A maneira mais clara e objetiva de se identificar a projeção da imagem do repórter nas matérias é através da narração em primeira pessoa. Este recurso é empregado frequentemente em reportagens de viagem, ou seja, funciona como um diário de bordo em que o repórter relata seus próprios passos – ou daqueles que estão próximos, fisicamente, a ele – explorando novos ambientes, desbravando novas realidades e descobrindo novos universos narrativos. A corporalização ocorre na medida em que o repórter mostra sua presença física e real nas cenas narradas. Isso se dá principalmente através do foco narrativo, ou do ângulo em que se narra. As ferramentas textuais utilizadas na narração acabam por refratar a imagem do próprio narrador. Abaixo seguem exemplos:
As primeiras imagens dos cavalos mecânicos bombando
ininterruptamente petróleo para os dutos que correm ao longo da estrada indicam que estamos chegando a Mossoró, nosso Texas do sertão, capital brasileira da exploração terrestre da Petrobras. (...)
Pois é aqui, no semi-árido potiguar, que encontramos estes personagens incríveis conhecidos por "sheiks do sertão" - os sertanejos humildes que passaram a receber royalties de 1% sobre o petróleo encontrado em suas terras e hoje mandam seus filhos para as melhores universidades.
(Brasileiros, Julho de 2007, “Viagem ao nosso Texas”)
A reportagem, da qual os trechos acima foram retirados, é construída como um relatório de viagem onde o repórter é projetado corporalmente na trama discursiva através do uso da narração em primeira pessoa e de observações pessoais. Nos trechos destacados acima, a cenografia não é proposta tal qual é, pronta, impassível de variações ou angulações, mas, sim, é apresentada tal qual o repórter a vê, parcialmente, com toda a limitação e proximidade provocada pelo discurso a partir do “eu”.
O mesmo ocorre no exemplo abaixo, no entanto com mais elementos descritivos que auxiliam a ilustrar o ponto de vista do narrador.
Alguém já havia dito, nas primeiras conversas que me trouxeram até aqui, que "foi mais fácil o primeiro salto de pára-quedas que entrar pela primeira vez no Dominna". A gente nem imagina o que vai acontecer lá dentro. Ou até imagina, o que também não ajuda. Mas se surpreende ao descobrir que, ultrapassado o vão da porta, o ambiente do local, à meia-luz, mais lembra uma festa de família, onde as pessoas trocam receitas de bolo com a mesma naturalidade que dão dicas sobre a melhor técnica para se realizar um fisting completo. Epa! Quem falou em fisting?
Olhando ao redor, vejo que a dona da técnica é uma senhorinha que não despertaria qualquer suspeita nas aulas de catecismo da igreja mais próxima. Fisting, para quem não sabe, é a técnica de introduzir a mão, ou o punho (em inglês, fist) na vagina ou no ânus do parceiro. Algo que, sem dúvida, exige muita expertise dos praticantes para não acabar em algum pronto-socorro.
Olhando ao redor, finalmente identifico a Bela, mulher que comanda o clube Dominna, uma loira grande e impressionante, daquelas pessoas que se a gente não soubesse do que gosta, poderia até imaginar, fácil, fácil. Toda de preto, cabelos esvoaçantes, saltos altíssimos, ela circula pelo espaço com uma majestade que lhe é absolutamente natural, distribui beijos para os conhecidos - quase todos os que ali estão - e se senta para conversar com a repórter, que foi ali apresentada por um dos iniciados cujo nome delicadamente vamos omitir, a pedido, como de resto teremos que fazer com a maioria dos que aqui falam.
(Brasileiros, Fevereiro de 2008, “No Mundo dos Chicotinhos e das Algemas”)
No exemplo é apresentado um aspecto da corporalização enunciativa correspondente à disponibilização dos corpos e das ações do jornalista. A repórter, ao relatar o que viu e por onde andou coloca-se dentro das ações reportadas, utilizando, paralelamente dois focos narrativos, a partir da proposição de Friedman. O foco narrativo “I” as witness (“Eu” como testemunha) aparece, segundo Leite (2002:35), à
medida que apresenta um "eu" interno à narrativa, que vive os acontecimentos descritos como personagem secundária pode observar, desde dentro, os acontecimentos, e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil. A repórter, nessa matéria, narra a partir de dentro das cenas, presencia os acontecimentos e os conta como testemunho.
Ao mesmo tempo é possível identificar no trecho, de forma mais diluída, outro foco narrativo, o “I” as protagonist (“Eu” como protagonista), considerando que a repórter não só observa perifericamente os acontecimentos, testemunhando-os, como, por vezes, é o eixo condutor das ações.
