A reportagem é, naturalmente, um gênero mais aberto a diferentes focos narrativos, seja em revistas semanais ou mensais. No entanto, para essa análise focalizaremos a experiência da revista Brasileiros.. São pelo menos três, dentre as propostas por Friedman, as possibilidades de análise dos focos narrativos encontrados em Brasileiros. Todas têm em comum o elemento da onisciência. O mediador, depois de denso processo reportivo em relação ao universo que retrata, assume a função daquela que narra, daquele que conta o que aconteceu amparado por seu próprio testemunho.
A primeira categoria identificada é a do Autor Onisciente Intruso (Editorial
Omniscience) onde o narrador tem a liberdade para narrar completamente à vontade,
com uma visão aérea e ampla da cena. “Pode também narrar da periferia dos acontecimentos, ou do centro deles, ou ainda limitar-se e narrar como se estivesse de fora, ou de frente, podendo, ainda, mudar e adotar sucessivamente várias posições” (LEITE, 2002 26). Como canais de informação, predominam as próprias palavras daquele que narra, seus pensamentos e percepções. A narração pode variar de primeira para terceira pessoa dependendo do posicionamento diante dos acontecimentos. De acordo com Leite seu traço característico é a intromissão, pincelando seus comentários sobre a vida, os costumes, os caracteres, a moral, que podem ou não estar entrosados com a história narrada.
EX:
Nos limites do pequeno Sítio Livramento, em Caraúbas, município de 18 mil habitantes, a 72 quilômetros de Mossoró, rodeado pelos serrotes do Cumbe, da Mulatinha e das Araras, no meio da caatinga coberta de jurema-preta, mofumbo, faveleiro, marmeleiro, xique-xique e facheiro, encontramos um brasileiro feliz. Sim, ele existe.
Estava sentado na varanda de sua casa, descansando depois do almoço. O nome dele é Antonio Faustino da Silva, filho de Bento e neto de Vicente. Sem nenhuma pressa, vai nos contar como foi que se deram os acontecidos. Fala mansamente, com aquele semblante sereno de quem
está com o burro na sombra, como se costuma dizer por estas terras do
semi-árido potiguar. Nada lhe falta, gaba-se. (Brasileiros, Julho 2007).
Obs: Os trechos em destaque indicam intromissões do autor durante a narração. No primeiro destaque- “Sim, ele existe” –, a interferência acontece numa proposta de interação entre narrador e leitor. O narrador destaca sua presença na cena narrada traçando um comentário acessório e pessoal. Já nos trechos destacados no segundo parágrafo, a interferência do narrador acontece sob a forma de inferências adjetivas. Ele traça observações sobre características do personagem – “Sem nenhuma pressa” e
“Fala mansamente” –, e também sugere tranquilidade por meio de uma suposição
pessoal a respeito do personagem – “com aquele semblante sereno de quem está com o
burro na sombra” –. Além dos trechos grifados na cena narrada o autor dá sinal claro
de sua presença através do uso da primeira pessoa, recurso utilizado na maioria das incidências desta categoria proposta por Friedman em que o texto dá pistas sobre seu aspecto testemunhal.
No segundo exemplo, apresentado a seguir, diferentemente do trecho anterior a narração ocorre em terceira pessoa e não há o testemunho, ainda assim o narrador reconstrói a cena como se lá estivesse, descrevendo comportamentos e tensões situacionais e analisando os personagens com se os conhecesse oniscientemente, através de adjetivações e suposições pessoais.
EX:
Quanto a Stan Getz, conseguira finalmente dominar a emissão controlada e relax, quase sem vibrato, que, para Tom, seria a ideal para fazer o contraponto à maciez da voz e à flexibilidade do violão de João Gilberto. Em tese, aquela tinha tudo para ser uma gravação tranqüila - não havia motivo para problemas. Mas, o que aconteceu foi que, de relax, a gravação de Getz/Gilberto teve pouco ou nada. João Gilberto não se satisfazia com a emissão de Getz, que achava muito enfática para a delicadeza da bossa nova. Por isso, a todo instante interrompia a gravação, para obrigá-lo a começar de novo. Getz não entendia e João dizia entre dentes para Jobim, como quem mastigasse as sílabas: "Tom, diga a esse gringo que ele é muito burro."
