Centre de l’étang
2.4 Que retenir de ce chapitre ?
A organização espacial, depois de ter sido considerada como categoria apriorística e inata no Homem por Emmanuel Kant, tem sido objecto de abundante investigação. Do ponto de vista da sua génese, embora este autor tenha formulado a hipótese de um espaço ‘‘inato’’, existe no entanto maior consenso sobre o carácter ‘‘adquirido’’ da noção de espaço. Existem porém várias investigações que levantam polémica, como é o caso de Aronson e Rosennblom (1971), no qual assinalam que um bebé de trina dias manifesta o seu desagrado quando reconhece uma dissociação entre a face da mãe e o lugar donde provém a sua voz, o que leva os autores a concluir que existe um espaço, unificado, intermodal, precoce e independente da criança.
Goody (1972 cit. por Rodrigues, 1998), afirma que ‘‘a orientação é um processo pelo qual o Homem e outros animais colocam-se correctamente no espaço e no tempo, construindo um esquema pessoal do mundo’’, associando assim as categorias de espaço e tempo como categorias indissociáveis da orientação. Embora esta junção das noções de espaço e de tempo constitua uma entidade única – organização espácio-temporal -, ambas as categorias são muitas vezes tratadas como entidades distintas, no entanto é difícil encontrar uma separação nítida. Porém, felizmente é possível constatar uma coerência no meio de todo este processo: o corpo está intimamente ligado ao espaço, pois é nele que estamos, somos e fazemos. Sendo assim, visto haver uma ligação directa entre o corpo e o espaço, podemos então começar por nos questionar sobre a origem da organização espacial em função do esquema corporal. Este campo não é excepção à regra, e tal como outras áreas relativas à filosofia e especulação, este é um assunto multidisciplinar, pelo que acompanharemos algumas das contribuições da psicologia genética (1), da psicologia experimental (2), até à contribuição de fenomenologia (3). Embora haja o contributo das diferentes disciplinas, o interesse informativo é o mesmo: averiguar e estudar a noção de Organização Espacial.
Segundo Rodrigues (1998), relativamente à psicologia genética (1), será a organização espacial precedente do EC? Ou terá uma estruturação recíproca? Na perspectiva da génese do conhecimento do corpo e do espaço, há três teorias correntes sobre este assunto: A que atribui prioridade à
construção do EC; a que defende a precedência da organização espacial; a
que sustenta a estruturação recíproca dos conhecimentos do corpo e do espaço.
Segundo Seagrin (1964), a primeira teoria apresenta um modelo de desenvolvimento da noção de espaço cuja primeira fase se situa no corpo e as restantes no mundo exterior. Este autor defende a perspectiva que estes sistemas de coordenadas espaciais se apresentam segundo um escalonamento de dificuldade e que a criança os adquire pela ordem, abaixo apresentada:
- Domínio das coordenadas espaciais dos indivíduos em relação com as suas coordenadas corporais: direita e esquerda, cabeça e pés, frente e trás;
- Orientação de objectos apresentando características espaciais: alto, baixo, etc;
- Espaço local dentro de limites psicologicamente determinados: perto, longe, etc.
- Espaço geográfico com coordenadas convencionais: norte, sul, etc.; - Espaço cosmológico compreendendo as relações dos planetas e seus sóis, etc…
Por sua vez, Liliane Lurçat (1956), considera que a representação do espaço na criança se constrói com base nos objectos fixos tomados como referência e que, provavelmente, esta representação é anterior à constituição de um EC autonomizado do próprio organismo. Para esta autora, a linguagem e consequente formação de conceitos permite que os objectos adquiram para a criança uma individualidade própria, ao serem percebidos como entidades distintas do seu corpo. Isto é, existe uma precedência na construção da organização espacial relativamente ao esquema corporal.
