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REGION BATCH PROGRAM STRUCTURE

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The structure of all batch processing programs utilizing Data Language/I calls is subject to the same rules as message processing

TYPE 3 REGION BATCH PROGRAM STRUCTURE

Antes de avançarmos nas definições e conceitos que já foram criados sobre o que é discurso, se faz necessário definirmos, primeiramente, o que é linguagem.

A linguagem nada mais é do que a atividade exercida entre falantes, aquele que fala/aquele que ouve e aquele que escreve/aquele que lê, portanto, dedutivamente, podemos afirmar que a linguagem é uma atividade exclusivamente exercida pelo ser humano, pois somente ele é dotado da capacidade de se expressar através da linguagem verbal, ela é a mediadora entre ele e a realidade. Dessa forma, partimos do pressuposto de que não existe verdade absoluta e que essa só existe no universo natural, pois ao utilizar a linguagem para explicar a sua existência, o ser humano acaba por enviesar e recortar a realidade, significando- a dentro de fatores variados de construção, criando representações e nunca conseguindo atingir a sua neutralidade plena, assim como nos ajuda Elizabeth Gonçalves:

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Estudar comunicação e linguagem como processos estritamente relacionados significa assumir posições críticas nestes dois campos, considerando a não neutralidade da linguagem e o poder que o ser exerce no processo de comunicação. O indivíduo, em posse da linguagem e fazendo uso dela, pode atuar para transformar a sociedade ou para perpetuar determinadas posições, mas sempre se mostrando pelas escolhas que faz ao se comunicar, produzindo significados e realidades, mais próximas ou mais distantes do universo natural (GONÇALVES, 2007, p.14).

Assim, a linguagem pode ser resumida em um sistema de significação da realidade que tem como característica principal o distanciamento entre a coisa representada e o signo que a representa.

Nas nossas rotinas, o uso da linguagem é quase automático, mas isso não quer dizer que a prática é sempre a mesma, pois depende exclusivamente de cada circunstância comunicativa, do contexto onde estamos inseridos. Não utilizamos a língua da mesma maneira em casa, com pessoas próximas, assim como a operamos diferentemente em uma entrevista de emprego ou lidando com autoridades, isto é, não nos comunicando da mesma forma, com a mesma capacidade linguística. Nesse sentido, existe uma transmutação linguística dependendo da pragmática do contexto onde estamos inseridos e, dependendo dessa situação, o trabalho linguageiro pode ser extremamente trabalhoso, mas há também situações onde essa ação se dá de maneira mais simples. Assim, a linguagem é transmutada e adaptada de acordo com a situação de comunicação ou o que Patrick Charaudeau (2006) chama de quadro de referência:

A situação de comunicação é como um palco, com suas restrições de espaço, de tempo, de relações, de palavras, no qual se encenam as trocas sociais e aquilo que constitui o seu valor simbólico. Essas restrições são definidas por um jogo de regulação das práticas sociais, instauradas pelos indivíduos que tentam viver em comunidade e pelos discursos de representação, produzidos para justificar essas mesmas práticas a fim de valorizá-las (CHARAUDEAU, 2006, p. 67).

Nesse caso, a ação linguageira não acontece apenas pois os indivíduos dominam a gramática e a língua - fonemas, palavras, frases -, mas também acontece, pois, os sujeitos envolvidos na prática comunicativa têm como objetivo criar e recriar o universo a partir de seus pontos de vista. Assim, é imprescindível saber e identificar quem é o receptor dessa ação comunicativa, quer dizer, é necessário saber quem é o sujeito a quem eu me dirijo para ajustar a linguagem à situação de fala nesse processo dialógico.

Por dialogismo, podemos entender que é o processo comunicativo entre dois ou mais interlocutores. Assim, Dominique Maingueneau (1998), resgatando princípios da interdiscursividade, nos ajuda:

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O locutor não é um Adão e, por isso, o objeto de seu discurso se torna, inevitavelmente, o ponto onde se encontram opiniões de interlocutores imediatos numa conversação ou numa discussão sobre qualquer acontecimento da vida corrente ou ainda visões do mundo, as tendências, as teorias etc. (na esfera da troca cultural) (BAKHTIN, 1984, p. 302 apud MAINGUENEAU, 1998, p. 42).

