Chapitre 5 Implémentation industrielle
5.3 Implémentation du protocole
5.3.5 Réplication des documents
A tropa foi boa e foi má. Foi boa porque comecei a abrir os olhos. Eu estava habituado aqui à aldeia, só tinha ido ao Porto e foram poucas vezes, e era aqui a dois passos! Mas naquela altura era longe. Eu quando fui daqui a primeira vez para a Figueira da Foz, acredite – eu nunca disse isto a ninguém – eu pensei: “Diz que Portugal é tão pequeno! Olha as horas a que estou a andar de comboio e ainda não cheguei ao destino! Portugal é grande!”. A minha inocência naquele tempo! Eu para chegar à Figueira da Foz já achei que Portugal era muito grande. (entrevista a Manuel Rodrigues, ex-soldado condutor)
Manuel Rodrigues entrou com vinte anos no comboio que o levaria ao quartel da Figueira da Foz onde era esperado para começar a recruta. Vivia numa freguesia rural de Vila Nova de Famalicão, com a mãe e quatro irmãos. Trabalhava à jorna na agricultura desde que deixara de ser criado de servir numa casa de lavoura. Um irmão mais velho já tinha regressado da guerra em Angola. Embora recorde a revolta que sentiu na longa espera pela entrada no serviço militar (“Cheguei a dizer: ‘Se um dia for para a tropa mato-me!’”), décadas depois reconhece que a tropa lhe deu mundo e o retirou do universo limitado em que vivia. Nem a disciplina da vida castrense o impediu de disfrutar dos tempos da recruta.
Os tempos da recruta foram bons. Eu tinha uma irmã já casada que vivia em Coimbra. O dinheiro era pouco mas eu punha-me à boleia da Figueira da Foz para Coimbra. Eu fui para lá em Junho [de 1970], era tempo de praia. Aquilo era um mundo! Era um espetáculo! Durante o dia era a instrução e depois à noite saíamos e íamos beber umas cervejinhas, íamos até ao jardim e havia sempre um conjunto a tocar. A gente punha-se ali à sopeira, porque naquele tempo havia muita sopeira. Elas apareciam à rua e a gente entretinha-se por ali. (entrevista a Manuel Rodrigues, ex-soldado condutor)
De um dia para o outro, centenas de homens saíram das suas vidas e iniciaram a viagem que os fez conhecer mais do que o sítio onde viviam, percorrer quilómetros de um país que até então apenas podiam imaginar, descobrir maneiras de falar e de pensar muito diferentes das suas. A recordação do radical alargamento de horizontes trazido pela tropa está presente em todas as entrevistas. Embora seja mais evidente nas
memórias daqueles que vinham de zonas rurais, ela é transversal a todos os antigos militares da Companhia de Artilharia 3313. Portugal era então um país muito diferente e a distância entre os vários mundos que o compunham era intransponível. Nem mesmo os que viviam em meios privilegiados tinham a verdadeira noção do que era Portugal. José Aguiar cresceu no mundo confortável e ordenado que o rodeava. O seu pai tinha criado nos anos 50 uma pequena empresa de transportes e era uma pessoa importante em Gondomar, com muitos e influentes contactos. Estudou num colégio e num liceu no Porto, para onde ia todos os dias de carro com o pai. Aos 18 anos foi emancipado e recebeu como presente paterno um automóvel. Antes da tropa, passava férias em família na praia. A entrada na tropa fê-lo descobrir que o que achava natural era, afinal, um privilégio.
