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DEFINITION DU « VECTEUR DE COHERENCE »

3.5. CONSTRUCTION DE LA BASE DE DONNEES

3.5.1. DEFINITION DU « VECTEUR DE COHERENCE »

Em seu primeiro trabalho Mensonge romantique et vérité romanesque (1961), René Girard trata da passagem do hominídeo para a cultura moderna, o autor trabalha a relação entre a etologia e a etnologia. Girard faz um recuo anterior ao humano, pensando a passagem do hominídeo à cultura por uma diferença fundamental na gênese do desejo mimético entre animais e seres humanos. Nos animais o objeto é sempre o centro. Já no ser humano, o desejo inicialmente é o objeto, mas depois, o desejo se desloca do objeto (apagamento do objeto) e se fixa no ser, o que possibilita a crise mimética.

A primeira é a leitura não sacrificial, ou seja, proteger, desejar radicalizar um espaço de não violência, imitar a Cristo, dar a outra face, abrir mão da vingança. Trata-se da leitura não sacrificial do Novo Testamento na qual o cristianismo é proporcionador desse espaço. Outra leitura é a sacrificial da paixão. O sacrifício possibilita um elo entre as outras religiões e o cristianismo que, como vimos, não é baseado no sacrifício. Permite-nos compreender a descoberta radical do ponto de vista antropológico do cristianismo. O conceito do bode expiatório só se pode saber a partir da vítima como inocente e o cristianismo é o único que se coloca do lado da vítima.

Ao se colocar do lado da vítima, o cristianismo pretende demonstrar, através de Jesus, como devemos desejar. O desejo pode ser entendido como o envolvimento de todo o nosso ser para obter algo, que para nós, fará bem. Pode nascer conosco, isto é natural ou advir mediante reflexão depois de pensarmos nos prós e contras. No desejo está envolvido o conhecimento, revelando aspecto que torna o objeto desejável e a imaginação que embeleza-o fazendo-o mais desejável. Dessa forma, os desejos estruturam o Eu.

O campo privilegiado para tratar do desejo é a oração283. Em Mateus 6. 1ss lemos que a oração, a esmola, jejum eram os pilares da religião judaica, isso pode ser entendido pela leitura de Mateus 6. 1ss. O Eu que é basicamente racional e os desejos não precisam ser expressos para que sejam reais. O Eu é espiritual, porém não é religioso. Sabemos que esse Eu é formado por gestos, linguagem, memória. Não é o Eu que tem os desejos, são os desejos que o mantém. Percebe-se que não somos somente influenciados, mas também somos dirigidos. Por isso, ao pedirmos em oração somos impulsionados pelo Espírito a desejar o bem assumindo uma significação moral quando endossado pela vontade livre que não domina o sentir, mas atua no consentir possibilitando sua realização. Sobre isso escreve Susin:

Uma antropologia do desejo mimético, muito aproxima da psicanálise lacaniana, onde a falta provoca o desejo e lança em direção ao outro e seu desejo, mas de forma tão dramática, numa confusão e fusão de desejos e numa assimilação tal que nenhuma instância humana consegue controlar, sobretudo tratando-se de grupos humanos e não somente de indivíduos.284

Esta oração do Pai Nosso, numa visão girardiana, parte do princípio de que todos desejamos de acordo com o desejo do outro. Em Romanos 8.27, Paulo descreve como o Espírito age quando oramos. O homem não sabe o que desejar, mas o Espírito traz os desejos que são de Deus. Ele é um “Outro” que deseja

283

No ano de 2011, James Alison ministrou um curso em 12 aulas com o título: A vítima que

perdoa. Em uma de suas aulas, o teólogo inglês falou sobre A Oração: Um estudo de caso em antropologia mimética. O texto foi traduzido para o português por Roldano Giuntoli, mas ainda não

está disponível nas livrarias. 284

dentro de nós de modo que somos trazidos à nossa geração indo de encontro aos cultos animistas que estão em rivalidade e fazendo um deslocamento, temporariamente, da personalidade. O Espírito Santo nos orienta e nos ensina a desejar segundo Ele. Se o mal começou na terra “no relacionamento social, como no mimetismo de Caim e Abel, e sobe perigosamente aos céus, vindo depois dos céus a terra na forma de ira a ser aplacada e benefício que se alcança com a propiciação e o favor divino”.285

