José do Interior começou a ter acesso a jornais e revistas quando estava no Exército. Naquela ocasião, criou o hábito de ler notícias todos os dias. Preferia ler informações referentes à política e ao dia a dia da cidade. Quando saiu do Exército, como nem sempre era fácil encontrar jornais e revistas pelos lugares por onde passava, às vezes comprava. Era mais comum procurar periódicos em bibliotecas para ler.
Quando comprava, gostava de ler mais de um. Não lia ele todo, lia as partes mais interessantes. Ainda compro até hoje. Na internet, a gente vai tentar abrir e não abre então compro (José).
José não se recordou de ter rotina semelhante com a família original, como a de assistir ao noticiário na televisão ou ouvir no rádio. A socialização com os pais e os irmãos não contribuiu, segundo ele, para ter esse hábito, que o levaria a sentir necessidade de se informar. Em relação à socialização no mundo da família, as disposições de José foram sempre ambivalentes e dissonantes.
Depois que saiu do Exército, foi no ensino médio onde recebeu o incentivo de um professor para continuar a estudar, escrever e se informar. Este professor mostrou que José poderia não só ler, mas interagir com os veículos para comentar alguma informação ou fazer denúncias. O próprio professor fazia isso, tentava ter acesso ao fechado campo do jornalismo. Percebeu que, por meio das cartas à redação, a imprensa revelava os problemas que ele vivenciava e relatava. Dessa forma, segundo ele, a solução era encontrada com mais rapidez porque o fato se tornava público, todos comentavam e as instituições não queriam ficar com as imagens afetadas. Além de ler jornais e revistas, ele passou a assistir telejornais e a ouvir o rádio. Essa disposição para se manter atualizado e interagir com os veículos de comunicação não era ativada nem pelas relações que mantinha com família original nem com a família formada.
Ressaltamos que a interação com a grande imprensa ocorreu inicialmente por meio de cartas e telefonemas. Depois, pelos canais de comunicação criados pelos veículos e pelas redes sociais, ambos na internet. A forma de interagir com os veículos de comunicação mudou em 2002 quando conseguiu comprar um computador e se conectar à grande rede em casa. Antes, tinha que levar os textos para os veículos de comunicação por meio de carta ou pessoalmente. Era mais trabalhoso, mas não deixava de fazê-lo. Agora, por e-mail ou outros canais de interação, como o fórum colaborativo do Diario, tudo foi facilitado.
Mesmo acessando a internet por mais de três horas diárias, não deixou os veículos mais tradicionais de lado. Na internet, preferia espaços escritos por jornalistas. Além disso, tem conta em várias redes sociais. Cadastrou-se no fórum colaborativo do Diario em 2007, logo que o espaço foi criado. Os tópicos com os quais mais interagia eram os de cidadania e de comunidade. Ele enviava mais mensagens escritas do que imagens, colaborando mensalmente, mas só postando quando tinha novidades. Ele explica como usa o canal do Diario de Pernambuco:
Colaboro porque isso ajuda a minha comunidade. Ela cresceu muito e tem problemas. Tento primeiro resolver. Depois, uso o fórum para pressionar. É um canal aberto para a comunidade se comunicar com o poder público (José).
Ele disse que gostava muito quando as sugestões enviadas por ele eram aproveitadas e se transformavam em notícia. Não acompanhou a mudança editorial do DP que acabou com a página exclusiva do Cidadão-Repórter na versão impressa.
Como poucas famílias têm internet e computador na comunidade, para informar-lhes sobre o que faz, ele imprime o material que publica e mostra aos moradores. José não ficava o tempo todo comentando as postagens do fórum do DP, preferindo parte do tempo que tinha livre para escrever em seus blogs, que funcionavam, para ele, como um arquivo, onde coloca todo o seu trabalho. Orgulha-se em ter enviado mensagens até para o gabinete da presidente da República, Dilma Rousseff, na gestão que foi de 2011 a 2014.
Ele diz que não pretende ser jornalista, mas é repórter-amador quando produz notícia nos blogs para ajudar os moradores da comunidade. Admitiu que busca projeção pessoal e reconhecimento de seu empenho para a solução dos problemas.
