Chapitre 4 Modèle SWYSWYK
4.4 Modèle d‘administration
A memória é um terreno fértil nas ciências sociais. Ao longo do último século, muito se tem pensado, investigado e escrito sobre a faculdade humana de recordar. No final dos anos 90, Jeffrey Olick e Joyce Robbins publicaram um artigo em que caracterizavam os estudos sobre memória colectiva como “um empreendimento não- paradigmático, transdisciplinar e sem centro” (Olick e Robbins 1998) e propunham-se reconstruir as principais linhas de um campo de estudos que, ironicamente, não possuía uma memória organizada. Ao longo de mais de trinta páginas, um desfile de conceitos e autores permitia ao leitor desenhar um mapa que atravessava fronteiras disciplinares e temáticas, abarcando alguns dos principais trabalhos até então realizados e traçando a genealogia do interesse das ciências sociais pela memória. Noutro artigo publicado dez anos mais tarde, e perante a produção que nessa década se havia acumulado, Olick afirmava que nem o bibliófilo mais megalómano conseguiria percorrer toda a literatura relevante sobre o tema (Olick 2008).
Aquilo que já foi chamado de “boom da memória” (Winter 2007) ou “indústria da memória” (Klein 2000) resultou da confluência do interesse da academia e da sociedade civil. A incerteza associada ao pós-modernismo, a angústia perante a possibilidade de erosão do passado e a fragilidade das identidades sociais num tempo de intensa transformação têm sido apontadas como algumas das causas de um
fenómeno que se iniciou na década de 80 e desde então tem ganho espaço na esfera pública, mas também nos corredores das universidades. No mundo académico, o movimento iniciou-se com a viragem cultural da historiografia que se traduziu na publicação de estudos que procuravam compreender o papel da recordação no processo de construção das identidades nacionais. A muito influente ideia de invenção da tradição (Hobsbawn e Ranger 2003 [1983]) e a análise dos processos de preservação do passado constituíram marcos centrais que abriram caminho para uma reflexão alargada sobre as formas pelas quais o passado habita o presente. De acordo com David Lowenthal, a nostalgia, outrora considerada uma doença para a qual as terapêuticas eram tão diversas quanto purgas, sangrias, e emulsões hipnóticas, é hoje uma droga que a todos vicia. O passado está em todo o lado e é consumido com avidez. Transversal a estas obras está a ideia de que o passado é o objecto de uma contínua e constante apropriação e reconstrução. Nas palavras de David Lowenthal, “(...) the pasts we alter or invent are as prevalent and consequential as those we try to preserve. Indeed, a heritage wholly saved or authentically reproduced is no less transformed than one deliberately manipulated.” (Lowenthal 1999 [1985]: xviii).
Um dos mais influentes exemplos é, sem dúvida, o trabalho de Pierre Nora em torno dos lugares de memória. Este conceito parte da constatação da “aceleração da história”, da consciência da ruptura com o passado e do sentimento de “memória despedaçada” (mémoire dechirée):
Accélèration: ce que le phénomène achève de nous révéler brutalement, c’est toute la distance entre la mémoire vraie, sociale et intouchable, celle dont les sociétés dites primitives, ou archaiques, ont represente le modele et emporté le secret – et l’histoire, qui est ce que font du passé nos sociétés condamnés à l’oubli, parce que’emportées dans le changement. (Nora 1984: xviii).
Pierre Nora constrói a sua análise sobre a distinção entre memória e história. A primeira representa o laço vivido entre o passado e o presente, alimenta-se de recordações inconstantes e frágeis, e é ao mesmo tempo plural e individualizada; a segunda resulta da reconstrução problemática e incompleta daquilo que já não existe, resultado numa operação intelectual que laiciza e universaliza o passado. É nesta conjuntura histórica global, em que todo o mundo “entrou na dança” da ameaça do esquecimento, que se assiste a um imenso investimento em torno dos “lugares onde se
cristaliza e refugia a memória”. Lugares nos três sentidos do termo – material, funcional e simbólico – surgem do ímpeto arquivístico que procura fixar e comemorar os passados plurais que a história ignora (V. Capítulo VI).