O Espírito Santo não está em rivalidade e nos possui sem deslocar a nossa personalidade. O Espírito age de dentro para fora, diferentemente dos cultos animistas que a “possessão” é de fora para dentro. O Espírito Santo age por meio da alteridade que faz mudanças internas e não pela automudança. Leva a intencionalidade da consciência do sujeito, presente em suas ações, e dessa forma ele pode dar significado as suas idéias e ao seu modo de perdoar e de aceitar o perdão. Reconhece-se que não somos uma realidade acabada e que somos impulsionados pelo outro, mas a questão é qual é o outro que nos impulsiona. Enquanto que no possuir existe algo de violência, o Espírito Santo habita sem rivalidade produzindo em nós o prazer de obedecer. “Não é uma atitude masoquista, mas uma prática de esperança crente e amante”.286

Jesus, em Mateus 6, nos ensina padrões de desejos. Somos todos pessoas carentes de aprovação, mas de quem vem esta aprovação? Se agimos de maneira a apenas para receber aprovação do outro social ganharemos muito pouco e deixaremos de usufruir o que o Criador tem de precioso para nós. Devemos receber aprovação do outro “Outro” que é diferente do outro social. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará (v.6).

285

Ibid., p. 382 286

Em Lucas 18.1ss, Jesus propõe outra parábola referente o dever de orar e nunca desfalecer. Nesta palavra mostra um juiz que nem a Deus temia, nem respeitava os homens. Esse juiz não era impulsionado nem pelo outro social, nem pelo outro “Outro”. Era como um tipo “não mimético” e disso ele estava consciente (v.4,5). A figura do juiz pode ser representada por qualquer um de nós, mas Jesus esclarece que o imaginável pode se tornar desejável. Imaginação e desejo se alimentam; cada vez que imaginamos e nos realizamos, cada vez mais desejamos. Assim, quando em oração insistimos no “eu quero” somos atendidos quanto ao nosso desejo.

Nessa modelação dos desejos Jesus diz: “Amai, pois, a vossos inimigos , e fazei o bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus” (Lucas 6.35). Por outras palavras, não se permitam serem removidos para aqueles que lhe fazem mal. Saia do padrão do desejo, e continua:

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei aos que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos.

Na oração dominical (Mateus 6. 9-15), o Pai Nosso tem a ver com outro “Outro”. Somos seres inteiramente miméticos e a liberdade tem que passar pelo outro social. Perdoar é soltar. Ao soltar o outro social seremos soltos pelo outro “Outro”. A oração dominical é um ensino de como orar e não uma oração. Cada frase é uma tensão dentro do espaço ou uma armadilha para o desejo. O outro social não é uma coisa ruim. O nosso Eu íntimo é o fruto dos relacionamentos que nós temos com os outros. Por isso, temos que pensar a violência não na paz, mas nas “pazes”. Paz esta que possa ser vista, vivida e sentida.

4 CONCLUSÃO

Ao apresentar o novum como modelo para a não-violência não significa que não se deve combatê-la. A violência deve ser combatida, mas nunca se emprega a morte ou o desprezo, que são as duas armas dos violentos de todos os tempos. O desprezo é ignorar a existência do outro. Esse modelo não é o apresentado por Cristo. Morte física, morte moral (desmoralização) são os dois objetivos que qualquer combatente “comum” procura alcançar, quando não lhe sobra outra solução. Cristo se recusou lançar mão desse meio. Teve palavras duras para os seus inimigos, mas nunca os desprezou. Devemos “travar a luta sem usar as armas do opressor, para chegar a uma situação realmente nova”287

. Por isso o

novum exige conversão. E conversão:

