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Séquence autour de la comptine « Mon index est un bavard »

2. Terrain d’analyse : l’utilisation des comptines en petite section : la construction de

2.2. Instaurer le vivre-ensemble en petite section grâce aux comptines : deux séquences de

2.2.2. Séquence autour de la comptine « Mon index est un bavard »

Para alguns não é central a questão do antijudaísmo no Quarto Evangelho127.

Contudo, segundo Lieu (2008, p. 168), “antijudaísmo é um tema necessário em qualquer abordagem sobre o Quarto Evangelho e sobre a teologia cristã; não é mais possível refutá-lo como se fosse uma quimera”. O tema é pertinente e atual que em 2000 houve um Colloquium na Bélgica com uma grande participação de estudiosos da questão (VANDECASTEELE-VANNEUVILLE, 2001)128; mas poderíamos afirmar

que o Quarto Evangelho é antissemita? Haveria, como diz Reinhartz (2004, p. 416- 27), uma “‘gramática do ódio’ contra os judeus no Quarto Evangelho”? Sem entrar nesse terreno ‘minado’, tentaremos mostrar o status quaestionis somente para abrir o horizonte para o nosso escopo nessa unidade que é entender a função dos judeus no Quarto Evangelho.

Essa questão se tornou martelante nos últimos anos. Um excelente estudo de Kierspel (2006, p. 36-59) descreve e avalia criticamente todas as precedentes contribuições sobre o tema até 2005. Uma primeira postura de um grupo de autores é afirmar que algumas interpretações são antijudaicas. O autor do Quarto Evangelho não seria, segundo essa postura, antijudaico, até mesmo porque, o seu texto é inspirado nas tradições judaicas e certamente essas não são ausentes de polêmicas, mas não se pode acusar o evangelista de ter uma tendência antijudaica.

127 Elucidamos que o evangelista não distingue o momento da vida de Jesus e do que está

acontecendo na comunidade, mas o projeta anacronicamente a situação ulterior sobre a narrativa do ministério de Jesus. Funde em um só horizonte o ano 30 d.C. e o ano 90 d.C. Ele usa o termo judeu para expressar o povo judeu, os habitantes da Judéia, as autoridades judaicas; e meio século mais tarde, o Judaísmo em Formação, enquanto oposto aos seguidores de Jesus (BROWN, 1984; KONINGS, 2005; NEVES, 2004). Aliás, tivemos o ensejo de ponderar como o evangelista, por meio da operação hermenêutica, projeta a vida de Jesus na vida da comunidade. Sendo assim, a nossa interpretação tem o escopo de debater a identidade e função dos judeus depois dos anos 80 em conflito com a comunidade e a priori somos do parecer de que, no nível do texto, o Quarto Evangelho não é antijudaico.

128 Para dar-se conta da atualidade do tema, basta consultar o volume de 600 páginas, aberto e

concluído por dois estudos que oferecem um quadro hermenêutico e teológico do problema; as outras 25 contribuições que o compõem são subdivididas em estudos gerais (exegéticos e sistemáticos) e teses específicas (os judeus e textos particulares do Quarto Evangelho). Pensamos que seja importante a discussão de Neves (2004, p. 177-87) sobre a questão.

Sendo assim, o autor fala dos judeus pensando em um grupo específico e restrito dos chefes dos judeus presentes em Jerusalém e não se refere a todo o povo judeu. Segundo os autores que defendem essa posição, foi devido a inclusão do Quarto Evangelho129 no Novo Testamento que o termo os judeus adquiriu uma

conotação genérica e estereotipada, dando a entender que fossem todos os membros da comunidade étnica e religiosa de Israel, incriminando, desse modo, não somente o grupo de judeus (chefes) de Jerusalém, mas todo o povo. De fato, o próprio termo judeus é alargado para um raio universal, pelo termo paralelo mundo. Nas palavras de Devillers (2002, p. 115-268): a polêmica joanina com os judeus é interna ao judaísmo, intrajudaica e não antijudaica. Esse mesmo autor (2005, p. 50- 1.60-1) aconselha a manter uma clara distinção entre história dos efeitos e sentido do texto: “no nível do texto, João não é antijudaico”.

