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Les comptines pour structurer la journée

2. Terrain d’analyse : l’utilisation des comptines en petite section : la construction de

2.1.2. Les comptines pour structurer la journée

A reconstrução do ambiente social do Quarto Evangelho se deu pela investigação das fontes, dos períodos, dos vestígios de como a sociedade e, dentro dela os grupos, se estruturavam. Para nossa investigação, o itinerário feito se torna condictio sine qua non para a hermenêutica da perícope Jo 9,7b-38: identificar, na interpretação, elementos ‘estranhos’ que se revelam, na verdade, problemas e realidades concretas na comunidade, ou melhor, que influenciaram a narrativa116.

Como a narrativa de Jo 9,7b-38 traz à tona a memória comunitária sobre Jesus, respondendo questões cruciais do momento que ela estava vivendo, por essa razão, compreendemos pertinente tecer algumas elucidações sobre a memória e a representação que a comunidade faz ao protagonizar sua fé em Jesus, o Filho do Homem.

Os textos bíblicos, especificamente os do Quarto Evangelho como fonte de nossa reflexão, não pretenderam ser biográficos nem uma crônica jornalística do que ocorreu117. Eles são apresentados de forma narrativa onde o narrador se constitui

em porta-voz da vida sucedida e da práxis realizada, apresentando sob o prisma da lembrança. Nessa perspectiva, a categoria da memória, da representação é fundamental, pois o texto é estruturado sobre a vida e atividades da comunidade, fazendo dele uma lembrança contextualizada e, portanto, uma representação que remonta ao passado, mas narrativamente também se torna recriadora de futuro, pois a vida acontecida se torna possível de outra maneira e sempre de novo.

115 O Quarto Evangelho guarda a memória de Jesus. Ainda que seletivamente, escreve a narrativa

daquilo que Jesus fez (20,30), para os que devem crer sem ter visto (20,29). Jesus é ‘o relato de Deus’ (1,18). Não se pode ser cristão sem dar crédito ao modo de agir de Jesus de Nazaré, homem sem prestígio (1,48!), porém profeta confirmado por sinais (3,2; 20,30), dirigindo-se aos discípulos do Batista (1,38), a um fariseu proeminente (3,1), aos samaritanos (4,4-42), a um funcionário do rei (4,46-54), a um enfermo supersticioso (5,1-14), aos galileus (6,1-15), a um mendigo cego (9,1-41), à minicomunidade de Betânia (11,1-41). Tudo isso atinge e ganha seu alcance pragmático justamente quando se dá conta que, “sem memória da práxis de Jesus, nossa fé é vazia e paira no ar, não atinge o chão” (KONINGS, 2005, p. 64).

116 Questões do gênero se tornarão mais claras com a exegese da perícope no capítulo II da Tese. 117 Par uma boa apresentação sobre essas questões, sugerimos a rica reflexão de Richter Reimer

(2006; 2008, p. 44) que, entre outras ponderações, diz: “Eles são frutos de longos caminhos e processos de ação, reflexão, conflitos e opções. Brotam do chão de comunidades de fé e carregam em seu bojo um de seus objetivos que é o de (a) firmar conteúdos catequéticos como instrumentos de construção de identidade e de divulgação daquela expressão religiosa”.

Sem perder o raciocínio de que cada texto interpreta o presente, relendo o passado, assim se expressa Pesavento (apud RICHTER REIMER, 2008, p. 44):

O texto [...] apoia, uma pretensão à verdade e refere-se a um passado real, mas toda a estratégia narrativa de reconfigurar essa temporalidade já transcorrida envolve representação e reconstrução [...]. O texto histórico se figura como um ter sido, mas de forma problemática, por não ser mais observável nem passível de re-experimentação, ele é apenas memorável. Dessa forma, ao atribuir títulos cristológicos a Jesus em Jo 9,7b-38, a comunidade evidencia, de um lado, o seu momento histórico de embate com o Judaísmo em Formação e, de outro, anima o seu presente reconfigurando-o e reconfortando-o por meio da lembrança desejada e positiva; justamente por isso, também forja, reconstrói e ressignifica a identidade da comunidade. A partir dessa configuração, se “representar é presentificar algo ou alguém” (RICHTER REIMER, 2008, p. 44)118, inclusive nos textos bíblicos, toda a carga representativa narrada na

perícope 9,7b-38 não vislumbra somente a esperança da comunidade no Cristo da fé (BULTMANN, 2004), mas também a “memória perigosa” de Jesus (METZ apud TEPEDINO, 2003, p. 180)119.

