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Após fazer todo o trajeto contextual, teórico-metodológico e analítico propostos, essa pesquisa se chega ao fim com resultados satisfatórios e condizentes com a hipótese projetada. Se tratando da parte contextual, a pesquisa conseguiu, com a ajuda de fontes, documentos oficiais e materiais jornalísticos legítimos, abarcar as questões mais salientes ao desastre de responsabilidade da Samarco, que acometeu a cidade de Mariana-MG, mais precisamente o subdistrito de Bento Rodrigues, provocando a morte de 19 pessoas, entre elas duas crianças. O livro de Graça Caldas (2017) Vozes e silenciamentos: crime ou desastre

ambiental? nos deixa essa pergunta. Após toda a cronologia do desastre, a descrição das

imbricações políticas, econômicas e ambientais, entender os papéis sociais das empresas Samarco, Vale e BHP-Billiton, além de tentar mensurar o imensurável (o desastre socioambiental) constatamos que não seria errado chamar o acontecimento de crime, pois existem leis que amparam esse tipo de julgamento.

Até hoje ainda não se sabe a quantidade de pessoas afetadas, diretamente e indiretamente, pessoas traumatizadas, sem seus bens e sua terra natal. Os Ministérios Públicos, Federal e Estadual, acusam que as empresas tinham consciência dos riscos de rompimento da barragem e que a informação foi negligenciada. Assume-se também a precária fiscalização dos órgãos (in) competentes federais e estaduais, assim como a falta de recursos para tal agenda.

Na mesma conta, a morosidade jurídica e os imbróglios entre ações das instâncias federais, estaduais e municipais, também ajudam a letargiar os processos civis e criminais, assim como nos mostra trecho de reportagem da Globo.com:

Este processo foi suspenso em julho de 2017, após dois dos réus alegarem ilegalidade no período autorizado para a quebra do sigilo telefônico. Em 13 de novembro de 2017, o processo foi retomado após a Justiça determinar que não havia base para anular o processo. Não há prazo para o julgamento (PAES, 2018).

A Vale se nega a assumir o posto que lhe cabe enquanto acionista da Samarco, evitando relações que possam a lhe causar prejuízos comerciais. A BHP-Billiton idem. A reconstrução de Bento Rodrigues segue vagarosa já que, por falta de licenças ambientais, a Fundação Renova, responsável pela reparação dos danos provocados pelo rompimento da Barragem de Fundão, não consegue progredir com o projeto.

Se tratando da questão ambiental, o processo, que tem valor de R$ 155 bilhões, está suspenso na justiça à espera da conclusão deste diagnóstico de danos. Esta foi a quarta vez que

132 a entrega do acordo foi prorrogada. Existem outras 50 mil ações individuais a respeito da qualidade da água do rio Doce, esperando a burocracia judiciária brasileira.

Milhares de pescadores dos estados de Minas Gerais e Espírito Santos foram afetados pela tragédia da lama de rejeitos que atingiu os seus lugares de subsistência e atividade econômica. Nessa toada, a economia local, que dependia da pesca, da agricultura e do turismo às margens do rio Doce, ficou desguarnecida. O desemprego aumentou entre os trabalhadores da região, que não conseguiram retomar as suas funções, sem contar que a maior parte deles ainda não recebeu qualquer tipo de reparo indenizatório por parte da Samarco (por meio da Fundação Renova) pelos prejuízos relatados. Se não bastasse a escasez laborial, esses pescadores se deslocaram para outras regiões, distantes de seus pontos originais de pesca, para tentarem a sorte, já que boa parte do local de pesca onde a lama de rejeitos de minério de ferro passou está proibida ou não é inviável a prática, já que a quantidade de vida aquática é ínfima. Segundo a Renova, cerca de 7000 pescadores receberam indenização, o que totalizou R$ 580 milhões. Também afirma que há pessoas que não foram afetadas querendo se beneficiar indevidamente:

A Renova afirmou, ainda, que há registros de pessoas que não foram afetadas e estão pedindo indenizações indevidas. "Diante desse cenário, ficou evidente a necessidade de reformulação da política vigente por meio do diálogo e da construção participativa com os órgãos competentes e as comunidades atingidas", afirmou a fundação (BBC, 2018).