Eu ia para um quartel em Aveiro de comboio. Fiquei muito, muito admirado porque há um moço que se senta ao meu lado, e diz ele: “Ooohh aquele rio é tão grande!”. Quando passa ali na zona de Espinho, o comboio vai à beira mar. “Que rio tão grande e com tanta espuma!” dizia ele. E eu digo: “Aquilo é o mar!”. “Ah nunca vi, é a primeira vez que estou a ver”. Naquele tempo, estamos a falar em 1970, não é? Naquele tempo havia pessoas que nunca tinham visto o mar. Eu fiquei muito admirado, porque estava farto de ir para o Algarve e de ir para aqui e ir para acolá, farto de conhecer as coisas. Mas naquele tempo havia muita dificuldade em sair do interior para o litoral e os que saíam eram exceções à regra. (entrevista a José Aguiar, ex-cabo cripto)
Num país onde a rede de estradas era rudimentar, onde os transportes públicos eram limitados, onde a comunicação social, para além de ideologicamente orientada, não era acessível às massas, onde as pessoas tinham aprendido o valor da humildade e os perigos da ambição, a tão incensada ideia de nação era um conceito vazio e abstracto. Tal como resume Joaquim Mestres, “Naquela altura, Portugal era pouco mais do que aquilo onde a gente se movimentava”. Compreende-se, assim, que a entrada na vida militar tenha correspondido à descoberta do país. A dimensão e variedade da paisagem foi apenas uma parte da descoberta. A outra, a que sem dúvida mais pesou na lenta aprendizagem que então iniciaram, diz respeito às pessoas, aos hábitos, às formas de falar e de viver. José Mendes, beirão de uma aldeia próxima de Viseu, lembra a estranheza que sentiu na recruta em Lagos.
Em Lagos eu ia aos bares com os meus colegas, encontrávamos aqueles pescadores a falar e eu não percebia nada do que eles estavam a falar! “Então mas afinal nós estamos em Portugal?” Os pescadores, a falarem uns com os outros, tu não tiras uma! Depois fui- me ambientando. Nomes de peixes, nomes de coisas, de utensílios de pesca e deles próprios, eu não sabia o que eles estavam a falar. Foi interessante. Sai daqui de Viseu de
comboio num domingo às cinco horas da tarde e cheguei a Lagos às 18h30 do dia seguinte. Vinte e quatro horas certinhas. Cheguei ali à Pampilhosa, mudei para outro comboio. Depois Cais do Sodré, atravessei com o saco às costas para atravessar de barco para o Barreiro e apanhei o comboio para Lagos, mas entretanto mudei duas vezes de comboio. De Lisboa até Lagos um dia certinho de viagem! (entrevista a José Mendes, ex-soldado condutor)
Vinte e quatro horas para percorrer menos de seiscentos quilómetros. A distância geográfica era mais do que o espaço que separava dois lugares; era sobretudo a expressão territorial dos vários mundos que coexistiam no país em 1970. O serviço militar obrigatório foi o ponto de encontro dos habitantes desta sociedade dual em evolução. Sem as roupas civis que denunciavam a proveniência de todos e cada um, fardados com uniformes que distinguiam apenas a hierarquia militar, a instrução militar constituiu um nivelador social sem precedentes nas vidas daqueles jovens. João Marques recorda a diversidade com que se deparou na tropa:
Na tropa havia soldados que os pais tinham dinheiro, tinham grandes fábricas ou eram grandes agricultores. Havia um que o pai dele era de Guimarães e ele dizia ‘Isto está mau, já tive de despedir trabalhadores’… Estes estavam lá com outros que tinham a casita pobrezita no campo, e os pais estavam a trabalhar na lavoura. Notava-se muito a diferença. O Seca Adegas [alcunha de um militar já falecido], segundo me disse ele, era pastor e nem sabia o que eram faróis e volante! Andava lá a pastorear, em Canas de Santa Maria, no meio do mato, quando ouvia barulho e poeirada na estrada era um carro, isso ele sabia. Mas as peças de um carro, o que é um farol, um farolim, ele não sabia. E depois tornou-se um grande condutor! (entrevista a João Marques, ex-cabo condutor)
O pastor que só conhecia carros de os ver passar ao longe na estrada e se tornou condutor militar é uma boa imagem para a largueza de oportunidades que a tropa trouxe para muitos. Quase se poderia, num momento de optimismo benevolente, acreditar que havia qualquer coisa de democrático no serviço militar: todos se tornam iguais e podem descobrir vocações que as vidas anteriores não tinham permitido encontrar. A realidade, porém, não era tão generosa. As Forças Armadas portuguesas deparavam-se com uma insuficiência de recursos humanos agravada pela duração da guerra em três territórios. A dilatação do serviço nas fileiras, o aumento do contingente anual nos teatros de operações, a elasticidade dos critérios médicos na aprovação de mancebos transformaram o serviço militar obrigatório numa inevitabilidade a que quase ninguém podia escapar. Uma vez entrados na recruta, e perante a baixa qualificação da massa de mancebos, as especialidades eram distribuídas sem que se tivesse necessariamente em
conta as competências específicas de cada um. A urgência de constituir unidades orgânicas falava mais alto do qualquer outra coisa.
