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Recommandations générales

E. Coopération et migrations

2. Recommandations générales

A Comunidade de Prática do Ensino de Física é uma comunidade disciplinar. Sendo o professor de Física formado no interior desta comunidade, ele vivenciará práticas que contribuirão para uma formação disciplinar em Física. As atividades desenvolvidas durante o curso de Licenciatura em Física promoverão um engajamento para o conhecimento da Física e dos elementos necessários ao seu ensino.

Apesar do contato com disciplinas de áreas diversas, como Matemática, Linguagens, Química, Políticas da Educação, Didática e outras. Ousamos chamar a Comunidade de Prática de Ensino de Física de disciplinar porque o seu ‘domínio’ é o Ensino da Física. É em torno deste conhecimento que girarão as teorias, as discussões e as práticas formativas. Como exemplo, podemos citar que serão desenvolvidas conversas e reflexões a respeito de livros didáticos e paradidáticos relacionados à Física e ao seu ensino, assim como serão realizadas reuniões de estudos teóricos ou para elaboração de programa de aulas, ou instrumentos e equipamentos para as aulas de laboratórios que colaborem no ensino de Física. Ou seja, as práticas profissionais no interior desta comunidade deverão contribuir com a aprendizagem do Ensino de Física.

Inicialmente, a formação do professor, através da sua participação em uma Comunidade de Prática de Ensino disciplinar, parece afastá-lo de uma formação que o permita contribuir com a interdisciplinaridade na escola. Mas recorremos ao fato de que a identidade do professor será formada a partir da negociação do significado no processo de aprendizagem. Segundo Wenger (2012), os participantes em uma comunidade têm suas próprias experiências de prática. Estas experiências não estão simplesmente confinadas ao fazer, mas elas são enriquecidas com “[...] o conversar, o pensar, o sentir e o pertencer” (LAPA, 2014, p. 81). São provenientes de diversas formas de relações, não apenas harmoniosas e podem, ou não, refletir as competências da comunidade. Estas práticas terão significados para o licenciando na medida em que eles se identifiquem com elas.

Tem-se como objetivo que o processo de aprendizagem ocorra durante a convivência com a comunidade. A identidade do professor formada refletirá o engajamento nessa experiência vivenciada. Repercutirá também o seu alinhamento com as competências da comunidade e com a interpretação trazida da sua própria participação no mundo social. Este conjunto produz identidades únicas, resultado da individualidade de cada licenciando. Esta individualidade carrega experiências em educação e em ensino, adquiridas antes do curso de licenciatura, como as vivenciadas nas etapas da Educação Básica, enquanto aluno. Pode ser obtido também, paralelamente ao curso de licenciatura, através da sua participação em eventos científicos, programas de iniciação, estágio ou leituras de publicações em revistas científicas. Portanto, o sentido interdisciplinar na formação do professor de Física pode surgir de várias comunidades nas quais o licenciando transita.

Este dinamismo na formação da identidade do professor não é apenas característica da formação do licenciando. Ela também ocorre, sutilmente, nos membros mais experientes da comunidade. A aprendizagem é buscada por todos os membros da comunidade. Sejam os professores em formação, sejam os professores formadores. Ela pode ser visualizada como um processo de realinhamento entre competências socialmente definida e a experiência pessoal. No entanto, as mudanças sofridas no interior da comunidade não interferem nos predicados que definem as suas competências. Ou seja, numa Comunidade de Prática de Ensino de Física, a inserção de atividades interdisciplinares não interferirá na sua competência em preparar para o ensino da Física.

A qualidade do aprendizado decorrerá do comprometimento demonstrado numa administração cuidadosa do tempo e da atenção dedicados às questões relacionadas à prática de ensino. Este empenho ou engajamento pode possibilitar o surgimento de novas ideias que contribuam com a complementação da prática tradicionalmente realizada. O que também possibilitará a inserção de novos elementos no conjunto de prática da comunidade. Estas contribuições, por sua vez, podem ser frutos das experiências vivenciadas, por exemplo, das participações em projetos multidisciplinares ou interdisciplinares na Educação Básica.

