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Planning and Estimation

Dans le document Saunder July 14, 2010 9:20 K11197˙Book (Page 47-56)

Brasileiros surge em um contexto de grandes limitações em relação aos processos

de elaboração das reportagens, a saber: pauta, captação, redação e edição. Essas limitações dão margem ao amadurecimento de diversas propostas estético-textuais alternativas, normalmente produzidas em suportes jornalísticos com periodicidade mais dilatada, como revistas semanais, mensais ou semestrais, dentre outras, e mesmo em suportes sem periodicidade, como no caso significativo dos livros-reportagem. Cada

limitação, todavia, é correspondente, segundo Edvaldo Pereira Lima, a uma liberdade

que dá ao jornalista a possibilidade de ultrapassar os limites da simples informação padronizada na fórmula do lead clássico. É necessário destacar que as liberdades apontadas por Lima foram elaboradas para aplicação nos livros-reportagem, no entanto, são aplicáveis também à proposta editorial de Brasileiros.

Liberdade Temática: as reportagens de Brasileiros não se prendem somente às temáticas que pautam os jornais diários nem aos ganchos com fatos atuais. Há uma margem maior para a abordagem de temas possivelmente despercebidos pela grande imprensa, estendendo assim, como diz Lima, seu poder de comunicação.

Liberdade de Angulação: a neutralidade defendida na imprensa regular é substituída pela presença marcante de um autor. Apesar de haver um vínculo com a linha editorial da publicação, o maior esforço é feito no sentido de “estabelecer uma ligação estimuladora com seu leitor, valendo-se, para isso, os recursos que achar mais convenientes, escapando das fórmulas institucionalizadas das redações”. (LIMA, 2004:83)

Liberdade de Fontes: Sem o ritmo compulsivo da periodicidade dos diários, a revista tem liberdade para buscar outras fontes, além das legitimadas, ou oficiais. Dessa forma, é marcante o aspecto polifônico nas construções narrativas, dedicando especial atenção a pessoas comuns inseridas nas culturas, assuntos, ou realidade que se pretende reportar.

Liberdade Temporal: Ao invés de atualidade restrita, Brasileiros segue, na proposição das pautas, o critério aberto da contemporaneidade, tal como proposto por Dulcília Buitoni. Segunda a autora, a contemporaneidade pode abranger desde a formação de uma tendência cultural que já dura meio século ou um fato que aconteceu

ontem. “Contudo, não é por ter acontecido ontem, e sim por estar relacionado com uma série de contextos.” (BUITONI, 1986:29,30) Essa liberdade temporal permite, então, o desenvolvimento de ferramentas que necessariamente exigem mais tempo em suas elaborações.

Liberdade no Eixo de Abordagem: Parafraseando Lima ao tratar do livro- reportagem, a revista Brasileiros “não necessita necessariamente girar em torno da factualidade, do acontecimento. Pode vislumbrar um horizonte mais elevado, penetrando na situação, ou nas questões mais duradoras que compõem um terreno das linhas de força que determinam os acontecimentos”. (LIMA, 2004:85)

Liberdade de Propósito: O conjunto de fatores já apontados permite que a revista aspire por um alvo mais elevado do que a informação anestesiadora que a reportagem

comum em geral apresenta. Assim o propósito das reportagens pode, por vezes, não se

prender estritamente ao fato, mas utilizá-lo para provocações argumentativas e narrativas mais elaboradas do ponto de vista técnico e estético.

Além das limitações relacionadas a: temática, angulação, fontes, tempo, abordagem e propósito; o jornalismo cotidiano padece, ainda, de acordo com Lima, de outro mal: “o anacronismo de sua linguagem verbal, nas reportagens de profundidade. Imbricada a isso está a excessiva prisão do texto à informação perdendo-se o alcance de um tratamento mais enriquecedor, de uma exploração que traga, ao leitor, gratificação superior.” (LIMA, 2004:135)

Diante desse contexto de limitações e liberdades possíveis, a análise identificará os elementos estético-textuais, encontrados nas reportagens selecionadas, que fazem de

Brasileiros uma publicação alternativa às demais publicações componentes da imprensa

regular diária.