Aliás, não custa dizer que a reflexão sobre a memória tem se tornado um importante referencial de reconstrução da identidade e, portanto, não estaria exagerando ao asseverar que é também um marco imprescindível para a análise de textos bíblicos (representativos), mostrando-se uma grande conquista no processo exegético e hermenêutico120. Nota-se, então, que há estreita relação entre os

conceitos de identidade, memória e representação.

O Quarto Evangelho é a narrativa da memória de como a comunidade professou e protagonizou a fé em Jesus121; a mesma é cicatrizada pelos conflitos e

118 Essa mesma autora (2008, p. 44) elucida que, na ambiguidade do conceito, é importante frisar que

a representação não é nem cópia, nem imagem perfeita do real, mas uma construção realizada a partir dele, contendo em si um papel substitutivo.

119 Metz (apud TEPEDINO, 1993) foi quem criou o conceito de “perigosa memória”. Ele aponta

primeiramente para a memória passionis et ressurrectionis Jesu. Recorda sua entrega amorosa em favor de, e solidária com todas as vítimas do mundo, e nunca com os opressores. À memória Metz une narração e solidariedade. A memória passionis Jesu é perigosa porque desafia o presente. Como narração, comunica experiência e desperta para novas experiências. Ambas levam à solidariedade.

120 A partir do referencial da memória, podemos entender os evangelhos como uma organização

multiforme de memórias orais e escritas agregadas ou subtraídas a outras memórias num processo reconstrutivo de heranças pessoais e grupais, com objetivo de, entre outros, construir e/ ou garantir referência de identidade (RICHTER REIMER, 2006).

121 Comparando João a Mateus que insiste no anúncio do Reinado de Deus, Tuñí Vancells (apud

TEPEDINO, 1993, p. 103) diz: “O quarto evangelho não desvia a atenção da pessoa de Jesus, porque nele – muito mais que nos sinóticos e de modo distinto – o reino é Jesus. Nele Jesus não

cismas que exprimem diferentes momentos do seu caminho e da sua história. Isso possibilitou reler e reconstruir sempre as palavras de Jesus à luz do que estava vivendo122. A partir desse marco representativo, na perícope 9,7b-38 onde narra a

reconstrução de uma identidade ressignificada e protagonizada a partir de uma determinada identidade construída até o momento – era cego de nascença, pecador, impuro, excluído e mendigo – podemos nos questionar: porque esse texto se encontra somente no Quarto Evangelho? O que isso poderia representar? Qual o significado ou relação entre confessar Jesus como Messias e ser expulso? Confessar Jesus tornara, naquele momento, um perigo? Quais as consequências de fazê-lo?

Somos do parecer de que a fé professada da comunidade tem um efeito performativo, ao recordar a memória de Jesus a transforma em memória con- vocante e em memória pro-vocante. Portanto, a comunidade protagonista no itinerário do então cego se torna portadora da memória perigosa de Jesus de Nazaré e, sobretudo, o próprio texto se faz representação de um Cristo presente nas lutas, nas resistências e na ousadia criativa.

Assim sendo, na narrativa de Jo 9,7b-38, temos uma mediação narrativa, um conjunto representativo de uma comunidade ‘acuada’ que resulta de um processo hermenêutico: em um primeiro momento apresenta o encontro com a pessoa de Jesus (9,6-7), através dessa operação hermenêutica, viabiliza uma compreensão de Jesus (9,11.17.33.37.38), na qual estão interligadas tanto a história pré-pascal, quanto a pós-pascal (ONUKI apud TEPEDINO, 2007, p. 124). O objetivo dessa fusão de horizontes é unir os dois níveis (MARTYN, 1968): o da vida de Jesus de Nazaré (passado) e o da vida da comunidade (presente) que, por sua vez, possibilita um terceiro nível ou horizonte (tempo da redação do Quarto Evangelho: 95-110

prega o Reino, mas se prega a si mesmo; não o explica com parábolas, mas propõe alegorias sobre o mistério de sua própria pessoa; não fala de receber o reino, mas exorta a que se receba a ele mesmo; não se deve ir ao reino, mas sim ir a Jesus”.