Da formação escolar inicial, os licenciandos trazem componentes característicos de outras disciplinas que podem promover novas metodologias de ensino para trabalhar um conhecimento tradicional da comunidade. Ou ainda, transportam

conceitos de outras disciplinas com a possibilidade de contribuir para a aplicação do conhecimento específico, próprio, daquela comunidade. De toda sorte, as intenções individuais devem ter aproximações com os componentes constituintes da Comunidade de Prática de Ensino e serem aprovados pela sua equipe.

Uma comunidade de prática de ensino não pode, nem consegue viver fechada em si mesma. Ela é fortemente influenciada pela dinâmica da sociedade da qual faz parte. No âmbito da educação formal, é pressionada pelos valores do mercado de trabalho e diversos outros valores que a cercam. Em todo o caso, existe o trânsito do conhecimento do entorno para a comunidade e dela para a sua vizinhança. Na Figura 6, representamos este trânsito de elementos que pode se originar de diferentes Comunidades de Prática (CoP).

Wenger (2012) traz o conceito de rede que atua de forma complementar neste processo. Enquanto as comunidades enfatizam a identidade individual e coletiva, promovendo uma ligação entre os membros, as redes salientam a conectividade das comunidades, mediante a flexibilização das suas fronteiras. O vínculo em rede não é de identificação nem de compromisso, mas de troca. A noção de rede é uma configuração propícia para o aperfeiçoamento da produção de conhecimento de um professor em formação inicial, quando se objetiva formar para a interdisciplinaridade. A interdisciplinaridade, então, ocorre com a conectividade entre as comunidades de prática de ensino disciplinar ou com a relação entre os seus domínios. No ambiente de ensino, o objetivo é proporcionar às jovens construções de um conhecimento que

Figura 6 - Representação da troca de influência em uma Comunidade de Prática.

Fonte: Elaboração da autora. CoP

1 CoP2

CoP

CoP3 CoP

respondam às suas atuais demandam e lhes permitam conhecer os pleitos sociais. O trânsito de conhecimento entre as diversas comunidades ocorrerá em níveis de participação diferenciados, podendo, ou não, influenciar fortemente a formação da identidade. Estes níveis de participação ocorrem de forma diferenciada e são apresentadas por Wenger (1999) em cinco categorias, a saber:

❖ Nuclear - grupo fortemente envolvido que propicia a comunidade;

❖ Adesão completa – membros que definem a comunidade e são comprometidos no desenvolvimento da prática;

❖ Participação periférica – membros da comunidade, porém com pouco empenho e sem autoridade, normalmente são novatos;

❖ Participação transacional – não são membros da comunidade e só interagem com o intuito de troca de serviço ou conhecimento;

❖ Acesso passivo: pessoas que se beneficiam da produção da comunidade, sejam elas intelectuais ou materiais.

Um membro de adesão completa ou de participação periférica em uma determinada comunidade pode ter uma participação transacional em outra. Estas participações fluidas são importantes para o trânsito de informações e para o estabelecimento das redes, favorecendo a possibilidade de construção de eventos interdisciplinares.

Particularmente, reafirmamos a nossa ideia de que o Curso de Licenciatura se comporta como um sistema composto de duas comunidades nucleares: a Comunidade de Ensino de Física e Comunidade de Física. Periféricos a estas comunidades estão aquelas que apoiam o curso com conhecimentos instrumentais, necessários e fundamentais para a formação dos professores de Física; são disciplinas das áreas de Linguagens, Matemática, Química, Pedagogia, Informática e outras. Idealizamos este sistema que está representado na Figura 7.

A formação da identidade de um professor de Física terá uma grande contribuição do seu envolvimento no curso de Licenciatura. Neste espaço, ele adquirirá, com a vivência, o conhecimento da ciência e do exercício pedagógico necessário para o Ensino de Física. A Licenciatura ainda tem a função de promover

as intersecções entre a identidade já construída nos sistemas exteriores a ela, com os valores para o perfil de professor que se deseja construir.