Uma outra variação da corporalização enunciativa se dá quando a reportagem convoca o leitor para a vivência do jornalista. O repórter apresenta na enunciação descrições de suas ações no momento de captar as informações para o texto. A narração também ocorre em primeira pessoa, como nos exemplos a seguir:
Foram várias horas de conversa com o presidente Lula a bordo do Aerolula e no escritório particular do Palácio da Alvorada nos primeiros dias de dezembro. Aos 62 anos, Lula vive o melhor momento dos seus cinco anos de governo. Refratário a entrevistas no início do primeiro mandato, agora ele não pára mais de falar com jornalistas quase todo dia. Talvez porque agora tenha o que dizer, Lula não deixa pergunta sem resposta e até sugere outras, não se altera diante de questões mais delicadas e não mostra pressa para encerrar a conversa. "Eu vou bem porque o Brasil vai bem", resume ele logo no começo da entrevista, dando o tom de sua visão sempre otimista do País e do seu governo.
Destino das reformas, crises políticas, terceiro mandato, conquistas na economia e na área social, combate à corrupção, as obras de infra- estrutura, os planos até 2010, sucessão, a rotina do presidente entre os palácios do Planalto e da Alvorada, a prioridade da educação como marca do governo e uma adaptação do "toyotismo" como método, como ficou a vida familiar, a relação com a imprensa e com os amigos, o que vai fazer depois de deixar o governo no dia 1º de janeiro de 2011 - falamos um pouco de tudo.
(...)
A história desta entrevista começa em meados de novembro, ao final de um almoço no Palácio da Alvorada em que só estavam sua mulher, dona Marisa, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e o repórter. Quando já ia me despedir, foi o presidente quem sugeriu a pauta: "Todo mundo me pede entrevista, menos você. Não quer fazer uma entrevista comigo? Vamos fazer um balanço de tudo o que aconteceu até agora".
Com a agenda de fim de ano carregada de compromissos, ele mesmo encontrou uma brecha e marcou a nossa conversa para o Aerolula na viagem de volta a Brasília depois da cerimônia de inauguração da TV Digital em São Paulo, no primeiro domingo de dezembro. Como eu imaginava, a cabine presidencial estava lotada de importantes ministros e seria impossível fazer a entrevista ali, embora desta vez tenha levado até gravador.
"Vem comigo para casa. Você dorme lá e a gente pode conversar amanhã de manhã durante a minha caminhada", foi a proposta indecente que ele me fez quando chegamos a Brasília, sabendo das minhas dificuldades de locomoção. Era brincadeira. Ao chegar em casa, quer dizer, no Palácio da Alvorada, Marisa e Lula ainda viram um filme pela metade e as notícias do futebol (naquele domingo o Corinthians tinha sido rebaixado para a segunda divisão e o assunto foi evitado durante o vôo e em casa como se tivesse morrido alguém na família). À uma da manhã, o casal Silva se recolheu e às seis já estávamos todos de pé.
Depois da caminhada dos dois, dos exercícios na sala de aparelhos e do café-da-manhã à base só de frutas, finalmente liguei o gravador. A fita simplesmente não se mexia. Comecei a tomar nota como sempre fiz, o que não é fácil quando o entrevistado é o falante Lula, mas logo fui salvo pelo Carneirinho, um funcionário do Palácio da Alvorada que cuida do cinema e é pau para toda a obra. Acompanhado por dona Marisa e pela fox-terrier Mel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, meu velho amigo e ex-chefe, deu esta entrevista exclusiva para
Brasileiros.
(Brasileiros, Dezembro de 2007, Janeiro de 2008 “Conversas com Lula”)
Aqui também há elementos que remetem a um roteiro, mas diferentemente do que costuma ocorrer em matérias “de viagem”, o trecho relata uma vivência própria do jornalista, convocando o leitor para sua realidade. A imagem do repórter, enquanto enunciador, está constantemente presente na narrativa. Ele fala “de dentro”, a partir do que presenciou pessoalmente e não “de fora”, a partir somente do que soube, ou do que apurou. Essa presença do enunciador, afirmada pelo discurso seja por meio da narração em primeira pessoa, ou por meio de inferências pessoais no curso da enunciação, é uma marca das reportagens analisadas em Brasileiros. É possível identificar uma convocação do jornalista para sua vivência nos processos reportivos. Ele fala a respeito de como se deu o contato, a entrevista, os bastidores, trazendo para o leitor sua perspectiva diante do fato.
No exemplo abaixo acontece o mesmo. a corporalização não é evidente em toda matéria, apenas em trechos isolados como no que foi destacado.
Nem bem terminei de lhe explicar os motivos de nossa visita e nosso narrador desandou a falar, dispensando o repórter de fazer perguntas. "Espera aí, deixa terminar de contar esta parte, depois eu chego lá...", e assim se passaram horas e horas, com Mestre Cristóvão reconstruindo sua história e a do lugar, nos mínimos detalhes, desde a hora em que nasceu.
Mas vamos voltar aos tempos antigos para entender melhor o que está acontecendo agora (...)
(Brasileiros, Agosto de 2007, “Histórias de vida e de morte nos santuários ameaçados dos manguezais de Curuçá”)