A resiliência encontra-se na área do desenvolvimento humano, e a partir de seu conceito, alguns enfoques e descobertas foram obtidos: 1) A resiliência está relacionada ao desenvolvimento e ao crescimento humanos, às diferenças etárias e de gênero; 2. Promover fatores de resiliência e ter condutas resilientes demandam estratégias distintas; 3. A resiliência não está relacionada ao nível socioeconômico; 4. A resiliência é diferente dos fatores de risco e de proteção; 5. A resiliência pode ser mensurada, e participa da saúde mental e da qualidade de vida; 6. Quando os adultos valorizam novas e efetivas ideias para o desenvolvimento humano, as diferenças culturais diminuem; 7. Alguns conceitos como prevenção e promoção são ligados à resiliência e; 8. A resiliência é um processo que envolve fatores de resiliência, comportamentos resilientes, e resultados resilientes (GROTBERG, 2005).
A resiliência é frequentemente vista como uma qualidade interna capacitadora, que mantém a resistência contra o desânimo, diante dos desafios do meio, todavia, a resiliência trata-se de algo altamente diferenciado, que influencia e é influenciado por aspectos internos, externos, e pela interação entre ambos (RALHA-SIMÕES, 2017).
Para a resiliência ser ativada, é importante proporcionar certas condições aos indivíduos, certificando-se de que elas são as mais adequadas frente a este objetivo. Para isso, mais do que privilegiar a imprevisível equivalência da intervenção propiciada, é imprescindível assegurar que a estimulação oferecida seja equacionada por cada um dos sujeitos, de forma passível de ser integrada na sua estrutura pessoal (RALHA-SIMÕES, 2002).
A resiliência se refere a um processo que ocorre frente a fatores externos agressivos, mas que é experienciado por cada ser humano em um determinado tempo, lugar, e forma, com base em sua história de vida, e de outros protagonistas presentes e potencialmente envolvidos nela, com diferentes graus de protagonismo diante dos acontecimentos (RALHA- SIMÕES, 2017).
Os fatores ou mecanismos de risco são os acontecimentos adversos da vida, entendidos como obstáculos individuais ou ambientais que elevariam a predisposição individual, ao potencializar os efeitos de um evento estressor, como por exemplo, uma saúde frágil. Podem ser também de natureza psicossocial ou sociocultural, que desencadeiam perturbações psicológicas, respostas mal-adaptativas e, como consequência, resultados negativos para o desenvolvimento do indivíduo (SIMÃO; SALDANHA, 2012).
Entre os fatores de risco encontram-se numerosas circunstâncias adversas, tais como a escolaridade insuficiente ou baixo nível de rendimentos, desemprego, carências habitacionais derivadas da sobrelotação, localização, ausência de infraestruturas básicas, e todo tipo de eventos negativos que tendem apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais (RALHA-SIMÕES, 2017).
Quando os fatores de risco se antepõem aos de proteção, seja em quantidade ou em intensidade, ainda que os indivíduos tenham evidenciado uma elevada resiliência no passado, eles poderão, mesmo assim, mostrar-se afetados física ou psicologicamente, o que pode gerar sintomas patológicos (RALHA-SIMÕES, 2017).
O termo “adversidade”, que também é usado como sinônimo de risco pode designar uma série de fatores de risco, como viver na pobreza, ou mesmo uma situação de vida específica, como o enfrentamento da morte de um familiar (INFANTE, 2005).
Os fatores de risco, manifestos em termos de prejuízos, podem criar no indivíduo uma espécie de escudo. As pessoas resilientes convertem os fatores de risco em desafios, que são confrontados e, objetivamente, superados (SIMÃO; SALDANHA, 2012).
O risco pode ser expresso de duas maneiras: como uma probabilidade estatística relacionada à verdadeira concretização dos efeitos negativos ocorridos face ao que era previsto sobrevir, ou, como um infortúnio inesperado impossível de ser antecipado ou controlado pela pessoa sujeita a ele (RALHA-SIMÕES, 2017).
A resiliência não consiste na evitação de situações de risco, nem nas características saudáveis, ou boas experiências apresentadas pelo indivíduo. Os fatores de risco operam de modos diversificados e também evoluem de formas diferenciadas nos períodos de desenvolvimento psicológico. É necessário focalizar os mecanismos de risco, e não só nos fatores que lhe estão subjacentes, além de nunca considerá-los como algo estático e absoluto, pois é fato que aquilo que, numa situação específica pode ser constituído como um risco, numa outra, vir a assumir-se como proteção (RALHA-SIMÕES, 2017).
Aceitar a vulnerabilidade, ao invés de ocultá-la, é uma ótima forma de se adaptar à realidade. Quando o sujeito passa a vida fingindo ser imune às mágoas, ou afirma ser
limitado a magoar-se a um conjunto limitado de perdas, ele está se auto subestimando, e declarando que não se importa consigo mesmo, com o seu mundo, ou com as pessoas ao seu redor (VISCOTT, 1976).
A vulnerabilidade não parece estar somente ligada à situação de risco, pois depende igualmente dos fatores de proteção disponíveis. Assim, para estabelecer se um sujeito é vulnerável ou não, é necessário conhecer as suas particularidades, o ambiente que o cerca, e os fatores de risco e de proteção presentes naquele dado momento (RALHA- SIMÕES, 2017).
Um trauma pode marcar o desenvolvimento de uma pessoa por toda a sua vida, e mesmo assim, não levá-la obrigatoriamente à neurose. Isso não evita que a agressão vivida continue sendo a sua referência particular, governando secretamente as suas escolhas (CYRULNIK, 2004).
Os fatores de proteção apresentam características potenciais para a promoção da resiliência, e podem minimizar os efeitos negativos ou disfuncionais do risco, além da probabilidade de modificar, melhorar ou alterar a resposta pessoal a um perigo ambiental. O apoio da família, uma rede de apoio dos amigos e da comunidade, são alguns exemplos de fatores de proteção. Estes fatores de proteção não eliminam necessariamente os riscos, mas motivam o sujeito a superá-los, atuando como mediadores e protetores da adversidade (SIMÃO; SALDANHA, 2012).
De acordo com Ralha-Simões (2017) os fatores de proteção são instituídos no âmbito dos atributos particulares do próprio sujeito, como a manutenção de expectativas positivas, a habilidade de se projetar no futuro, a sustentação do humor, do otimismo, da autonomia, da autoestima, além da estabilidade emocional, a capacidade de compromisso e de delineamento de objetivos perduráveis, sendo também decorrentes da coesão do seu enquadramento familiar, ou seja, da qualidade das relações interpessoais, da estabilidade, de uma parentalidade competente, da consistência de atitudes ou capacidades de comunicação adequadas. Os fatores de proteção também são constituídos ligados à rede de apoio social do indivíduo, que fundamenta a composição de suas crenças sólidas e coerentes, como por exemplo, instituições sociais como a escola, a igreja e outros enquadramentos comunitários ou laborais, que propagam valores como a tolerância, a aceitação e a responsabilidade (RALHA-SIMÕES, 2017).
O conceito de resiliência é construído sócio historicamente, repleto de valores e significados próprios da cultura em que ele está presente. Fatores de risco e de proteção são diferenciados de acordo com a população e suas origens. Sendo assim, o significado de
resiliência, e destes fatores, pode ser diferente para populações distintas, da mesma forma que as pesquisas descrevem os problemas específicos enfrentados por cada país e/ou região em particular (SOUZA; CERVENY, 2006).