Para outros autores, designadamente Piaget, a organização do EC e da representação do espaço desenvolvem-se em paralelo, influenciando-se mutuamente. Piaget (1976), afirma que se a somatognosia comporta um conjunto de dados perceptivos, em particular proprioceptivos, pressupõe principalmente um quadro espacial integrando num todo funcional as nossas percepções, as nossas posturas e os nossos gestos.
Relativamente à contribuição da Psicologia Experimental (2), embora não haja muitos trabalhos relativos ao EC, há contribuições significativas para o estudo das relações entre o corpo e o espaço. Vários autores como Wapner e Werner (1956); Fisher e Cleveland (1968), indicaram que as modificações experimentais provocadas nas relações do indivíduo/ esquema corporal, e do meio/ organização espacial, afectam de maneira decisiva o seu comportamento a nível perceptivo e a nível cognitivo. O EC proporciona informação relativa às características espaciais e geométricas: o corpo e a sua relação com os objectos no espaço informação extracorporal. Quando algumas destas componentes, corpo, ou envolvimento, sofrem alteração, originam uma discrepância que, quebrando a coerência perceptiva e cognitiva, obriga ao esforço de uma adaptação na qual o movimento activo parece ter um papel primordial.
Para terminar convém resumir um pouco da contribuição da Fenomenologia (3). Esta ciência situa-se na existência, através da compreensão do Homem baseada na sua ‘‘factualidade’’, isto é, dos fenómenos que está envolvido. Segundo esta ciência, a espacialidade do corpo não é pois exclusivamente objectiva, não se reduz a uma referência sobre a posição dos objectos e de coordenadas exteriores, mas é como que um absoluto que exprime a nossa orientação nas transacções com o mundo e, como tal, aquilo que dá sentido ao espaço externo. O corpo é portanto o mediador entre mim e o mundo em que vem situar-se toda a experiencia, portanto, em certo sentido, esse campo primordial é a origem do espaço objectivo, a génese de toda a dimensão e de toda a orientação (Bernard, 1972)
Em síntese, a breve revista de literatura apresentada demonstra uma existência de um reconhecimento generalizado sobre a importância do corpo como estrutura de referência para o espaço. Demonstra igualmente que a investigação sobre a organização espacial não tem sido abundante. Ainda que questionada, a nível teórico, parece poder concluir-se que a organização espacial se desenvolve e existe em função de uma referência permanente que é representada pelo esquema do nosso corpo. Demonstra também que a investigação sobre as relações do esquema corporal e da organização espacial, embora questionadas, não têm sido abundantes. Acima de tudo parece poder concluir-se que a organização espacial se desenvolve e existe em função de uma referência permanente que é representada pelo esquema do nosso corpo. O desenvolvimento do conhecimento do corpo parece permitir projectar no envolvimento algumas orientações básicas: direita, esquerda, cima, baixo, frente, trás, que parecem ser as linhas mestras, em traços gerais, capazes de antever o espaço como estrutura operativa. É também nesta perspectiva que Sami Ali (1982) relata as relações entre o corpo, o espaço e o tempo, concluindo que o corpo é um esquema de representação que constitui o termo médio entre o tempo e o espaço.
Outro aspecto igualmente importante é o facto de, a acção e o movimento activo e voluntário, parecem desempenhar o desenvolvimento destas noções. Nesta concepção, o corpo e o espaço assimilam-se a duas agulhas magnéticas, de tamanhos diferentes mas concêntricas, cujo objectivo é
a procura comum de um desenvolvimento do ‘‘eu’’. Este ‘‘eu’’ anteriormente referido, parece advir de um desenvolvimento psicomotor desde as primeiras idades e apresenta-se assim como sendo o modelo desencadeador da consciência de uma estrutura independente. Ou seja, este paralelismo, existente na primeira infância, apresenta indícios que se podem prolongar posteriormente. Muitas das suas funções começam por estar juntas e indissociáveis, mas vão-se progressivamente autonomizar e adquirindo dinâmicas próprias.
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