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CULTURAL

A criança brinca, isso é fato. Sabemos também que elas aprendem enquanto brincam. Mas que aprendizagens são essas? Como elas aprendem? Que capacidades desenvolvem ao brincar? Os brinquedos são necessários para que a brincadeira aconteça? Muitas questões como estas surgem quando se trabalha com Educação Infantil e muitos autores se atentaram para estas questões e

ainda hoje são objeto de estudo. Entre eles, queremos destacar Vigotski (1998, 2009), que deu grande contribuição nos estudos sobre o desenvolvimento e aprendizagem infantil, dando enfoque ao processo de criação e imaginação na brincadeira.

A criança assim que nasce é inserida numa cultura que tem sua língua própria, seus costumes, seu jeito de ser e fazer e seu desenvolvimento dar-se à medida que ela participa ativamente na aquisição dessa cultura.

No processo de apropriação da cul- tura não só a criança assimila produ- ção cultural e se enriquece com ela, como a própria cultura reelabora em profundidade a composição natural de sua conduta e dá uma orientação nova ao curso do desenvolvimento (SMOLKA, 2009, p. 10).

Vigotski (2009, p. 12) afirmou que todo ser humano exerce atividade criadora, definida por ele como aquela em que se cria algo novo, seja de qualquer natureza. O autor fala sobre a capacidade cerebral de conservação. Nesse sentido, podemos guardar nossas experiências e vivências na memória e isso torna possível “elaborar hábitos permanentes que se repetem em condições iguais”. Mas, além dessa capacidade de conservação, nosso cérebro também realiza a atividade combinatória ou criadora que permite a criação de algo que não foi vivenciado pelo homem.

O cérebro não é apenas um órgão de conserva e reproduz nossa expe- riência anterior, mas também o que combina e reelabora, de forma cria- dora, elementos da experiência ante- rior, erigindo nossas situações e novo comportamento (VIGOTSKI, 2009, p. 14).

Vemos, portanto, que o processo de criação se manifesta já na mais tenra infância, e que ele acontece de forma intensa por meio das brincadeiras. A criança quando brinca reelabora

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tudo que vê e ouve daqueles com as quais ela convive. Ao analisarmos o processo de criação do ser humano, podemos constatar que ele armazena o velho para construir o novo.

Ao se pensar nas Diretrizes Curriculares Nacionais, a brincadeira é tomada de forma utilitarista, principalmente para a Educação Infantil, auxiliando nos processos de aprendizagem. Porém, para fins pedagógicos, as formas como a brincadeira é empregada variam de acordo com a concepção que se tem dela. Torna-se então relevante discutir o funcionamento psicológico da brincadeira para o desenvolvimento da criança.

A brincadeira da criança não é uma simples recordação do que viven- ciou, mas uma reelaboração criativa de impressões vivenciadas. É uma combinação dessas impressões e, ba- seada nelas, a construção de uma re- alidade nova que responde às aspira- ções e aos anseios da criança. Assim como na brincadeira, o ímpeto da criança para criar é a imaginação em atividade (VIGOTSKI, 2009, p. 17). Na sociedade contemporânea ou em grande parte dela, a infância é marcada pelo brincar. Mesmo que percebamos as diferentes formas do brincar; por meio da brincadeira, a criança descobre a si mesma e aprende a significar o pensamento. Logo, pode-se entender a brincadeira como uma atividade que incentiva a interação entre os pares, promove o desenvolvimento global, a formação de um cidadão crítico e reflexivo que busca ou adquire por meio do brincar, uma resolução crítica de conflitos.

A importância do brincar para o desenvolvimento infantil reside no fato de esta atividade contribuir para a mudança na relação da criança com os objetos. Não é possível ignorar que a criança satisfaça algumas necessidades por meio da atividade do brincar e é nessa atividade que a criança cria uma situação imaginária, que é característica definidora da brincadeira.

Durante o ato de brincar, a criança transita entre o real e o imaginário e, em dado momento, como resultado do ato de brincar, os objetos acabam por perder sua força determinadora e se percebe aí o desenvolvimento do pensamento abstrato e o surgimento da fala.

É pela palavra que a criança garante a participação de objetos sem o su- porte de elementos substitutivos, e a inclusão de protagonistas, sem a in- corporação de papéis por parceiros presentes (TUNES, 2001, p. 84). É a partir da brincadeira que a criança se expressa, fala, pensa, elabora sentidos para o mundo. É por meio da brincadeira que os movimentos são transformados. Com isso, a criança passa a se interessar pela realidade e sente necessidade de agir sobre os objetos que mais tem contato. É nessa fase que ela se esforça e tenta agir como um adulto. Logo percebemos que a brincadeira é a reprodução das ações adultas em condições diferentes das ações adultas em condições diferentes da realidade, dando origem a uma situação imaginária. Estes atos são resultados da utilização de elementos do cotidiano, como uma criança faz de um cabo de vassoura seu cavalo ou espada; dessa forma, elas dão significados às suas brincadeiras porque a situação imaginária das crianças caracteriza-se por meio de experiências vividas socialmente e não como algo criado livremente.

A submissão da criança a regras de comportamento faz com que seja a razão do prazer que elas experimentam na brincadeira. É na brincadeira que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva, ao invés de numa esfera visual, ou seja, a brincadeira infantil possibilita a transição da estreita vinculação entre significado e objeto concreto, à operação com significados separados dos objetos.

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