No presente estudo, analisaram-se 37 estudantes que estavam no quarto semestre do curso de graduação em Medicina da Escola Multicampi de Ciências Médicas do Rio Grande do Norte, sendo 22 homens e 15 mulheres (Gráfico 1).
Gráfico 1 – Gênero dos participantes
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
Observa-se que 59% do grupo são do sexo masculino, enquanto o feminino corresponde a 41%, o que mostra a predominância dos homens na Medicina. Apesar da tendência de maior participação das mulheres na profissão médica, a população de médicos em atividade ainda é constituída em sua maioria por homens (SCHEFFER; CASSENOTE, 2013).
59% 41%
Masculino Feminino
A média de idade dos sujeitos é de 23,4 anos, sendo a dos homens 24 e a das mulheres 22,7. Detectou-se como idades mínima e máxima, respectivamente, 19 e 40 anos. Constata-se ainda que grande parte dos estudantes de Medicina são jovens, em que 78% possuem até 25 anos de idade e somente 22% têm mais de 25 anos (Gráfico 2).
Gráfico 2 – Idade dos participantes
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
Como o curso tem duração de seis anos, a previsão é que a maioria dos sujeitos comece a exercer a profissão antes dos 30 anos de idade. Isso ratifica a tendência que está ocorrendo no Brasil de juvenescimento da Medicina. Levantamentos demográficos recentes apontam que a média de idade dos médicos vem caindo ao longo do tempo (SCHEFFER, 2015).
Verifica-se que, apesar de serem jovens, 11% dos participantes (quatro alunos) já possuem curso superior (Gráfico 3). Dentre eles, um afirmou possuir graduação em Engenharia Mecânica; outro respondeu que era graduado em Matemática, na modalidade Licenciatura; e dois sujeitos são oriundos da área de Ciências da Saúde, sendo um formado em Odontologia e outro em Fisioterapia. Experiências com pesquisas científicas trazem resultados positivos para a formação médica, todavia não há certeza se esses alunos vivenciaram em algum momento da graduação esse tipo de experiência, já que são pouco exploradas na área da saúde.
78% 22%
Até 25 anos Mais de 25 anos
Gráfico 3 – Graduação em outra área
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
Em relação à compreensão da língua inglesa, um aluno (3%) respondeu que não compreende nada, vinte e cinco (67%) se enquadram no nível básico, sete discentes (19%) possuem nível intermediário do idioma e somente quatro pessoas (11%) possuem nível avançado (Gráfico 4).
Gráfico 4 – Nível do idioma inglês
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
A maior parte das interfaces das bases de dados são na língua inglesa, bem como as publicações científicas. A PubMed, por exemplo, é uma base de dados internacional muito relevante para a área médica e exige do usuário o domínio do inglês, que é considerado a língua franca da ciência. Mouillete (1999) afirma que o uso pleno de interfaces e recursos de busca é dificultado, principalmente, por barreiras de idiomas.
11%
89%
Possui curso superior?
Sim Não 3% 67% 19% 11% Não compreende Básico Intermediário Avançado
Um estudo realizado por Vasconcelos (2005 apud MARQUES, 2009) revela que autores com pouco ou razoável conhecimento de escrita em inglês, publicam menos; enquanto autores com nível avançado são mais produtivos. Para Ortiz (2004) esse idioma é o que possui maior capacidade de amplitude para comunicação científica. Para elaborar mais facilmente questões e estratégias de pesquisa adequadas às reais necessidades de informação é importante dominar essa língua.
Destaca-se, porém, que a ideia de “língua franca” se refere à linguagem utilizada por povos que não compartilham da mesma língua materna para se comunicarem. O inglês não foi o primeiro idioma global da ciência. Crystal (2003) relata que o latim e o grego já ocuparam esse posto anos atrás. Portanto, não há garantias de que o inglês permaneça para sempre como língua franca (BERNARDES, BORBA, FERREIRA, 2014), já que isso depende, principalmente, de fatores sociais, culturais, políticos e econômicos.
Ao comparar a frequência entre a utilização do acervo da biblioteca e o acesso à internet para realização das atividades acadêmicas, constata-se que os estudantes são propensos a acessar mais as fontes de informações digitais do que as impressas. Pois, trinta e seis discentes (97%) afirmaram que usam diariamente a internet para realizar suas pesquisas acadêmicas, enquanto o número de sujeitos que informaram usar diariamente o acervo físico da biblioteca para essa finalidade é equivalente a quinze alunos (40%), conforme mostra o Gráfico 5.