Mas o passado não é apenas o país distante que se quer preservar. A existência de ‘passados indomados’ (unmastered pasts – tradução minha) 5 é outra área temática onde a pesquisa tem proliferado. Desenvolvido no contexto da literatura sobre o legado do Terceiro Reich na Alemanha, a ideia de ‘passado indomado’ implica a difícil gestão de um tempo que criou divisões e desacordos profundos e que se manifesta em ‘estratégias apologéticas’ ou na ‘criação de tabus’ que vêm rodeá-lo (Rosenfeld 2009). A queda do bloco de Leste, o fim da guerra fria e a crescente visibilidade pública do Holocausto impulsionaram a multiplicação de estudos sobre a incorporação ou silenciamento de passados incómodos na esfera pública.
Compreende-se, assim, que a memória se tenha tornado nos últimos anos um dos mais produtivos temas das ciências sociais. Se há quem se refira a esta área de discussão e produção académica como um “espaço interdisciplinar complexo” e sublinhe a criatividade decorrente desta transversalidade (Kansteiner 2002), outras vozes levantam a suspeita de que estamos perante a institucionalização de um novo campo de estudos: os estudos da memória 6. Jeffrey Olick considera que o estudo da memória está ainda na “fase carismática”, da qual resiste em sair: desprovido de um corpo teórico e metodológico unificado, disperso por disciplinas contíguas, pouco se tem feito – afirma - para sistematizar um campo de estudos cujo crescimento tem sido exponencial. A solução para este impasse residirá, de acordo com Olick, em ultrapassar o reconhecimento e citação “totémica” dos autores fundadores, cumprindo finalmente a promessa de uma interdisciplinaridade efetiva (2009). Outros, menos benevolentes, dedicam-se a apontar as contradições de um conceito que, tendo surgido como “anti- histórico” se transformou num elemento caracterizador no “novo historicismo” (Klein
5 Este conceito resulta da tradução do termo alemão Vergangenheitsbewältigung, que em português pode
ser traduzido como ‘domar o passado’.
6 O aparecimento da revista History & Memory em 1989 constituiu um passo decisivo para essa
institucionalização. No texto de apresentação da revista lê-se: “History & Memory explores the manifold ways in which the past shapes the present and is shaped by present perceptions.”. Em 2008, a memória tornou-se o foco de uma nova revista, Memory Studies, destinada a ‘conceder reconhecimento, forma e direção ao trabalho ‘neste campo emergente’, e abrindo um fórum crítico de diálogo e debate para a compreensão dos temas teóricos, empíricos e metodológicos da memória.
2000) 7 ou a anunciar o declínio ou desaparecimento de um tema que inundou as estantes das bibliotecas e as salas de conferências (Rosenfeld 2009).
Memória: da genealogia às discussões contemporâneas
Perante tamanha profusão de trabalhos publicados e polémicas acesas, procurei entrar nos estudos sobre a memória com a prudência que uma dissertação exige. Mas os motivos de distração no caminho foram muitos. A memória implica dimensões discursivas e não discursivas e é quase infinita, uma vez que toda a consciência é mediada por ela (Fentress e Wickman 1992, Sobral 2006). “O mundo do inteligível, definido em termos de experiência temporal, é um corpo organizado de expectativas baseadas na recordação” (Connerton 1993 [1989]: 7). A memória está em todo o lado: na mecânica dos pequenos gestos do quotidiano, na maneira como recordamos o que aconteceu, na forma como traduzimos em palavras os fragmentos de que é feito o passado, nos rituais privados e públicos de celebração do que foi, nos objetos e lugares que são investidos de significados que transcendem a sua existência material. Forçando o caminho pelos inúmeros desvios da omnipresença da memória, centrei-me no que é essencial num trabalho desta natureza: regressar à genealogia dos conceitos e principais autores, percorrer as temáticas centrais e ir delimitando as leituras tendo em consideração o objecto da minha pesquisa.