7.1. Categorias de análise

A linha editorial da revista Brasileiros não levanta a bandeira de um jornalismo literário, apesar de utilizar ferramentas estilísticas importadas da literatura – como o uso da descrição de cenas e personagens –; nem indica a pretensão de inaugurar um “novo” jornalismo, ainda que suas principais reportagens indiquem um rompimento estético com alguns padrões do fazer jornalístico convencionado na grande mídia brasileira contemporânea – como o lead, ou a pirâmide invertida.

Mesmo trabalhando tanto com técnicas alternativas, como com maneiras convencionais de reportagem, a publicação demonstra uma forte atenção à estética

narrativa dos textos, especialmente nas principais reportagens. A narrativa se baliza por elementos factuais informativos e elementos alegóricos textuais. O mediador jornalista não assume na publicação somente a função de apurador de dados, como se os acontecimentos reportados fossem passíveis de serem “transmitidos” sem interferências subjetivas do repórter. Em Brasileiros o jornalista é um mediador autor. Sem abrir mão da busca pela precisão na apuração dos fatos e dados que cercam o objeto reportado, o jornalista tem liberdade editorial para presenciar o acontecimento, interagir caso julgue necessário e, depois, tecer um novo discurso, uma nova narrativa filtrada por suas percepções.

É possível identificar dois elementos, em uma análise ampla, que marcam a

peculiaridade de Brasileiros; duas liberdades direcionam a publicação. A primeira é a

liberdade autoral que o jornalista tem nas realidades que medeia. O mediador autor

transita nos cenários reportados com olhos e percepção humana atentos. Esta liberdade autoral não exime a revista de uma orientação editorial hierárquica em que o texto é analisado por um editor responsável; no entanto, a margem flexível para que se crie livremente é responsável por uma mediação profunda das realidades e “histórias” que se propõe representar. A segunda liberdade diz respeito ao universo de construção estética

das narrativas. O repórter pode utilizar diversos recursos estilísticos a fim ilustrar o

objeto textualmente, recorrendo, inclusive a elementos ficcionais para isso.

Estas duas características – liberdade autoral e estética – ajudam a decifrar a identidade que a revista construiu em seu pouco tempo de existência. Outras características, no entanto, precisam ser identificadas para compreendermos de maneira mais objetiva o código narrativo de Brasileiros.

A diversidade que envolve a produção das narrativas, a variedade de colaboradores que participam de cada edição e as singularidades que envolvem as reportagens, tornam complexa uma solução de análise totalizante da publicação. Foi necessário, então, que alguns filtros fossem estabelecidos para viabilizar a pesquisa. Foram selecionadas as primeiras 17 edições, que compreende o período de julho de 2007 a dezembro de 2008, tempo em que a revista entrou no mercado nacional, sofreu algumas adaptações e estabeleceu seu projeto editorial. O foco da pesquisa recai sobre as reportagens jornalísticas, gênero que abre maior espaço para a narrativa que pretendemos estudar. De cada edição foram selecionadas a reportagem principal com destaque na capa e outras (grandes) reportagens que contivessem os elementos estético- textuais interessantes a esta pesquisa, sob a condição de terem sido escritas por

jornalistas, haja vista que é grande a participação de colaboradores de outras áreas que escrevem para a publicação

As categorias utilizadas para analisar a estética autoral da narrativa de

Brasileiros foram as seguintes:

1) Subnarrativas dos personagens:

No decorrer das narrativas abrem-se grandes espaços para que os personagens contem livremente suas estórias. Isto ocorre frequentemente através de citações diretas, abrindo aspas, mas também na forma de diálogos abertos por travessões entre dois ou mais personagens de uma narrativa. Muitas vezes, ao invés do repórter mediar informações, ele permite que o próprio personagem o faça, preservando a identidade cultural da representação social, inclusive na contemplação das linguagens regionais, sotaques e expressões próprias.