Gráfico 5 – Acesso à informação para realização de atividades acadêmicas
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016. 40% 46% 11% 3% 97% 3% 0% 20% 40% 60% 80% 100% 120%
Diariamente Semanalmente Mensalmente Raramente
Biblioteca Internet
Ressalta-se que a biblioteca da instituição em comento oferece vários serviços de suporte informacional, dentre eles o de orientação à pesquisa, o qual visa a capacitar os usuários para o acesso adequado às publicações científicas e aos produtos disponíveis na unidade de informação. Lembra-se ainda que essa capacitação foi oferecida a todos os participantes desta pesquisa quando ingressaram na EMCM, porém, somente alguns deles (cerca de 12 alunos) interessaram-se e, de fato, chegaram a participar.
Para Dudziak (2003), as bibliotecas desempenham importante papel no contexto educacional, embora os bibliotecários nem sempre sejam vistos como profissionais engajados no processo de ensino. Em geral, admite-se que o acervo da biblioteca é essencial para a formação do aluno, porém a necessidade de educar para se ter o domínio sobre a informação é negligenciada. Assim, é importante que os bibliotecários adotem uma postura ativa, que realizem processos e projetos educacionais inovadores, tanto na biblioteca quanto na instituição de ensino.
Os dados expostos nesse gráfico vão ao encontro das análises de Jacob (2012), cujos resultados mostram que os estudantes do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) dedicam, aproximadamente, 81 minutos diários para acesso à informação, sendo 51 minutos aplicados ao acesso à internet e 30 minutos ao acervo da biblioteca.
Barros (2011) também ratifica essa preferência, quando constatou que a internet é a primeira fonte de informação que os estudantes dos programas stricto sensu costumam recorrer sempre que necessitam realizar pesquisas acadêmicas. Nesse estudo, os participantes consideraram a biblioteca como a terceira opção de busca informacional.
Pereira (2015) relata que mais de 80% dos estudantes dos programas de pós-graduação em Ciência da Informação e em Comunicação da UEL consideram a internet, mais especificamente os motores de buscas (Google, Yahoo e Bing), como fontes de informação muito importantes. Giordano (2011) demonstrou, em sua pesquisa, que a maioria dos estudantes não planeja previamente nem reflete adequadamente durante as buscas de informação científica. Escolhem, simplesmente, os meios mais fáceis, que geralmente não são os mais apropriados e confiáveis.
Apesar de não ter questionado as causas que levam os estudantes a utilizar mais a internet do que o acervo da biblioteca, concorda-se com Gasque (2012), quando indica que o principal motivo para o uso da internet como fonte de informação é a facilidade de acesso. Segundo a autora, os pesquisadores em formação, ao sentirem necessidade de informação, fazem uso das fontes e canais sem analisar previamente as estratégias adequadas à sua demanda.
Embora afirmem usar mais a internet do que a biblioteca para realizar atividades acadêmicas, a maioria (55%) assegura ter o hábito de recorrer aos livros para acessar informações confiáveis (Tabela 1), o que demonstra certa contradição em suas respostas.
Tabela 1 – Fontes de informações confiáveis
FONTES DE INFORMAÇÃO N %
Motores de busca (Google, Yahoo, Bing) 02 4%
Livros da biblioteca 25 55%
Bases de dados e Portais de pesquisa (Scielo, Pubmed, BVS,
Portal de periódicos da Capes, etc.) 15 33%
Professores da instituição 02 4%
Colegas de classe 02 4%
Fonte: Elaborada pelo autor, 2016.
Esses resultados diferem dos apresentados por Bochnia (2015), quando averiguou que estudantes do curso de graduação em Artes Visuais recorrem primeiramente aos professores quando necessitam de informações para realização de trabalhos acadêmicos. A segunda fonte mais utilizada por eles são os meios digitais, que incluem as bases de dados.
Entre os médicos-residentes, as fontes de pesquisa mais procuradas para suprir as necessidades informacionais são os médicos supervisores, seguidos das suas coleções particulares e dos motores de busca Google e Yahoo (MARTÍNEZ-SILVEIRA, 2005). Os médicos supervisores são conhecidos como preceptores. Ao fazer uma analogia a este estudo, os preceptores podem ser comparados aos professores, o que ratifica a discordância entre os resultados das pesquisas.
Mesmo que considerem as bases de dados mais confiáveis do que os motores de busca, não sabemos se os alunos utilizam mais aquelas do que esses. Reid (2004) relata que estudantes usam mais o Google do que as bases de dados devido à sua facilidade de uso e a não exigência de identificação e senha para utilizar a ferramenta, o que quase sempre é exigido pelas bases dados.
Oliveira, Almeida e Souza (2015) propuseram dez critérios para avaliar a qualidade das fontes eletrônicas de informação em saúde, assim discriminados: frequência de atualização da fonte; autoridade responsável pela disponibilização da fonte; propósito dos
autores na criação da fonte, com especificação dos objetivos; confiabilidade do autor, ou seja, relação entre sua área de atuação e conteúdo informacional disponibilizado; cobertura ou profundidade da abordagem do conteúdo; organização da interface, de forma que possibilite o acesso em níveis diferentes; suporte ao usuário na solução de problemas e esclarecimento de dúvidas; design; navegabilidade e acessibilidade.
