Chapitre I : Activation B
5. Recombinaison suicide du locus (LSR)
«Com o pretexto de que ele [Colombo] a descobriu [América], fez-se-lhe um centenário. Bosch, o malogrado alcaide, gizou as festas. Forasteiros vieram.
Hotéis subiram preços. Chuva caía. Pesetas falsas circulavam.»103
Ramalho Ortigão
Quando se ambiciona resgatar do passado alguma memória, é necessário rastrear ao máximo os suportes que contenham conteúdos passíveis de serem analisados. Nessa medida os centenários apresentam-se como eventos dinamizadores e criadores de informação, que se cristaliza nos periódicos, nas ilustrações, nas fotografias, na estatuária e noutras artes decorativas, assim como se eterniza, muitas vezes, em memórias colectivas, monografias ou até mesmo em medalhas comemorativas.
Nos finais do século XIX, as imagens já tinham conquistado o seu espaço no quotidiano, os jornais, os cartazes, os panfletos, davam imagens às palavras e ideias. Em muitas ocasiões a iconografia não se fazia acompanhar de qualquer tipo de legenda, sendo, no entanto, reconhecidas automaticamente pelo grande público. Ora, tal situação apresenta-se como um obstáculo ao investigador moderno quando na sua investigação se cruza com estas fontes. Felizmente o contexto possibilita, na maioria das vezes, a decifração da imagem.
A relação entre o IV Centenário do Descobrimento da América e a ilustração é bastante estreita. Foram várias as ilustrações que faziam menção a tal acontecimento. Durante as comemorações do centenário, em Madrid, chegou-se a produzir um periódico dedicado apenas ao centenário, onde as ilustrações104 eram parte integrante e
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Ramalho Ortigão, Pela Terra Alheia, Tomo I, Livraria Clássica Editora – A. M. Teixeira & C.ª (Filhos), Lda., Lisboa, 1949, p. 194.
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Remonta a 9 de Janeiro de 1891 a ideia de se editar um periódico que cobrisse todas as acções referentes ao IV Centenário, e como iria ter a duração igual aos festejos, pensou-se na modalidade de cadernos coleccionáveis. O El Centenario contava com a presença na sua redacção de Juan Valera, um dos mais conceituados jornalistas espanhóis da segunda metade do século XIX, tal como muitos outros
importante da estratégia de divulgação do periódico. Era necessário levar o Centenário ao mundo inteiro e que melhor forma de o fazer do que imortalizá-lo através dos traços do artista. Assim, foram vários aqueles que, não tendo estado presentes nas cerimónias do Centenário, recordavam com estima as imagens ilustrativas do acontecimento. Desta forma, muitas destas ilustrações são actualmente uma fonte importantíssima para o estudo do IV Centenário do Descobrimento da América, e é através delas que conseguimos identificar os acontecimentos e traçamos na nossa imaginação representações que nos possibilitam viajar até tão remota época.
A ilustração está, também, ligada a um outro ponto: a decoração. O século XIX conheceu várias exposições e comemorações. Mas a segunda metade do século XIX constitui, sem dúvida alguma, como período áureo das World’s Fairs, das quais se destacam: Londres (1851 e 1862), Nova Iorque (1853), Filadélfia (1876), Paris (1889 e 1900) e Chicago (1893). Também a celebração de centenários aumenta no período de tempo anteriormente referido.
Embora exista à partida um conjunto alargado de fontes, muitas vezes, o investigador possui dificuldades ao tentar identificar o seu paradeiro, e na maioria dos casos esta dificuldade está associada a uma má ou inexistente catalogação dos arquivos. Para o estudo da estadia da comissão portuguesa em Madrid durante o tempo em que decorreram as festividades, contamos sobretudo com uma extensa informação disponível em periódicos nacionais e internacionais, no entanto lográmos complementar a nossa pesquisa com correspondência105, memórias e relatórios. Nesta segunda parte da dissertação, iremos analisar a presença portuguesa em Madrid, tendo em atenção o seu aspecto físico, isto é, a sua presença nas exposições. Mas, também, iremos, ao de leve, fornecer algumas indicações sobre a presença nacional nos vários congressos que
jornalistas e intelectuais, como é o caso de Fidel Fita. Alguns intelectuais estrangeiros foram convidados a escrever para o periódico, tomando como exemplo os portugueses Oliveira Martins e Manuel Pinheiro Chagas. O El Centenario apresentou-se ao leitor com três objectivos: cobrir as festividades do IV Centenário; servir de suporte pedagógico, dando espaço a distintos temas de estudo, desde o período pré- hispânico até aos temas referentes aos séculos XVIII e XIX, possuindo assim um amplo âmbito de divulgação; e por último, promover o americanismo espanhol. No entanto, o periódico não se conseguiu afirmar devido à falta de leitores que muitas vezes preferiam as revistas ilustradas de carácter geral, disponíveis a um preço mais acessível. Assim, concordamos com Salvador Bernabéu Albert quando refere que economicamente o El Centenario foi um fiasco. Vide Salvador Bernabéu Albert, op. cit., pp. 51-56.
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É de grande interesse para o cruzamento de informações relativas à estadia portuguesa em Madrid, sobretudo, a correspondência de Ramalho Ortigão, com diferentes personalidades, durante o período que este se manteve na capital espanhola. Destacamos a correspondência enviada à sua esposa, na qual faz menção várias vezes às Exposições Histórico-Americana e Histórico-Europeia. Veja-se Ramalho Ortigão,
Cartas a Emília, Introdução, selecção, fixação do texto, comentários e notas de Beatriz Berrini, Lisboa,
ocorreram em Espanha sob o manto do IV Centenário, e que a historiografia portuguesa tantas vezes tem mantido no silêncio do passado. No que diz respeito à participação nestes congressos a sua análise será desigual, daremos mais atenção a alguns em detrimento de outros, contudo isto sucede devido à maior pertinência em termos de discurso defendido em cada um dos congressos.