José e a mulher se conheceram por intermédio de uma irmã dela. Em 1991, decidiram casar e alugaram uma casa em um bairro da Zona Sul. Pouco mais de um ano morando juntos, nasceu o primeiro filho, uma menina. Na época, ele era cobrador de ônibus. José só casou depois de ter passado em um concurso e conquistado a estabilidade financeira que procurava para exercer o papel de provedor. Pouco tempo depois, José foi surpreendido com a demissão. Foi esse trabalho fixo, somente aos 37 anos, que o estimulou a formar o seu próprio núcleo familiar. Não queria repetir a história do pai, que teve dez filhos e passou boa parte da vida com problemas financeiros. A demissão ocorreu quando a filha dele tinha um pouco mais de um ano. Enquanto tentava outro trabalho, recorreu à Justiça para voltar ao serviço público, mas não conseguiu.
Por isso, não teve condições de continuar a pagar o aluguel. A solução encontrada foi ocupar em 1994 um terreno em uma comunidade humilde, que fica em um bairro da Zona Oeste. Com a ajuda da família da esposa, construíram a atual residência onde moram. Apesar de viver de trabalhos temporários, sua mulher tem emprego fixo. É balconista em um estabelecimento comercial. Ela chegou, inclusive, a iniciar um curso técnico, mas não conseguiu concluir. A filha, que já é maior de idade, também trabalha no comércio.
O casal está separado desde 2006, mas mora na mesma residência. Nenhum dos dois tem condições de pagar aluguel. O casamento começou a ter problemas quando foram para a comunidade. Eles começaram a brigar porque a mulher não apoiava o seu envolvimento com a mobilização dos moradores do local.
Nos primeiros anos na comunidade, José foi convidado a participar das reuniões da entidade do lugar. Viu uma oportunidade para ajudar a família e outros moradores. Empolgou-se, passou a se dedicar às reuniões e mobilizações, tornando-se popular. O seu esquema disposicional para o assistencialismo foi ativado pelo contexto e pelas relações que começou a manter com outros moradores.
Isso gerou ciúmes na mulher, que não queria participar e não apoiava as disposições dele para as ações sociais e políticas na comunidade. José deixou transparecer que não contava com o apoio da filha por influência da mãe. Ele afirmou que a filha também não gostava da atividade dele na comunidade.
José vivia uma variação disposicional dentro da família formada: queria trabalhar para sustentá-la, mas não gostaria de abrir mão da disposição hedonista acionada quando desempenhava as suas atividades na comunidade. Passava ao mesmo tempo de uma disposição a outra no mesmo espaço social.
Essa atividade comunitária não garantia estabilidade financeira, mas gerava reconhecimento por parte dos moradores do local. Isso chamou a atenção de políticos que começaram a contratá-lo como cabo eleitoral. Esse prestígio o estimulou a se dedicar cada vez mais à comunidade porque foi motivado pela relação que já mantinha com os moradores do local e agora com os políticos.
A mãe e a filha, segundo o entrevistado, tentaram inibir a disposição dele de atuar como líder comunitário, mas não conseguiram. Com o filho de seis anos, todavia, há uma identificação. Ele disse, com orgulho, que o filho o admirava. José gostava quando o menino brincava com os amigos na rua, como ele fazia na infância no interior, ou quando ficava com ele no computador de casa, navegando na internet ou jogando. José acredita que quando o filho crescer poderá acompanhá-lo no trabalho na comunidade.
Da forma como José narrou a sua história, ele e a ex-mulher tinham disposições opostas. Ela não possui, segundo ele, tendências para o assistencialismo e as práticas políticas. Pelo que contou, ela tinha traços disposicionais semelhantes aos membros de sua família original, que não se envolviam nessas atividades. Ela queria que ele trabalhasse de forma ascética para ajudá-la a cuidar dos filhos e a melhorar de vida. “É muito despolitizada”, falou, descrevendo a imagem que tinha dela. Complementou ainda que a filha era “do mesmo jeito”.
As duas não se interessavam em participar dos atos da comunidade e não o incentivavam a disputar um cargo eletivo. O sonho dele era ser vereador para “cuidar” da comunidade e de outros bairros e ter mais prestígio.
Ela (ex-mulher) reclamava porque diz que não ganha nada nesse negócio. Só faz perder tempo, mas não se perde tempo não. A gente ganha muita coisa. A gente ganha conhecimento. Não é verdade? (José).
Apesar da forte motivação para ativar as disposições para as ações sociais e politicas, José se esforçava para manter a família formada unida e não desistiu de buscar estabilidade
financeira. Tanto que só concordava em vender a casa se conseguisse outro lugar fixo para os filhos morarem. Não queria repetir a trajetória dos pais que viveram a maior parte da vida em casa alugada e se mudando de bairro em bairro. Ele demonstrou vontade para se dedicar mais à família formada. Era ambivalente, tentando conciliar a vida entre a família e a comunidade.
O processo de socialização de José na família formada foi um divisor de águas. Ao se mudarem para uma comunidade mais carente, encontrou os fatores contextuais e relacionais para ativar o seu esquema disposicional, o que trazia satisfação hedonista. Passou de um homem ascético que só pensava em trabalhar para garantir o sustento da família, como o pai o ensinou, para ficar dividido entre o trabalho e a satisfação de atuar como líder comunitário.