Vestuário é um conceito amplo e de variadas significações. É estudado não apenas pela História, mas também pela História da Arte como forma de produção de sentido e parte essencial de uma cultura, portanto, resultado de um processo social. Para a História da Arte, é também objeto de arte, já que a indumentária é símbolo. A representação artística da veste difere, contudo, da veste propriamente dita: nem sempre quem a produz enxerga nela uma obra de arte.125
A indumentária, fenômeno muito complexo, é um sistema de signos, por meio dos quais o ser humano se posiciona e se relaciona com o mundo. As esferas individual e coletiva se encontram neste sistema, que evidencia um outro elemento: o corpo. Na verdade, as vestes colocam em jogo a significação
123 Cf. LEVENTON, Melissa. História ilustrada do vestuário: um estudo da indumentária, do Egito antigo ao final do século XIX, com ilustrações dos mestres Auguste Racinet e Friedrich Hottenroth. São Paulo: Publifolha, 2009, p. 30 e Pirenne. op. cit., 1982, p. 40.
124 Boucher, op. cit., p. 17.
125 Cf. KNAUSS, Paulo. O desafio de fazer História com imagens: arte e cultura visual. In: Art
Cultura, v. 8, n. 12, Uberlândia, jan.-jun. 2006, p. 97-115; BARTHES, Roland. The Language of Fashion. Sydney: Bloomsbury Publishing, 2013, p. 11 e BOSAK, Joana. Vestir o tempo,
habitar o mundo: as roupas e a escrita da história da arte. In: Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Anais Eletrônicos. Santa Maria (RS), 2015, p. 320.
do corpo, que se transforma em significante. Conecta, portanto, indivíduo e so- ciedade 126
Vestuário é então comunicação. Do ponto de vista da Semiologia, o ves- tuário não apenas é uma forma de comunicação, mas também uma dimensão importante da vida em sociedade. Se o ser humano pode se comunicar por in- termédio de uma infinidade de sinais e gestos, também o faz por meio de sua indumentária127.
A veste “fala” não somente sobre as características individuais do sujeito, mas também sobre sua condição social. Talvez mais que em qualquer outro período, na Idade Média, o vestuário “falou” muito sobre aquela sociedade: de- signava cada categoria social; constituía um verdadeiro “uniforme”, que dife- renciava cada um dos grupos sociais. Isso também se aplicava à Igreja: os re- gulamentos monásticos estabeleciam cuidadosamente a vestimenta dos religi- osos, muito mais para diferenciar uma ordem de outra que para evitar o luxo. Por isso, “[...] Não se vestir em conformidade com as pessoas de sua própria condição social equivalia ou a cometer o pecado maior da ambição, ou a de- gradar-se. O pannosus, o mendigo vestido de trapos era desprezado [...].128
Mudanças significativas ocorreram na Europa após o século XII. A difusão e influência de uma cosmovisão religiosa, as Cruzadas, progressos técnicos como a invenção da roca de fiar e da cardagem e a consequente intensificação das relações comerciais influenciaram o vestuário e o modificaram.129
A sociedade era, acima de tudo, cristã. Para entender como foi forjada essa mentalidade religiosa que influenciou o mundo medieval em praticamente todas as esferas, é preciso entender como a Igreja se tornou tão influente. Seu poder nasce de sua aliança com a nobreza, ainda à época do Império Carolín- gio, em uma primeira tentativa de reorganização social após as invasões bár- baras. Do ano 1000 em diante a terra, o senhorio e a Igreja eram células em torno das quais a sociedade tentava se recompor. Seguiu então um período de relativa estabilidade social e política, que permitiu não apenas o restabeleci-
126 CALANCA, Daniela. História Social da Moda. Tradução de Renato Ambrósio. São Paulo: Editora Senac, 2008, p. 16.
127 ECO, Umberto; SIGURTÁ, Renato; LIVOLSI, Marino et. al. Psicologia do Vestir. 2 ed. Lis- boa: Cooperativa Editora e Livreira - SCARL,1982, p. 7-8.
128 LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente medieval. Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 359.
129 Cf. PIRENNE op. cit., passim e FOURQUIN, G. História Econômica do Ocidente
mento das trocas comerciais, mas até mesmo uma revolução comercial, cujo apogeu ocorreu entre os séculos XII e XIII. Apesar de a Igreja condenar a ativi- dade comercial, acaba não tendo muita escolha e apoia os mercadores, o que a tornou ainda mais poderosa do que já era. Quando isso aconteceu, o cristia- nismo finalmente se consolidou em território europeu. A partir daí, desenvol- veu-se uma mentalidade de fato cristã, que se manifestou em praticamente todos os segmentos da vida dos medievais. A influência da Igreja é evidente, ao observarmos as vestes: as formas dos trajes civil e religioso tornaram-se cada vez mais próximas130.
Além disso, como a Igreja tinha uma visão muito particular do corpo, ela também exerceu seu poder na relação das pessoas com seu próprio corpo, o que impactou, sem dúvida, o vestuário.
No além, homens e mulheres reencontrarão um corpo, para sofrer no Inferno, para, graças a um corpo glorioso, usufruir licitamente do Pa- raíso, onde os cinco sentidos estarão em festa: a visão na plenitude da vista de Deus e da luz celeste, o olfato no perfume das flores, a audição na música dos coros angelicais, o paladar no sabor dos ali- mentos celestes e o tato no contato com o ar precioso do céu131
A partir do século XIII tornou-se frequente a representação do corpo nu, como nas figuras de Adão e Eva. A representação do nu nem sempre foi bem vista na sociedade medieval: estava associado ao perigo, ao mal, à selvageria, à loucura, ao risco moral. Assim, o hábito do monge e a armadura do militar se opunham à nudez. Para os personagens principais desta sociedade, essa tran- sição nudez-roupa acontecia por meio de ritos significativos: era o caso da or- denação do clérigo ou mesmo da investidura do cavaleiro.132
Com a revolução comercial dos séculos XII e XIII, o setor da tecelagem conheceu um desenvolvimento sem igual: novas técnicas e novos equipamen- tos para a fabricação de tecidos surgiram e uma grande quantidade de novos tecidos passaram a circular. Dois grandes centros de tecelagem, um localizado
130 LE GOFF, Jacques. Mercadores e Banqueiros da Idade Média. São Paulo: Martins Fon- tes, 1991, p. 95.
131 LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma História do Corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 12.
no Mediterrâneo e o outro na região da Frísia133 movimentaram o comércio dos
têxteis. Uma verdadeira indústria têxtil passou a existir. Não há como negar que essa nova situação influenciou o vestuário daquela época.134
As Cruzadas foram expedições militares plenamente legitimadas pela Igreja e nelas tomaram parte todos os cristãos da Europa Ocidental135. Com
elas, predominou um espírito religioso. Um retorno aos tempos apostólicos. Isso se revelou também no vestuário por meio de uma veste generalizada e impessoal.136
Atribuímos ao movimento cruzado a uniformidade e o alongamento das formas vestimentares. Contudo, o traje longo já era usado na Europa antes da primeira campanha, em um momento em que a moda oriental já havia sido in- troduzida no Ocidente. Em suas crônicas, Guilherme de Tiro (c. 1130-1186)137
expõe como foi rápida a adaptação ao tipo de roupa trajada na Terra Santa.138
Na verdade, a influência das Cruzadas no traje medieval está mais relaci- onada aos tecidos e ornamentos139. Por essa razão, faremos breves conside-
rações acerca dos têxteis. O enfoque recairá na produção, no comércio e nos tipos de tecidos.