O factor que introduzia um elemento de diferenciação no recrutamento era o grau de instrução dos mancebos. Para o contingente de praças eram selecionados todos os que tivessem habilitações inferiores ao então 5º ano, atual 9º. Nem mesmo os iletrados estavam excluídos da seleção. O recrutamento de indivíduos para o contingente de sargentos (e que, finda a instrução, integrariam as fileiras como furriéis milicianos) foi modificado na lei de 1968. O aumento da massa de mancebos com o ciclo preparatório completo fez com que a habilitação para este posto fosse colocada no 5º ano liceal ou equivalente, por forma a equilibrar a distribuição nas fileiras. Desta forma, todos os que tivessem terminado a escola comercial ou industrial seriam incorporados como sargentos. Como o contingente de oficiais subalternos era claramente deficitário em 1968, a habilitação mínima desceu para o 7º ano do liceu completo. Mas nem aí o processo de seleção era isento de mácula. Os conhecimentos pessoais podiam marcar a diferença na sorte que se tinha. A entrada de José Aguiar na tropa foi suavizada pelos contactos familiares.
Antes de assentar praça houve um senhor que chegou ao pé do meu pai e disse assim: “O teu filho não pode ir nem para oficial nem para sargento. Se ele for para praça eu consigo libertá-lo no ultramar de ir para o mato. Se ele for como oficial ou como sargento não tenho hipótese”. E o meu pai disse: “Então pronto, vai como praça, não dá as habilitações e vai como praça.” E assim foi, não dei as habilitações. Quem me fez a inspeção eram médicos amigos, ali todos nos conhecíamos, tudo bem. Fui como praça sabendo que não teria de ir para atirador, para motorista ou para isto ou para aquilo. Repare, eu ou ia para sargento, ou então como praça estava protegido. O amigo do meu pai era uma pessoa muito influente e disse: ‘Pá, ele vai fazer assim, mas eu depois vou tentar libertá-lo da tropa’. Mas não conseguiu. Mas eu também não estou arrependido de ter ido para a tropa. (entrevista a José Aguiar, ex-cabo cripto)
Proveniente de uma família com ligações ao regime, José Aguiar conseguiu escapar aos riscos que todos reconheciam existir em especialidades que não ficassem confinadas ao espaço dos quartéis. Sob o olhar cuidador de amigos do pai, foi incorporado como se não tivesse concluído o liceu. Após a recruta, foram mais uma vez os úteis contactos militares que lhe permitiram aceder a uma exclusiva e muito protegida especialidade: soldado cripto. O domínio dos códigos secretos de comunicação militar tornavam estes operadores um grupo à parte das restantes unidades. Baseados nos quartéis, instalados em quartos onde ninguém podia entrar, os cripto viviam a guerra à distância do arame farpado.
Os cripto eram pessoas escolhidas pelo comportamento, pela maneira de estar. Eram apreciadas pelo seu comportamento. Os oficiais superiores iam ver quem é que tinha mais perfil para essa situação. Tirei a especialidade de cripto. Portanto, eu ia para o ultramar superprotegido, estava na maior. (entrevista a José Aguiar, ex-soldado cripto)
Mas nem só os que vinham de meios privilegiados podiam sentir os efeitos dos conhecimentos em lugares estratégicos. Rogério Tavares era operário na indústria da cortiça na zona de Santa Maria da Feira. Com a ajuda de um vizinho, alferes miliciano, conseguiu entrar noutra especialidade de baixo risco: cozinheiro.