Esses foram apenas alguns dos trâmites que, pensando essas condições históricas no Brasil, ainda devem levar um bom tempo para serem resolvidas, se forem.

Assim, retomando a breve elucidação sobre o conceito de sociedade de risco de Ulrich Beck (1999), colocada na abertura do primeiro capítulo, é de fácil percepção, assim como nos esclarece Victor (2014), que essa sociedade em que vivemos, fruto dos avanços científicos e tecnológicos e onde ameaças e inseguranças são produtos da modernização e do progresso, que a sua dinâmica perpetua as discrepâncias sociais, já que a sociedade de risco fortalece a sociedade de classes. Ao que tange o tema aqui abordado, basta olharmos ao que aconteceu para comprovar o conceito, já que, ao compararmos as realidades da população, de maioria trabalhadora, do subdistrito de Bento Rodrigues, que sofreu praticamente todas as consequências dos riscos envolvidos e sabidos do rompimento das barragens e o “tsunami de lama” que dizimou o lugar, e a dos executivos das três empresas, Vale, BHP-Billiton e Samarco, todos limpos e sem uma mínima ranhura na pele, demonstram o abismo social em que estamos mergulhados e aparentemente sem fim. Nesse sentido, os meios de comunicação deveriam ser

133 uma das últimas (e únicas) defesas na tentativa de diminuir a perpetuação da violação dos direitos humanos, já que dispõe de técnicas e meios de obtenção de informação privilegiada, qualitativa e reflexiva e que, segundo Victor:

Vale observar na explicação de Giddens a estreita relação entre reflexão e informação, ou seja, a capacidade da sociedade de refletir acerca dos seus próprios problemas e possíveis soluções está diretamente associada ao acesso e ao nível de informação que tem sobre o assunto (VICTOR, 2015, p. 5)

Ou seja, o acesso à informação bem trabalhada, bem noticiada e reportada, pode, de alguma maneira, implicar na conscientização dessa sociedade e, consequentemente, aumentar a sua reflexividade, já que a sua capacidade de discernimento e vigilância automaticamente aumenta, transformando positivamente essa mesma sociedade, diminuindo a conservação de certas injustiças sociais. Dessa forma, os desastres acontecem quando nos esquecemos deles. Esse é um dos papeis da imprensa, ativar e reavivar a memória social.

No que tange ao nosso trajeto teórico-metodológico, a pesquisa conseguiu elucidar algumas questões da linguagem, área que é um tanto cara para a área da Comunicação Social, nessa tarefa dos profissionais em querer significar o mundo e representá-lo. Entender a linguagem como relação ideológica entre o sujeito e a realidade foi um processo importante para delimitar o nosso arcabouço teórico, visando os objetivos de pesquisa.

Enquanto proposta metodológica, a Análise do Discurso francesa foi capaz de cumprir com os seus pressupostos de leitura crítica em cima de textos de comunicação. Nesse sentido, as leituras de Dominique Maingueneau (2000) e seus conceitos, nos ajudaram a compreender melhor a nossa ferramenta de análise, além de contribuir com a evolução epistêmica do pesquisador e, esperamos que para o campo teórico-metodológico.

Entender o contrato de comunicação de Patrick Charaudeau (2006) e sua imbricação com ethos discursivo foi importante para entendermos como funciona a filiação ideológica dos leitores ao nosso corpus de pesquisa. Assim, tanto Veja, quanto CartaCapital, interagem com seus públicos de forma simbólica. Ou seja, aquilo que produzem enquanto empresa jornalística condiz com que a recepção legitima enquanto verdade e representação do real. Isso se dá pela afinidade ideológica entre produção e recepção, relação costurada através da díade ethos-

páthos.