O americano perguntava a Tom o que João dissera, e Tom botava panos quentes:
"Engraçado", resmungava Getz. "Pelo tom de voz, não parece ser isso que ele disse."
Getz era famoso por seu gênio estourado e por ser cruel com os colegas. Não se sabe como se segurou. A única explicação era a de que, depois de tantos atropelos em sua carreira, ele estava vendo na bossa nova uma possibilidade de redenção - e, para isso, engoliria todos os sapos que João Gilberto lhe jogasse ao colo. Custou, mas João conseguiu que Stan soasse ao sax tenor quase como se sussurrasse - pelo menos durante a gravação. Sim, porque, meses depois, na mixagem, sem a presença dos brasileiros, Getz aumentou o volume de seus solos, principalmente nas entradas, conferindo-lhes um ataque que João Gilberto nunca teria aprovado.
(Brasileiros, Abril de 2008).
A segunda categoria encontrada é a do Narrador Onisciente Neutro (Neutral
Omniscience). Aqui o narrador fala em terceira pessoa. Há momentos de descrição
objetiva das cenas, mas há também momentos de diálogo e ação em que, frequentemente, a caracterização das personagens é feita pelo narrador que as descreve e explica para o leitor. Diferentemente do Autor Onisciente Intruso, não há, segundo Leite (2002:32), instruções e comentários gerais ou mesmo sobre o comportamento das personagens, embora a sua presença, interpondo-se entre o leitor e a história, seja sempre muito clara.
EX:
A julgar pelo que já foi apurado, o vôo 3054, da TAM, é uma espécie de concentrado simbólico de todos os erros possíveis:
1 - Um aeroporto antigo (de 1936), encravado em uma metrópole, duas pistas, sem área de escape, 91.400 pousos e decolagens e 7.689.879 passageiros até maio de 2007 - apesar dos pesares, o de maior movimento no País.
2 - Por conveniências comerciais, foram as empresas aéreas, com o aval das autoridades do setor, que pressionaram para que um aeroporto complicado - para alguns, inviável - viesse a acolher aviões de grande calibre: Boeing 727-200, Boeing 737-300, Boeing 737-800, Airbus A300, Airbus A320 (este, o do fatídico vôo 3054).
3 - O Airbus A320 que se espatifou contra um prédio e explodiu do lado de lá da pista de Congonhas tinha passageiros além de sua capacidade, combustível a mais do que o necessário (a TAM fala em reserva técnica, mas as companhias evitam reabastecer em São Paulo porque o imposto estadual sobre combustível é mais caro) e um
equipamento auxiliar para a frenagem (o reverso de uma das turbinas) danificado.
4 - Chovia e a pista reformada - mas ainda sem os groovings, as ranhuras que ajudam a escoar a água - foi aberta antes do prazo, por pressão das companhias.
5 - A caixa-preta revela que o manete de comando estava em posição errada, o que acelerou o Airbus, em vez de freá-lo (no mesmo dia, o avião tinha passado por rápida manutenção em Congonhas: o problema da turbina fora detectado, mas a inspeção só durou 20 minutos).
6 - A TAM é reincidente em tragédias mal explicadas. Ali mesmo em Congonhas, em 1996, na outra cabeceira da pista, um Fokker 100 também com problemas no reverso caiu sobre casas e matou 99 pessoas (...)
(Brasileiros, Agosto de 2007).
Obs: A sequência enumerada constitui seis atos de uma única cena. O narrador fornece de maneira objetiva os fatos que compõem a narração, cita dados e registra espaço/tempo em que a ação ocorreu, sem deixar, todavia, de interpor-se no processo de mediação, manifestando implicitamente seu posicionamento ao fato narrado.