Fiz a recruta e depois tive sorte no alistamento. Tinha um conhecido daqui que era alferes. Ele pôs-me lá como cozinheiro, para fugir ao mato. Eu não sabia cozinhar! Foi com a intenção de me cuidar. Eu não queria ser atirador, claro, mas se fosse, era igual como os outros. Fui com ele para a Póvoa de Varzim tirar a especialidade. Era uma cozinha grande, era a pares que a gente trabalhava e fazíamos a comida. Lá na tropa aprende-se tudo, é tudo por medida. No arroz é cento e vinte gramas [por pessoa]. Batatas, era trezentas e cinquenta gramas, se já fosse podre tinha que se botar mais. Era conforme a comida que fosse, mas era fácil. (entrevista a Rogério Tavares, ex-cabo cozinheiro)
Quem não tivesse conhecidos na estrutura militar, teria de contar com a sorte que lhe calhasse durante o período de instrução. Vários recordam rumores que então circulavam e que diziam que os melhores classificados de cada curso ficariam em Portugal a dar instrução a novos recrutas. Houve, por isso, quem se aplicasse durante a formação inicial, procurando garantir que não sairiam para África. A história de Joaquim Mestres ilustra o investimento planeado na aprendizagem militar.
Fiz a especialidade [oficial subalterno de artilharia] e fui convidado a dar curso aos que seriam depois furriéis. Tinha trabalhado para isso, fui o terceiro classificado do curso na intenção de não ser mobilizado, porque normalmente os primeiros classificados não eram mobilizados. Naquele ano, foi tudo mobilizado, excepto os dois primeiros: um porque era da família do comandante e o segundo porque era de uma família sonante, devem ter mexido todos os seus cordéis. De resto, fomos todos. (entrevista a Joaquim Mestres, ex- alferes miliciano)
As memórias do tempo de instrução não se esgotam no conhecimento concreto de um país imaginado. Um outro tema central nas narrativas dos entrevistados sobre este momento centra-se na entrada na vida militar, com a dura aprendizagem da sua disciplina e valores. A exigência dos exercícios físicos, a humilhação dos castigos que os superiores hierárquicos aplicavam, a dureza da justiça militar são aspectos que
reaparecem em muitas das memórias que estes homens guardam dos tempos longínquos da recruta. Mas houve também pessoas para quem a recruta, apesar de dura, foi mais fácil do que a vida civil que levavam antes dela.
Nós íamos para a instrução e quando era para falar sobre as armas, desmontar ou montar das armas, fazíamos ali um círculo. Aquilo era assim um bocado salazarista! Era quase como estar nas aulas, eles faziam perguntas e um gajo se estivesse despassarado ou se um gajo ficasse empancado e não sabia responder, eles chegavam ao pé de nós e era um murro no estômago. Um murro no estômago! E eu assim: ‘Oh filhos da puta’. Aquilo era chato como o caraças, pronto, era assim uma disciplina um bocado dura. (entrevista a Fausto Ferreira, ex-cabo atirador)
Não quer dizer que não fosse ruim, mas em proporção era melhor do que andar aqui ao dia. Fazia-se aqueles exercícios mas comia-se e descansava-se. Aqui era de manhã cedo, de sol a sol. As oito horas foi só dois anos depois do 25 de Abril. (entrevista a José Correia, ex-soldado atirador)
Em 1970, ano em que todos os entrevistados iniciaram a tropa, as Forças Armadas portuguesas viviam um momento crítico. Era imperativo manter uma estrutura capaz de dar conta dos aspectos administrativos, logísticos e operacionais de uma guerra que nunca fora declarada. O envio médio anual de 105.000 homens para Angola, Moçambique e Guiné implicou que se procedesse ao aumento drástico da capacidade de formação militar: depois de 1961, o número de turnos anuais de instrução quadruplicou. O reduzido número de oficiais do Quadro Permanente e de candidatos à Academia Militar 83 teve de ser colmatado com uma alteração que viria a pesar nos últimos tempos do regime: a formação de ‘capitães de complemento’ (Ver Capítulo V). A partir de 1966, surgiu a possibilidade de integrar alferes milicianos em cursos especiais lhes permitissem aceder ao posto de capitão e comandar uma companhia. Por outro lado, a lei que em 1968 veio regular o serviço militar procurou colmatar algumas lacunas: os indivíduos que frequentassem o curso de sargentos milicianos com bom aproveitamento e com “especial capacidade de chefia” poderiam passar para o curso de oficiais milicianos; os instruendos que não tivessem aproveitamento no curso de oficiais milicianos – e que, de acordo com a Resenha Histórico-Militar anteriormente teriam passado a praças - poderiam ser classificados como aptos para sargentos
83 De acordo com os dados oficiais do EME contidos na Resenha Histórico-Militar, foi a partir do ano
lectivo de 1965/1966 que o número de vagas na Academia Militar começou a ser superior ao número de candidatos. Em 1969/70, por exemplo, o número de candidatos era quatro vezes menor do que o número de vagas: 460 vagas para 112 candidatos (Estado-Maior do Exército 1988: 315).
