Existem hoje no mercado dezenas de antidepressivos diferentes, os quais, naturalmente têm de ser vendidos. Por isso, também existem diversos itens da DSMIV que contemplam depressões. Um dos mais abrangentes e, portanto, mais fácil de obter, é a distimia, antigamente chamada depressão neurótica. Portanto, se o leitor não tem talento para qualquer uma das outras secções, e quer à viva força ser doente mental, escolha esta variante.
Pio Abreu, Como Tornar-se Doente Mental
Uma forma leve de depressão, prolongada, resiliente, que não é demasiado severa, mas que condena as pessoas (e os leitores) a não saírem dos labirintos obsessivos, traça uma linha de continuidade entre o psiquismo das personagens antunianas, as paisagens que povoam e as cadeias de acontecimentos que narram. Não temos dúvidas de que há um padrão depressivo, uma síndrome bem definida por sinais e sintomas, a simbolizar a dialética angustiada entre o interior e o exterior.
A incapacidade de recomeçar e a violência externa delimitam a melodia dominante, de que tudo o resto são fugas e variações. Tendo de novo presente a imagem
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de Julieta, não será totalmente despropositado presumirmos que, para interrogarmos a força da prosódia antuniana, a ambiguidade das suas relações humanas, ou a complexa ironia com que enfrenta o leitor, temos que compreender com outra segurança esse sinal depressivo.
Afinal, como se carateriza a depressão?
A depressão é uma doença mental que afeta pessoas de todas as idades. Fenómeno de elevada prevalência e altamente incapacitante, a doença depressiva, nas suas formas graves ou ligeiras, dimensiona-se num espetro contínuo de sintomas. Depois de décadas em que os sistemas classificativos aplicavam a categoria genérica de «neurose depressiva» a uma grande variedade de formas da doença, impedindo modelos que quantificassem as suas variantes, usam-se atualmente os critérios normalizados pelo manual DSM-IV-TR (2000), que subordina a presença e a qualificação das depressões ao número (e à gravidade) dos sintomas e à sua duração. Peter D. Kramer, no livro que citámos, Contra a depressão, sintetiza a definição operacional:
A definição padrão de depressão faz-se a partir do episódio grave. Os episódios identificam-se por meio dos sintomas. Estes são nove: humor deprimido, dificuldade em experimentar prazer, baixo nível de energia, alterações no sono, diminuição ou exasperação do apetite, agitação ou lentidão mental e física, sentimentos de inutilidade e de culpa, dificuldade de concentração e impulsos suicidas. Para considerarmos grave um episódio de depressão, é necessário que intervenham pelo menos cinco destes sintomas, incluindo um dos dois primeiros, tristeza ou falta de energia. Os sintomas terão de se haver prolongado pelo menos duas semanas. Deverão ser suficientemente importantes para provocar angústia ou produzir deterioração funcional – o que significa que terão de ser pelo menos de gravidade moderada (KRAMER, 2007 pp. 165-166).
Delimitar os aspetos da doença depressiva num sistema de diagnóstico eficaz na prática clínica diária implica conseguir-se integrar as impressões dos médicos que convivem clinicamente com esses doentes. Para isso, partiu-se da definição operacional de depressão grave para modelar critérios adequados à classificação de um tipo de afeções com sintomas mais moderados e incidência prolongada. Podem preceder os casos mais graves, suceder-lhes numa sintomatologia residual ou aparecer posteriormente enquanto forma ligeira de recaída. Muitas vezes configuram aquilo que se distingue como um «estilo mórbido de personalidade» (KRAMER, 2007 p. 171). Este autor, aliás, sublinha o caráter destrutivo de grande número destas situações de distimia, vividas como depressões graves e de alto grau incapacitante (cf. KRAMER, 2007 p. 176).
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A teoria psicanalítica distingue este estado como personalidade depressiva, ou depressividade, e fá-lo depender da relação infantil primordialmente estabelecida com a mãe, protótipo de todas as relações posteriores e base de edificação do ego. Vários psicanalistas, desde Freud, traduziram a correlação entre traumas infantis e manifestações psicopatológicas. Estamos, portanto, com um núcleo de perdas afetivas infantis, conjugado com a imposição dominadora de limitar o comportamento espontâneo. Etiologicamente há grande probabilidade de encontrarmos um universo psíquico resultante de um investimento narcísico insuficientemente organizado, mães depressivas, hiperestimulantes, culpabilizadoras. O depressivo é um indivíduo que parte já derrotado, mas com um sonho inesgotável.
