Do referencial anteriormente citado, sobre as diversas dimensões do sujeito, do seu relacionamento com o meio para satisfação das necessidades, significados e sentidos atribuídos ao trabalho, observa-se que um dos motivos que leva as pessoas a trabalhar é ter um objetivo na vida (MORIN, 2001). Em complemento a estes referenciais a presente seção trará o estudo do bem-estar na vida das pessoas, especificamente o psicológico, pois como será visto a seguir, para que este tipo de bem-estar seja atingido, é necessário que a pessoa tenha objetivos e metas de vida associados a valores pessoais. Com esse fechamento (Gestalt, sentidos e significados do trabalho e bem-estar psicológico) espera-se encontrar subsídios para se entender como o trabalho faz a mediação entre as diversas esferas de vida das pessoas de forma a satisfazer suas necessidades; o que leva as pessoas a se deslocarem ou permanecerem em cidades do interior, das mais diversas formas, para exercerem suas atividades, e como elas se relacionam com esse novo ambiente; e se as metas, objetivos e valores que levam as pessoas a esses deslocamentos estão sendo atingidos.
O estilo de vida moderno acaba por não levar as pessoas a avaliarem seus momentos de felicidade ou de completa realização pessoal, termos estes também conhecidos ou estudados como bem-estar; mas, por outro lado, leva-as a ter que planejar sua segurança, seja pela manutenção de seu emprego para a satisfação de suas necessidades e/ou de sua família (sustento, educação e lazer); ou pela prática de ações que promovem a sua integridade física, emocional e social (SIQUEIRA; PADOVAN, 2008).
O bem-estar, de forma geral, vem sendo estudado por diversos pesquisadores nos últimos anos, sendo que os constructos vêm variando, mas permanecendo vinculados a diversas esferas da vida e a diferentes atividades desenvolvidas pelo homem (PASCHOAL; TAMAYO, 2008). Os tópicos estudados são bastante diversos, Ryan e Deci (2001), por exemplo, em revisão de literatura, verificaram questões como: “Em que medida o bem-estar é uma diferença individual?”, “Qual é o papel das emoções no bem-estar?”, “Em que medida a saúde física está entrelaçada com o bem-estar?”. Outros tópicos buscam por relacionar o bem-estar nos níveis interpessoais e intrapessoais. Os autores verificaram também a abordagem que relaciona bem-estar a fatores como riqueza, relações satisfatórias e realização de metas; ou se o bem-estar é diferente em relação ao tempo ou ao lugar, como por exemplo, em diferentes períodos de desenvolvimento e em diferentes culturas.
Cabe ressaltar, antes de dar continuidade a essa etapa do referencial, que não se escolheu como referencial o bem-estar no Trabalho, pois seus constructos são formados por questões como atividades, hierarquia, poder. O objetivo da presente pesquisa não era o trabalho em si, mas o contexto que se dá esse trabalho, no caso cidades do interior, de forma a se investigar o “morar” e o “trabalhar” em cidades do interior, como os TAE se sentem com relação às suas dinâmicas e rotinas de vida nesse ambiente.
Assim, o bem-estar é uma construção complexa e refere-se à experiência e ao funcionamento psicológico ótimos. A avaliação pode abranger períodos como semanas, meses, fases ou a vida inteira, havendo diversas escalas projetadas para
medi-lo. Podendo ser estudado por duas linhas: pela tradição hedônica, hedonista ou do bem-estar subjetivo (BES) e pela eudaimonica, eudaimonia ou do bem-estar psicológico (BEP), ambas divergindo em relação ao conceito de felicidade adotado (RYAN; DECI, 2001; DECI; RYAN, 2008; MACHADO; BANDEIRA, 2012).