O regresso à linhagem dos conceitos reenvia-nos para o início do século XX, altura em que a memória foi resgatada ao domínio da subjetividade individual pela mão de Maurice Halbwachs, sociólogo e discípulo de Émile Durkheim, consensualmente considerado o fundador do olhar contemporâneo sobre a memória (Connerton 1993, Fentress e Wickham 1992, Kansteiner 2002, , Olick e Robbins 1998, Sobral 2006, entre outros). As bases do que chamou uma ‘teoria sociológica da memória’ foram lançadas com a publicação de Les Cadres Sociaux de la Mémoire em 1925. Contrariando as mais proeminentes discussões da época, defendeu que o passado não é guardado numa localização do cérebro nem num reduto do espírito ao qual apenas o sujeito tem acesso. A formalização de uma imagem do passado é mediada pelo recurso à linguagem e ao
7 A clivagem epistemológica que separa ‘história’ e ‘memória’ encontra-se envolta em ambiguidade. Nas
palavras de David Lowenthal, “(...) ‘memory’ includes second hand accounts of the past – that is, ‘history’; ‘history’ relies on eyewitness and other recollections – that is, ‘memory’.” (Lowenthal 1999: 213). Para uma leitura das questões levantadas por esta relação, ver Fentress e Wickham 1992, Kansteiner 2002, Klein 2000 e Cofino 1997.
“sistema de convenções sociais”, impossibilitando que as recordações possam ser consideradas como fenómenos “puramente interiores” (Halbwachs 1994 [1925]: 279). Se esta mediação é imprescindível, Halbwachs afirma ainda que a recordação é também o resultado de solicitações exteriores ao indivíduo, decorrentes das relações que estabelece com os outros no contexto de grupos sociais diversos: “[l]e plus souvent, si je me souviens, c'est que les autres m'incitent à me souvenir, que leur mémoire vient au secours de la mienne, que la mienne s'appuie sur la leur” (idem: vi). O passado é constantemente reconstruído a partir do presente através dos quadros sociais da memória, pelos quais se recompõe uma ‘imagem do passado que esteja de acordo com o pensamento dominante da sociedade em cada época’ (idem: viii).
Mais de oitenta anos após a publicação deste livro, muito do que Halbwachs propõe é ainda atual. A rejeição da concepção da memória como fenómeno individual recolhe uma “unanimidade impressionante”, que inclui as perspectivas sociológica, histórica, artística ou neuropsicológica (Kansteiner 2002). Daniel L. Schacter, investigador que trabalha sobre os aspectos biológicos e psicológicos da memória, recorre a 1984 de George Orwell, para ilustrar a dimensão social do que recordamos:
Totalitarian societies like the one envisioned by George Orwell have declined since the collapse of the eastern European communist regimes. But forces that in some sense resemble the Ministry of Truth continue to operate in individual minds: our memories of the past are often rescripted to fit with our present views and needs. (Schacter 2001: 138)
A semelhança entre as formulações de Halbwachs e de Schacter é surpreendente. Um sociólogo e um psicólogo separados por mais de sete décadas convergem na afirmação de uma dupla dependência: não apenas a memória individual depende de forças que a transcendem, como a imagem do passado depende de uma reconstrução feita a partir do presente.