Nesta perspectiva, será preciso incrementar elementos que permitam atitudes para se aprofundar no domínio da sua comunidade, para conhecer as relações contextuais do seu campo de atuação e se comunicar com membros de comunidades que comporão o sistema social onde desempenhará seu papel de professor. São elementos que afloram com a participação do professor em formação na sua comunidade de prática e nas comunidades agregadas em rede.

Comunidade de Física Comunidade de Ensino de Física Matemática Outras

Figura 7 - Sistema que representa o Curso de Licenciatura em Física

A revisão teórica e de literatura apresentadas neste capítulo e no anterior nos proporcionou o levantamento do perfil de um professor interdisciplinar membro de uma Comunidade de Prática disciplinar. Os elementos giram em torno do engajamento, da pesquisa e da comunicação conforme representamos na Figura 8.

O engajamento é o termo de intersecção para o estudo da Interdisciplinaridade e Comunidade de Prática na formação do professor. Configura o esforço do aprendiz no desenvolvimento das atividades específicas, visando à apreensão dos conceitos, valores e atividades próprias para o exercício da função no interior da Comunidade de Prática. Na Interdisciplinaridade, este engajamento se apresenta revestido da atitude na participação progressiva, quando ao se envolver com as dinâmicas da sua própria comunidade não se exime de contribuir com todo o seu aporte cultural, adquirido nas diversas comunidades nas quais já transitou e transita. Esta colaboração reflexiva inicia no interior da própria comunidade. Ocorre na medida em que o licenciando procura compreender os fundamentos da ciência base da sua comunidade, os seus limites e sua aplicabilidade. E se estende com o estudo das suas fronteiras e das possíveis participações em comunidades de outros princípios disciplinares, frente a problemas reais carreados para o ensino.

Outros dois termos afloram, na perspectiva interdisciplinar: a pesquisa e a comunicação. A pesquisa é um instrumento importante tanto para o conhecimento e

Engajamento

Pesquisa Comunicação

Licenciando em Física

Fonte: Elaboração da autora.

aprofundamento no domínio da sua comunidade, quanto para o seu crescimento enquanto aprendiz e o estabelecimento de diálogos com os mais experientes. Ela será necessária para a extrapolação em conhecer domínios de comunidades de prática de outras disciplinas e comunidades não científicas que poderão compor o seu repertório de ensino.

A pesquisa é o elemento que fortalece a presença do licenciando na comunidade e fomenta a interdisciplinaridade. O professor nunca vai deter, nem interessa que detenha a totalidade de conhecimento necessário para contribuir com a formação social ou de interesse individual do estudante. Portanto, ele precisa ser capacitado para a pesquisa com um viés interdisciplinar.

Esta preocupação não tem o intuito de que o professor obtenha domínio sobre as outras disciplinas. A finalidade é que ele desenvolva, como proposta, a utilização da pesquisa como um instrumento pedagógico. Seja para o seu conhecimento, seja para trazer o conhecimento aplicado, científico ou tecnológico, para a sala de aula. Ou ainda, para ensinar pela pesquisa, para capacitar seus alunos a investigar as contribuições complementares existentes nas diversas ciências e especialidades acerca de um dado recorte da sociedade a ser estudado.

O elemento comunicação é substancial para a efetivação da interdisciplinaridade no ensino. Ele é imprescindível para o crescimento do licenciando no interior da sua própria comunidade de prática. É, também, igualmente importante para conduzi-lo a diálogos, além das suas fronteiras de atuação ou para as negociações no interior da própria comunidade, assim como para a prática dialógica de ensino, necessária para o exercício interdisciplinar.