Um segundo grupo de autores percebe um antijudaísmo de uma forma ou de outra nos textos do Quarto Evangelho e até mesmo no seu próprio autor. No século I d.C., havia uma polêmica entre os vários grupos do Judaísmo com tendência apocalíptica em ver o adversário religioso como representante do diabo ou forças escatológicas do maligno. No parecer de Pagels (1996, 141-9), por exemplo, os judeus eram o demônio personificado pelo autor, ou seja, o escopo de quem escreveu o Quarto Evangelho, é que, ao usar o termo judeu, seria para associá-lo à figura mitológica de Satanás a uma oposição humana específica, implicando em primeiro lugar Judas Iscariotes, em seguida, as autoridades judaicas e, por último, os judeus coletivamente. Desde o início do Quarto Evangelho o autor elabora as linhas de batalha entre os filhos da luz e os filhos das trevas, embora, neste caso, a luz seja especificamente representada por Jesus. Depois de terem os judeus tentado apedrejá-lo por pronunciar blasfêmias – reivindicando o nome divino (8,58) – Jesus declarou: É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo (9,4-5).

A autora salienta que os leitores do Quarto Evangelho são, portanto, avisados de que os fatos que ele descreve servem para julgar e condenar como filhos das

129 “Para muitos, no passado, a Igreja cometeu um erro ao enumerar entre os Evangelhos canônicos

trevas aqueles que participaram da destruição de Jesus. Pagels130 conclui dizendo

que as várias descrições do diabo feitas pelo autor e pelos demais evangelistas correlacionam-se com a ‘história social de Satanás’ – isto é, com a história do crescente conflito entre grupos que representavam os seguidores de Jesus e a oposição a eles. E que ao apresentar a vida e a mensagem de Jesus nesses termos polêmicos, os evangelistas pretendiam sem dúvida fortalecer a solidariedade do grupo. Isso parece ser muito peculiar e real na comunidade joanina.

Sobre as consequências que esta forma de apresentar o Quarto Evangelho produziu ao longo dos séculos posteriores e a relação dos cristãos com os judeus131,

iremos aprofundar no decorrer da pesquisa nos capítulos seguintes. Mas a partir da ótica apresentada, no Quarto Evangelho não estaria ausente o antijudaísmo por favorecer negativamente interpretações desse porte, sobretudo a partir do texto 8,44, onde os judeus são chamados de filhos do diabo, portanto, não conhecem Deus 8,19 e morrerão nos seus pecados 8,21.

Nesse clima acalorado da segunda metade do I século, onde se mantiveram somente judeus e cristãos não é de se estranhar essa linguagem polêmica e agressiva, sobretudo se se pensa que cada um dos grupos se sente o herdeiro mais fiel das tradições judaicas. Ashton (2000, p. 134) é do parecer de que mesmo recorrendo às ‘origens’ de uma comunidade que se inspira largamente na experiência traumática de expulsão da comunidade da Sinagoga, isso só resolveria uma parte do problema. O Quarto Evangelho narra, com simbolismo gráfico, o nascimento doloroso, um verdadeiro ‘aborto’ de uma seita, ou, para dar uma categoria diferente: uma nova religião. Àqueles judeus que antes eram fiéis discípulos de Moisés e esperançosos ao Messias judaico, agora, estranhamente, se tornam fiéis ao profeta messiânico na jovem comunidade cristã.

130Também Salvatore (2010, pp. 147-73) publica um artigo cujo título chama atenção: Avete per

Padre il diavolo (Gv 8,44). La demonizzazione di Giuda e/o dei Giudei nel Quarto Vangelo. Nele sublinha que a demonização de Judas e dos Judeus corresponde a uma estratégia narrativa de João para entrar em polêmica com outros grupos cristãos e com falsas cristologias. O narrador, para retratar Judas, recorre à tipologia (o Evangelho de João, diferente dos Sinóticos, prefere enquadrar Judas do ponto de vista de Jesus, consciente de que, desde a crise galilaica, um deles é o traidor e o diabo), à focalização cristológica (Jesus o conhece súbito e simultaneamente o aceita entre os seus), à demonização (o autor declara explicitamente que existe relação entre a figura de Satanás e Judas Iscariotes). Sobre as nefastas consequências dessas interpretações confira o grande comentário de Wengst (2005, p. 366-70).

131 Vale conferir, a partir da perspectiva de uma hermenêutica dialógica, as reflexões contidas na obra

de Grilli: Quale rapporto tra i due Testamenti. Riflessione critica sui modelli ermeneutici classici concernenti l’unità delle Scritture. Bologna: EDB, 2007.

É necessário, portanto, para enfrentar a questão, acrescentar e distinguir duas questões: identidade e função dos judeus no Quarto Evangelho. São sem dúvidas questões de natureza exegéticas que, por sua vez, ajudarão a elucidar a questão histórica que representa nesse momento nosso interesse.