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Relations sociales ou relations de pouvoir

Dans le document LA VOIX ET LE REGARD (Page 78-81)

A região demarcada do Douro é um dos maiores tesouros de Portugal. Considerada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, desde 2001, é desde tempos imemoriais “musa inspiradora” de vários poetas e artistas. Teixeira de Pascoais, Jaime Cortesão, Eça de Queirós, Alves Redol, João de Araújo Correia, Miguel Torga, Manuel Mendes, Raul Brandão, Agustina Bessa Luís, Almeida Garrett, Sant’Anna Dionísio, estão entre os inúmeros escritores que utilizaram o Douro como palco de diversas narrativas literárias.

Douro é, como diz Miguel Torga, região e rio. É um património de excelência, uma paisagem humanizada monumental, uma história singular ligada em grande parte às vicissitudes da viticultura, num ambiente humano, modos de vida, saberes, tradições e relações centradas na vinha e no vinho. Primeira região vitícola demarcada e regulamentada em todo o mundo, a região de Vinho do Porto é uma paisagem histórica, com um património cultural coletivo.

No Douro, a natureza foi pródiga e madrasta; ofereceu o sol e o xisto, o rio e as serras protetoras, no entanto também deu o cascalho, as encostas, a rudeza, a solidão. No Douro, tudo é difícil, tudo exige esforço sobre-humano. Uma das mais impressionantes paisagens rurais construídas, diz Orlando Ribeiro. Mas também um calvário, como sugere Miguel Torga, um rio que começa em pedra e água e acaba em pedra e água, “um drama feito de carne e sangue”.

Ao longo dos tempos, para fazer o seu vinho, os homens do Douro lutaram entre si e contra os outros, mas também lutaram contra a natureza: das encostas fizeram degraus e escadarias; da rocha, terra e jardins; do calor e da secura, vinho. Lutaram contra a doença, a filoxera das videiras e o paludismo dos homens, lutam contra a geada e o granizo, a injustiça e o desprezo.

Os socalcos do Douro que produzem este néctar tão apreciado em todo o mundo são fruto do trabalho e do sonho do Homem, pois como tão bem António Gedeão disse “o sonho comanda a vida” e o Homem duriense ousou sonhar e construiu o “Vale do Douro”, um tesouro completo.

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Geografia

Quase de repente, o prolongado desfiladeiro abre-se em majestoso vale. É o começo dos enormes anfiteatros que no Inverno parecem ciclópicos coliseus vazios, olhando o céu; na Primavera, se convertem em gigantesca escadaria coberta de gomos tenros; no Verão, num verdadeiro paraíso de deus Baco; e, no Outono, cortado de laivos de sanguínea, parece evocar o sacrifício mítico de Zagreus…” (Dionísio 1973: 30-21)

A Região Demarcada do Douro (RDD) estende-se ao longo do vale do Rio Douro e inúmeros afluentes, desde Barqueiros (Mesão Frio) até Barca d’Alva, numa área de aproximadamente de 250.000 hectares e abrangendo concelhos dos distritos de Vila Real, Viseu, Bragança e Guarda.3

A RDD divide-se em três sub-regiões distintas (não só por fatores climáticos como também socioeconómicos):

- O Baixo-Corgo – aproximadamente 51% da área ocupada por vinha, é toda a margem direita do Rio Douro, desde Barqueiros ao Rio Corgo (Régua), e desde a freguesia de Barrô até ao Rio Temi-Lobos, perto de Armamar (margem esquerda);

- O Cima-Corgo – aproximadamente 36% do território da RDD, apoia-se na anterior e vai até ao meridiano que passa no Cachão da Valeira;

- O Douro Superior – cerca de 13% da região, apoia-se na anterior e vai até à fronteira espanhola.