Para desenvolver a comunicação, o professor em formação deve estar receptivo aos valores culturais do outro e compreensivo quanto ao fato de que sua fala e expressão precisam ser alcançadas pelo outro. Dentro de uma Comunidade de Prática de Ensino, o professor em formação aprende uma linguagem, falada e visual própria, com a qual transmite as ideias, os conceitos e os valores próprios àquela comunidade. A comunicação não ocorre pelo monólogo com a apresentação de imagens. Ela é resultado do diálogo, o qual só se efetiva com a compreensão das várias formas de linguagem. Para completar, a comunicação é o elemento que

concatena seu esforço ao longo do processo de preparo funcional, culminando na sua prática em sala de aula.

Um professor terá uma formação interdisciplinar, na medida em que ele adquirir características para desenvolver uma prática de ensino, individual ou coletiva, que tenha como objetivo uma educação científica apontada para as questões sociais, ambientais, científicas e tecnológicas. Ou seja, o professor deve colaborar com uma educação que permita ao educando conhecer o mundo onde está situado.

Individualmente, o sujeito deve estar imbuído de uma atitude12 que o conduza a se aprofundar no seu conhecimento disciplinar, ao mesmo tempo em que tenha a pretensão de extrapolá-los através das relações com pessoas que possuam outros domínios disciplinares. Ele deve estar disposto para as ações coletivas interdisciplinares, permitindo-se diálogos onde reconheça as limitações da sua disciplina e aceite confrontos complementares das outras áreas do conhecimento.

A revisão teórica e de literatura apresentadas neste capítulo e no anterior nos proporcionaram o levantamento do perfil de um professor interdisciplinar, membro de uma Comunidade de Prática disciplinar. Estas características devem estar presentes,

a priori, nos elementos acima descritos: engajamento, pesquisa e comunicação.

12 Usamos o mesmo termo (atitude) utilizado por Ivani Fazenda (2014, p. 19) em seus trabalhos, entendendo que o fazer interdisciplinar é uma ação que vem de preocupações individuais e sociais e se entrelaçam com o fazer pedagógico. Mas para tanto são necessários alguns passos do indivíduo professor para a estruturação da sua formação na ciência e na área pedagógica, assim como no fazer pedagógico.

Quadro 4 - Perfil desejado do professor Interdisciplinar em formação numa Comunidade de Prática disciplinar

Elementos da formação na Comunidade de

Prática

Características do perfil de um professor interdisciplinar

Engajamento – atitude interdisciplinar

Demonstra interesse por questões que demandem abordagem interdisciplinar.

Reconhece os limites de atuação científica do domínio da sua Comunidade de Prática.

Relaciona a Ciência e a Cultura13

Resgate da vivência multidisciplinar abordagens para as atividades interdisciplinares.

Ajusta elementos metodológicos de outras disciplinas nas práticas de ensino da sua comunidade.

É crítico e reflexivo na construção do seu conhecimento Insere problemas sociais, científicos ou tecnológicos, da realidade cotidiana, no seu planejamento de ensino. Contextualiza as atividades da Comunidade de Prática à realidade do público alvo.

Pesquisa – atitude investigativa interdisciplinar

Tem como objetivo de ensino o conhecimento de uma realidade.

Tem o domínio da sua Comunidade de Prática como um instrumento para o conhecimento da realidade.

Amplia o seu conhecimento para a inovação no planejamento.

Admite a pesquisa como um instrumento para a sua formação de professor.

Dispõe a sua disciplina com outras disciplinas e especialidade para estudar um evento.

Analisa um problema na perspectiva de outros saberes. Demonstra capacidade de adaptação quando depara com novas circunstâncias.

Comunicação - atitude comunicativa interdisciplinar

Tem facilidade para expressar a sua opinião;

Propõe práticas de ensino dialógicas alinhadas com os problemas da sociedade;

Aperfeiçoa a sua prática participando de redes de comunidades de prática, ensino ou não, de outras áreas disciplinares;

Negocia o seu ponto de vista profissional junto a membros de diversas comunidades.

13Compreendemos Cultura como um conjunto de valores e prática construídos historicamente com o objetivo de resguardar um grupo de indivíduos de outros grupos vizinhos, das suas hierarquias sociais, etc.

5 A FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR DOS PROFESSORES EM