Para finalizar, as análises quantitativa e qualitativa dos materiais propostos nos indicaram observações importantes sobre o nosso corpus e objeto de pesquisa. Se tratando da análise de conteúdo (BARDIN, 2008), conseguimos visualizar, empiricamente, todo o histórico e ideologia das revistas materializados no que chamamos de “a grande narrativa”. Após

134 analisadas as notícias e reportagens de um ano de cobertura, em Veja e CartaCapital, sobre o desastre da Samarco, foi de fácil percepção entender que as duas organizações praticam estilos de jornalismo diferentes, quiçá antagônicos. O jeito como selecionam as fontes, os setores que invocam ao narrar o desastre, os temas e tratamentos destinados ao material produzido condizem com as propostas editoriais de cada revista, um em cada nicho ideológico. Assim, podemos descrever que a Veja procura narrar a realidade através de um viés liberal- conservador, já que não arrisca a pluralidade de fontes e delimita um conjunto elitista de setores sociais a serem invocados, que já tem grande representatividade social. Já CartaCapital utiliza como pressuposto sociocultural uma visão alternativa aos grandes meios de comunicação hegemônicos, tratando as suas representações de forma mais progressista, visando implementar um jornalismo onde as igualdades de representação aflorem, preceito abrangente a um estilo socialdemocrata.

No tangente à aplicação da Análise do Discurso aos textos “Tragédia em Mariana: para que não se repita” e “Mar de lama, literalmente”, em Veja e CartaCapital, respectivamente, os enunciados destes nos mostraram o mesmo padrão encontrado na “grande narrativa”. Por meio do poder qualitativo, Veja e CartaCapital se mostram e materializam as suas convicções em seus discursos. Ao representar esses discursos, os periódicos se mostram, deixam traços e pegadas, pelos quais o analista do discurso tenta desvendar as suas posições.

Para finalizar, é importante retomar a ideia de polarização política para entendermos em qual sentido as duas revistas são importantes para tratarmos do tema.

Dessa forma, é perceptível que a sociedade brasileira passa por um momento de profunda polarização política-ideológica, escondida sobre os estereótipos da métrica direita e esquerda. O que deveria servir para fomentar a discussão de ideias, o pluralismo intelectual e o crescimento do debate político inteligente e epistêmico vem se transformando numa divisão da sociedade em, como o próprio nome diz, polos antagônicos de pensamento que se combatem produzindo e reproduzindo ideias superficiais, onde a intolerância se esconde na defesa do contraditório e, segundo Norberto Bobbio (1995, p. 33), “não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise”. E esse tipo de pensamento em díades não é novo. Segundo Ferraz, há um problema nessa divisão diádica e antagônica político-social já que “essa característica é um dos grandes entraves que, em vários momentos da história, ajudou a dividir a sociedade brasileira entre pessoas que pensam de forma diferente. E essa polarização ideológica é um fenômeno global” (FERRAZ, 2018, p. 2). Isso não significa que os contrapontos ideológicos, assim como propõe Bakhtin no conceito de polifonia, sejam

135 maléficos ou que a polarização política seja a materialização desses contrapontos. Como o próprio nome diz, polifonia (vários sons, vários discursos) é salutar para a construção do tecido social, mas o acirramento de duas vertentes acaba sendo prejudicial, já que contamina os lados, aliena pessoas e mina oposições sadias.

No que tange a nossa hipótese, é correto afirmar que sim, as revistas são representantes e enfatizam, cada uma em um nicho ideológico, do que chamamos de polarização política, já que os dois periódicos polarizam e acirram as discussões político-ideológica e sociocultural. Elas, assim como outros produtos culturais, levam os seus leitores a pensarem questões como a moralidade, visões de mundo, percepções do que é certo e do que é errado, entre outros temas e subtemas que não são e nunca foram unânimes, ou seja, são produtos culturais que influenciam a sociedade brasileira, visto que fornecem subsídios diferentes aos seus leitores engajados.

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