Chapter 2: Getting Started with Regular Expressions
2.5 Modifiers
2.5.2 Repetition Modifiers
“O tempo contado por Deus não pode ser desperdiçado”, mesmo porque é pago pelos homens. A utilização da força de trabalho deverá ser maximizada, mas não com a conotação de erro moral e de desonestidade econômica como a anterior. Nesse, como em todos os outros dispositivos, a disciplina organiza uma economia positiva, onde importa extrair do tempo do trabalhador “[...] sempre mais instantes disponíveis e de cada instante sempre mais forças úteis” (FOUCAULT, 2003a, p. 131), sendo significativa a necessidade de se intensificar o uso do mínimo instante, da mínima parcela do tempo da força de trabalho, como se fosse inesgotável tanto o tempo quanto a força, a potência de vida. Ou mesmo busca uma organização dos
processos de trabalho cada vez mais detalhados, como se pudesse obter um ponto ideal em que o máximo de rapidez na tarefa encontrasse a máxima eficiência.
Quanto mais decompõe o tempo, quanto mais se multiplicam suas subdivisões, quanto melhor o desarticulamos desdobrando seus elementos internos sob um olhar que os controla, mais então pode-se acelerar uma operação, ou pelo menos regulá-la segundo um rendimento ótimo de velocidade; daí essa regulamentação do tempo da ação que foi tão importante no exército e que devia sê-lo para toda a tecnologia da atividade humana [...] (FOUCAULT, 2002, p. 131)
O Jair - Despachante da área de redes - diz que o “ideal é a pessoa que tome decisões rápidas, sem errar. Tem que ter agilidade, conhecimento e não pode desesperar”. O Ramalho – Coordenador da inspeção - expressou a amplitude do detalhamento do tempo e sua utilização eficiente quando relatou que
Esses dias o presidente da empresa me mandou uma comunicação questionando do porque das minhas demoras nas respostas [...] e não é só comigo, imagine que paranóia deve ser olhar o tempo das comunicações internas, apesar de que, o sistema as destaca em cor vermelha...sempre que respondemos atrasados o sistema destaca em vermelho para facilitar quem visualiza os encaminhamentos, e aí fica fácil saber quem demorou, quem respondeu rápido, qual conteúdo. O problema é que as minhas estão, na maioria das vezes, atrasadas, já desisti, não consigo, mesmo que eu queira, não consigo pôr em dia [...] raramente saio da empresa antes das nove da noite, minha família já até se acostumou[...]
Mas não somente na decomposição mínima do tempo, a exaustão está presente na decomposição dos processos: com a intensificação da utilização do tempo, fazendo acrescentar tarefas ao trabalhador e, com a organização temporal estabelecendo a não ociosidade, como na seqüência da fala deste mesmo trabalhador:
Há! Agora também tenho que fazer os relatórios mensais que englobam informações financeiras e de produtividade das empreiteiras que estão sob nossa responsabilidade [...]
Outra linha assume a forma que Djavan – Analista de georeferenciamento - onde relata verbalizando sua experiência exaustiva quando inquirido sobre as conseqüências da redução do quadro de trabalhadores.
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[...] não tem gente suficiente para fazer tudo, aí a gente olha para o que tem pra fazer e desiste de tirar folga [outra forma de recebimento da hora extra], depois vai piorar mais ainda, o serviço vai atrasar mais e já sabe, mais cobrança, mais atrasos e estresse. Olha a pilha! [se referindo ao volume de papel], desanima, não![...] É todo dia assim![...] Parece que sou impotente diante de tanta tarefa, quanto mais faço mais aparece [...] Este serviço é rotineiro e cansativo, às vezes fico em frente ao computador o dia todo, lançando dados, conferindo, informando, alterando, e aí tenho que dar uma volta e não consigo, faço fora do sistema só para sair daqui. Deveríamos trabalhar só seis horas, porque o serviço é direto em computador.
Para os trabalhadores do Centro de Operações, não é muito diferente, mas há ingredientes externos: precisam gerir sua atenção no exercício de sua atividade e também em relação aos ruídos próprios da atividade de outros, das quais por vezes dependem para se obterem a eficiência exigida. Precisam gerir certa postura normatizada (NOR-OPE 002) no local de trabalho, que estabelece a forma de comunicação verbal, na qual está incluído o tom de voz, dos gestos não representando desespero, e mesmo de cordialidade na comunicação com os clientes. Precisam gerir a ansiedade causada pelo controle constante de suas ações e falas, assim como daquela gerada pelas possíveis conseqüências de falhas ou erros cometidos, pois toda comunicação que utilize os equipamentos aos quais se articulam (computador, telefones e rádio) é gravada. Precisam gerir suas decisões, pois têm influência direta não apenas na segurança de equipamentos e instalações, mas também de vidas e instituições que se ocupam da vida, como hospitais, bombeiros, presídios. Precisam atentar para as vidas de outros trabalhadores que estão em atividades externas, vinculadas ou não à empresa. Isso tudo, em meio à exigência por uma rapidez e eficiência na tomada de decisão e à exigência da manutenção do equilíbrio emocional.
De acordo com Fouilleul e Matheron, pesquisados por Schwartz (2005), quando se configuram escolhas extremamente penosas ao trabalhador, nessa gestão cotidiana e permanente em sua atividade, os caminhos possíveis tornam-se, muitas vezes, o absenteísmo, o turnover ou o próprio pedido de demissão. O Sindes - sindicato representativo dos trabalhadores na empresa - negligencia a busca de informações quanto ao movimento que leva os trabalhadores a doenças como ao alcoolismo, a depressão ou qualquer DORT, uma vez que não há estudos no Sindes sobre essas patologias.
Nesse movimento de análise, ao não reduzir o trabalho a algo simples, mas sim, considerando-o sendo gestão do trabalhador no exercício da atividade, Schwartz (2005) defende que é preciso considerar as dramáticas do uso de si, pois a partir disso, será possível compreender que a saúde relacionada ao trabalho não é apenas uma questão individual e sim de saúde coletiva. Mas as questões como as exigências de rapidez, de resultado, de flexibilização das relações de trabalho, aliadas as condições inadequadas para a realização das atividades, resultam de práticas que partem de hegemônicas receitas de eficiência, produtividade e competitividade.
Ao utilizar essa técnica de sujeição do trabalhador, objetiva-se o sujeito substituindo lentamente o corpo mecânico duradouro, composto de sólido e movimentos por um objeto que é o corpo natural, portador de forças e sede de algo instável;”[...]é o corpo suscetível de operações específicas, que têm sua ordem, seu tempo, suas condições internas, seus elementos constituintes”. Novas formas de saber são exercitadas em um corpo que se torna alvo de mecanismos de poder. Mas “[...]no exercício que lhe é imposto e o qual resiste, o corpo desenha suas correlações essenciais e rejeita espontaneamente o incompatível” (FOUCAULT, 2003a,p.132).
O exercício do controle das atividades do trabalhador, como dispositivo das disciplinas nas minúcias do horário; na determinação da cadência na elaboração temporal das atividades; na correlação do corpo e dos gestos buscando rapidez e eficiência; na articulação do corpo a equipamentos derivados de inovadoras tecnologias e, por fim, na exposição exaustiva desse corpo a estes elementos constitui o segundo ato dos dispositivos de poder presentes nas práticas de gestão em recursos humanos na Escelsa.