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O estudo da dança como forma de conhecimento é composto pela junção das áreas da Arte e Educação Física (FERREIRA, 2005). Dentro da Educação Física, há muitas semelhanças entre o esporte e a dança, visto que ambos podem ser trabalhados com objetivos de desempenho, ou de participação, e nos últimos anos, como uma alternativa de prática de atividade física para pessoas com deficiência. Nisto, partindo da aproximação existente entre eles, é possível realizar uma reflexão sobre a “superação”.

O esporte é um fenômeno que apresenta características que variam e derivam da complexidade do indivíduo praticante, pois o próprio constrói e é construído por essa relação, uma vez que o indivíduo interfere na formação e execução da prática esportiva, enquanto esta influencia a formação do sujeito (através da transmissão de valores morais, possibilidades de relacionamentos, e até de adaptações físicas). Portanto, o esporte é um fenômeno sociocultural que transmite valores de acordo com o sentido dado à prática, exercendo influência sobre os hábitos e comportamentos da sociedade (MARQUES et al., 2007).

Marques e colaboradores (2007) afirmam que as atividades (em geral) são direcionadas pelos indivíduos participantes, que dão diferentes sentidos às ações de acordo com seu papel social, intenções, expectativas e conhecimentos. Diante disto, partir-se-á do princípio de que assim como o esporte, a dança pode ter um sentido, um significado de superação para os seus praticantes, um importante valor moral, que precisa ser estudado.

O esporte surge como um espírito de superação de limites, e revela a sua importância como agente socializador, como um ideal positivo para a formação das pessoas, ao estimular a contínua superação dos atletas (SILVA; RUBIO, 2003).

O espírito de superação (assim referido por Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos), é um importante valor moral do esporte, um dos mais preciosos, mesmo com as inúmeras transformações ocorridas ao longo do último século no ambiente esportivo, com o qual (após descoberto) os atletas convivem diariamente (SILVA; RUBIO, 2003).

A superação consiste na manutenção do desejo, na esperança de sua realização, e na ação para a sua viabilização: este conjunto de atitudes conduzirá o atleta a superar-se, cumprindo a função social de elemento de projeção daqueles que buscam alcançar este tipo de sonho (SILVA; RUBIO, 2003).

Embora a superação seja um assunto presente no meio esportivo, poucos pesquisadores têm se dedicado a discuti-lo na sua especificidade (SILVA; RUBIO, 2003). E o mesmo ocorre na dança.

Com o intuito de aumentar a participação e o acesso à formação, e promover a dança como uma atividade viável para pessoas com deficiência, é importante compreender quais barreiras estes indivíduos enfrentam na dança (AUJLA; REDDING, 2013).

A dança pode ser uma atividade desafiadora e gratificante, e uma carreira viável para as pessoas com deficiência, mas os jovens com deficiência que desejam isso enfrentam diversas barreiras estéticas, atitudinais, de treinamento, logísticas, bem como a falta de conhecimento, ou informações sobre o assunto (AUJLA; REDDING, 2013).

Uma pessoa com deficiência que realiza movimentos e comportamentos contrários às expectativas normativas, causa estranheza e admiração. Esta forma de conceber a diferença e a deficiência é, no mínimo, restritiva da capacidade/habilidade destes sujeitos enquanto membros da espécie humana. Por isso, muitas vezes, jogos paralímpicos ou espetáculos de dança com usuários de cadeira de rodas são assistidos com espanto, por exemplo (MAGALHÃES; CARDOSO, 2010).

Um dos meios mais eficazes de superação de barreiras à formação em dança parece ser o estabelecimento de redes locais e nacionais no setor da dança integrada14, a fim de construir percursos de progressão, aumentar a visibilidade da dança integrada, indicar pessoas para estas atividades, e fornecer oportunidades de enriquecimento, tais como observação e orientação. Quanto mais a comunicação é facilitada entre os fornecedores,

14Denominação da dança para pessoas com deficiência, que corresponde ao conceito de “Dança Inclusiva” no

maiores serão as chances de as pessoas com deficiência serem incentivadas a se envolverem com a dança em uma escala de níveis, seja para diversão ou desenvolvimento de talentos (AUJLA; REDDING, 2013).

Toda prática esportiva presume certa dose de superação de obstáculos, que é responsável por uma parte da sua emoção e de seu atrativo. Para a pessoa com deficiência, a superação pode ser, ou pelo menos parece ser, maior do que para os outros sujeitos. Nisto, a sua importância enquanto elemento subjetivo componente da vida emocional pode ter uma dimensão distinta (GUTIERREZ; ALMEIDA; MARQUES, 2011).

