CHAPITRE 6 CONCLUSION ET RECOMMANDATIONS
6.2 Recommandations
Nas entrevistas, apenas Barbosa não cita problemas com sua família em relação à sua identificação como homem (trans). Gustavo tem problemas com a mãe, Frederico teve com a mãe e o pai, atualmente só com o pai, cuja idade está avançada e pode ser para ele, um dado explicativo de suas dificuldades com o pai. Marcelo mora com irmão e tem problemas com outros familiares, Styler tem
problemas de rejeição de sua identidade masculina por parte de seus familiares próximos, porém refere que a família o aceita. Todos ao falar da família retomaram memórias da infância e dificuldades com a expectativa em ―ser menina‖. Marcelo refere que teve que aprender a ser menina, pois sempre foi menino. Como descreve:
Eu não me via [como mulher], eu tenho comigo que eu aprendi a ser mulher, porque eu me lembro que eu via a minha mãe e eu não era que nem minha mãe. Eu realmente aprendi as coisas do feminino, eu não sabia! [...] Eu tentei aprender a ser mulher. Eu fazia algumas coisas, mas depois eu cansava e voltava ao meu normal. (Entrevista, 24/09/2014).
Ao passo que a autoidentificação como homem seja um episódio traumático e conflitante no ambiente familiar para a maioria dos homens (trans) brasileiros, o convívio familiar é decisivo para os ensinamentos das normas de gênero. Ou aprendem por repreensões – as quais muitas vezes assumem atitudes de extrema violência – ou descobrem as exigências sociais dos gêneros a partir da observação dos adultos, como alegou Marcelo. Gustavo relata que ―tentava ser mulher‖ (entrevista 14/06/2013) para satisfazer o interesse de sua mãe, a qual ele refere manter um relacionamento horrível. Frederico aponta para a influência de seus familiares não na constituição de sua identidade, ―mas na repressão [dela]‖ (entrevista 16/09/2014). Styler acredita que sua família não interferiu em sua identificação como homem (trans), pois, ―acho que eu não fui influenciado por eles, pelo menos pela mãe não, ela queria que eu fosse menina, ela me vestia igual menina desde criança, colocava vestido, lacinho, sandália‖ (entrevista 03/10/2014).
Nestes relatos se consegue evidenciar o quanto não cabe alocar o gênero em uma categoria advinda da constituição biológica. Ao recordarem de seus episódios de ―tentar/aprender ser mulher‖, estes homens (trans) estão confirmando que
O gênero só existe na prática, na experiência, e sua realização se dá mediante reiterações cujos conteúdos são interpretações sobre o masculino e o feminino em um jogo, muitas vezes contraditório e escorregadio, estabelecido com as normas de gênero. O ato de pôr uma roupa, escolher uma cor, acessórios, o corte de cabelo, a forma de andar, enfim, a estética e a estilística corporal são atos que fazem o gênero, que visibilizam e
estabilizam os corpos na ordem dicotomizada dos gêneros. (BENTO, 2014a) 60.
Embora Frederico e Styler não observem a influência dos mecanismos de elaboração dos gêneros em suas dinâmicas familiares, a própria repressão ao seu desejo em ser homem e as aspirações (dos familiares) de fazê-los mulher explicita a didática dicotômica dos gêneros. Se para ser mulher era preciso utilizar roupas socialmente destinadas ao feminino como ―vestido, lacinho e sandália‖, para construir-se como homem torna-se imprescindível distanciar-se destes apetrechos e buscar identificação com outros, mesmo que isso traga represálias, exatamente como sugeriu Bento
Essa pedagogia dos gêneros tem como objetivo preparar aquele sujeito para a vida referenciada na heterossexualidade, construída a partir da ideologia da complementariedade dos sexos. [...]
A infância é o momento em que os enunciados performativos são interiorizados e em que se produz a estilização dos gêneros: ―Homem não chora‖, ―Sente-se como menina‖, ―Isto não é coisa de uma menina!‖. Esses enunciados performativos têm a função de criar corpos que reproduzam as performances de gênero hegemônicas. (BENTO, 2006, p. 89 e 90).
No final desta pesquisa assisti a um programa televisivo cuja temática foram as pessoas (trans). No site da emissora61 há uma declaração da mãe de um jovem (trans), cujo conteúdo diz: ―Não tinha dois anos e já não aceitava que colocasse saia, não aceitava o rosa, não queria boneca, era sempre carrinho, brincava no condomínio só com os meninos.‖ Outro exemplo desta produção dos gêneros.
Nesta mesma reportagem a mãe, ao elaborar o que seria o seu preconceito em relação à identidade de gênero do filho afirma:
[...] o meu preconceito era: eu vou ser julgada que eu não soube educar, que eu não soube nada, eu tava divorciada, eu vou ser julgada pelo pai por
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Esta é uma versão online do artigo publicado na revista Cult e a mesma não possui indicação de numeração das páginas.
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Para ver a matéria integral acessar: http://g1.globo.com/profissao-
reporter/noticia/2014/11/transexuais-falam-sobre-adequacao-sexual-e-como-encaram- sociedade.html
estar convivendo com um monstro dentro de casa porque isso era o que se dizia na época. [grifos meus]
Leite Jr ao analisar a invenção das categorias travesti e transexual no discurso científico reconhece a incidência do termo mostro em narrativas explicativas para estas categorias, visto que ―‗monstro‘ é aquele que mostra algo [...]. É [...] a encarnação de algo fora do cotidiano ou do previsto. Representa uma alteração maligna ou benéfica da ordem do mundo.‖ (LEITE JR, 2008, p. 37). Talvez esta sentença desta mãe seja exemplar ao demonstrar o que Cohen (2000, p. 44) sugeriu: ―O monstro corporifica aquelas práticas sexuais que não devem ser exercidas ou que devem ser exercidas apenas por meio do corpo do monstro. [...] o monstro impõe códigos culturais que regulam os desejos sexuais.‖ Segundo este autor
O difícil projeto de construir e manter as identidades de gênero provoca uma série de respostas ansiosas por toda a cultura, dando um outro ímpeto a teratogênese. [...] A identidade sexual ―desviante‖ está igualmente sujeita ao processo de sua transformação em monstro. (COHEN, 2000, p. 35).
Embora todos os entrevistados tenham relatado situações de repressão a sua identificação como homem (trans), também relatam movimentos de resistência, como é o caso de Styler, quando conta - em meio a risos - que jogou num poço sua sandália. Gustavo recorda que aos 11 anos de idade raspou a cabeça, não obstante tenha sofrido ―uma retaliação muito grande da família” (entrevista 14/06/2013). Ao passo que Frederico – o mais jovem dos entrevistados – afirmou que não possui muitos vínculos com sua família decorrente do ―distanciamento‖ que adquiriu com vistas a evitar ―ficar tendo que me explicar o tempo todo, toda aquela coisa de „Ah, mais você mudou de sexo...‟ Uma coisa chata que eu prefiro me privar disso” (entrevista, 16/09/2014). Na atualidade, refere que sua mãe, a qual teve dificuldades no início de seu processo de descoberta enquanto um homem (trans) modificou sua postura, evidenciando também outra possibilidade de relação com os familiares, uma vez que ―minha mãe virou quase que uma militante, ela vem aqui na ONG, lê livro do João Nery, faz tudo. Muita mudança assim. Incrível!‖ (Entrevista 16/09/2014).
4.3.2 Escola: “Eu não gosto do meu nome, não fui eu quem escolheu. Eu não