• Aucun résultat trouvé

Analyse de pratique et pistes de prolongements

2. Terrain d’analyse : l’utilisation des comptines en petite section : la construction de

2.2. Instaurer le vivre-ensemble en petite section grâce aux comptines : deux séquences de

2.2.5. Analyse de pratique et pistes de prolongements

Um olhar retrospectivo sobre os vários estudos e posições acerca dos judeus no Quarto Evangelho faz realçar sempre mais a relação entre diacronia e sincronia ou, se se deseja, entre referente (denotação ou identidade: diacronia) e função (conotação: sincronia)138. A leitura sincrônica dos judeus no Quarto Evangelho (e,

portanto, da função deles na narrativa ou no drama) é o ponto de partida de muitos autores (NICKLAS, 2001; DIEFENBACH, 2002 apud MARCHESELLI, 2009, p. 402- 8) que se limitam a abordarem o tema em um único nível: delinear as características do personagem, no caso, os judeus, a partir dos textos. Outros, como Frey, Theobald (apud MARCHESELLI, 2009, p. 409-15) e Kierspel (2006) dizem que a operação hermenêutica deve necessariamente passar ao nível histórico (diacrônico), portanto, ao referente que está além do texto. Sobre essa segunda postura, Marcheselli (2009, p. 429), fazendo uma resenha crítica das atuais propostas é do seguinte parecer:

Aqui, porém o quadro se complica, porque as reconstruções não se coincidem e as possibilidades de verificação se reduzem drasticamente (por

137 Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se

alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

138 Já fizemos essa distinção: denotação de uma palavra (o indivíduo ou grupo ao qual se refere o

texto na realidade histórica) e a conotação (o uso que faz o autor desse conceito na sua estratégia narrativa).

exemplo, quanto ao real impacto da introdução do Fiscus Iudaicus sobre as relações entre judeus cristãos e judeus não cristãos na Ásia Menor).

Mesmo convictos dessa ‘complicação’, atualmente Devillers (2002) e Nicolaci (2007) tentaram a articulação do nexo entre sincronia e diacronia nos seus estudos. Ambos fazem uma abordagem aos aspectos sincrônico e literários das várias controvérsias e grandes discursos139 sem, conduto, negligenciarem o aspecto

diacrônico dos textos do Quarto Evangelho. Para esses autores seria impossível compreender o uso que se faz de os judeus no Quarto Evangelho sem um contexto determinado, ou seja, se deve procurar e pesquisar o rosto histórico de um judaísmo ‘preciso’ (digamos: em formação) que está por trás do uso dos judeus, do contrário, uma interpretação antijudaica do Quarto Evangelho se torna simplesmente inevitável.

Seguindo essa perspectiva que está em consonância com nossa opção, sobretudo, Devillers tende a propor a identificação do referente histórico do sintagma os judeus com os fariseus. Entendemos que, de fato, os fariseus podem ser identificados com os judeus, a partir dos anos 80 com o início do processo de reestruturação do Judaísmo em Formação, como já refletimos.

Citando, a título de exemplo, na perícope que é objeto de nosso estudo, temos em 9,22140, ao mencionar os pais do ex-cego, certamente judeus, se afirma

também que eles tinham medo dos judeus, ou seja, os investigadores do sinal, os fariseus141. A partir desse exemplo, fica claro que

não é simples coincidência que alguns entre os mais fortes e explícitos desses debates recorram durante ferozes confrontos com os judeus: o Evangelho há, entre outras coisas, a finalidade de confirmar aos seus leitores a posição contra o judaísmo ‘normativo’. (ASHTON, 2000, p. 151). Não teria outra explicação, por exemplo, pelo tom agressivo, polêmico e irônico que perpassa os discursos dos capítulos 5-10, senão à luz de um contexto de disputa entre comunidade sinagogal e comunidade cristã. Além disso, como temos

139 Basta ver o subtítulo que Nicolaci dá ao seu estudo: Egli diceva loro il Padre. I discorsi con i

Giudei a Gerusalemme in Giovanni 5-12.

