2.4. METHODES DE CALCUL D'IMPACT ENVIRONNEMENTAL
2.4.2. METHODE DE REFERENCE : ReCiPe
2.4.2.2. REGROUPEMENT D'AUTRES METHODES DANS RECIPE
No estudo da antropologia girardiana percebe-se que a mimesis é um fenômeno que está além da imitação por ser interior e inconsciente e isso se reflete no tratamento dispensado a vítima. Sobre isso escreve Girard:
Se tal inconsciência, que está profundamente unida à sua crença sincera na culpabilidade de sua vítima, os perseguidores não deixariam encerrar na representação persecutória. Existe aí uma prisão da qual eles não vêem os muros, uma servidão tanto mais total por se tomar como liberdade, uma cegueira que se crê perspicácia.251
Por isso, em Girard se compreende a genética sobre relações humanas, que leva em conta tanto a constituição da pessoa quanto sua estrutura social. Algo que estava oculto por muitos séculos foi revelado nos Evangelhos onde consta a história da Paixão e da ressurreição de Cristo. A inocência da vítima é trazida a tona por Jesus que não ocupa o lugar de bode expiatório, mas entrega
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Ibid., p. 229. 251
a si mesmo para ser morto revelando as forças camufladas pela violência, desmistificando a noção do bom selvagem e o que os colocou em marcha independentemente de sua índole boa ou má.
Pelo conhecimento da ciência ou pela fé nos escritos bíblicos é possível conhecermos um Deus que é misericordioso e foi morto para que reconheçamos o quão violentos e vingativos nós somos. Assim, se faz necessário, na sua Paixão, perdoar aqueles que estão reunidos para fazê-lo bode expiatório.
Eles não sabem o que fazem. É exatamente por isso que é preciso perdoar-lhes. Não é o complexo de perseguição que dita tais propósitos. E também não é o desejo de escamotear o horror das violências reais. Da passagem, temos a primeira definição do inconsciente na história humana, definição da qual todas as outras decorrem e que nunca fazem mais que enfraquecer.252
Ao nos conscientizarmos quem nós somos e quem Deus é, podemos aceitar o novum da Paixão e a partir de então, temos capacidade para perdoar e imitarmos o modelo da não vingança que é sustentado pela ressurreição e, se faz presente em nós através do Espírito. Se negar ou não aceitar o proposto por Jesus significa permanecer na mimesis violenta. A culpa sem superação tem elementos altamente destrutivos, ao mesmo tempo ela pode levar ao reconhecimento de si e a necessidade de superação. Culpa sem superação é sofrimento moral e, dependendo de seu desenvolvimento, leva ao desespero e autodestruição. Por outro lado Cristo vem para nos capacitar, pelo novum, a superar a culpa. Somente quando a superamos de forma, pessoal somos capazes de decidir perdoar.
Assim, podemos fazer distinção entre a decisão de perdoar e a fraqueza psicológica. Isso nos remete a muitos psicanalistas quando defendem que a forma de educação das crianças praticada pelos cristãos colabora com a neurose. Sobre isso escreve o psiquiatra suíço Tournier:
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Todos os sintomas dos neuróticos, dizem eles, tudo o que chamamos de “reações fracas” obedece a uma repressão da agressividade natural, do desejo de viver, da necessidade de crescimento das pessoas, de sua libido. A coação social, a moral tradicional e particularmente a igreja cristã são os responsáveis por essa repressão.253
Não é um mal que atinge somente os religiosos, mas também outros que foram vitimados por uma educação rígida apoiada no medo do castigo do sobrenatural que funcionava, e ainda funciona, como um aliado à educação. O não revidar, o calar-se, o baixar a cabeça, o deixar para lá sempre fizeram parte dessa educação. Para isso, esses educadores se apóiam na religião. Claro que existe nos Evangelhos um chamado a não resistência, mas é difícil negar que exista também uma doutrina personalista do homem. Jesus, na purificação do templo (Mateus 21.12,13), mesmo sem agredir ninguém soube manejar o chicote. Já no Getsêmani, ao aceitar a cruz, o fez porque era a vontade de Deus e não porque não se atrevesse a se defender.
Cristo, ao se deixar vitimar, imita a Deus e isso não é demonstração de derrota e sim de vitória espiritual, vitória sobre a mimese da violência e sobre as forças ocultas camufladas. Não é submissão aos homens e sim um ato de valor. É preciso entender que ao perdoamos não estamos agindo por medo, mas seguindo o exemplo de um Arquimodelo. Aí, podemos perceber a diferença entre os que não agem por covardia e dos que procuram imitar o modelo da não violência.
Existe uma oposição sobre a pessoa forte que pode revidar por possuir recursos sejam financeiros, físicos, familiares etc., e decidi perdoar e não se vingar e, aquele que não se atreve a vingar-se porque tem medo e cede a fraqueza. No primeiro caso se trata de domínio próprio, de decisão, no segundo, de derrota psicológica.
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Paulo, escrevendo aos Gálatas 5.19-23, compara as obras da carne e o fruto do Espírito. Entre outras coisas, diz ele que as obras da carne são: emulações, iras, pelejas, dissensões, invejas e homicídios. Para barrar essas coisas é preciso ter Lei. Já o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio (v. 22) e conclui dizendo que para estas coisas não há Lei (v.23). Logo, a luz da mesma revelação da Paixão e ressurreição, alguém que tinha condição de defender-se e que estava preparado para fazê-lo escuta a voz de Jesus chamando-o a perdoar, enquanto que outro que estava pronto a ceder por covardia escuta o chamado divino a uma inquebrantável firmeza.
O cristianismo é uma religião de encarnação e a mensagem alvissareira do Evangelho não é somente uma mensagem espiritual e boa nova para uma vida após a morte. Certamente diz respeito a nosso destino futuro, mas também à nossa vida terrena. Esse poder iluminador do Evangelho é capaz de libertar o homem do mecanismo mimético da violência e incluí-lo na mimese do amor. O Evangelho não traz unicamente uma revelação sobre o perdão e a apresentação de um modelo a ser seguido, mas ainda a vitória decisiva sobre o mecanismo. Vitória esta tão decisiva que liberta também da tentação de voltar ao erro que fora perdoado. O sujeito ao seguir o modelo do amor, encarnado em Cristo, é capaz de perdoar, perdoar, perdoar.