A hipótese desenvolvida por Bakhtin de que “o homem no romance é essencialmente o homem que fala” (BAKHTIN, 1993: 134, 135), se aplica ao jornalismo proposto por Brasileiros. Ainda em paralelo à teoria narrativa de Bakhtin, o personagem que fala abertamente nas narrativas da revista, assim como o sujeito do romance, é um

homem essencialmente social, historicamente concreto e definido e seu discurso é uma linguagem social (ainda que em embrião), e não um dialeto individual

As subnarrativas dos personagens também obedecem à função de quebrar ou dar ritmo à narrativa. Os personagens contam estórias variadas, auxiliares, que, nem sempre, se relacionam diretamente com o assunto tratado. É um recurso estético que adorna a reportagem trazendo para o texto a participação efetiva do personagem e seu ponto de vista diante dos temas tratados.

2) Autorreferência:

Uma das marcas autorais de Brasileiros é a autorreferência proposta pela linha editorial e, consequentemente, praticada pelos repórteres. Além da condução da narrativa tradicional (a estrutura básica de começo, meio e fim), que carrega o traço da criatividade autoral do mediador, sua autorreferência, no texto, fica evidente em dois momentos: no uso da conjugação verbal em primeira pessoa (plural e singular) que pode aparecer tanto em todo o texto, quanto em episódios isolados no decorrer da reportagem; e no uso de interferências pessoais em que, sobre determinado assunto (no decorrer da reportagem), o repórter faz sua própria leitura, oferece seu ponto de vista, seja em adjetivações, comparações ou construções narrativas diversas que indiquem sua presença deliberada na narrativa.

Esta ferramenta aparece em diversas pautas, todavia mais frequentemente em matérias do tipo “viagem”, em que o repórter escreve uma espécie de roteiro de bordo com suas percepções sobre as cenas e cenários em que esteve.

3) Descrição Intimista:

Nos momentos, ou cenas descritivas, a ação narrada é pausada momentaneamente permitindo uma ilustração detalhada de características físicas e particulares de pessoas, ambientes e/ou objetos. Esta ferramenta, relacionada à estética do texto, aproxima o leitor das cenas narradas através de três subdivisões: Descrição

Indicial, quando cita objetivamente os elementos narrativos, utilizada normalmente na

descrição de objetos, cenários imóveis e na sugestão visual de movimento (congelado).

Descrição qualitativa, recorre a aspectos subjetivos da cena, com maior participação

criativa do mediador-autor que ultrapassa a barreira da não-ficção a fim de fornecer subsídios simbólicos que propõem capturar a essência das situações. Este tipo de descrição é bastante utilizado no momento de traçar o perfil psicológico dos personagens condutores das reportagens. Descrição episódica, utilizada como interferência na dinâmica da reportagem. É um momento em que o autor deixa o tema abordado de lado, por um ou dois parágrafos, a fim de descrever um episódio que aconteceu processo de construção da reportagem. Exerce uma função auto-reflexiva na medida em que o texto volta sua atenção para si mesmo, para os bastidores da reportagem. Neste último tipo de descrição é fundamental a presença do autor, representado como personagem em seu próprio texto.

4) Cenas de apoio:

As principais reportagens pautam o desenvolvimento argumentativo a partir de cenas narrativas em que apresentam os personagens protagonistas e os ambientes onde se desenvolvem as tramas narrativas. Estas cenas podem aparecer na abertura das reportagens com acentuada preocupação estética e em ilhas no decorrer do texto. As reportagens, neste sentido, são moldadas pela narração de cenas com margem para intervenção criativa do autor e é também o momento em que ocorre maior aproximação da estética textual literária. Este mesmo recurso é elencado por Tom Wolfe como básico na construção das narrativas do New Journalism de 1960. O autor atribui parte do sucesso do movimento à capacidade que os repórteres tinham de testemunhar de fato as cenas da vida de outras pessoas, no momento em que ocorriam. A composição cenográfica é importada ao jornalismo praticado por Brasileiros.

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