122 Sobre as reelaborações, na nossa perícope 9,7b-38 por exemplo, segundo Vidal (1997, p. 333),

recebe o acréscimo de 9,4-5.7b.23.35-37.39b-41, introduzindo duas cenas e também novos temas com o escopo de reforçar temas já anunciados e possibilitando outras conexões. Em 9,4-5.39b temos acrescentados os temas da relação entre o Pai e a comunidade que realiza obras como o Pai o faz, resgata também o antigo e conhecido tema da luz do mundo; em 9,35-37.39b temos a atuação do Filho do Homem, conceito que “constitui o seu fundamento cristológico” (CULLMANN, 1970, p. 288), como aquele que abre um processo, faz um discernimento; por fim, em 9,4.7b é introduzido o tema do envio e em 9,23 é repetido o esclarecimento do motivo pelo qual os pais do ex-cego não professaram a fé em Jesus.

d.C.123. Essa elaboração hermenêutica é realizada para favorecer a compreensão e

profissão de fé em Jesus Cristo no tempo e no espaço de outras coordenadas históricas124. A cada fase da comunidade, a cada conflito que passou tem-se uma

percepção e configuração diferente em relação à pessoa de Jesus Cristo e, assim, a cristologia da comunidade se desenvolve justamente para responder a cada período, fase e conflito.

Neste conjunto, podemos dizer que Jesus é localizado no início da década de 30 de sua pátria judaica do século I, mas é também atualizado, por meio dessa operação hermenêutica representativa, para falar às novas situações e comunidades dos anos 70-110 ou, para nelas atuar pneumaticamente direta e imediatamente. Há uma articulação de Jesus-naquele-tempo e Jesus-agora da realidade da comunidade, sem nenhuma distinção de Jesus-disse-naquele-tempo, mas Jesus- tem-em-mira-agora (CROSSAN, 2004)125.

A partir do exposto, podemos citar um exemplo na perícope que é objeto (9,7b-38) de nossa pesquisa de como, – na pessoa de Jesus – se interpenetram o tempo pré e pós-pascal e, desse modo, Ele permanece vivo, presente e atuante na história da comunidade que O professa: os pais do cego são chamados pelas autoridades a reconhecê-lo (9,19). No entanto, respondem que as autoridades deviam perguntar ao próprio cego (9,20). A justificativa se encontra no texto (9,22): Seus pais assim disseram por medo dos judeus, pois estes já tinham antecipadamente combinado que, se alguém reconhecesse Jesus como Cristo, seria expulso da sinagoga. Este remonta à realidade atual da comunidade (anos 80-90). Contudo, ela o retroprojeta na vida de Jesus um problema pelo qual estava passando, ou seja, junta as etapas da vida de Jesus e da vida da comunidade e, portanto, as duas juntas formam a identidade de Jesus.

Todo texto, então, antes de ter sido escrito foi uma experiência. Ao ser redigido ele se codifica e se constitui como um todo ‘fechado’. Porém ao ser lido,

123 Uma narrativa é como se fosse um terceiro tempo que pode prefigurar imaginariamente algo do

passado, almejando ocupar o lugar deste passado, substituindo-o” (RICHTER REIMER, 2008, p. 82).

124 Em toda essa unidade frisamos sobremaneira, embora não fosse nosso tempo específico, que “o

sistema da ‘pax romana’ dominou sobre tudo e sobre todas as pessoas dos povos conquistados. E foi neste mundo de subjugação e dominação que ‘os cristianismos originários’ obtiveram as primeiras experiências de fé narradas no Novo Testamento” (RICHTER REIMER, 2006, p. 73).

125 Na perspectiva de nossa Tese, então, Jesus que confessa o Pai é condenado; no nível da releitura

esta ‘clausura’ se abre possibilitando novas interpretações, de tal modo que pode proporcionar uma produção inesgotável de sentido e uma recriação constante da mensagem. Há, portanto, “uma reserva de sentido sempre explorada e nunca esgotada” (CROATTO, 1985, p. 18.31)126. O Quarto Evangelho desafia os leitores de

todos os tempos. Os mesmos temas são retomados em vários níveis de reflexão, situados em vários horizontes: o da vida de Jesus, o da primeira pregação cristã, o das comunidades do fim do século I com seus respectivos conflitos e enfrentamentos. Desde modo, o Quarto Evangelho torna-se um exemplo daquilo que a tradição e a pregação cristã sempre deverão ser: uma contínua releitura (KONINGS, 2005), recordando, relendo, programando o que foi recordado, relido e experimentado.

Concluindo, no conjunto do Quarto Evangelho, consideramos Jo 9,7b-38 não uma crônica ou relato do que aconteceu, mas também não é, antes de tudo, “um escrito, mas uma proclamação oficial, uma mensagem gritada, transmitida ao homem ou ao povo que aguardam a libertação” (JOSAPHAT, 1966, p. 12). Justamente por isso, é um texto, uma representação, uma memória provocante, criativa e inteligente portadora de um grande poder simbólico capaz de desassossegar, mobilizar e levar à mudança de paradigma e tornar-se, inclusive, um símbolo de resistência e, portanto, modelo de fé professada e protagonizada.