...) as pessoas foram aprendendo coisas novas, achavam piada, cantavam.
Era uma maneira de se encontrarem, fazerem alguma coisa, terem comida garantida. Isso começou a criar algum ânimo. Então começou a haver o grupo de construção [da casa] e outro da destronca [das árvores]. A primeira separação do trabalho foi esta. Depois começou a haver um terceiro grupo, que era o da cozinha. Porque era tanta gente, tanta gente, que depois a minha mulher montou lá uma cozinha geral, com um grupo de mulheres, para evitar as deslocações que as pessoas tinham que fazer para casa, para almoçar. Então criou-se uma espécie de uma aldeia. Este processo deu um sinal de confiança às pessoas. ‘Se este vem e constrói porque não nós?’. Então começaram também a fazer casas ali à volta. Um factor adverso naquela zona foi a mortalidade. A taxa de mortalidade era muito alta, provocada pela malária. Muita malária mesmo. Os nosso primeiros 25 trabalhadores, aqueles que ficaram efectivamente e que conhecem toda a história desde o princípio, neste momento creio que nos sobram dois”.
A prioridade da população no pós-guerra era efectivamente, a segurança alimentar. E foi essa necessidade que o projecto que estamos a analisar tentou (e conseguiu de certa forma, ou pelo menos numa pequena escala) colmatar, através do transporte e entrega de comida a famílias vulneráveis, não enquanto caridade, mas através de um programa de comida por trabalho, enquadrado por uma clara estratégia de reintegração a longo-prazo.