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RAPPORT DES COMMISSAIRES AUX COMPTES SUR LES COMPTES CONSOLIDES

Dans le document RAPPORT FINANCIER ANNUEL 2021 (Page 85-88)

A trajetória de vida de Antonio Empreendedor foi construída em torno de uma sólida base familiar. Os pais eram vizinhos, moravam em ruas próximas. Quando casaram decidiram permanecer no mesmo lugar. As inclinações para o sentimento de pertencimento ao bairro, tão fortes em Antonio, vieram da família. Segundo ele, os membros dos dois núcleos familiares conviviam em harmonia. Cresceu ao lado dos avós, tios e primos, apesar de se identificar mais com a família da mãe. Formavam uma grande rede social.

Ao falar da família original, Antonio expressou admiração pelos pais, mas demonstrou mais afinidade com a mãe a quem atribuía a influência decisiva para a construção de muitas de suas disposições sociais, como as inclinações para o assistencialismo e o olhar para o coletivo. A mãe dele nasceu em um município da Zona da Mata Sul de Pernambuco. Chegou ao Recife com 12 anos e foi morar naquele bairro.

A família dela poderia ser considerada uma pequena comunidade, eram dez irmãos. Todos casaram e continuaram no mesmo local. Antonio brincou que parte do bairro em que morava era quase toda ocupada por parentes. A imagem da mãe traçada por Antonio é a de uma mulher batalhadora, amorosa e dedicada à família, que sempre conquistou tudo com muito sacrifício. A família dela veio do interior em busca de melhores oportunidades na capital.

A mãe dele não concluiu o ensino médio, cursou até o primeiro ano. Foi trabalhar cedo. Começou como vendedora de uma loja em um shopping. Depois, arrumou emprego de assistente em duas fábricas. Em uma delas, aprendeu a fazer bichos de pelúcia. Antonio recordou que quando era criança a mãe ainda trabalhava fora. Para ficar com os filhos, passou a fazer os bichos de pelúcia em casa. Ela vendia o material na rua, mas foi deixando de fazer com o tempo por falta de encomenda.

Antonio disse que incentivava a mãe a voltar a estudar porque era um dos sonhos dela, uma vez que foi levada a abandonar os estudos para ajudar financeiramente a família. Os avós maternos ainda eram vivos. O avô tinha problemas de saúde. Antonio relatou que ajudava a mãe e a avó a cuidar dele, levando-o ao médico. Era uma forma de retribuir tudo o que o avô já tinha feito. Ele sempre deu muita assistência à família. Essa declaração nos ajuda a compreender a formação das disposições de Antonio para as ações assistencialistas. Elas começaram na própria família e, no caso dele, foram ampliadas para fora do núcleo familiar.

O pai de Antonio nasceu no Recife. Antes de chegar ao atual bairro onde morava, tinha passado por outros dois na mesma região. O pai dele também veio de uma família grande, de dez irmãos. Os avôs paternos nasceram em um município da Mata Sul de Pernambuco. As duas famílias de Antonio são provenientes da mesma região, mas de cidades diferentes e não se conheciam até se encontrarem na capital. Todos os irmãos do pai ainda moravam no mesmo bairro, como os tios maternos.

O avô paterno faleceu quando o nosso entrevistado tinha cinco anos, mas a avó ainda estava viva. O pai de Antonio é motorista. Não concluiu o ensino fundamental II e não pensava em retornar à sala de aula. Antonio brincou que as duas famílias juntas fundaram a parte do bairro onde moravam. Isso sinaliza que as socializações na família original e na

comunidade se confundiam porque o núcleo das famílias dos pais já formava uma pequena comunidade, definida por laços de sangue e de proximidade física.

Antonio mostrou orgulho ao lembrar que o pai aprendeu a dirigir sozinho, observando o trabalho de amigos em uma oficina. Aos 10 anos de idade, frequentava a oficina para ajudar no conserto dos carros. Foi assim que começou a atuar em seu campo de trabalho. Mesmo afirmando que recebeu mais influências da mãe, uma das fortes disposições de Antonio vem justamente da profissão paterna. Ele tinha fascínio por transporte e trânsito, dois assuntos que estimulavam as conversas entre pai e filho. Elas eram temas de comentários e sugestões de pautas que Antonio enviava para o fórum do DP e de notícias que postava em seus blogs.