Nesse sentido, Mikhail Bakhtin (BARROS, 1996) diz que a concepção de linguagem é dialógica, ou seja, conversa, interroga, concorda, discorda entre a compreensão dos processos de um texto6, este que, apesar de sua dispersão teórica, é o fulcro dos estudos do russo. Em AD, o termo é utilizado para demonstrar a dimensão profundamente interativa da linguagem, oral ou escrita. Bakhtin observa que existem duas definições sobre dialogismo: a de diálogo entre interlocutores (seres sociais) que fundam a linguagem através da interação; e o diálogo entre discursos (a dialética). Para o pensador, “viver significa participar de um diálogo, interrogar, escutar, responder, estar de acordo, etc.” (TODOROV 1981, p. 138 apud BARROS, 1996, p. 27). Para o autor, em um nível profundo, não podemos dissociar essas duas faces do dialogismo:

Toda enunciação, mesmo sob sua forma escrita cristalizada, é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal. Ela é apenas um elo na cadeia dos atos de fala. Toda inscrição prolonga aquelas que a precederam, estabelece uma polêmica com elas, aguarda reações ativas de compreensão, antecipa-se sobre estas (BAKHTIN, 1977, p. 106 apud MAINGUENEAU, 1998, p.42).

Para Bakhtin o ser humano não só é conhecido através dos textos, mas se constrói através ou por meio dos textos, o que distingue as ciências humanas das exatas e biológicas que examinam o homem fora do texto. Para ele, a linguagem não é apenas fundamental para a comunicação, mas a interação dos interlocutores funda a linguagem (BRANDÃO, 2002, p. 9). Trilhando o caminho aberto por Ferdinand de Saussure, mas divergindo do “pai da linguística moderna” ao colocar o enunciado e enunciação como objetos dos estudos da linguagem, o russo parte do princípio de que a língua é um fato social cujas necessidades de comunicação a fundam.

Essa concepção relacional da língua não vê, nesse processo dialógico, o interlocutor como um elemento passivo na constituição do significado. Helena Nagamine Brandão colabora:

Essa visão da linguagem como interação social, em que o Outro desempenha papel fundamental na constituição do significado, integra todo ato de enunciação individual num contexto mais amplo, revelando as relações intrínsecas entre o linguístico e o social. O percurso que o indivíduo faz da elaboração mental do conteúdo, a ser expresso à objetivação externa - a enunciação - desse conteúdo, é o orientado socialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato da fala e, sobretudo, a interlocutores concretos (BRANDÃO, 2002, p. 10)

46 Em uma tentativa ontológica de determinar o que é a linguagem humana podemos pensar da seguinte maneira: os signos, os objetos, os eventos e as ações só existem por causa da linguagem (ECHEVERRÍA, 2011). O que isso quer dizer? Que apenas podemos representar os objetos no mundo objetivo de forma subjetiva, ou seja, “uma rosa é uma rosa” pois somente existe na linguagem, porque alguém, um sujeito e mais tarde uma comunidade de sujeitos organizados, de forma consensual, determinaram que a codificação e sequência léxica das letras R, seguida de O, S (com som da letra Z) e por fim A, faladas conjuntamente significa a flor em questão, na língua portuguesa. Poderia ser uma margarida, uma petúnia ou até um carro, mas ao pronunciar a palavra “rosa”, a memória já nos traz uma série de características que são representadas pela palavra, tais como o cheiro, a forma, os espinhos, o caule, a cor, entre outros. O que ela é em si mesma não sabemos, mas ela é uma rosa para determinada cultura7pois, é uma entidade que resulta uma distinção (semântica) que separa a entidade (rosa) das demais. Um objeto sempre é uma relação linguística que estabelecemos com nosso mundo por dois motivos: a concepção ideológica deste objeto, já que o código que determina a sua representação sempre é uma ideia; e também a cultural, já que determinamos o signo deste código através do consenso comunitário e do modo como significamos as coisas do mundo dentro de uma escala geográfica, de espaço comum. Echeverría vai dizer que “não existe outro caminho que o da linguagem; fora da linguagem não existe um lugar em que podemos nos apoiar. Nós seres humanos vivemos em um mundo linguístico” (ECHEVERRÍA, 2011, p. 51). Dessa forma, podemos criar inúmeras hipóteses para o surgimento da linguagem e como ela faz a mediação da relação entre o ser humano com o mundo. Uma das hipóteses históricas prevê que, a evolução biológica do ser humano, a partir do momento em que as espécies de primatas adotaram posições cada vez mais eretas em certo estágio evolutivo e o consequentemente aumento da pélvis, possibilitou a nascença de filhos com maior capacidade craniana, o que, em conjunto com polegar opositor e toda a vantagem biológica que este proporcionou ao ser - a vantagem de colher frutos, de produzir artefatos, de caçar e por conseguinte se alimentar da carne de outro animal e seus privilégios protéicos, entre outros - possibilitou uma diferença cognitiva perante os outros animais que, por sua vez ao longo do tempo, criou a linguagem (ECHEVERRÍA, 2011, p. 55).