140 Seus pais responderam dessa maneira porque estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam acordado que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

141 Os fariseus de 9,13-17 identificam-se com os judeus de 9,18-23, e continuam sem nenhuma

denominação no resto da cena (9,24-34; cf. 9,27: vô-lo disse, e 9,15), para reaparecer como fariseus (9,40) e serem designados de como ‘os judeus’ no final do discurso (10,19: a nova divisão que surge identifica-os claramente com os fariseus de 9,16). São ‘os judeus’ (9,22) ou os fariseus (12,42) os que podem expulsar da sinagoga (MATEOS; BARRETO, 2005, p. 147). Ashton (2000, p. 158) citando Bornhäuser afirma que em 1928, esse autor valente, não fora dos trilhos, já asseverara que os fariseus são “os fanáticos da Torah”.

insistido, trata-se de uma disputa feita na varanda da mesma casa, onde até os meados dos anos 80-90 d.C. todos tinham-na como casa própria e comum. É nesse transfundo cultural e religioso que se entende que o termo judeus indica um grupo estritamente religioso e definido, caracterizado pela sua hostilidade ao Jesus da memória da comunidade e aos seus seguidores142, como se nota lucidamente no

capítulo 9.

Nesse momento histórico, após a destruição de Jerusalém e do Templo, o partido que tira proveito e ganha chão é o grupo dos fariseus que assumirá gradualmente o poder; justamente por isso, essa corporação, não perderia, sem dúvida nenhuma, o ensejo de expulsar da comunidade sinagogal, como é feito ao ex-cego ou, à comunidade que agora fala, sabe se explicar, tem identidade e vê criticamente os abusos. Os fariseus são os contemporâneos da comunidade cristã desenhada pelo Quarto Evangelho, ou seja:

Os que não aceitam Jesus, os judeus de seu tempo, herdeiros do farisaísmo que se impôs depois da queda de Jerusalém, quando se reuniam em Jâmnia. Os judeus representam, portanto, também a sinagoga judaica que sucedeu ao grupo do Templo. É aqui que se pode compreender a importância do momento histórico em que foi escrito o evangelho. (ALMEIDA, 2008, p. 228).

Nessa tentativa não absoluta, mas permanecendo sempre uma humilde hipótese de que os judeus do Quarto Evangelho são identificados e coincidem com os fariseus mostra, além de outras coisas que, era um grupo com uma particular tradição religiosa, distinta de todas as outras, ou seja, que consegue sobreviver e se impor depois de Jâmnia. Nota-se que há um muro, uma marca de distância cristã frente a esse mesmo judaísmo, representado pelos fariseus e que o Quarto Evangelho os nomina de os judeus. Mais do que essa distância, temos sobretudo uma hostilidade declarada e oficializada em Jâmnia como ponto alto de uma decisão de excluir e expulsar não somente os cristãos, mas todos os tidos como hereges.

Nesse sentido, portanto, somos do parecer que Jo 9 é uma resposta a essa expulsão vivenciada concretamente pelos membros da comunidade cristã, representada no ex-cego que, não somente acredita em Jesus como o Messias, mas também e, sobretudo, professa publicamente essa fé. Sendo assim, somente se compreende a função e também a identidade dos judeus no Quarto Evangelho, a

142 Nas palavras de Casalegno (2009, p. 163.294): “o debate contra o judaísmo incrédulo” e “a dureza

partir de um “contexto estritamente de separação entre comunidade sinagogal e comunidade cristã” (BEUTLER, 2006, p. 69)143.

Um pouco mais e sem perder a lógica interna de nosso escrito, também dissemos, fundamentando e fazendo uso de citações do próprio Quarto Evangelho que a hostilidade por parte dos judeus nasce sobremaneira contra os seguidores de Jesus a partir do momento em que eles reivindicam com precisão e sem ambiguidade um status divino a Jesus; quisemos também entender que se trata de disputas familiares: um grupo de judeus que resolvera acompanhar Jesus e, portanto, debate, briga e disputa com outros judeus que não aceitam Jesus, mas expulsam os que aceitam-No144. É o caso, por exemplo, do ex-cego do capítulo 9