Apesar de ser motorista profissional, o pai não quis ensinar Antonio a dirigir. Ele recordou que aprendeu sozinho, observando outros motoristas e repetindo a história do próprio pai. Antonio explicou que o pai havia tomado essa atitude para incentivá-lo a ser independente e a ter iniciativa para conseguir atingir os seus objetivos. Isso demonstra que, diferentemente do que Antonio avaliava, a figura paterna teve uma forte influência para a formação de suas inclinações para o agir ativamente no jornalismo. O pai o impulsionou a deixar de ser passivo diante do contexto social que se apresentava.

Em relação aos irmãos, Antonio afirmou que conviviam em harmonia, mas não dividiam os mesmos interesses. Eles brincavam juntos quando eram pequenos. Aliás, passaram toda a vida deles no bairro, só saíam quando os pais iam passear. Tudo acontecia no bairro, o “Recife” era um lugar distante. O fato dos parentes morarem próximos fazia com que eles convivessem com os primos. Pelo que Antonio narrava, havia um forte laço afetivo e um sentimento de pertencimento à comunidade.

À medida que cresceram, no entanto, cada um dos irmãos foi formando o seu grupo social. Apesar de terem passado por processos de socialização semelhantes, moravam e estudavam nos mesmos lugares, tinham disposições diferentes. Os irmãos não gostavam, por exemplo, de uma das tendências mais fortes de Antonio: a inclinação para a ação social, aprendida por treinamento com a avó materna e a mãe.

Na infância, Antonio passou por um episódio que marcou a trajetória dele, influenciando em suas disposições diacrônicas, formadas no passado ao longo da socialização no mundo da família original. Antonio estava com cinco anos quando o pai perdeu o emprego fixo que tinha como motorista de uma empresa. O fato não tinha sido dito por Antonio nas duas primeiras entrevistas, só veio à tona na terceira, quando ele se sentiu mais à vontade para falar sobre sua trajetória de vida.

Para ele, era difícil abordar um assunto que marcou a família e o levou a trabalhar cedo. Mesmo que o pai não tivesse delegado a ele essa responsabilidade pela condição de ser o filho mais velho, a tendência se desenvolveu quase como uma imposição natural. Ele não queria depender dos pais.

Esse episódio, segundo Antonio, não foi tão importante para os outros irmãos porque só ele teve, em função da idade, percepção da mudança que levou a família de uma situação equilibrada à instabilidade financeira. Isso afetou as relações entre ele, o pai e a mãe. Antonio afirmou que nasceu quando o pai tinha um bom emprego por meio do qual comprou e mobiliou a casa da família e adquiriu um carro. Bens materiais que, de uma forma geral, são almejados por todos os indivíduos que decidem formar uma família, independentemente de classe social.

Antonio lembrou que, na época, o pai tinha um rendimento que os colocavam em uma posição financeira de destaque porque ficava acima da média das famílias do lugar onde residiam. Ele não verbalizou isso objetivamente, mas deu a entender que estava tomando como referência os tios e primos, já que todos moravam no mesmo local e tinham estilos de vida semelhantes.

Essa situação financeira dava conforto e segurança à família de Antonio. Ele citou, por exemplo, uma ação que tinha sido interrompida: os passeios. Durante a semana, saíam à noite quando o pai chegava do trabalho. Nos fins de semana, viajavam para praias distantes. Os pais gostavam de promover festas em casa para reunir parentes e amigos, cenas que ficaram registradas na memória afetiva de Antonio.

Quando o pai ficou desempregado, foi um choque, disse ele. A família passou a viver de empregos informais. Nessa fase, eles contaram com o apoio dos parentes. Ele lembrou da postura do avô materno, que passou a dividir com o pai a responsabilidade pela manutenção da família. Essa situação permaneceu assim por quase 17 anos. O pai só conseguiu um emprego de motorista com carteira assinada dois anos antes das nossas entrevistas, o que restaurou a sensação de estabilidade financeira na família.

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