7 No caso toda cultura onde a língua portuguesa está inserida, onde é ela, no papel de língua nativa, quem determina os códigos de representações dos objetos.

47 Quando contestamos o advento da linguagem de maneira estrutural "devemos examinar as condições biológicas que nos permitem operar a linguagem" (ECHEVERRÍA, 2011, p. 54). Ou seja, entender a relação entre linguagem e o cérebro a fim de compreender a fisiologia da dicção.

Assim, os indivíduos são seres linguísticos, seres que nasceram, foram submetidos e assujeitados na linguagem: só somos indivíduos (e nesse caso distintos) pois temos a nossa história, que dessa sai um relato, que é significativo, é da linguagem, que é uma compreensão individual deste, não tomando o caráter social em consideração. Enquanto indivíduos, somos o que somos devido à cultura linguística em que crescemos e a nossa posição no sistema da coordenação do comportamento. Nesse sentido, o indivíduo é também uma construção social, pois seu comportamento e valores dependem das noções de comportamento e valores das culturas em que está imerso.

Podemos ver que há muitas maneiras de se estudar a linguagem: de maneira dialógica, ontológica, sistema de signos (semiótica), sistemas de regras formais (linguística), normas de bem dizer (gramática), biológica, entre outras. E é justamente nessa multiplicidade de maneiras para se pensar a linguagem, cada um com um enfoque, que iremos seguir para o campo discursivo. Olhar a linguagem como discurso não se trata de focar na língua, na gramática, embora tudo isso lhe interessa.

Ao produzirem linguagem, os sujeitos produzem discursos. No sentido comum, discurso é simplesmente fala, exposição oral, oralidade, retórica. Também podemos definir discurso como toda troca de linguagem entre dois ou mais interlocutores, seja ela oral ou gestual. Para entendermos a concepção de discurso com que vamos trabalhar é necessário fazermos uma evolução do quadro de referência proposto por Patrick Charaudeau (2006). O produtor e receptor do discurso são sujeitos, situados no mesmo tempo histórico, num espaço geográfico, pertencentes a um grupo em comum e por isso carregam crenças e valores - o que remete à noção de ideologia do grupo - dessa comunidade onde estão inseridos. Todas essas idiossincrasias, essas particularidades desse sujeito aparecem nos discursos, às vezes de forma explícita e, em outras, de forma implícita. A linguagem, enquanto discurso, é interação e um modo de produção social. Sendo assim, ela não é neutra, tornando o discurso ideológico, já que os filtros, o repertório, a memória, os valores, entre outras formas que o sujeito carrega, acabam por influenciá-lo a construir o seu discurso. Assim, a linguagem é determinante nesse processo:

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Como elemento de mediação necessária entre o homem e sua realidade e como forma de engajá-lo na própria realidade, a linguagem é lugar de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade uma vez que os processos que a constituem são histórico-sociais. Seu estudo não pode ser desvinculado de suas condições de produção (BRANDÃO, 2002, p. 12).