Continuação do EX:
(...) A lista de erros pode ir ao infinito, deixando no ar a consistente dúvida: o vôo TAM 3054 foi uma exceção de triste memória ou é a regra geral na aviação comercial brasileira? Acusado, de cara, de ser um dos responsáveis pelo chamado "apagão aéreo" (que deu em CPI para que os atores da oposição pudessem brilhar, desta vez em macabro pano de fundo), o governo federal acabou fazendo o mais sincero e assustador diagnóstico, pela voz de ninguém menos do que o próprio Lula. "O sistema está em metástase", disse o presidente da República. (Brasileiros, Agosto de 2007, “Dor”).
Ainda em terceira pessoa e ainda sem interferir explicitamente na narrativa, uma pergunta é proposta, mas não parte claramente do narrador, este propõe que a questão surge naturalmente diante da lista de erros enumerados anteriormente.
A última categoria que identificada na narrativa de Brasileiros, proposta por Friedman, é a “Eu” como testemunha (“I” as witness). Nesta categoria a narração se dá em primeira pessoa, “mas é um ‘eu’ já interno à narrativa, que vive os acontecimentos aí descritos como personagem secundária que pode observar, desde dentro, os acontecimentos, e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil” (LEITE, 2002: 37). Nesta classificação apela-se para o testemunho de alguém presente na cena, desta forma, o ângulo de visão é, necessariamente, mais limitado. Não há
onisciência. Como personagem secundário, ele narra da periferia dos acontecimentos, não consegue saber o que se passa na cabeça dos outros, apenas pode sugerir, lançar hipóteses, servindo-se também de informações, de coisas que viu ou ouviu, e, até mesmo, de cartas ou outros documentos secretos que tenham ido cair em suas mãos. Quanto à distância em que o leitor é colocado, pode ser próxima ou remota, ou ambas, porque esse narrador tanto sintetiza a narrativa, quanto a apresenta em cenas. Neste caso, sempre como ele as vê.
EX:
Alguém já havia dito, nas primeiras conversas que me trouxeram até aqui, que "foi mais fácil o primeiro salto de pára-quedas que entrar pela primeira vez no Dominna". A gente nem imagina o que vai acontecer lá dentro. Ou até imagina, o que também não ajuda. Mas se surpreende ao descobrir que, ultrapassado o vão da porta, o ambiente do local, à meia-luz, mais lembra uma festa de família, onde as pessoas trocam receitas de bolo com a mesma naturalidade que dão dicas sobre a melhor técnica para se realizar um fisting completo. Epa! Quem falou em fisting?
Olhando ao redor, vejo que a dona da técnica é uma senhorinha que não despertaria qualquer suspeita nas aulas de catecismo da igreja mais próxima. Fisting, para quem não sabe, é a técnica de introduzir a mão, ou o punho (em inglês, fist) na vagina ou no ânus do parceiro. Algo que, sem dúvida, exige muita expertise dos praticantes para não acabar em algum pronto-socorro.
Olhando ao redor, finalmente identifico a Bela, mulher que comanda o clube Dominna, uma loira grande e impressionante, daquelas pessoas que se a gente não soubesse do que gosta, poderia até imaginar, fácil, fácil. Toda de preto, cabelos esvoaçantes, saltos altíssimos, ela circula pelo espaço com uma majestade que lhe é absolutamente natural, distribui beijos para os conhecidos - quase todos os que ali estão - e se senta para conversar com a repórter, que foi ali apresentada por um dos iniciados cujo nome delicadamente vamos omitir, a pedido, como de resto teremos que fazer com a maioria dos que aqui falam.
(Brasileiros, Fevereiro de 2008, No Mundo dos Chicotinhos e das Algemas”)
Obs: Os trechos sublinhados apontam alguns momentos indicadores da presença testemunhal da repórter que vive a experiência e a reconstrói narrativamente, baseada em seu olhar que, embora limitado em relação à focalização onisciente, é transmitido de forma mais segura, já que não depende de outras fontes exteriores ao fato que viveu. É
necessário destacar também que a categorização de Friedman aplicadas à narrativa de
Brasileiros diz respeito, na grande maioria das vezes, de uma questão de predominância
e não de exclusividade já que são muitos os recursos estético-textuais utilizados nas reportagens analisadas.