A confiabilidade é uma característica inerente ao saber científico, que o distingue do conhecimento popular. A ampla exposição dos resultados de pesquisa ao julgamento da comunidade acadêmica confere validade às informações científicas, sendo a aprovação por essa comunidade o fator que propicia confiança aos resultados e define o que chamamos de informações científicas confiáveis(MUELLER, 2000).
Apesar de ter sido solicitado aos participantes que marcassem apenas uma alternativa, cinco pessoas marcaram mais de uma. Por esse motivo, a soma de respondentes está maior do que o número real de participantes. Entretanto, isso não invalida os resultados obtidos, tendo em vista que não existia uma alternativa correta de resposta, sendo o propósito da questão apenas verificar o comportamento dos alunos na seleção de informação confiável para suas pesquisas.
Mesmo sendo considerada a segunda fonte de informação mais confiável, vinte e seis estudantes (70%) afirmaram sentir dificuldades em usar bases de dados (Gráfico 6). Desse percentual, dezesseis (62%) são do sexo masculino e dez (38%) são do feminino.
Gráfico 6 – Dificuldades em acessar bases de dados
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
70% 30%
Sente dificuldade em usar bases de dados?
Sim Não
Em pesquisa semelhante, Guerrero (2009) constatou um percentual menor junto aos alunos de pós-graduação. Desses, 58% tinham dificuldades em fazer buscas nas bases de dados especializadas; entre eles, 71% eram alunos de mestrado e 29% de doutorado.
Constata-se na Tabela 2 que, do total de homens participantes do estudo, 73% (dezesseis) disseram sentir dificuldades em realizar buscas nas bases de dados, enquanto nas mulheres a taxa foi de 67% (dez). Com relação à faixa etária, o percentual de estudantes com até 25 anos (72%) que disseram possuir dificuldade foi maior do que aqueles com idade superior (62%). O teste exato de Fisher não revelou associações significativas entre essas dificuldades por sexo (α=0,72) e idade (α=0,67) dos alunos.
Tabela 2 – Dificuldades em acessar bases de dados por gênero e idade Dificuldade em usar base de dados?
Sim Não α N N % N % Sexo Masculino 22 16 73% 06 27% 0,72 Feminino 15 10 67% 05 33% Idade ≥ 25 anos 29 21 72% 08 28% 0,67 < 25 anos 08 05 62% 03 38%
Fonte: Elaborada pelo autor, 2016.
O Gráfico 7 apresenta as dificuldades relatadas pelos estudantes para acessar bases remotas de dados, destacando-se como principal o desconhecimento das técnicas de pesquisa, que incluem operadores booleanos, truncamento, busca avançada e filtros (que é uma técnica de clusterização ou de agrupamento de dados). Aqueles que disseram não ter dificuldades, evidentemente, não precisaram elencar nenhuma.
Gráfico 7 – Principais dificuldades no uso de bases de dados
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
Para que o instrumento de coleta de dados não ficasse muito extenso, nessa questão optamos por não disponibilizar todas as possíveis alternativas de respostas, somente aquelas que consideramos mais relevantes. No entanto, havia o campo “outros” para que o participante pudesse informar dificuldades que não estavam incluídas no questionário; nenhum aluno mencionou os critérios de avaliação da qualidade das fontes de informação ou até mesmo a estratégia PICO, que é muito utilizada na Medicina baseada em evidências para elaborar a questão clínica.
Esse resultado foi semelhante ao encontrado por Guerrero (2009), em que 55,4% também afirmaram que o domínio das estratégias de busca é a principal dificuldade ao realizar pesquisas em bases de dados. A seleção da base adequada veio em segundo com 46,4% de indicações. 33,9% disseram que a falta de domínio do inglês é o que mais atrapalha na hora de realizar buscas nas bases de dados.
Bochnia (2015) verificou que o desconhecimento das informações pertinentes é um dos principais obstáculos de pesquisa para 67% dos estudantes do curso de graduação em Artes visuais. Com relação às técnicas de pesquisa, 29% sentem dificuldades em utilizar os formulários de busca disponibilizados nas bases de dados e 27% consideram complicado o uso dos operadores booleanos.
19%
53% 12%
16%
Definição dos termos de busca (palavras-chave)
Utilização das técnicas de pesquisa (operadores booleanos, métodos de truncagem, busca avançada e demais filtros)
Seleção da base de dados adequada Interação com a interface da base de dados
Santos (2015) identificou três categorias de dificuldades na busca de informações em bases de dados: acesso ao texto completo, desconhecimento da metodologia do processo de busca e necessidade de treinamento. Por sua vez, Barros (2011) detectou que 47,6% dos estudantes de pós-graduação consideram o domínio de idiomas a principal dificuldade para realizar pesquisas.