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A costa da Península Soteropolitana, margeada pelas águas do Oceano Atlântico aberto e da Baía de Todos os Santos, sofreu as interferências antrópicas iniciais como fruto de ocupações indígenas, das quais restaram poucas marcas. (Souza, 1587) (Salvador, 1627) (Calderón, 1964) (Delson e Dickenson, 1984) (Silva, 2000) (Amâncio e Dominguez, 2002) A primeira era de modificações mais expressivas deu-se após a chegada do colonizador europeu, especialmente a partir da instalação da Cidade do Salvador. Como se deu em outras localidades, esses elementos, associados às geoformas locais, condicionaram a ocupação humana primeira. (Ribeiro, 1961) (Peixoto, 1968) (Kraft, Aschenbrenner e Rapp Jr, 1977) (Gladfelter, 1977) (Hassan, 1979) (Tavares, 2000) (Teixeira, 2005) Iniciou-se a trajetória dessa cidade que, desde sua concepção, emergia com o status de centro

portuário e capital colonial, chegando a se transformar na maior concentração humana de toda a América. (Araújo, 2000) Os eventos relacionados a esse contexto, com anotações claras das intervenções antrópicas, podem ser bem reconhecidos. (Schwartz, 1969) (Curtis, 2000) (Nicolini, 2001) (Pessoa, 2001) (Rahy, 2002) (Teixeira, 2005)

A segunda era de intervenções intensas estendeu-se do século XIX ao século XX, com grandes áreas conquistadas ao mar, incluindo-se aí a instalação do grande porto e de praticamente toda a área do Comércio da Cidade Baixa. (Delson, 1979) (Edelweiss, 1958) (Peña, 1994) (Curtis, 2000) (Araújo, 2000) (Tavares, 2000) (Sampaio, 2005) (Teixeira, 2005) Alteraram-se profundamente praias, altos e vales, sendo alguns terminantemente eliminados. (Câmara, 1988) (Teixeira, 2005) (Sampaio, 2005)

Ao final do século XX, cerca de 95% do comércio baiano eram realizados através de vias marítimas. Atualmente, prossegue a investida acelerada aos sitios costeiros, destacando- se esses como espaço privilegiado para ampliação comercial, imobiliária, turística e de toda uma infraestrutura afim. (Souza, 2000) (Prefeitura Municipal do Salvador, 2000) (Fonseca, 2002)

A Cidade do Salvador mostra atualmente uma integração indissolúvel das geoformas e aspectos histórico-culturais. Albergaria (2001, in Guerreiro, 2005) aponta essa referência unificada como expressão da “baianidade”, titulação que tem uma memória tradicional, festeira e, especialmente, praieira, que foi cantada por Dorival Caymmi, descrita por Jorge Amado, pintada por Carybé e fotografada por Pierre Verger.

Portanto, considerando a classificação assumida por Mateo (1991, in Meirelles, 1997), estamos diante de um antigo Geosistema Natural que passou a Geosistema Antropogênico e gradou para um Geosistema Cultural. Suas Paisagens-Símbolo, predominantemente locadas na orla, (Guerreiro, 2005) atraem ações de preservação, e, precisamente por pertencerem à “iconosfera” (Meneses, 2003) também o incitam o desejo de serem “consumidas”.

Além desse apelo do símbolo, Candori (1992) destaca um aspecto mais geral, de o amplo espaço aberto das praias constituir um via privilegiada e lógica de fuga dos abafamentos nos grandes centros urbanos. Daí, como resultado dessa agregação de fatores, Carvalho e Pontes (2001) anotam conseqüências, como estarem sendo atingidos encostas, várzeas, alagados, mangues e praias, em ações que Featherstone (1995, in Guerreiro, 2005) caracteriza como geralmente negativas.

Apesar dessa importância e da multplicidade de estudos, não se conseguiu ainda localizar com precisão razoável vários aspectos da geomorfologia original do sítio sobre o qual se assentou a Cidade do Salvador. Isso como mais um sintoma de uma trajetória histórica em que se misturou generalizadamente o pouco nível de consciência em relação ao valor de geoambientes culturais e a incúria persistente por parte de autoridades e entidades técnicas, além da população em geral. Este elenco de elementos fez com que a orla da Cidade do Salvador se tornasse não só completamente descaracterizada como perdesse, cada vez mais, as memórias e referências de status original.

Mesmo aquelas edificações humanas tidas como de maior prestígio não foram respeitadas. A visão dos casarões da Vitória que foram arrasados antes de se ter a idéia de preservá- los como parte das novas edificações, provoca uma profunda tristeza. Na visão dos séculos XVIII e XIX, o alto da face da Falha de Salvador exibe um verdadeiro Pelourinho suspenso. (Figura 01 e Fotografias 01 e 02) Este desapareceu para dar espaço a edificações sem qualquer personalidade estilística relacionada à antiga Cidade do Salvador, ao longo do século XX. (Fotografia 03)

Fotografia 01 – Fachada do núcleo original da Cidade do Salvador. Meados do século XIX.

Fotografia 02 – Fachada do núcleo original da Cidade do Salvador. Década de 1930.