Implica escolher Cristo ou alguém semelhante como modelo de nossos desejos. E implica ver a si mesmo como inserido nesse processo desde o início, em lugar de assumir a seguinte posição: ‘Não quero imitar Jesus, pois sou senhor de mim mesmo tenho meus próprios desejos’. Converter-se é descobrir que, sem saber, sempre estivemos imitando os modelos errados, modelos que nos levam ao círculo vicioso dos escândalos e da frustração perpétua – ao círculo mimético.288

Converter-se é deixar a condição de ser mal; deixar de errar o alvo, de fracassar, de se desviar da verdade conhecida, da retidão moral. Além de ser um ato é também uma condição. É abandonar a condição de rebeldia, onde outrora se permanecia na dependência da aceitação da tentação e do seu cultivo.

Estamos diante de um novo regime do mal. Está cada vez mais difícil Satanás expulsar Satanás por existir uma lógica que grassa nosso ser: a lógica do ressentimento. Esta está sendo empregada de forma totalmente nova, presente na relação entre mediador e sujeito. Para se tornar o mediador, é preciso dobrar-se aos pés do sujeito, buscando igualar-se a esse. Nessa estrutura triangular do desejo não há vitorioso, a não ser pela própria violência. Estamos sempre

287

BARBÉ, Domingos. Uma Teologia do conflito, p. 91. 288

indiferentes ou muito próximos – não temos noção da distância correta. Se para Freud, o desejo não aumenta nem de um lado nem diminui do outro (libido), para Girard ele aumenta dos dois lados. Esta disputa gera rivalidade.

O desejo mimético pode apenas produzir o mal? Os escritos mais antigos de Girard não deixam claro esta questão. Comentários sobre isso aparecem somente em 1994, em Quand Ces Choses Commenceront, traduzido e impresso no Brasil em agosto de 2011 com o título: Quando estas coisas começarem a acontecer. Nesta obra, Girard responde a questão afirmando que o desejo mimético pode suscitar o mal, mas não é mal em si, ele até é muito bom e, felizmente, os homens não podem renunciar a ele mais do que a comida ou ao sono. Para Girard, devemos à imitação não somente nossas tradições, sem as quais não seríamos capazes de nada, mas também, paradoxalmente, todas as inovações que consideramos tão importantes hoje em dia.289

Essa ampliação de sua teoria tem possibilitado pesquisas em todos os continentes. Na América Latina, por exemplo, a teoria mimética vem sendo retomada principalmente no Brasil. Suas implicações antropológicas e de formação da cultura são possibilidades que não podem ser desprezadas. Se a teoria evolucionista da hominização através do assassinato fundador é, para muitos intelectuais, questionável, por outro lado, a hipótese da origem das culturas por meio desse mesmo assassinato é perfeitamente provável. Quanto ao desejo mimético triangular, este é inegável, e não pode ser ignorado por nenhuma ciência ou arte que tenha o ser humano por objeto.290

Assim podemos ver, por outra perspectiva, que a teoria mimética tem alguns desafios, entre eles: (1) reler todos os textos do Antigo Testamento e tentar defender que Deus não estava tomando vingança quando matava os inimigos de seu povo; (2) convencer os cristãos que a morte de Jesus não foi sacrificial e substitutiva para expiar de nós o pecado original.

289

O livro retoma a teoria mimética explicando detalhes que ficaram obscuros principalmente para o público brasileiro. No capítulo 6 – Retomada da imitação, Girard em diálogo com Michel Treguer expõe o lado bom da imitação.

290

Há ainda outras projeções que podem ser feitas. Poderíamos pensar o

novum nas epístolas gerais, nas pastorais e mesmo no Apocalipse. Pensar a

teoria mimética não mais como teoria e sim como fenômeno e procurar responder perguntas como: até que ponto a ilusão romântica pode levar a violência? É possível pensar o corpo como construído como uma forma de auto- engano, assim como a comunicação com o corpo? Que tipo de educação podemos alcançar pela a ilusão e o auto-engano? Quando nos referimos ao sujeito, qual o nosso sujeito? Que sujeito é este? O processo real de comunicação está longe de ser alcançado, porque quando falamos, falamos com a imagem do outro.

