onde vou passando. Acho que para ver se em outras turmas percebo tantos investimentos de diferentes atividades como as que vejo na sala Lírio. Vejo 5 salas de aulas antes de chegar à turma Lírio, e me chama a atenção que em todas, sem exceção, tem todas as crianças sentadas, algumas poucas prestando atenção, outras distraídas, outras tantas dormindo. Todos estão sentados tradicionalmente em suas carteiras, olhando para a professora posicionada à frente da sala. De fato, Lírio do Vale se diferencia.
Chego e estão todos na rodinha. Antes que se levantem para me abraçar, Lírio do Vale lembra: “em fila pessoal, senão vocês derrubam a tia Valéria”. Recebo os beijos e abraços de todos, inclusive de Lírio do Vale, pela primeira vez, no final da fila.
A professora está orientando a turma para a dinâmica de hoje. Farão atividades que serão parte da feira de ciências do dia 24/11, e será a avaliação dos conteúdos de ciências. Dentre outras atividades de hoje, as crianças farão uma com o contorno do corpo humano de uma menina e um menino que se dispuserem. Reforçando as regras sobre como fazer a atividade, Lírio do Vale diz que escolheu fazê-la hoje exatamente pela minha presença, pois se algo acontecer como distorção da atividade, ou compreensão equivocada por parte dos pais, tem eu como testemunha, e as câmeras. Noto, pela primeira vez, a existência de uma câmera na sala.
A turma é dividida em grupos e cada um ganha uma folha feita pela professora com as orientações do seu trabalho.
Enquanto Lírio do Vale busca os materiais guardados para um dos grupos, a turma se agita e ela intervém: “se vocês continuarem falando tão alto, vou deixar o grupo que está trabalhando em silêncio trabalhar, e os demais vão fazer dever nas carteiras”.
As orientações são repetidas a todo instante: “menina vai contornar corpo de menina e menino vai contornar corpo de menino”.
Após o recreio o Tio Luís chega e comenta: “A Lírio do Vale é mesmo muito criativa, né? O que mais ela tá inventando hoje?”
Aproveito a chegada dele antes das crianças retornarem para a sala e já o convido para participar da entrevista que pensamos na última orientação. Prontamente responde: “Claro! Se for para ajudar, pode contar comigo!”. Combinamos de definir a data e horário na próxima semana, quando tiver o roteiro final avaliado pela Silvia.
Falo com Lírio do Vale também sobre quando podemos fazer a nossa entrevista, e ela se acanha. Diz ter medo de responder algo errado. Respondo que não há certo ou errado, mas que é muito importante para mim saber o que ela pensa sobre determinadas questões que farei nessa entrevista. Menciono que o Luís também foi convidado a participar, ela se alegra e diz: “podemos fazer juntos?” Sorrindo respondo que não, mas complemento que ela não precisaria se preocupar. Será uma boa prosa, e eu tenho certeza que não teria novidade alguma. Ela completa: “não tenho muito a dizer, minha prática é essa aqui, você já viu tudo.”. Sigo: “estou muito feliz em conhecer sua prática, mas ainda não tivemos chance de conversar melhor, quero te conhecer também, e essa é a oportunidade.” Combinamos, por sugestão dela, do Luís e consentimento da supervisora, de
conversarmos na próxima segunda feira, ela terá a ajuda do Tio Luís para conduzir as atividades que ela preparará, e começaremos nossa prosa boa.
Estou ansiosa por conhecer melhor a Professora Lírio do Vale!
Novamente, quando as crianças se agitam ou se desorganizam, Lírio do Vale ameaça voltarem para as carteiras. A propósito, hoje, ao me despertar a curiosidade de olhar para dentro das salas de aula, reparo também onde fica a turma Girassol, e, por vezes hoje, em saídas para buscar água, ir ao banheiro ou falar com a supervisora, ao passar pela porta da turma Girassol, todos estavam sentados, copiando matéria do quadro, e a professora na porta conversando com a professora da sala em frente.
Já perto da hora de eu ir embora, vejo Lírio do Vale abrindo seu armário, trocando seus sapatos com saltinho baixo por um confortável par de chinelos de dedo.
Festa da Primavera - Logo que chegamos, Maria e eu fomos ao encontro da diretora. Eu
estava feliz em poder ir um pouco à Festa da Primavera que, segundo a vice diretora, é uma das maiores festas da escola (a outra é a festa junina).
Os alunos se apresentam com alguma dança. São vendidos lanches, bebidas, doces. A escola estava toda decorada com temas de flores. Logo que cheguei uma aluna da turma Lírio me viu e me deu um de seus doces abraços. Caminhando pela escola, mostrando tudo para minha filha, encontro o restante da turma junto à Lírio do Vale. Fico sabendo que a turma já se apresentou, mas que se reapresentará e terei a chance de vê- los! Minha ida à festa já valeu por ver meus pequenos dançando. Haviam poucas crianças da turma Lírio, mas todas que estavam, dançaram.
Quando fui me despedir de Lírio do Vale, pela primeira vez tivemos a chance de ter cinco minutos de conversa a sós, fora do contexto da sala de aula. Ela logo despeja suas angústias frente às histórias doloridas de seus alunos e como isso interfere no seu trabalho. Como suas histórias estão interferindo nos processos de aprendizagem e comportamentos deles. Como foi descobrindo e conhecendo sobre seus alunos a partir das mudanças de comportamentos deles em sala, ou dificuldades de aprendizagem. Uma menina foi deixada pela mãe aos cuidados do pai e avó por causa das drogas, e agora, com a volta da mãe, grávida e em tentativa de recuperação das drogas está deixando a menina dispersa, agitada e agressiva. Outra menina vive apenas com o pai e mais quatro irmãos mais velhos, é muito magrinha e não aprende. Um menino é de família cigana, e isso deve bagunçar muito.
Essas foram as principais falas de Lírio do Vale, preocupada e tentando pensar e repensar sua prática docente diante de histórias de vida tão diversas e doloridas, para que, em sala de aula e na sua relação de afeto com cada criança, ela possa fazer a diferença na vida delas.