Pela tradição do BES, a felicidade ou bem-estar está na preponderância de experiências positivas sobre negativas e em um alto grau de satisfação com a vida; e nos fatores pessoais, socioambientais e culturais que geram essas experiências e satisfação. O BES não é verificado apenas pela ausência de fatores negativos, mas sim pela predominância dos afetos positivos sobre esses. É chamado de subjetivo por ser avaliado pelas próprias pessoas. Suas medidas geralmente incluem uma avaliação global da vida, podendo também ser avaliadas esferas específicas, como satisfação com o trabalho ou casamento. Pode ser avaliado com apenas uma pergunta geral, por exemplo: "Como você se sente sobre sua vida como um todo?" ou com utilização de vários itens, trazendo perguntas como “Durante as últimas semanas você se sentiu satisfeito por ter conseguido alguma coisa?". Pode ser enviesado pelo momento que a pessoa está vivendo e por respostas socialmente desejáveis (DIENER, 2000; RYAN; DECI, 2001; ALBUQUERQUE; TRÓCOLI, 2004; DECI; RYAN, 2008; SIQUEIRA; PADOVAN, 2008; DIENER, 1984).
A segunda tradição, do BEP, considera como felicidade, ou bem-estar, àquela referente à tradução do grego da palavra eudamonia, que seria um ideal, uma excelência, uma perfeição a ser atingida, com a utilização de valores, metas e expectativas que dão sentido e direção à vida. O foco está nos modos de vida, em assumir valores e metas, de forma que as pessoas se sintam intensamente vivas e autênticas, existindo como quem realmente são; consistindo em algo mais que a felicidade, pois uma pessoa feliz do ponto de vista do BES não necessariamente estaria psicologicamente bem: nem toda felicidade ou satisfação momentânea de prazeres levaria a um bom estado de bem-estar psicológico. Na abordagem do BEP proposta por Ryff (1989), a autora traz críticas à falta de consistência da base teórica que sustenta a escolha de indicadores do BES e propõe uma escala baseada em teorias de psicólogos orientados psicodinamicamente e humanisticamente, baseando-se em Psicologia Humanista-existencial, a Psicologia
do Desenvolvimento Humano e a Saúde Mental, contendo seis fatores ou variáveis desse constructo: autoaceitação, relações positivas com os outros, autonomia, domínio ambiental, propósito na vida e crescimento pessoal (RYFF, 1989; RYAN; DECI, 2001; DECI; RYAN, 2008; MACHADO, 2010; MACHADO; BANDEIRA, 2012). Os conceitos e as seis dimensões do BEP baseiam-se em perspectivas teóricas como a concepção de auto-realização, da pessoa que funciona plenamente, a formulação de individuação e da concepção de maturidade. Baseiam-se também nas perspectivas de desenvolvimento da vida, que enfatizam os diferentes desafios enfrentados em várias fases do ciclo de vida (RYFF, 1989). A Figura 4 mostra como as dimensões foram construídas por meio dessas perspectivas teóricas:
Figura 4 - Dimensões do BEP e seus fundamentos teóricos
Fonte: Ryff e Singer (2008, p. 20)
Assim, as duas tradições, do BES e do BEP, fazem perguntas diferentes sobre como os processos sociais e de desenvolvimento se relacionam com o bem-estar, prescrevendo abordagens diferentes para a forma de se viver e examinando como as experiências de bem-estar das pessoas são modeladas por atributos de seus objetivos pessoais e seus motivos para buscá-los. Evidências de vários pesquisadores indicam que o bem-estar é provavelmente mais bem concebido incluindo aspectos das duas tradições (RYAN; DECI, 2001). As principais diferenças entre elas são apontadas no Quadro 10.
Quadro 10 - Principais diferenças entre o BES e o BEP
BES BEP
Visão de bem-estar como prazer ou felicidade. Aborda o estado subjetivo de felicidade.
Visão de bem-estar como pleno funcionamento das potencialidades de uma pessoa, ou seja, em sua capacidade de pensar, usar o raciocínio e o bom senso. Investiga o potencial humano.
Sustentado pelas avaliações cognitivas com a vida, de forma geral e com outros domínios específicos e devem incluir também uma análise pessoal sobre a freqüência com que se experimentam afetos positivos e negativos que revelam felicidade.
Sustentado por concepções teóricas baseadas em formulações psicológicas do desenvolvimento humano e dimensionadas pelas capacidades para enfrentar os desafios da vida.
Considera o organismo humano inicialmente relativamente vazio e, portanto, maleável, de modo que ganha seu significado de acordo com os ensinamentos sociais e culturais.