Nesta disposição negativa, os dias percorrem-se numa circularidade de perda, cuja etiologia se inclina no sentido histórico das relações com os objetos arcaicos, e em regra de génese materna, que Coimbra de Matos interpela admitindo que observará que a criança terá «sido investida narcísica e negativamente pela mãe» (MATOS, 2007 p. 38). A frustração apodera-se do ambiente emocional típico destes indivíduos, que vivenciam um estado psíquico demarcado principalmente pela baixa autoestima e por uma submissão intensa a um superego primitivo hipertrofiado. Este género de atuação social pode integrar-se num sentido evolutivo, em que os comportamentos passivos traduziriam a adaptação a um contexto ambiental agressivo.
Vive-se, consequentemente, numa atmosfera de embotamento emocional. As personagens antunianas são, na maioria, produto da expressão deste sintoma, e a falta de reação aos estímulos externos é acompanhada ao longo dos romances. Ora este modo de agir enquadra-se na discussão teórica da psicopatologia evolutiva, que propõe que o fenómeno depressivo está conectado a «uma certa dose de adequação» (KRAMER, 2007 p. 247). Ou seja, a depressão funcionará como uma energia restritiva que provoca a passividade. Impedindo mudanças de direção demasiado bruscas, o pessimismo afirma, pois, o contributo adaptativo da depressão, e a sua familiaridade com estratégias de preservação.
A ficção de Lobo Antunes é convincente em desempenhar vezes sem conta este modo de vivência afetiva, delimitado, na sua génese, pelo registo do abandono. As mães muitas vezes não participam amorosamente da infância das personagens, quer por abandonarem marido e filhos, quer por se recolherem a um apagamento submisso, quer por limitarem a proximidade com os filhos à função da sobrevivência. E é habitual
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haver distanciamento da figura paterna (que nalguns livros se personifica no avô, sendo o pai já vítima desta ânsia autoritária de contornos edipianos). Estigmatiza, inferioriza e dá razão, depois, a uma matriz de identificação, de conduta masoquista e à repetição dos modelos de relacionamento de subjugação e violência. O ego destes indivíduos está oprimido pela firmeza culpabilizadora do superego e por um suprimento emocional dominado precisamente por investimentos ambivalentes, provenientes de uma mãe também ela deprimida que tende a moldar a criança num meio de idealizações compensatórias, espelho invertido da sua própria debilidade. Formam-se personalidades de intensa fragilidade narcísica e um superego hipertrofiado. Este conflito entre uma necessidade de suporte narcísico constante.
O modelo emocional que estes métodos provocam serve-se de uma permeabilização excessiva aos ditames do superego, que constrói pacientemente um poderosíssimo sentimento de culpa com o qual dirige às zonas de recalcamento a pulsão explosiva do desejo. Em resultado: dá-se substância a indivíduos incapazes de agir, dilacerados entre o delírio megalómano que cicatrizará enfim o sofrimento narcísico (mas eternamente adiado) e um solene masoquismo, de submissão ao objeto e reverência a quaisquer fórmulas de autoridade. Ou, dizendo-o numa fórmula que transita pelos círculos de um paradoxo: dá-se substância a indivíduos sem qualquer substância. Exemplifiquemos, numa situação específica, um sentido de leitura que generalizamos nesta obra:
lágrimas sujas que não chegam a vir, estagnam atrás dos olhos embaciando as escadas, apoiar-me à parede tacteando os degraus, não procurei a varanda para não dar com a enfermeira lá em cima e ela não lágrimas sujas, lágrimas novas, limpas, não tiveste uma irmã, não te enterraram um berço, não gastaste tantos calendários ao comprido dos anos, tanta folha da direita para a esquerda, vinte e sete de outubro, trinta e um de maio
(dúzias de vinte e setes de outubro, de trinta e um de maio)
não me sobra um centímetro no coração onde não haja uma ferida, atinar com a auto-estrada entre ruas inacabadas, sem saída, restos de quintas, andaimes, chegar a casa, deitar-me, a minha actual mulher a ascender do travesseiro, preocupada comigo
– A reunião correu bem?
um pijama descosido na axila com a noiva do rato Mickey estampada a arregalar-se para mim mas a razão
(não me mintas)
do telefone do escritório à cabeceira da cama
(disse que não me sobra um centímetro no coração onde não haja uma ferida)
– Qual o motivo do telefone do escritório aqui?