Figura 3 – Sub Regiões da RDD (fonte: www.ivdp.pt )

30 A RDD está rodeada de montanhas que lhe dão características mesológicas e climáticas, que serão descritas abaixo.

Os solos, na sua globalidade, são derivados de xistos do complexo xisto-grauváquico ante-ordovício, com algumas formações geológicas de natureza granítica. Os solos da região dividem-se, assim, em dois grupos fundamentais:

a) Solos muito marcados pela influência da ação do Homem, devido a trabalhos de arroteamento e terraceamento que antecede a plantação da vinha, através de mobilizações profundas que forçam a desagregação da rocha e consequentemente aprofundam o perfil e modifica a morfologia original (acrescida da incorporação de fertilizantes);

b) Grupo constituído por unidades onde a ação humana foi mais suave, onde o solo conservou o perfil original e que só tem modificações na camada superficial. Distinguem-se três unidades principais: leptossolos (solo dominante na área não ocupada, cuja característica principal é a presença de rocha dura a menos de 30 cm de profundidade), cambiossolos (solo com espessura superior a 30 cm) e fluvissolos (solos derivados de depósitos aluvionares recentes, localizados em superfícies de deposição de sedimentos)

Figura 4 – Mapa litológico da RDD (apresentando a domínio do complexo xixto-grauvaquico a verde) (fonte:

www.ivdp.pt )

Pode-se distinguir dois tipos de armação: os socalcos pré-filoxera e pós-filoxera (a sua utilização está marcada pela ruína provocada pela filoxera na região).

31 Antes do aparecimento da filoxera (até meados do século XIX), o solo era sustentado por muros baixos e pedra-seca de construção tosca, formando assim terraços planos e estreitos e cujo desenho seguia as curvas de nível.

O solo disponível tinha uma a duas fiadas de vinha de disponibilidade, por vezes verificando-se a utilização dos muros para plantio da vinha, abrindo “pilheiros”. Esta ocupação permitia a ocupação do solo com algumas culturas hortícolas e de cereais, mantendo o solo arável.

Neste tipo de pré-filoxera incluem-se a maior parte dos “mortórios”, vinhas mortas abandonadas devido à falta de meios dos seus proprietários para as replantar após a destruição da filoxera. Alguns ainda foram aproveitados para a plantação de outras culturas, como a oliveira, e outros foram recolonizados com vegetação arbórea e arbustiva autóctone.

Figura 5 – Mortório no Douro (fonte: cidadeinfinita.blogspot.com)

A localização da região confere ao Douro uma certa individualidade. As serras do Marão e de Montemuro servem como barreira à penetração dos ventos húmidos de oeste. Estando situada em vales profundos protegidos por montanhas, região é conhecida por ter invernos muito frios e verões muito quentes e secos.

32 A precipitação é distribuída de forma pouco regular, variando com regularidade ao longo do ano. Os valores mais altos registam-se em dezembro e em janeiro, e em alguns locais em março, com valores entre 50,6 mm (no Douro Superior) e 204,3 mm (Baixo Corgo). Os valores mais baixos estão registados em julho e agosto, com valores registados entre 6,9 mm (Cima Corgo) e 16,2 mm (Baixo Corgo). No que diz respeito a valores anuais, podem variar entre 1200 mm (Fontes) e 380 mm (Barca d’Alva) e a quantidade de precipitação tende a decrescer de Barqueiros até à fronteira espanhola.

Figura 6 – Valores médios anuais de precipitação (fonte: www.ivdp.pt)

Um outro fator fisiográfico de grande importância na caracterização do clima de qualquer região é a exposição ao sol e/ou a temperatura. A região do Douro, como dito anteriormente, é demarcada por montanhas que lhe dá características mesológicas, mas também pode afetar a temperatura e a exposição ao sol.

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Gráfico 1 – Amplitudes térmicas anuais (fonte: www.ivdp.pt)

A margem norte do rio é influenciada pelos ventos secos do sul e a margem sul é mais exposta aos ventos frios e húmidos do norte e a uma menor insolação.

A temperatura do ar é mais alta nos locais expostos a sul do que nos locais expostos a norte. As temperaturas médias anuais variam entre os 11,8ºC e os 16,5ºC.

Os valores máximos das temperaturas médias anuais distribuem-se ao longo do rio Douro e dos seus afluentes, principalmente os da margem direita (rio Tua e ribeira da Vilariça).

No que diz respeito às amplitudes térmicas diurnas e anuais, é possível verificar que o maior valor é em Barca d’Alva e o valor mais baixo é em Fontelo. Este facto é explicado pela distância ao mar.

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