Superar limites gera transformação, seja ela física, psicológica, ou social. A dança pertence ao fluxo da semiose, e somente uma teoria que abranja a transformação como atributo natural aos processos vivos, e que não a trate como exceção, não se afastará excessivamente do seu caráter (KATZ, 2005).

Identidade é metamorfose (CIAMPA, 1989). E a metamorfose pode acontecer como superação, na medida em que o sujeito é capaz de se emancipar (PACHECO; CIAMPA, 2006). Neste sentido é primordial estudar a identidade com o propósito de compreendermos como a dança pode influenciar o desenvolvimento da superação de pessoas com e sem deficiência.

7 MÉTODO

A partir da literatura, buscou-se aprofundar alguns aspectos referentes à dança, como atividade influenciada e influenciadora do contexto social, como forma de linguagem, e como prática de atividade física para pessoas com deficiência. Uma exposição sobre o fenômeno resiliência foi realizada, com o propósito de compreender o seu conceito, suas principais aplicações, seu desenvolvimento, como também suas formas de avaliação. Em seguida, o tema identidade foi enfatizado para esclarecimento de sua definição e entendimento da experiência da superação. Uma aproximação entre o esporte e a dança também obteve destaque, visto que ambos são vinculados a um espírito de superação, e também, indispensáveis conteúdos da Educação Física, que apresentam diversas semelhanças entre si.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas, obtendo parecer número 1072928. Como método de pesquisa, foram selecionados três tipos de técnicas de coleta de dados: a observação participante, o questionário e a escala de resiliência.

O termo “observação participante” contempla a combinação do papel do pesquisador (participante de algum modo) com uma técnica real de coleta de dados (observação) (ANGROSINO, 2009). É uma técnica por meio da qual se chega ao conhecimento de uma situação, ou da vida de um grupo ou comunidade específica a partir do interior dele mesmo. Apresenta duas formas: (a) natural, quando o observador pertence à mesma comunidade do grupo investigado e, (b) artificial, quando o observador se integra ao grupo para fazer uma investigação (GIL, 2008).

O pesquisador pode acrescentar simultaneamente a esta técnica, outros tipos de coleta de dados, como levantamentos estatísticos, pesquisas em arquivo e entrevistas, por exemplo (ANGROSINO, 2009).

Os dados são coletados sob dois títulos: primeiro, a identificação das relações existentes naquele contexto social e, segundo, a descrição dos eventos e situações que ocorreram. A observação e as anotações realizadas sob estes títulos, em conjunto com outros dados relevantes das entrevistas, fornecem uma rica compreensão dos eventos, processos e relações sociais. Quanto mais variadas as cenas de interação que são observadas, e as circunstâncias experienciadas, maior será o entendimento sobre as ações nos contextos sociais (MAY, 2004).

De acordo com Spradley (1980) as situações podem ser descritas com base na observação de 9 dimensões: 1. Espaço: o local, ou os locais físicos; 2. Ator: as pessoas

envolvidas; 3. Atividade: um conjunto de atos relacionados realizados pelas pessoas; 4. Objeto: as coisas físicas que estão presentes; 5. Ato: Ações individuais realizadas pelas pessoas; 6. Evento: um conjunto de atividades relacionadas executadas pelas pessoas; 7. Tempo: o sequenciamento que acontece ao longo do tempo; 8. Objetivo: as coisas que as pessoas tentam alcançar e; 9. Sentimentos: as emoções sentidas e manifestadas.

Como não é possível observar todos os fenômenos, entrevistas são integradas, permitindo a reconstrução dos processos biográficos ou de reservas de conhecimento que são a base inicial das práticas que podem ser observadas. Neste sentido, o conhecimento do pesquisador na observação participante consiste apenas, parcialmente, na observação das ações, uma vez que grande parte deste conhecimento está embasado nos relatos verbais dos participantes referentes à certas relações e fatos (FLICK, 2004). Por outro lado, a importância desta técnica reside no fato de possibilitar a captação de diversas situações ou fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas, mas que, se observados diretamente na própria realidade, transmitem o que há de mais imponderável e evasivo na vida real (CRUZ NETO, 2001). A flexibilidade e a apropriabilidade metodológicas ao objeto em estudo são as principais vantagens desta técnica (FLICK, 2004).