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(o que é idade, o que é real?)
apresentando-se de luto, orientada no tempo e no espaço (mesma conversa)
memórias recente e remota conservadas nos parâmetros normais (mesma conversa)
raciocínio adequado a uma inteligência média (desisto)
contacto retraído com dificuldade em exprimir o motivo da consulta, queixas de depressão sem irritabilidade nem sequelas psicomotoras que atribui ao falecimento de uma pessoa chegada ocorrido há três meses, em companhia da paciente, num hotel
numa pensão
numa hospedaria de Lisboa cujo nome e localização não refere, relacionando o dito falecimento com o início dos sintomas não apenas pela morte em si mas pelo facto de não haver podido participar, como era seu desejo e por razões que não aduz, no velório e no enterro, limitando-se a assistir às cerimónias fúnebres distanciada da família como se visitasse outra campa qualquer (ANTUNES, 2004 p. 271-272)
Fragmento típico da textualidade antuniana, o aqui e agora da narração está absorvido por motivos estáticos do passado, numa neurose de repetição que, por lógicas associativas, gera o texto a partir de um volume de temporalidades misturadas. A voz que ouvimos pertence a um psiquiatra, personagem secundária de Eu Hei-de Amar uma
Pedra. Incorporado unicamente nos capítulos do livro identificados como «as
consultas», de que é o narrador principal, este médico tem a seu cargo a consulta no hospital a que a Senhora do Medalhão, personagem em função de quem este romance se redigiu, recorre por estar deprimida. Ao longo destes capítulos, ao invés de ouvir as queixas da doente, e prescrever alguma terapêutica, contenta-se, displicentemente, a registar as informações obrigatórias no processo clínico, utilizando este pretexto para derivar pelos seus fantasmas e pela sua própria depressão.
A experiência da doença depressiva pretende realizar uma metáfora universal na obra antuniana e não ser apenas utilizada para materializar um sentimento de desespero e de imobilização que qualquer pessoa pode sentir em certas fases da vida. Esta depressão, como se disse, não é sedutora. O olhar do médico não concede direitos de permanência a qualquer estado enfermo, pelo contrário, dá opções de resistência e minora a progressão, instituindo como objetivo a remissão rápida e consistente.
Talvez não seja comum encontrar esta modalidade de representação nos livros de António Lobo Antunes, mas é isso mesmo que propomos: o facto de virtualmente podermos acompanhar os protagonistas enquanto mergulham nas camadas concêntricas do inconsciente, e delas ascendem em viragem lírica até à luz, obriga-nos a questionar
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a(s) sua(s) narratividades não pela imagética do inferno ou do poço sem remédio, mas pela via de tratamento psicoterapêutico cujos fios assim se unem.
Emergir da descida a pique aos recessos da condição humana é um predicativo para encontrar os nexos do universo narrativo, que desaguam afinal nos nossos. Por isso, no capítulo anterior, falávamos de um corpo em aprendizagem e intensificámos que se lesse os romances em função de uma proposta de descontinuidade em relação ao modo relacional em que se vive. No fundo, mais não estamos do que a cursar, peça por peça, as instruções de «Receita para me lerem» (ANTUNES, 2007 [2002] pp. 113-116).
Os quadros clínicos que julgamos persistirem em quase todas as personagens evocadas por Lobo Antunes são os distímicos, as depressões mais subtis, evoluindo, em alguns casos, para uma síndrome depressiva bem definida, nervo temático que, numa dimensão claramente estrutural, é facilmente detetada no psiquiatra-narrador do ciclo inicial. Na maior parte dos casos, porém, a depressividade funciona como uma barreira que limita a queda numa depressão aterradora, um passo em falso no vazio, como aquele que o psiquiatra deu ao abandonar, escusadamente, a célula familiar.