que gradualmente chega

à maturidade da fé ao ponto máximo de prostrar-se em adoração, passando por todas as intempéries do caminho, crendo e professando publicamente em um contexto conflitivo, Jesus como o Messias: um homem que se chama Jesus (9,11), um profeta (9,17), um que vem da parte de Deus-Pai (9,33) e, finalmente, o Filho do Homem (9,35-38). (PIRES, 2014, p. 97). O caminho feito nesse I capítulo dará base e sustentação para que prossigamos os outros capítulos: dar-se conta de qual contexto social, político, econômico e religioso em que nasceu o Quarto Evangelho é, hoje, imprescindível para se fazer uma análise e hermenêutica situada e, que, o texto literário é um produto que reflete, expressa e também responde à realidade concreta. O texto literário do Evangelho expressa uma realidade epocal antes, durante (anos 80-100) e depois de sua redação final: os grupos que se identificam, os grupos opositores que tentam se afirmar, os conflitos; e, nesse contexto múltiplo, qual o grupo que se autoafirma e forja sua identidade e também possibilita que outro (s) o faça (m) na medida em que há uma separação de horizontes e interesses? De fato, o contexto sociocultural145 que reflete e transparece o texto se tornou, para exegese

contemporânea, fator fundamental que inspira novos horizontes e estradas então

143 Sobre a questão da separação, ruptura e excomunhão teremos, no capítulo terceiro, ensejo de

debater o status quaestionis para que cheguemos a ter uma visão clara e profunda.

144 A questão dos judeus e de Jesus contra os judeus “é uma questão intrarreligiosa, de uma igreja

particular – a joanina –, bem circunstanciada no espaço e no tempo. Não se trata, pois, de um anticristianismo de todos os judeus nem de um antijudaísmo de Jesus contra todos os judeus” (NEVES, 2004, p. 181-2).

145 No caso do Quarto Evangelho há uma mudança substancial, até mesmo porque, era visto,

geralmente, como um texto que contribuía apenas teologicamente, dependendo sua história dos Evangelhos sinóticos. Atualmente, contudo, há também um resgate importante de sua credibilidade histórica e, portanto, do Jesus histórico, tornando-se assim, uma evolução da compreensão (e aqui inclui histórica) teológica do cristianismo da primeira hora que transparece nos textos.

desconhecidas. Esse enfoque possibilita também um diálogo e, sobretudo, o uso metodológico das ciências sociais que, por sua vez, são instrumentos que completam e ampliam as análises dos textos.

Nosso escopo no capítulo que segue será mostrar como Jo 9,7b-38 é uma estratégia ou resposta literária de uma situação concreta vivida dura e heroicamente pela comunidade. O capítulo 9 não é simplesmente um gênero literário, mas a comunidade no livro, no texto, expressão de uma resposta de um grupo oprimido e excluído da comunidade sinagogal com todas às consequências que isso implicava. A presença da comunidade do Quarto Evangelho, certamente, se tornara para a comunidade sinagogal uma ameaça e, portanto, o conflito se dá justamente porque passa a ser concorrente não autorizada sociologicamente146 a um poder

sóciorreligioso de interesses próprios que, até então, estava nas mãos do Judaísmo em Formação.

146 Na ótica do poder simbólico que reflete Bourdieu (1989, p. 290-1), podemos dizer que, tanto

Jesus, como o ex-cego são, na verdade, leigos, uma vez que não são autorizados para curar, ensinar. Poderíamos dizer que também os fariseus não o são teologicamente, porque não descendem de nenhuma estirpe sacerdotal, no entanto, o são sociologicamente. Na definição de Bourdieu, existe uma institucionalização de espaços de luta por poder simbólico que disputa a sua participação na hierarquia do poder, nos critérios de atribuição de valor e autorizações de participações. Na perícope de Jo 9,7b-38, o ex-cego, falando em nome da comunidade, quer levar avante o protagonismo profético de Jesus, partilhando e assumindo uma função profética no exercício do poder simbólico. Nesse sentido, nota-se que a ousadia de um leigo, de um profeta não autorizado, de um subalterno, cego, mendigo e excluído, torna-se uma revolução e sonhos de muitos e, portanto, também uma afronta (PIRES, 2014, p. 91-103).