Em termos de estágio de alteração paisagística atual, que é definido pelo grau de destruição do habitat, seguindo a classificação de Pearson et al (1996, in McIntyre e Hobbs, 1999), reconhece-se a paisagem da linha de costa soteropolitana como dotada de prováveis ambientes relictuais, com grau até extremo de destruição do antigo habitat. Prováveis relictos, se é que podem ser assim considerados, foram reduzidos a bem menos de dez por cento do original, caracterizando-se pela baixíssima a nenhuma conectividade. Um ponto interessante é que Carvalho e Pontes (2001) reconhecem dispor a Cidade do Salvador de uma malha legal suficiente para um trabalho ambiental de qualidade, que careceria apenas da devida aplicação. Entretanto, seguindo a visão de Lazarow (2002), tal viabilização só passará a existir com uma conscientização ampla da Sociedade. Por sua vez, essa só se implantará a partir do melhor entendimento de eventos em sua formação enquanto localidade antropo-modificada, o que, conforme Nissenbaum (sd, in Stilgoe, 1976), se dá a partir do resgate paleogeomorfológico. Este se torna viável a partir da localização de referências geológicas que podem ser expandidas, quando cruzadas com a documentação histórica. E, precisamente por ter sido a primeira capital do Brasil, abundam documentos textuais, cartográficos e iconográficos, aos quais se juntam imagens como desenhos, pinturas, mapas, fotografias paisagísticas e aerofotos antigas. Compõe-se, assim, um grande acervo que permite não só uma reconstituição paleogeomorfológica, como realizá-la como uma precisão adeqüada.

1.4 – JUSTIFICATIVA

Ultrapassada a visão de existência e imposição apenas de áreas “non ædificandi” (Lynch, 1972, in Lowenthal, 1975) (Pippi, Afonso e Santiago, 2003), passa a pender o ambiente costeiro entre as questões de preservação e uso equilibrado. O reconhecimento de necessidade de manutenção das suas integridade e qualidade são, lembram Stegeman e Solow (2002), essenciais para requalificá-lo, com seus recursos integrados com qualidade à vida humana. Sublinham esses autores o difícil trato da relação de tênue diferença entre algumas ações que conduzem à saúde ou à insalubridade ambiental.

Destaca-se, para chegarmos aos passos sugeridos por Inman e Brush (1973) como necessários para um “bom desenho” de estruturas costeiras antropoderivadas, a reconstituição paleo-visual. Este é um dos vetores primeiros que fornece parâmetros para a descoberta dos processos operativos importantes, e o entendimento das suas múltiplas interações. Também é determinante para o desenvolvimento constante da percepção e dos

meios de preservar ou lidar com esse ambiente de maneira mais sustentável e o menos danosa possível, fornecendo referências para planejamentos de curto a longo prazos. É uma ação que Fenster, Dolan e Elder (1993) indicam ser rotineira às Ciências, trabalhando com considerações previsionais, que efetivamente só se dão com qualidade através do entendimento dos eventos que conduziram à situação atual. Esta necessidade, em localidades costeiras antropo-modificadas, solicita abordagem de um termo temporal histórico que permita o melhor entendimento da sua tessitura processual. É necessário, conforme Peña (1994) e Del Rio (1990), pensar os espaços urbanos, em termos da sua integração com a ambiência. Seguindo Stegeman e Solow (2002), a compreensão do ambiente costeiro exige uma revisão do entendimento das interações e interferências antrópicas e dos seus reflexos. Devemos partir do ponto mais recuado possível, o que confirma a necessidade de busca do resgate da situação pré-intervenção antrópica. (Meirelles, 1997) (Carvalho e Pontes, 2001)

Dentro das Geociências, lembrou Silvestri (2006) e Suguio (1999) já observara, a modernidade deve encarar a Terra como um campo de constantes transformações, elevando-se o ser humano um “agente cada vez mais poderoso”.

A Cidade do Salvador é uma localidade tipificada pela presença de múltiplas Paisagens- Símbolo, com contingente populacional elevado, intenso trânsito comercial e diversas demandas imobiliárias. Guarda múltiplos registros históricos do seu antigo estado e de modificações nele realizadas. Dispõe de um acervo abundante, partindo das mais antigas descrições, que começaram baseadas em registros oficiais, técnicos e admistrativos, alem de relatórios de navegadores, chegando a panoramas, plantas, cartas, mapas, desenhos e pinturas, realizados tanto por artistas quanto por técnicos. Emerge, portanto, como um caso de extremo interesse para um trabalho consistente e insistente. Sua costa é privilegiada para um trabalho pioneiro nesse sentido, uma verdadeira demanda induzida para um Estudo de Caso, realizado a partir de um trabalho geocientífico aliado a um abundante acervo histórico disperso por entidades e acervos tanto públicos quanto particulares diversos.

A área em estudo situa-se no contexto do Recôncavo Baiano, especificamente na face sudeste da Baía de Todos os Santos, na Península Soteropolitana. Está totalmente incluída na área urbana da Cidade do Salvador, desenvolvendo-se a partir da linha de costa, situada na coordenada 13º00’43,01” S / 38º31’25,53” W, proximidades do atual Morro do Cristo, em sentido oeste até a Ponta do Padrão. Após este, assume sentido Norte, adentrando a Baía de Todos os Santos, até o altura do Porto da Barra, deste seguindo em sentido N30E, até Água de Meninos, na coordenada 12º53’12,94” S / 38º30’50,09” W, com abrangência interna ao continente suficiente para incluir os todo o contexto praial. (Figura 02)

Figura 02 – Mapas de Localização da área deste trabalho.

1.6 – OBJETIVOS

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