Atribui conteúdo à natureza humana e trabalha para descobrir esse conteúdo e entender as condições que o facilitam ou o diminuem.
O indivíduo que indica aos investigadores o que o torna feliz e satisfeito em sua vida.
O investigador quem decide a partir de respostas à questões mais estruturadas.
Fonte: elaborado a partir de Deci e Ryan (2008); Ryan e Deci (2001); Siqueira e Padovan (2008).
Para o presente estudo, serão utilizados os conceitos do BEP, por entender que o deslocamento ou a permanência de TAE para cidades do interior para exercer atividades laborais possivelmente estão associados, além da manutenção de suas necessidades e do equilíbrio entre as cinco dimensões do ser-humano, à metas e objetivos de vida.
Uma abordagem, mesmo que pouco utilizada do BEP, é por meio de metodologia qualitativa, com utilização de narrativas. Bauer, McAdams e Pals (2008) em uma revisão sobre estudos que tratavam de identidade narrativa a partir da concepção de bem-estar psicológico e desenvolvimento do ego, a fim de defender o argumento que as narrativas estariam intimamente ligadas à interpretação subjetiva de si mesmo como feliz. Os autores verificaram que as pessoas tendem a destacar cenas de crescimento pessoal e redenção em suas histórias de vida. As pessoas usam narrativas para tentar obter alguma medida de unidade e propósito, que de outra forma pareceria ser um conjunto incompreensível de eventos e experiências da vida; tendem também a enquadrar experiências de vida difíceis como experiências transformadoras.
Por sua fez, o enfoque quantitativo, por meio de escalas, tem sido amplamente utilizado. A partir das definições anteriormente apresentadas, Ryff (1989) e Ryff e Singer (2008) desenvolveram escalas psicométricas do tipo Likert de seis pontos
com variações de “discordo totalmente” a “concordo totalmente” para avaliar essas seis dimensões, sendo essas operacionalizadas em escores positivos e negativos. A seguir serão descritos alguns resultados encontrados em dissertações e teses localizadas no BDTD-IBCT e banco de dados da CAPES que utilizaram a Escala de bem-estar Psicológico, baseada nas teorias citadas anteriormente.
Andrade (2008), em sua tese, após identificar as variáveis preditoras, mediadoras e indicadoras do BEP no ambiente organizacional e do trabalho, investigou e comparou o BEP relacionado ao Trabalho de Técnicos Administrativos de Instituições de Ensino Superior públicas e privadas. As variáveis identificadas foram:
1) Ambiente que representa o contexto no qual o indivíduo se insere (a exemplo de experiências vividas);
2) Características pessoais, categoria que constitui os atributos sociodemográficos (como sexo e idade) e as tendências individuais (por exemplo, as estratégias de enfrentamento);
3) Características de bem-estar; representado por sintomas, sejam eles orgânicos, cognitivos ou comportamentais (como os sintomas psiquiátricos). (ANDRADE, 2008, p. 50)
Machado (2010) produziu uma versão experimental do instrumento de 84 itens desenvolvido por Ryff e Essex (1992) adaptando ao português e validando com a finalidade de posteriormente submetê-la a testes empíricos; sua análise, após validação e aplicação, compreendeu o uso de estatística descritiva, análise multivariada de variância (MANOVA), correlação de Pearson e medidas de consistência interna através do alfa de Cronbach. Posteriormente, também foi adaptada e validada para o português por Machado, Bandeira e Pawlowski (2013) em uma versão reduzida, composta por 36 itens, estes divididos em seis fatores e que foi utilizada na presente pesquisa.
Martins (2015) também utilizou essa escala adaptada e validada para o português por Machado, Bandeira e Pawlowski (2013), com o objetivo de avaliar o BEP de um grupo de bancários aposentados e verificar a relação do BEP com o fato de ter feito alguma ação de preparação para aposentadoria, com o tipo de apoio social e com a importância dada a alguns fatores-chave para o planejamento da aposentadoria. Para sua análise, utilizou a variância multivariada (MANOVA) com o objetivo de
verificar as diferenças entre as médias dos fatores do Bem-estar psicológico e as características sociodemográficas amostrais.