José do Interior não recebe nenhum tipo de remuneração para colaborar com a grande imprensa e desempenhar os papéis de coprodutor e produtor da notícia. Ele entra e sai do campo do jornalismo a todo instante, faz o jogo do agir ativamente. O que produz no jornalismo, contudo, fortalece o seu capital social porque valoriza as disposições para as ações sociais e políticas, ou seja, fatores que estão relacionados com a atividade de líder comunitário. Ele colabora não só com o Diario, escrevendo também para o Jornal do Commercio, a Folha de Pernambuco, a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, a Rádio Jornal e a TV Jornal.
Ao observar que nem tudo que enviava era utilizado pelos veículos de comunicação e que na internet existiam espaços onde as pessoas poderiam escrever livremente, sem a mediação das empresas de comunicação, decidiu criar três blogs: dois deles são uma espécie de canal de informação sobre a comunidade em que mora. Assim, ele completou os dois movimentos que o levaram a fazer o jogo do agir ativamente no jornalismo, abalando a organização de produção da informação pelos conglomerados de mídia. Ele não se considerava um porta-voz da comunidade em que reside, mas um ator que fazia a mediação entre os moradores, as empresas de jornalismo, os jornalistas e os outros internautas que estão na grande rede.
Sou um intermediário. Não vou dizer que sou a voz da comunidade. Sou assim um articulador que tem coragem de levar ao conhecimento público as coisas, os fatos e as pendências sociais da comunidade. Agora, não posso dizer que sou isso (porta-voz). Ninguém pode ser maior do que o outro. A gente só resolve as coisas com todo mundo unido. Se eu falar assim, vou ser um ditador (José).
Quando escreve nos blogs ou envia mensagens aos conglomerados, José tem a preocupação de ser claro para que seja compreendido. Seu receio é se expor para não ser ameaçado ou mal interpretado. A competência para o agir ativamente no jornalismo, que complementa a ação do estar disposto, foi perseguida na escola, no ensino médio, quando se esforçava para escrever sem erros de português.
Ele revelou ainda que não escrevia no blog ou mandava sugestões de pauta apenas para relatar problemas de sua comunidade. Quando passava em algum lugar e via um problema, tentava ajudar e denunciar. Não conseguia entender por que os outros indivíduos não faziam o mesmo.
Ele não tinha consciência de que era essa disposição para agir ativamente que o levava a ir além da crítica. José buscava soluções e acionava os seus esquemas disposicionais para colaborar com o processo de construção da notícia e para produzir a própria informação, que o impulsionava a agir e a não ser passivo. Ele não soube descrever como começou essa vontade, não tinha consciência de quais eram as molas propulsoras da ação para o agir ativamente, como as disposições para as ações sociais, políticas, culturais e religiosas.
José teve essas tendências acionadas como uma variação disposicional, já que ele representa uma dissonância, foge para além das disposições de seus processos de socialização: famílias original e formada que não o incentivavam a ler, escrever e participar. Vivia uma ambivalência, ia de um ponto a outro. Em muitas oportunidades, terminava ficando sozinho porque não encontrava semelhanças com os atores com os quais se relacionava nas famílias e nos trabalhos temporários.
Apesar dos processos de socialização que o colocaram em situações de ambivalência, José acionava as disposições que o levaram a agir ativamente como repórter-amador sem receber nenhum tipo de remuneração para fazer isso. Disse que tomava iniciativa de realizar essa prática pelo prazer de ajudar, escrever e de ver os problemas resolvidos. Ele, contudo, ganhou prestígio pessoal pelo reconhecimento deste seu trabalho.
A vontade de agir vem de dentro de mim, não sei como. A maioria das pessoas passa, vê os problemas e não liga. Seria tão bom se todo mundo denunciasse, quisesse resolver. Tem gente que só sabe criticar. Tem gente que tem medo de escrever. Mas nem todo mundo que escreve, aparece no jornal. Você sabe disso. Vou no Diario e coloco, fica postado ali, as pessoas leem e sabem do que está acontecendo (José).
4.1.8 As respostas para as nossas perguntas: as múltiplas socializações e os seus efeitos