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RAPPORT DES COMMISSAIRES AUX COMPTES SUR LES COMPTES ANNUELS

Dans le document RAPPORT FINANCIER ANNUEL 2021 (Page 102-105)

Mesmo quando estava com a vida financeira equilibrada, o pai de Antonio tinha decidido que não colocaria os filhos em escola particular. Como trabalhava em uma empresa privada, tinha medo de perder a renda e precisar tirá-los da escola de uma hora para outra. Um receio que terminou se concretizando, o pai perdeu o emprego com os filhos ainda pequenos. Por isso, Antonio sempre estudou em escola pública, assim como os irmãos.

Até o ensino médio, a trajetória escolar de Antonio foi vivenciada no bairro onde mora, sempre em instituições perto de sua casa. O ensino fundamental I foi cursado em uma escola da rede municipal do Recife. Depois, foi para um estabelecimento maior onde ficou até concluir o ensino médio. O estímulo para estudar, segundo Antonio, partia mais da mãe do que do pai. A paixão pela leitura ainda não tinha sido despertada, comportamento ligado à conquista do capital cultural que vai ser valorizado por ele mais à frente.

Em relação ao hábito de se atualizar por meio das notícias divulgadas pela grande imprensa, Antonio lembrou que os pais costumavam acompanhar o noticiário da televisão. Ele, porém, não expressou nenhuma motivação em realizar a mesma ação. Na época, não se interessou. Foi uma professora de história e geografia que o influenciou. Nas aulas, levava, como material didático, textos de jornais impressos.

A professora abriu uma janela no universo de Antonio para que ele tivesse uma visão mais crítica sobre o que estava aprendendo. Explicou o contexto da rede social em que ele vivia, apontou características que ele passou a perceber em sua comunidade. Levou jornais para as atividades em sala de aula, oferecendo uma ligação entre o assunto ensinado e a realidade vivenciada. Foi nessa ocasião que teve contato quase diário com os periódicos.

Ele gostou da experiência e passou a ler os jornais na escola, uma tia paterna trabalhava na secretaria da escola. Ela permitia que ele entrasse na sala dos professores para ler as notícias. Em função da situação financeira dos pais, não podia comprar jornal. Passou também a pedir jornais a uma tia materna que trabalhava como empregada doméstica e levava aqueles que os patrões tinham consumido. Ela costumava pegar esses periódicos para usar na limpeza da casa. O interesse de Antonio era outro, a notícia.

Ele aproveitou todos os recursos disponíveis para ter acesso às matérias jornalísticas. Diante do interesse de Antonio, a professora externou publicamente o seu contentamento. Ela falava, segundo ele, que “apostava” em seu potencial. Assim, nasceu a disposição para buscar informação, que atravessou o mundo da educação, passando para os demais mundos sociais, estimulando-o a ser repórter-amador.

Os pais incentivavam a leitura, compravam livros quando podiam, mas tudo era direcionada para as tarefas da escola. Não existia o hábito de acompanhar as notícias de forma crítica, como a professora ensinou. Percebemos que o fator de ação cultural se concentrou no consumo de notícias e, posteriormente, na busca por complementar as informações em livros. Nunca foi a cinema ou a show, raramente visitou museus e teatros. Um dos motivos era o ingresso, que ele disse achar caro. O outro era a dificuldade de ir de ônibus à noite para o Centro do Recife. Gostava, porém, de frequentar bibliotecas e livrarias.

Além de estimular o hábito da ler e escrever de forma crítica, a professora ensinou a turma de Antonio a utilizar esses dois domínios culturais para outra finalidade: reivindicar melhores condições de ensino para a escola pública. Incentivou Antonio a reforçar as suas disposições para as ações políticas, fator que já fazia parte de seu patrimônio disposicional desde que participava com a mãe e a avó materna de ações envolvendo a mobilização por melhor qualidade de vida para o bairro onde moravam.

Com a influencia da professora, Antonio passou a integrar os movimentos organizados pela escola em prol de melhorias para a instituição e para os professores e funcionários. Lembrou que participou de muitos protestos. De acordo com Antonio, a maioria dos amigos, assim como os seus irmãos, nunca tinham tempo para apoiar essas mobilizações.

Antonio está cursando administração de empresas em uma faculdade particular, ganhou uma bolsa que oferecia 50% de desconto na mensalidade. Isso só foi possível porque ele agiu ativamente quando viu uma propaganda sobre a bolsa da faculdade na internet. Inscreveu-se, passou e ganhou. Começou em 2011 e deve concluir em 2014. Está fazendo o primeiro estágio em uma outra faculdade, ajudando na parte administrativa.

Como gostava de ler e escrever, assim como acompanhava o noticiário através dos jornais impressos e da televisão, a primeira opção de curso para o vestibular foi jornalismo. Tentou a universidade pública duas vezes, não passou. O curso de jornalismo em uma universidade particular era muito caro, disse ele.

A segunda opção era o curso de administração de empresas que acabou conseguindo fazer por intermédio dessa bolsa. Afirmou, contudo, que ainda pretende fazer jornalismo. Isso indica que as disposições para realizar o jogo do agir ativamente, motivadas pelas tendências para as ações sociais, políticas e culturais, são variações fortes que começaram na família e se aprofundaram na comunidade e na escola.

O curso de administração está relacionado a outro sonho de Antonio: investir na carreira de empreendedor. Tem um pequeno comércio em casa e pretende ampliá-lo. Está sendo muito estimulado, segundo ele, pelos professores da universidade. Todo esse patrimônio é mobilizado para que acione os seus esquemas disposicionais, formados inconscientemente, e atue como repórter-amador.

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