Há, de facto, cordas de sentido que vibram desde Memória de Elefante e que o enraízam, prontamente, nas tensões da patologia depressiva. Nos volumes do ciclo de aprendizagem, o grau de dependência apreende-se ao nível da conceção do protagonista e do aperfeiçoamento simbólico dos espaços em que a sua vida circula. Esta técnica complexa exigiu tempo para ser adquirida:
O Memória de Elefante saiu por acaso – não vale a pena estar a contar a história –, mas ainda não era aquilo, embora fosse necessário fazer aquela catarse da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da infância e de tudo para libertar-me da ganga emocional e começar a escrever a sério (SILVA, 2009 p. 141).
Mais do que tempo: exige uma mão que a escreva, ouvidos que ouçam as vozes que a fabricam. Na altura em que trabalhava no manuscrito daquele que veio a tornar-se a sua primeira publicação, o autor não gerou ainda os instrumentos apropriados aos seus projetos criativos, pelo que a composição discursiva ainda é imune à transdução dos sinais da depressão. E por isso os romances não serão instantaneamente enraizados nesta lógica analítica, pelo menos no que respeita à sua textualidade. Classificar-se-ia como incorreto, deste modo, caucionarmos a opinião de que o estilo de modelização da sua frase contribuísse para o roteiro da depressão em que se baseia o quadro diegético.
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Fomos até agora enunciando essa dinâmica de aparecimento de um fio de vozes e das suas consequências estilísticas. As obras seguintes aproveitarão as experiências com grupos para melhor precipitar nas palavras a complexidade da natureza do indivíduo:
A mulher observava-me, a farejar a disposição dos meus humores camarários enquanto eu, amigo escritor, estalando contra o céu da boca a minha língua de fiscal, me passeava a verificar o isolamento dos fios eléctricos e as tomadas de corrente e me defrontava com compartimentos interiores, saturados de transpiração, essência de drogaria e perfume de supermercado, nos quais tive de caminhar de perfil para não tropeçar em pantufas e bacios, a pensar no que pode haver de interessante na falta de dinheiro e a interrogar- me acerca do motivo que te conduziu a escolher aquelas pessoas amargas, cheias de medo e do rancor dos infelizes, de entre a multidão de milhares de criaturas amargas que moram nesta cidade de merda, na qual o sol lantejoila a desgraça de um manto de luz (ANTUNES, 2008 [1992] p. 53).
Opondo-se a linearidades lógicas e à vassalagem de uma ideologia suprema, o texto coloca-nos no centro da experiência humana. Por isso, não se procura interpretar os desvios patológicos extremos da loucura, nem idolatrar os ícones do hoje que são os homens e as mulheres bem-sucedidos do mundo. O incentivo é outro. A intensidade dramática exige ser trabalhada nas células do quotidiano. Veja-se como Lobo Antunes ilustra as suas opções quanto à seleção de personagens:
Era mais fácil pôr essas pessoas a viver aí do que escrever sobre pessoas da alta burguesia a viver no Príncipe Real ou no Estoril ou na Lapa, porque essas são pessoas mundanas e não são particularmente interessantes […]. Queria pessoas reais, com sangue, com vida (ARNAUT, 2008 p. 229).
O que Memória de Elefante alcança passa por enunciar um plano de nivelação dos universos psíquicos com que a obra a escrever irá transigir. Neste aspeto significativo, este romance adianta-se ao próprio tempo da escrita e monta um sistema premonitório que, sob as variáveis da depressão, nos anuncia algumas das futuras preocupações romanescas. Memória de Elefante prefigura tanto a representação depressiva como o processo terapêutico que será posto em prática. O quadro depressivo do psiquiatra é mais grave nesse primeiro romance, e mais doloroso, também, do que os quadros mais ligeiros que pontuam as outras personagens. E por aí indica caminhos, espera pelos outros do outro lado do espelho. Será excesso de fé no grau superior que os círculos deste romance gravam profundamente na obra antuniana?
Talvez seja. Apesar disso, tais traços semânticos não são, de todo, indizíveis. Mas também nós asseveramos que esta apreciação parece imoderadamente ávida e um
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pouco vaga. Empregue-se, por isso, uma imagem para que a noção sumarie os seus elementos com outra comodidade. Memória de Elefante, naquela que avaliamos como uma das suas realizações mais densas, concebe um mecanismo equivalente às células estaminais da geografia emocional antuniana, e aparelha o palco onde estes dramas serão, depois, interpretados. Pactuando, nestes termos, com a hipótese deste universo se tornar representativo, enquanto projeção temática e estilística, de um curso narrativo globalizante.
