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O sentimento de pertença à terra natal, imbuído de fortes crenças e práticas culturais (como por exemplo o dever de zelar pelos parentes que estão lá enterrados), é também notório no facto de nenhum dos entrevistados em Manjakaze ter ponderado ficar no local onde se refugiou durante a guerra. Todos procuraram regressar o mais depressa possível às suas raízes, assim que foram bafejados pela confirmação real do sonho de paz, como que movidos por um desejo íntimo muito forte de reencontro com o sítio do qual guardavam recordações – já esbatidas – de momentos tranquilos e onde a sua própria identidade se diluía na identidade do território. Aquela terra pertencia-lhes e ao mesmo tempo pertenciam-lhe.

Aqueles cuja estadia no exílio se prolongou durante alguns anos após 1992 explicaram que isso se deveu a constrangimentos vários, que se prenderam com questões logísticas ligadas à reconstrução das suas casas, ao transporte, ou à ausência temporária do apoio dos seus familiares. A vontade de todos era regressar o quanto antes.

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Esperávamos encontrar pessoas que teriam ficado deslumbradas com as condições mais vantajosas das cidades – por exemplo para as mulheres, o facto de se poderem envolver em actividades mais diversas e dinâmicas, como a venda na rua – mas isso não aconteceu. Todos os inquiridos declararam peremptoriamente que essa hipótese nunca se colocou, admirados e quase que fazendo troça da pergunta. Mesmo aqueles que foram ocupar a casa dos filhos nas cidades, apesar da insistência dos mesmos para não o fazerem, preferiram regressar e passar a sua velhice na terra onde têm raízes. As pessoas não queriam perder o seu estatuto e identidade e queriam manter as suas ligações. Aparentemente essa ânsia de regresso às origens terá sido determinada quer pelo sentimento de pertença, quer pelos laços familiares, quer pela busca de um meio de sobrevivência estável. As machambas nos locais de exílio eram predominantemente emprestadas e por isso forneciam produtos que não encaravam como seus. Não conseguiram apegar-se a elas. Uma das entrevistadas em Vamangue diz que chegou mesmo a plantar coqueiros no terreno emprestado que lhe foi cedido em Zavala (Inhambane) e que teve que os abandonar quando regressou.

H. J. não sabe a idade que tem, mas aparenta uma idade avançada. Antes da guerra vivia com

o marido e quatro filhos. Tinha uma machamba e alguns cabritos e porcos. Vendia algum excedente quando precisava comprar algum extra, como material escolar, roupa, ou material para reparar a capoeira. Agora vive com um neto (o marido e os filhos estão em Maputo) e apenas cria duas galinhas, pois já não tem forças para cuidar de mais animais. Fugiu em 1987 para Maputo. Foi ter com os filhos, que tinham sido transferidos para lá, no âmbito dos seus serviços. Ficou em casa deles e não fazia nenhuma actividade. Eles vendiam cereais.

Recorda-se que chegou a haver um período de inscrições para receber apoio do governo, mas ela não se inscreveu, pois os filhos podiam sustentá-la. Durante o exílio apenas tinha notícias da terra através da rádio. Não regressou logo após o Acordo de Paz (apenas voltou em 1995), pois os filhos decidiram que ela deveria permanecer mais uns tempos em Maputo e enquanto não lhe deram o dinheiro do transporte, ela não pôde regressar. Mas a vontade dela era regressar logo. Ainda agora os filhos querem que ela volte a juntar-se a eles, mas ela não cede a essa pressão, prefere ficar em Xikwatzu. Acha que é ali que deve estar.

(inquirida nº 50, Xikwatzu)

F. H. não sabe ao certo a sua idade. Foi um dos que fugiu directamente para Maputo, para

casa da filha. Vivia das vendas dos produtos da machamba da filha. Regressou menos de um ano depois de acabar a guerra. Não gostava de ficar no Maputo porque lá não é vida para ele.

(inquirido nº 54, Xikwatzu)

F. M. tem 32 anos. Antes da guerra vivia com os pais e sete irmãos. Tinham uma machamba,

extra, como material escolar. Em 1988 fogem para Manjakaze. No início ficou em casa de familiares, mas pouco tempo depois o governo cedeu talhões. O seu pai cortava lenha e vendia e também construía casas e recebia dinheiro. Recebeu algum apoio da Cruz Vermelha. Em 1991 foi para Maputo e ficou em casa do irmão. Não gostou da vida da cidade. Considera que a vida é mais fácil no campo. Regressou a Mubango em 1998. Possui uma junta de bois, dois porcos, 20 galinhas e dois cabritos e ainda vende uma parte da produção da machamba.

(inquirido nº 66, Mubango)

Estas pessoas depararam-se com os escombros deixados no rasto da destruição e, para piorar o infortúnio, tratava-se de um ano de seca extrema. Sem meios de subsistência e colocada de parte a hipótese de procurar outro local mais propício para a reconstrução das suas vidas, viram-se entregues à sorte e à caridade variável das organizações que nessa altura se encontravam no terreno para servir a missão de ajuda humanitária.

Em Magaiza disseram-nos que não receberam qualquer apoio do governo no regresso (o que entristece particularmente as viúvas de guerra), nem de nenhuma ONG. Cada um reconstruiu as suas casas pelos seus próprios meios. Em Nhengueni afirmaram ter recebido o apoio da Cruz Vermelha e do governo com alimentos e instrumentos agrícolas, mas quando essas instituições viram que a situação estava estabilizada retiraram-se. Em Vamangue a Cruz Vermelha procedeu a uma distribuição mensal de produtos alimentares (mas nenhuma ferramenta agrícola) durante aproximadamente um ano.