milicianos. Valia tudo. O que importava era garantir se alcançava o efetivo militar necessário para as várias fases do serviço militar. Como consequência inevitável destas alterações, a qualidade da instrução foi diminuindo,
(...) quer pela deficiência de algumas estruturas – nomeadamente as que se prendiam com a instrução de tiro – quer pela impreparação dos quadros, sempre em renovação, quer ainda porque se chamavam às fileiras também os mancebos menos válidos para o serviço militar. (Estado-Maior do Exército 1988: 313)
No final da instrução básica, os homens eram enviados para a instrução da especialidade, de acordo com os testes psicotécnicos realizados. Houve cozinheiros que tiveram de aprender a cozinhar, condutores que nunca tinham guiado um carro e enfermeiros que eram pescadores. De acordo com a classificação obtida na recruta, algumas praças eram selecionadas para a formação de cabos. A Resenha destaca alguns inconvenientes desta modalidade de formação acelerada, como a “dificuldade de os cabos ganharem o indispensável ascendente sobre as restantes praças, por serem da mesma incorporação”, bem como a “deficiente preparação técnica”, que era pouco superior à dos soldados (Estado-Maior do Exército 1988: 321). Mas o olhar retrospectivo da Resenha é crítico em relação a todos os níveis de instrução. Uma guerra que se arrastava há anos, que se havia estendido a três teatros de operações, era um imenso sorvedouro de recursos que impedia a adequada preparação dos vários contingentes enviados. Durante treze anos, Portugal combateu uma guerra entregue a si mesmo, “sem espetáculos e sem alianças”. Restava-lhe confiar na sólida determinação patriótica daqueles que, na metrópole e no ultramar, se sacrificavam pela integridade da ‘nação pluricontinental’, prova indesmentível do glorioso passado que a todos cabia preservar.
Preparação para a guerra
O Batalhão de Artilharia 3835 foi constituído em Julho de 1970, tendo como unidade mobilizadora o GACA 2 84 em Torres Novas. No início de Setembro começou a Escola Preparatória de Quadros, que contou com dezoito oficiais, sete sargentos e vinte e oito cabos milicianos. A 21 de Setembro iniciou-se a instrução de cerca de quatrocentas praças vindas de todo o país. Nos primeiros dias de Novembro, o Batalhão de Artilharia 3835 seguiu para o Campo de Instrução de Santa Margarida, onde foram integrados os especialistas da CCS e das companhias operacionais. Esperava-os a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, última etapa antes da partida para a guerra 85.
Entre Setembro e Novembro de 1970, os entrevistados receberam a notícia de que haviam sido mobilizados para Angola. Nesse momento o mais visível e amargo problema para as Forças Armadas e para o governo português era a Guiné. As operações de guerrilha iniciadas em 1963 pelo PAIGC tinham, de acordo com Amílcar Cabral, obrigado o contingente português a situar-se em “posições enquistadas, mantidas aqui e ali com grandes dificuldades” (Cabral apud Guerra 1994: 215) das quais nunca conseguiram sair. O cenário guineense não melhorou nos anos seguintes. O ano de 1970 foi particularmente penoso para as tropas portuguesas: a emboscada e assassinato de três oficiais portugueses em Abril 86 e o abate de um helicóptero que transportava quatro deputados em visita ao território em Julho, vieram evidenciar a fragilidade da situação militar portuguesa na Guiné 87. Moçambique e Angola apresentavam situações menos críticas, confinadas a regiões específicas onde a resistência dos movimentos nacionalistas se mantinha bastante ativa. Compreende-se, assim, que a tristeza, revolta ou aceitação pacífica da mobilização tenham sido acompanhadas pelo alívio sentido com a província que lhes tinha calhado em sorte.
84 O Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 2 foi criado em 1942 na sua sede provisória em Abrantes.
Em 1957 foi transferido para Torres Novas, tendo sido extinto em 1975. A sua missão inicial era a defesa anti-aérea do Entroncamento, mas durante as guerras coloniais foi-lhe atribuída a competência de