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Chapitre 4 Modèle SWYSWYK

4.5 Sémantique opérationnelle

4.6.4 Maintenance

A estrutura deste texto segue os percursos biográficos dos homens que fizeram parte da Companhia de Artilharia 3313. A guerra aparecerá a diferentes distâncias: um acontecimento longínquo nas infâncias dos sujeitos, a realidade que aprenderam a conhecer ao longo do serviço militar cumprido na ‘metrópole’ e no ‘ultramar’, e outra vez um passado distanciado pelo tempo e pelas enormes mudanças que transformaram o país. Será através das suas vozes, e do cruzamento destas com outras narrativas, que se procurará observar e compreender de que forma se constroem as memórias de uma guerra cuja manutenção foi interrompida pela queda do regime que a suportava

O Capítulo II trata dos anos antes de Angola. Em 1961 o conflito rebentou em Luanda e no Norte da ‘província’. Os antigos militares da CART 3313 eram então pouco mais do que crianças. Com as suas memórias cruzar-se-á a narrativa nacionalista transmitida pela escola e pelo aparelho ideológico do Estado Novo, desenhando os limites retóricos no interior dos quais a nação podia ser imaginada. A descoberta do conflito num país almofadado pela censura surgirá através das histórias que contam, mas também através da imagem transmitida pela imprensa e pela propaganda do regime. A aproximação do momento da incorporação militar no ano de 1970 será observada à luz dos desenvolvimentos políticos e militares de um conflito que durava há nove anos, procurando compreender os motivos que os levaram a decidir não abandonar o país e fugir à guerra. Com a entrada no serviço militar, as narrativas destes então rapazes concentram-se na aprendizagem da vida castrense e da missão patriótica que os esperava.

O terceiro capítulo ocupa-se de 1971, ano da partida para Angola e do primeiro ano de comissão de serviço no Leste. Entre as memórias dos entrevistados, a História da Unidade BART 3835 e a obra literária de António Lobo Antunes, ver-se-á surgir Luanda e a longa viagem para as Terras do Fim do Mundo, os aquartelamentos militares e os aldeamentos de populações locais. Dois grandes temas organizam as memórias deste ano. Por um lado, a aventura da descoberta africana, em que a ideia da nação espalhada pelo mundo é confrontada com a memória da realidade concreta de Angola, povoada por pessoas e paisagens radicalmente diferentes das que haviam conhecido antes da partida. Por outro lado, o tema das memórias guerreiras de um ano de intensa atividade operacional no Leste angolano. Expressa na linguagem da guerra (a camaradagem, a coragem, o heroísmo, a gestão da incerteza), é aqui que emergem as maiores discrepâncias entre as várias versões dos mesmos episódios.

O segundo ano da comissão no Nordeste de Angola será tratado no Capítulo IV. Entre a ação psicológica que aproximou os militares dos habitantes locais e as aventuras temerárias numa zona pacificada, chega-se ao ambiente de exaustão sentido na parte final deste exílio militar. As histórias de zangas e pancadaria são contadas como a prova do estado de loucura temporária que recordam ter vivido: no sector de Malanje, eram já ‘cacimbados’, militares experientes com mais de um ano de combate, ataques e tensão cravados na pele. A parte final deste capítulo será dedicada às imagens que guardam de Angola, entre o cosmopolitismo de Luanda e a pobreza dos musseques da capital e das sanzalas do mato. É a partir destas imagens e da forma como são evocadas nas suas narrativas, que se irá explorar o espectro de atitudes retrospectivas em relação à guerra, procurando compreender de que forma a experiência angolana alterou ou consolidou as convicções iniciais com que haviam partido de Lisboa.

Os anos que se seguiram à desmobilização serão o tema do Capítulo V. O regresso às vidas interrompidas pelo serviço militar e a permanência da guerra em sentimentos difusos de medo e insegurança constituem a dimensão íntima das suas memórias destes tempos. As complexidades e contradições identificáveis nos discursos dos entrevistados sobre o 25 de Abril e descolonização serão analisadas à luz da débil politização à data da partida para África, da conformidade silenciosa ao quadro ideológico do Estado Novo, do peso da narrativa lusotropicalista mas também da importância da subjetividade das suas experiências recordadas na escolha e conjugação das narrativas públicas utilizadas. As rupturas trazidas pelas vastas transformações do país e o distanciamento temporal do final do conflito abriram a possibilidade do reencontro dos antigos militares da Companhia de Artilharia 3313, criando uma ponte simbólica entre o passado desaparecido e o presente.

O capítulo VI regressa a mais um almoço anual da Companhia de Artilharia 3313. O encontro de Coimbra em 2012 será o pretexto para a análise do processo através do qual os antigos militares da CART 3313 constroem uma memória comum da guerra. Mais do que uma reunião de velhos conhecidos, o almoço constitui uma comemoração privada na qual é criada, atualizada e celebrada a linha imaginária que une o passado e o presente. “Lugar de memória refúgio” (Nora 1984: xl), o encontro da CART 3313 está muito distante da natureza política das comemorações públicas (às quais, aliás, a maioria dos entrevistados não adere). O léxico da nação e do dever para com a pátria são aqui inexistentes. O ritual organiza-se em torno da afirmação da camaradagem e da fixação de um passado ao qual vale a pena regressar. As palavras de

Lobo Antunes, médico tornado escritor, são tomadas como a expressão clara da experiência de todos e incorporadas na grande narrativa partilhada. Nos almoços, homenageiam-se os ausentes, reafirma-se a união desta outra família que a guerra lhes trouxe, repetem-se as histórias que merecem ser contadas, silenciam-se os incómodos e os aspetos sombrios de um tempo de isolamento, incerteza e violência.

É neste caminho feito de muitas vozes que se irá procurar descobrir de que são feitos os regressos ao passado. Entre palavras e silêncios, contradições e continuidades, procurar-se-á interrogar a reconfiguração narrativa através das quais os antigos militares da Companhia de Artilharia 3313 compõem os retratos possíveis de um tempo irrecuperavelmente perdido.