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FIRST SORT EXAMPLE

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3.3 FIRST SORT EXAMPLE

Aproveito a situação de alforria na pia de Margarida, possibilitada com o intervenção do seu pai, para reforçar o argumento central do capítulo com situações nas quais a família teve importância fundamental na alforria.

A alforria na pia envolvia poder de barganha, e para a mãe, muitas vezes, escolhas. Zeferina teve que fazer uma escolha insólita. Qual dos seus filhos deveria permanecer escravizado como ela em poder de Antônio Rodrigues Silva e sua esposa Ana Joaquina da Conceição? Fausto e Fausta, nascidos em 24 de dezembro de 1838, gêmeos portanto,

um dia antes do Natal. Será que houve comemoração? No batismo ocorrido em 05/09/1839 na Fazenda São José, no Brejo do Saco, os gêmeos tiveram destinos diversos. Um foi alforriado na pia, outro permaneceu cativo. Fausto foi alforriado, Fausta não. O que teria ocorrido que causou esse desfecho, somente podemos especular. O senhor Antonio Rodrigues teria acordado com Zeferina que um dos filhos seria alforriado e a escolha recaiu sobre o de sexo masculino. Certamente Zeferina vislumbrou que um homem livre, naquela sociedade marcadamente sexista, teria melhores chances de ser bem sucedido, potencializando a chance de ela mesma conseguir a alforria. A influência de Zeferina nessa escolha está patente. Se a decisão tivesse ficado exclusivamente com o escravista certamente o escolhido para o cativeiro seria o do sexo masculino. Em uma fazenda onde morava, certamente, o braço masculino era bem mais produtivo.154

Mas Zeferina estava com um crédito grande junto ao senhor. Antonio Rodrigues Silva aumentara seu patrimônio com seis seres humanos nascidos do seu ventre. Ela tivera os filhos Plácido, nascido em 06/10/1833, Cassiano nascido em 04/10/1835, Tereza nascida em 08/10/1836, foi aí que teve os gêmeos. Depois ainda gerou Antonio, nascido em 21/09/1840.155

A ação da mãe Zeferina não termina por aí. Em 1835 conseguiu a alforria de seu filho Plácido, que já contava com quase dois anos. Este é caracterizado na carta de alforria registrada em livro de tabelião em 14/05/1841 como: “escravinho, mulato, filho de Zeferina, cabra”. Motivo da alforria? “Gratuitamente, por ser minha cria e por lhe ter bastante amor”, escreveu Antônio Rodrigues Silva na carta apresentada por ele mesmo a registro.156 Cassiano, outro filho de Zeferina, foi também alforriado. A carta de liberdade

foi redigida em 03/01/1845. Cassiano estava com 10 anos. Na carta constam como proprietários Antônio Rodrigues Silva e sua mulher, Ana Joaquina da Conceição. Foi alforriado condicionalmente. A condição? Acompanhar os escravistas até a morte destes. A carta foi apresentada a registro por Fausto Ferreira Leite.157

O destino dos outros filhos de Zeferina ainda não sei. Talvez o mesmo da maioria esmagadora dos escravizados sem possibilidade de acúmulo de pecúlio, sem

154 Livro de Batismo, nº 17, fl.. 69v.

155 Livro de Batismo, nº 16, fl. 28v e nº 17 fls. 11, 26v; 110. 156 LNT 2, nº 22, fl. 157.

possibilidade de transmitir o fruto do seu trabalho aos seus descendentes, que nasceram e permaneceram em cativeiro até a morte.

As mães e parentes de escravizados estavam de olho na situação social e econômica dos escravistas e se aproveitavam delas. Foi o caso de Ana, de 6 meses de idade em 21/11/1866, filha da escrava Raimunda. Sua avó, a liberta Tomásia, pagou 50 mil réis, quantia módica, mas Ana ficou obrigada a servir ao escravista enquanto ele vivesse. Agora seria só esperar a morte do Capitão Francisco Peixoto de Miranda Veras para conseguir sua alforria. Morte de uns, liberdade de outros. A carta foi registrada em 20/04/1869, três anos após a sua emissão. Isso pode indicar que a condição da carta foi satisfeita nessa data, tendo o capitão ficado de posse da carta até o fim da vida. Nesse caso a avó Tomásia apostou na morte próxima do senhor, será que acertou? O capitão era rábula, e também exerceu a função de professor primário; era “pobre” em relação aos endinheirados da região do São Francisco conforme ele mesmo se intitulou num processo de cobrança que moveu contra uma das suas clientes. Teve o azar de contratar maus pagadores e também foi à bancarrota, tendo que pedir empréstimos e mover processos judiciais de cobrança contra os inadimplentes. A alforria concedida mediante pagamento foi uma maneira de arrumar algum dinheiro para si e ainda garantir os serviços da pequena Ana. A vantagem é que a avó garantiu para Ana o direito de não ser transmitida aos herdeiros do capitão. Antes de 1872 o capitão já consta como falecido, deixando dívidas e prejuízos a alguns credores. 158 O que parecia uma eternidade pela análise tão somente