Nem sempre dizemos tudo que pensamos ou sentimos, às vezes deixamos alguns significados opacos, talvez porque a situação não permite ou, quem sabe, não queremos ser responsabilizados pelos significados, mas é fato que essa não fala também é discursiva e a tarefa de construir os sentidos implícitos dos nossos discursos fica por conta do interlocutor nesse processo dialógico. É por isso que não existe discurso neutro/imparcial na sociedade, pois, sendo sujeitos sociais, carregamos conosco todos os traços e processos pelos quais fomos submetidos enquanto vivos que, de uma forma ou de outra, acabam aparecendo e distinguindo os nossos discursos na sociedade. A existência nos constitui enquanto sujeitos. Evoluindo o que estamos dizendo, podemos definir que todos os sujeitos são determinados através de processos socioculturais distintos e pela época em que estão inseridos, o que faz com que esses sujeitos produzam discursos únicos, idiossincráticos e subjetivos. Assim, o discurso funciona como um recorte da realidade, uma representação, já que do ponto de vista heurístico, cada discurso é formatado pelo locutor de acordo com sua condição sociocultural e época em que está vinculado, assim como nos ajuda Milton José Pinto (2002):

Definir os discursos como práticas sociais implica que a linguagem verbal e as outras semióticas com que se constroem os textos são partes integrantes do contexto sócio histórico e não alguma coisa de caráter puramente instrumental, externa às pressões sociais. Têm assim papel fundamental na reprodução, manutenção ou transformação das representações que as pessoas fazem e das relações e identidades com que se definem na sociedade, pois é por meio dos textos que travam as batalhas que, no nosso dia-a-dia, levam os participantes de um processo comunicacional procurar a dar a última palavra, isto é, a ter reconhecido pelos seus receptores o aspecto hegemônico do seu discurso (PINTO, 2002, pág. 28).

Discurso, etimologicamente falando, gera a ideia de curso, percurso, de movimento. “O discurso é assim palavra em movimento, prática da linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando” (ORLANDI, 2002, p. 15). Esse tipo de estudo fornece subsídios para poder melhor entender aquilo que faz o ser humano um ser distinto dos outros animais com sua capacidade de significar e significar-se e, principalmente, como fazer isso. É por essa mediação entre a linguagem e o sujeito que se interessam os estudiosos do discurso, a simbiose entre o objeto no mundo natural e as representações dele no mundo social, os confrontos por significação. Orlandi ajuda, dizendo que “essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da

49 realidade em que vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana” (2002, p. 15).

Existem alguns processos e condições para que a produção do sentido através do discurso possa ser compreendida por outros seres humanos que não seja o enunciador. “O que são pois as condições de produção? Elas compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação” (ORLANDI, 2012, p. 30). Assim, podemos dizer que as condições de produção são as circunstâncias de enunciação, o seu contexto imediato.

Uma dessas condições é a histórica, ou seja, o cronos é capaz de transmutar a linguagem para significá-la de maneiras diferentes. A palavra “carregador” tinha (e ainda tem) o significado da profissão ou ação de um determinado indivíduo, que dispunha de sua força motora e corporal para transportar objetos materiais de um lugar para outro. Assim, carregador estava no lugar para significar “o homem que carrega (va)”, era o jeito e como a sociedade se dirigia a ele. O advento da tecnologia, com o surgimento dos celulares e laptops, conseguiu, através do tempo, transformar o sentido desse léxico que agora é ressignificado para o aparelho que, conectado a uma fonte de força elétrica, fornece energia para que os “smartphones”, computadores e/ou outros dispositivos elétricos possam continuar operando através de suas baterias. Não que o homem que carrega não possa ainda ser chamado de “carregador”, mas esse sentido caiu em desuso, isto é, o significado acabou se perdendo, não durou no tempo. Se alguém pedisse emprestado um carregador em 1920, provavelmente o seu significado estaria atrelado à sua antiga concepção, causando um ruído na comunicação, já que nem todas as pessoas dispunham de um carregador. Assim, em essência, é que o significado de um léxico não reside apenas em sua etimologia ou no valor que possuía em tempos passados, é no sentido vivo onde se encontra o significado da palavra, que está em uso corrente e no qual se intenciona a fala.

Outro fator importante para que um discurso seja entendível é a sociedade. Isto significa que existem estruturas, historicamente, politicamente e culturalmente estabelecidas que definem os significados de maneira social e distribuem posições de mando e obediência. Uma placa de trânsito é um signo que transita nessa concepção, já que impõe ao enunciatário - no caso o motorista8 - o que ele deve ou não fazer, que foi determinado por meio de tramitação em uma casa legislativa, que tem como representantes, em democracias representativas, pessoas

8 A lei se aplica apenas ao indivíduo conduzindo um veículo motorizado, por isso a palavra motorista. Ela não se aplica aos ciclistas, pedestres e outros.