Mas nem tudo permanece igual ao que Halbwachs formulou. O mundo mudou muito e, com ele, a academia também. Nos anos que decorreram entre a sua morte e o ressurgimento da memória colectiva nas ciências sociais, abriu-se o espaço para uma revisitação crítica da sua obra, dirigida sobretudo ao determinismo social dos seus escritos. A subordinação do indivíduo a uma entidade exterior – a memória colectiva – constitui um dos pontos da discórdia. De acordo com Halbwachs,
(...) la société tend à écarter de sa mémoire tout ce qui pourrait séparer les individus, éloigner les groupes les uns des autres, et qu'à chaque époque elle remanie ses souvenirs de
manière à les mettre en accord avec les conditions variables de son équilibre. (Halbwachs 1994: 290)
A resistência a algumas formulações de Halbwachs deriva, de acordo com Paul Connerton, “(...) de certos hábitos de linguagem e de método, em particular de um vocabulário durkheimiano caracterizado pelo emprego, com o epíteto colectivo, de termos pedidos de empréstimo à psicologia individual.” (Connerton 1993 [1989]: 46). O regresso das ciências sociais à memória colectiva implicou o abandono do olhar reificador que atribuía à memória uma existência exterior aos sujeitos e grupos sociais e lhe concedia um papel fundamental na construção de coesão e equilíbrio. O ressurgimento da memória foi, por isso, marcado pela multiplicação de termos alternativos que vieram substituir o termo ‘coletivo’, procurando ultrapassar as dificuldades encontradas na formulação original de Halbwachs. Memória social (Connerton 1993, Fentress e Wickham 1992), popular (Popular Memory Group 1982), pública (Bodnar 1994) são apenas alguns dos exemplos possíveis, que refletem a busca de termos mais específicos capazes de traduzir a constante negociação e reformulação que se opera na dimensão social da memória. Nesta dissertação, optei por passar ao largo dos debates teóricos que animam a discussão terminológica nos estudos da memória e estabelecer como base conceptual clara a ideia de que “[u]ma memória só pode ser social se puder ser transmitida e, para ser transmitida, tem que ser primeiro articulada. A memória social é portanto articulada.” (Fentress e Wickham 1992: 65). Esta articulação não se esgota nas práticas discursivas. Ela implica também outros “(...) atos de transferência que tornam possível recordar em conjunto”, tais como as cerimónias comemorativas e as práticas corporais (Connerton 1993 [1989]: 47). É neste território vasto, feito de palavras, gestos e ações, que se opera o processo complexo pelo qual o passado e presente se habitam e contaminam mutuamente.
A diversidade terminológica que povoa os estudos sobre a memória não invalida o acordo sobre uma ideia fundamental: a reconstrução do passado a partir do presente implica que se reconheça que a distância que separa estes dois momentos do tempo não é apenas feita dos anos que decorreram entre um e outro, mas também e sobretudo das muitas formas como este último transforma a representação do primeiro. A representação do passado através da memória pode, por isso, implicar uma dimensão de intencionalidade visível nos “(...) atos de preservar e transmitir determinados objetos e narrativas – e de esquecer outros” (Sobral 2006: 31). Esta intencionalidade pode
manifestar-se sempre que esteja em causa a revisitação do passado, desde a narrativização dos percursos biográficos até à criação das grandes narrativas nacionais. A “ilusão biográfica” sobre a qual Pierre Bourdieu escreveu, baseia-se no “postulado do sentido da existência contada” e torna qualquer narrador “ideólogo da sua própria vida”, selecionando acontecimentos a partir de uma amálgama desordenada de factos (Bourdieu 1986). A mesma dimensão de intencionalidade está presente, por exemplo, na muito influente ideia de invenção da tradição, proposta por Eric Hobsbawn e Terence Ranger. De acordo com estes autores, a presumível antiguidade de instituições, rituais e práticas sociais é de facto o resultado de uma criação artificial. Esta afirmação da continuidade entre um passado longínquo e o presente é feita através de um “processo de formalização e ritualização”, pelo qual as novas circunstâncias são revestidas da aparência de configurações antigas.
It is the contrast between the constant change and innovation of the modern world and the attempt to structure at least some parts of social life within it as unchanging and invariant that makes the ‘invention of tradition’ so interesting for historians of the past two centuries. (Hobsbawn e Ranger 2003 [1983]: 2)
Em qualquer uma destas dimensões, narrativas pessoais ou públicas, o passado existe enquanto produto do olhar retrospectivo de agentes – coletivos ou individuais - que a cada momento conferem inteligibilidade ao passado através de um processo de negociação da representação do que aconteceu.