dos textos da carta de alforria, de fato resumiu-se a alguns anos.

A mãe de Ana, Raimunda, com 22 anos em 14/06/1869, também se aproveitou da má situação financeira do Capitão Francisco Peixoto de Miranda Veras. Pagou 550 mil réis pela sua liberdade. Desde 1861 vinha pagando em parcelas ao capitão. Em 14/06/1869 finalmente atingiu o valor desejado e Raimunda obteve a carta de liberdade. Tratou de registrar em livro de notas em 25/06/1869.159 Contudo – e aí veio a bomba para

Raimunda –, o escravista colocou uma condição para a alforria definitiva: que Raimunda servisse sua filha Emília de Miranda Veras até o seu falecimento. Raimunda aceitou

158 LNT 1, nº 23, fl. 65v. Ferreira, “Entre vazantes”, pp. 221, 234, 236. 159 LNT 2, nº 28, fl. 15.

resignada a condição por ver sua filha livre e na esperança da morte libertadora da herdeira.

O altruísmo materno foi observado entre os registros analisados. A escravizada Catarina pagou 800 mil réis pela liberdade do seu filho José, de 12 anos. Catarina permaneceu escravizada, mas colocou em seu filho a esperança de dias melhores para ele e talvez para ambos. Seus esforços, de anos juntando dinheiro, talvez de uma vida toda, verteram em favor do filho. Poderia ter usado o dinheiro para pagar sua própria liberdade. Mas ponderou, por certo, que correria o risco de ficar longe do filho por uma venda inopinada. Ela sabia, pelo relacionamento com o escravista Tenente Geraldo Barbosa Braga, que poderia barganhar com ele até certo ponto, afinal de contas conseguiu acumular pecúlio significativo, mas não tinha certeza se o filho poderia ter a mesma sorte. A alforria foi conseguida no dia 03/04/1858 e, vinte e um dias depois, a carta foi registrada em notas.160

Joana, escravizada, também comprou em 1870 a alforria de sua filha Ana, designada na carta de liberdade como “escravinha”, por 300 mil réis. Encontrou a oportunidade de ver sua filha liberta e não hesitou em pagar a Manoel Martins de Carvalho por isso.161 A carta foi apresentada por José Carvalho da Rocha.

Algumas avós também atuaram em favor dos seus netos. A escravizada Maria encontrou uma oportunidade de retirar do cativeiro sua neta Francisca, de 10 anos. Maria pagou 400 mil réis a Otaviano, órfão do Tenente-coronel Sergio Rodrigues Miranda. Recebeu a carta de alforria em 15/06/1872 e a própria avó, Maria, toda orgulhosa de sua decisão e feliz por ter livrado sua netinha do cativeiro, foi registrar a carta no dia seguinte para “segurança presente e futura”. Por ser o proprietário órfão, a transação teve autorização do Juiz de Órfãos.162

Não só as avós, mas os avôs também estavam atentos à situação do cativeiro de seus familiares. João Pereira fez um projeto para seu neto Esperidião. Sabia que seu filho tinha tido um filho com a cativa Riquelina. Não hesitou em ir pagando parceladamente a alforria do seu neto. Em 05/10/1873 finalmente conseguiu seu intento. A alforria totalizou

160 LNT 1, nº 21, 116v. 161 LNT 2, nº 28, 68v. 162 LNT 2, nº 29, fl. 25v.

em 520 mil réis. Esperidião tinha à época 19 anos e pode finalmente gozar sua liberdade.163

3.2.2 Senhores com família escrava na alforria- “Por meu sangue correr em suas

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