O questionário é um instrumento de coleta de dados composto por várias perguntas ordenadas, que devem ser respondidas por escrito, e sem, necessariamente, a presença do entrevistador. Comumente, o pesquisador envia o questionário ao informante via correio ou por um portador. Depois de respondido, o questionário é devolvido do mesmo modo (MARCONI; LAKATOS, 2008).

O questionário deve ser acompanhado por uma nota ou carta que explique a natureza da pesquisa, seu valor, e a necessidade de obter respostas, objetivando despertar o interesse do informante para o seu preenchimento e devolução dentro de um prazo razoável (MARCONI; LAKATOS, 2008).

Neste estudo, o questionário foi composto por perguntas abertas, também denominadas livres ou não limitadas, que possibilitam o informante responder com sua própria linguagem, e emitir opiniões (MARCONI; LAKATOS, 2008). Foram elaboradas 8 questões, subdividas em 3 blocos: (1) Dança – Expressão Corporal, (2) Resiliência e (3) Identidade.

A escala de resiliência desenvolvida por Wagnild e Young15, e validada por Pesce e colaboradores (2005) é usada para medir níveis de adaptação psicossocial positiva diante de

15Para informações sobre a elaboração da escala, consultar WAGNILD, G. M; YOUNG, H. M. Development and

eventos de vida importantes. É composta por 25 itens descritos de forma positiva com resposta tipo likert variando de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente). Os escores oscilam de 25 a 175 pontos, sendo que os mais altos valores indicam maior resiliência. A escala identifica 5 componentes como fatores para resiliência: serenidade, perseverança, autoconfiança, sentido de vida e autossuficiência, itens geralmente aceitos pelas definições de resiliência.

Os itens da escala estão agrupados em três fatores: Fator I (Resoluções de ações e valores), que comporta itens que apontam resoluções de ações (levar os planos até o fim; lidar com problemas de alguma maneira; aceitar os fatos sem muita preocupação; ser disciplinado; fazer as coisas um dia de cada vez; ser uma pessoa com quem se pode contar em uma emergência; frequentemente encarar uma situação de diversas formas; normalmente encontrar uma saída quando está em uma situação difícil; ter energia suficiente para fazer o que deve ser feito) e valores (sentir orgulho de ter cumprido metas; ser amigo de si mesmo; frequentemente encontrar motivos para rir; perceber sentido em sua vida e considerar o apoio dos valores que dão sentido à vida, como a amizade, a realização pessoal, a satisfação e o significado da vida); Fator II (Independência e determinação), composto por itens que transmitem manutenção de interesse pelas coisas, poder estar por sua própria conta, sentir-se bem ainda que haja pessoas que não gostam dele e ser determinado; e Fator III (Autoconfiança e capacidade de adaptação a situações), contendo itens que contemplam capacidades como depender de si mais do que de qualquer outra pessoa, sentir que pode lidar com várias situações ao mesmo tempo, e que consegue enfrentar tempos difíceis pois anteriormente já experimentou dificuldades, crer em si mesmo sentindo-se apto a atravessar tempos difíceis, não insistir em situações sobre as quais não pode interferir. Estes fatores descrevem atributos que auxiliam no enfrentamento dos problemas da vida, incluindo competência nas relações sociais, a capacidade de resolução de problemas, a conquista de autonomia e o sentido para a vida e o futuro (GODOY et al., 2010).

Para o recrutamento dos sujeitos da pesquisa, os critérios de inclusão foram: (a) não ter deficiência ou apresentar a condição de deficiência física/motora, (b) praticar dança, (c) ter 18 ou mais anos de idade. Os critérios de exclusão foram: ter outros tipos de deficiência, não praticar dança, ser menor de 18 anos de idade.

Foi requisitada a assinatura dos participantes no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), autorizando o uso dos dados coletados para fins acadêmicos.

A coleta de dados foi realizada com 47 pessoas com deficiência (PCD), 27 pessoas sem deficiência (PSD), e 22 pessoas sem deficiência que dançam com pessoas com deficiência (PSD.D.PCD), por conveniência, totalizando 96 bailarinos, nas instituições, escolas, ou estúdios de dança que são frequentados pelos sujeitos da pesquisa pelo período de 7 meses. A divisão destes três grupos foi estabelecida a fim de verificar como a dança exerce o seu papel em pessoas com condições distintas.

Na análise de dados, foi considerada tanto a individualidade, quanto os grupos (PCD, PSD, PCD.D.PSD), com o propósito de descrever as diferenças e semelhanças entre eles. O referencial teórico utilizado para a interpretação dos dados coletados foi embasado nas obras de Le Breton, referentes ao corpo e suas manifestações.

8 RESULTADOS