O contexto de educação ainda é o do bode expiatório que precisa de uma sociedade violenta e essa violência tem explodido nas escolas etc, para trazer paz na sociedade. Neste caso podemos pensar em duas sociedades: uma que busca a paz e a outra que está excluída. Existe um desastre humanitário que virá se não zelarmos pelo aspecto educacional.

Pode-se usar a mimesis para produzir algo benéfico. Um dos exemplos é a dança. Na arte podemos detectar a dança como a mais mimética de todas as ars. Se observarmos bem, a sua relação com o contágio e com o transe coletivo podemos perceber o lugar que esta ocupa nos sacrifícios. Nos Evangelhos, por exemplo, a dança de Salomé é uma espécie de Sagração da Primavera, que tem como desfecho a morte do profeta.291 O que não despreza o seu lado bom que pode trazer alegria e comunhão dentro das comunidades.

A mimesis dentro da proposta girardiana é ir além da vítima, propondo em Cristo a relação de todo o sistema. Por isso sua teoria pode ser lida como revelação ou como elogio a sombra. A mentira de todo o sistema é revelada e a verdade, elemento imprescindível para perdoar, é enfim conhecida. Parece uma entrega quando Jesus propõe que se alguém lhe bater na face direita ofereça- lhe a esquerda. Nisto Jesus se dirige contra a imitação “rivalitária”. No novum,

291

oferecer a outra face é imitar a Cristo. Nos Evangelhos tudo é imitação, já que o próprio Cristo se deseja imitando e imitado292.

Se quisermos por fim a rivalidade mimética devemos tudo entregar. Se o outro propõe exigências excessivas, é porque já está em rivalidade mimética e nos quer absorvidos por ela. Para por fim a essa rivalidade é preciso fazer o inesperado: pagar o dobro do valor pelo pedido inicial. Se quiserem te fazer caminhar um quilômetro caminhe dois; se lhe tomarem a capa dê-lhes também a túnica. É a ética sutil, uma tática para vida: serpente versus pomba. Esse caráter ético está presente em toda a teoria mimética, por isto não é necessária uma confirmação científica.

Na teoria girardiana o novo absoluto, se existe, não se pode codificá-lo. O novo proposto por Girard é o novo relativo, que nasce do encontro de dois objetos ou de dois níveis de realidade(s), que não parecem feitos para se encontrar. Nesta pesquisa apresentamos o novum como realidade que vem de fora, é sui generis e faz parte da essência do unigênito (único do gênero) filho de Deus. Logo, Jesus e o novum são inseparáveis.

Em toda a história cristã uma questão que incomodou os estudiosos, principalmente por que os Pais da Igreja não tinham nenhuma teoria sobre a violência. Sabemos que ícones como Santo Agostinho tinham grande dificuldade com o idioma grego. René Girard nos dá uma teoria que responde a razão pela qual Jesus morreu. Através de Jesus, Deus sai de si e se joga publicamente com o objetivo de parar o ódio camuflado em todos nós. É como dizer: “sei que vocês são assassinos, se quiserem matar alguém, eis-me aqui, mate-me”. Ao fazer isso e morrer, Deus traz o novum e leva o ódio embora. Por existir um adversário cada vez mais difícil de definir, uma violência que não se sabe como dirimí-la, nossos tribunais abarrotados de processos esperando julgamento, as cadeias superlotadas não tendo lugar para por aqueles que lá deveriam estar, o Direito tornou-se então um negócio, onde aquele que ganha é o mesmo que tem mais condições de pagar. A proposta do novum é refazer pessoas, promover

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saúde, valorizar a reconciliação e, sobretudo, direcionar a esperança para o futuro, quando o carrasco será finalmente vencido pela vítima da Cruz, o Cristo.

REFERÊNCIAS