50 eleitas pelo voto popular, ação social que incumbe a pessoa eleita de poder social, responsável assim por determinar um significado: não siga em frente nessa rua ou não estacionar aqui - dependendo da placa - e o não cumprimento desse significado poderá atribuir ao transgressor alguma penalidade. Lógico que os significados dos léxicos e das semânticas não são apenas determinados por essas instituições, haja visto que estes são renegociados o tempo todo, em todas as instâncias culturais. Quando falamos dos signos revelados pela cultura popular, essa que nem sempre perambula pelas instâncias de poder ou da cultura erudita, é certo que essa atua num formato de resistência, tentando sempre achar um lugar para existir e resistir na língua culta, ou seja, na língua instituída por essas instâncias de poder. É certo que essa forma de resistir, ao ser transformada em alta cultura (o funk americano e carioca, por exemplo) deixa essa concepção de lado. Orlandi nos ajuda, dizendo que “o contexto amplo é o que traz para a consideração dos efeitos, com suas Instituições, entre elas a Universidade, no modo como elege representantes, como organiza o poder, distribuindo posições de mando e obediência” (ORLANDI, 2012, p. 31). Roland Barthes (1984) em “O Rumor da Língua” traz um caso interessante:

Ao passear um dia pela minha região, que é o Sudoeste da França, região tranquila de modestos reformados, pude ler, numa distância de poucas centenas de metros, à porta de três vivendas, três cartazes diferentes: Cão feroz. Cão perigoso. Cão de

guarda. Esta região, como se vê, tem um sentido muito vivo de propriedade. Mas o

interesse não reside nisso; reside nisto: estas três expressões não constituem senão uma única e mesma mensagem: Não entrem (senão serão mordidos). Por outras palavras, a linguística, que se ocupa apenas das mensagens, não seria capaz de dizer delas senão algo de muito simples e muito banal; não esgotaria, longe disso, o sentido dessas expressões, pois esse sentido reside na sua diferença: “Cão feroz” é agressivo; “Cão perigoso” é filantrópico; “Cão de guarda” é aparentemente objectivo. Por outras palavras ainda, através da mesma mensagem, lemos três empenhamentos, três mentalidades, ou, se preferirem, três imaginários, três álibis da propriedade: pela linguagem do seu cartaz - por aquilo a que chamarei de discurso, visto que a língua é a mesma nos três casos -, o proprietário da vivenda abriga-se e tranquiliza-se por detrás de uma certa representação, e direi mesmo um certo sistema da propriedade: num caso, selvagem (o cão, quer dizer, é claro, o proprietário, é feroz); noutro, protector (o cão é perigoso, a vivenda está armada), noutro, enfim, legítimo (o cão guarda a propriedade, é um direito legal). Assim, ao nível da mais simples mensagem (Não entrem), a linguagem (o discurso) explode, fracciona-se, afasta-se: há uma divisão das linguagens de que nenhuma simples ciência da comunicação pode ocupar-se; é a sociedade, com sua estruturas sócio-econômicas e neuróticas, que intervém, construindo a linguagem como um espaço de guerra (BARTHES, Roland, 1984, p. 101).

Por fim, existe também a relação entre a memória e o discurso. Nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Ou seja, o pré-construído, o já dito antecede o que pode ser dito: o interdiscurso sustenta o discurso. É a ideia de que não existe discurso inédito, auto fundado, de

51 origem nova e absoluta. Enunciar é erigir um enunciado sempre em relação a outro, que já foi constituído e circunscrito historicamente. O discurso segundo se constitui através do primeiro. Eni Orlandi corrobora:

O interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido. E isto é efeito do interdiscurso: é preciso que o que foi dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que, passando para o anonimato, possa fazer sentido em “minhas” palavras. No interdiscurso, diz Courtine (1984), fala uma voz sem nome. (ORLANDI, 2002, p. 33-34).

Assim, podemos dizer que os processos para que discursos sejam construídos passam necessariamente pelas suas condições de produção, essas que se dão de maneira sócio histórica

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