Para compreender de que forma se articula a dimensão biográfica e pessoal da memória com a sua inscrição num quadro histórico e social mais vasto, segui as pistas lançadas por alguns trabalhos inspirados na reflexão do Popular Memory Group na década de 80. Este grupo, de inspiração gramsciana, encarava a memória enquanto “prática política” e enquanto objecto. Na primeira, tratava-se de reconhecer a importância política da história, questionando criticamente as questões de autoridade que rodeavam a prática da reconstrução profissional do passado. Mas é a segunda, a memória enquanto objecto de estudo, que interessa nesta dissertação. Os autores do Grupo afirmavam que o estudo da memória se assemelha à geologia, já que o passado resulta da “sedimentação de traços passados” numa construção compósita complexa. O estudo da memória tal como foi preconizado por estes autores implicava a distinção fundamental entre dois níveis: o campo das “representações públicas” e o das “memórias privadas”. O primeiro é povoado por diversas e por vezes opostas
representações do passado e é o palco de uma intensa contestação pelo estabelecimento da “memória dominante”; o segundo é produzido na vida quotidiana, encontrando expressão não apenas na interação social mas também em “formas culturais íntimas” (cartas, diários, coleções de objetos referentes ao que já passou). O Popular Memory Group defendia uma dupla orientação:
[popular memory study is] concerned with the relation between dominant memory and oppositional forms across the whole public field. It is also concerned with the relation between these public discourses in their contemporary state of play and the more privatized sense of the past which is generated within a lived culture (Popular Memory Group 1982: 211).
Nesse sentido, o estudo da memória deveria contemplar os diversos sentidos do passado, articulando as narrativas dominantes e as agências oficiais com a multiplicidade de outras vozes que constituem este processo, desde os media, passando por organizações da sociedade civil, até às narrativas privadas daqueles que habitualmente estavam excluídos da história 8.
O Grupo dissolveu-se, mas as suas propostas continuaram a ser trabalhadas nos anos seguintes. Num volume composto por vários artigos dedicados à política da memória de guerra (e que explicitamente declara a sua proximidade conceptual com o Popular Memory Group), deparei-me com uma abordagem que propõe dar conta da natureza compósita da memória e da negociação que ela implica, conjugando três grandes eixos de análise: narrativas, arenas e agências de articulação da memória. As narrativas constituem formulações partilhadas no interior das quais se localizam as memórias dos atores sociais, desde as mais privadas recordações pessoais até às formulações oficiais. Estas narrativas são promovidas por distintas “agências” - instituições através das quais os atores sociais procuram o reconhecimento das suas narrativas, e que podem tomar a forma de corpos do Estado, mas também de organizações da sociedade civil. De acordo com estes autores, as narrativas promovidas por diferentes agências cruzam-se naquilo que chamaram de “arenas” de articulação - espaços sociopolíticos onde os atores jogam o reconhecimento alargado das suas
8 Conceder voz aos que habitualmente estão excluídos da história monumental é uma das linhas
defendidas pelo Popular Memory Group. De facto, os autores deste grupo apontam o livro Blood of
Spain, de Ronald Fraser (1986 [1979]), como uma investigação exemplar da memória popular.
Baseando-se nos testemunhos orais de centenas de cidadãos desconhecidos, constrói-se a partir de inúmeras pequenas narrativas a partir das quais se tece uma história mais vasta de ‘proporções heroicas e complicação quase infinita’ (Popular Memory Group 1982: 217).
memórias de guerra, num processo que não é pacífico ou isento de contestação: “The articulation of memory envolves struggles to extend, or alternatively to limit, the arenas within which specific memories are able to circulate, and hence make claims for recognition.” (Ashplant et al 2006 [2000]: 17). É no cruzamento destes três níveis – narrativas, agências e arenas – que se poderá aceder uma perspectiva que inclua e articule a subjetividade dos indivíduos, a criatividade da sociedade civil e os processos de construção de narrativas públicas.
Memórias e narrativas públicas
A dimensão pública da memória torna-se particularmente visível quando se trata da recordação de um acontecimento como a guerra, um acontecimento cuja intensidade dramática se estende do esforço coletivo solicitado aos países em nome dos quais elas se travam até às vidas dos indivíduos direta ou indiretamente envolvidos nos conflitos. Na época moderna, a nação constitui a arena central onde se articulam as memórias de guerra e onde se mobilizam os recursos para a sua comemoração. É aqui que se joga a possibilidade da recordação ou do esquecimento, da celebração ou do silenciamento públicos. Esta é a arena que todas as agências procuram alcançar, pois é aqui que se definem os contornos daquilo que John Bodnar chama de memória pública, entendida como “ (…) a system of beliefs and views that are produced from a political discussion that involves the fundamental issues relating to the entire existence of a society: its