Tudo isso pode confrontar-se na macroestrutura deste romance: não podemos deixar de salientar que a axiologia da travessia, que se associa ao efeito visual de um túnel entre um dia que obscurece e um novo dia que clareia, se adequa ao género de transição temporal que Lobo Antunes arquiteta. Espontaneamente, em subterrâneos onde os nódulos conspirativos nunca deixam de aparecer. Longos, às vezes estes períodos abarcam alguns anos, à maneira das sagas familiares (de Faulkner, por exemplo, como anteriormente vimos) – mas o exercício discursivo nunca se desune do jugo da rememoração.
Nesta atividade psicológica se propagam os acontecimentos. Diferenciando-se à medida que a escrita se purifica, os planos de tempo irão focar-se numa natureza dualista – entre o estatismo de um presente sem incidências e um passado que só pode ser capturado a várias vozes. Não há pontos intermédios. Se as chaves de leitura de
Memória de Elefante são dadas logo nos trechos de abertura (e assim continuam até Explicação dos Pássaros), idêntica solução é posta de parte com Fado Alexandrino.
Nesta armação, a memória guia o registo decisivo das coordenadas ficcionais e quaisquer outras leituras serão, enfim, subjetivadas: as dos espaços sociopolíticos a que os romances sempre se abrem e mesmo as que admitem o país como figura principal.
Essa é uma das expressões mais conseguidas da vitalidade que a obra de Lobo Antunes conserva ao longo dos anos. Estes livros expõem-nos à complexidade da natureza humana, equilibrada nos seus alvéolos invariáveis. Ao mesmo tempo, dá-se um gesto refrativo, provindo de uma espécie de apelo de afeto: o objetivo não é, meramente, pintar, calcular um perfil – mas levar-nos a escutar, a prestar atenção às diferenças que todos temos como intransmissível meio de riqueza. Veja-se, por exemplo, o próximo trecho, a partir do qual poderíamos implicar uma simbologia do poço que programasse, terminantemente, uma dinâmica de queda, sem remissão. Se proporcionarmos alguma esperança à personagem, ouvirmos a sua presença, e não a
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ausência de emoções de um corpo transido, qual a interpretação que faremos? A sensação opressiva de sofrimento está ainda muito presente, mas o trabalho de escavação autoanalítico da psicoterapia já encetou as descobertas: um qualquer dia destes, a manhã, repentinamente, desponta. Há que suspeitar da doença. A prostração depressiva é, definitivamente, o impostor com quem o leitor não deve negociar:
[…] e todavia, entende, em noites como esta, em que o álcool me acentua o abandono e a solidão e me acho no fundo de um poço interior demasiado alto, demasiado estreito, demasiado liso, surge dentro de mim, tão nítida como há oito anos, a lembrança da cobardia e do comodismo que cuidava afogados para sempre numa qualquer gaveta perdida da memória, e uma espécie de, como exprimir-me, remorso, leva-me a acocorar-me num ângulo do meu quarto como um bicho acossado, branco de vergonha e de pavor, aguardando, de joelhos na boca, a manhã que não chega (ANTUNES, 2009 [1979] p. 135).
Aquilo que os romances radicalmente consomem é o vazio repleto de uma urgência de modificação que Lobo Antunes extrai das pessoas reais que conhece. O apelo pelo afeto encontra-se, inclusivamente, nas personagens mais despóticas, como Diogo ou Francisco. Se mais respostas houvesse, muitos suicídios poderiam evitar-se:
e talvez, se ele der por mim, não necessite da torneira do gás, eu não em Évora com os restantes cachorros, trotando de fome nos becos, desaparecendo, voltando, eu que nunca os beijava pronta a aceitar um beijo, dedos no meu pescoço, patetices assim, um chupa-chupa para a minha filha
– Pegue-lhe ao colo amigo
pegue em nós duas ao colo um bocadinho que seja, um chupa-chupa de morango ou limão ou laranja