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O objetivo inicial de realizar o transfer de congressistas era levar apenas as pessoas que estavam hospedadas em quatro hotéis parceiros do evento, localizados em distintas partes da cidade, um no centro, dois próximos à UFSC e outro na Lagoa da Conceição. Além disso, havíamos nos compro- metido com a organização geral do evento que não deixaríamos desam- paradas as pessoas que vinham da Ásia exatamente pela diferença cultural existente entre nossos países. Essa última decisão acarretou alguns proble- mas. Muitos dos congressistas vindos da Ásia estavam em hotéis que não eram os conveniados; outros estavam hospedados em casas alugadas por meio do aplicativo Airbnb, o que causou dois tipos de problemas distintos.

No caso das pessoas que alugaram uma casa ou quarto para se hospe- dar durante o evento, muitas dessas localidades eram de difícil ou impossí- vel acesso para a van. Aqui é importante informar que boa parte da cidade de Florianópolis é composta por morros íngremes de ruas estreitas, sendo que muitos dos morros não possuem estrada para carros, apenas escada- rias. Houve o caso de uma chinesa, por exemplo, que não conseguimos dei- xar na porta da casa que ela havia alugado pelo Airbnb, posto que a van não conseguia “subir o morro”. Era noite e deixar uma congressista estrangeira na beira de um morro de Florianópolis não era uma boa ideia. O motorista entrou em contato com a pessoa que alugou o quarto para a congressista, que se negou a descer para buscá-la. Nessa ocasião, várias pessoas se en- contravam na van à espera de chegar em seu hotel. Assim, o motorista e a congressista resolveram que ela subiria sozinha. Em outra situação, a van quase tombou devido ao local de hospedagem da pessoa. Decidimos, en- tão, por prudência, não atender às pessoas que estavam hospedadas pelo Airbnb, o que chegou a causar um incômodo e várias reclamações por parte de uma professora brasileira. Essa decisão também foi elaborada posto que esses desvios de rota e paradas a mais faziam com que a van demorasse por vezes uma hora ou mais para voltar para a segunda viagem, deixando “nos- so cantinho” cheio de pessoas furiosas e cansadas.

Muitos dos congressistas viajaram cerca de 20 e até 30 horas. Ou- tros haviam esperado por voos cancelados e tinham passado o dia no seu aeroporto de origem ou de conexão. Então, lidávamos com pessoas falan- do diferentes idiomas (principalmente espanhol, inglês e português) com diferentes acentos, por vezes impossíveis de serem compreendidos e pe- dindo informações das mais variadas sobre o Congresso, ao mesmo tempo em que nos pressionavam para entrar na van. Das pessoas que ficavam co- nosco esperando a van, muitas estavam bastante tranquilas, se conhecen- do, conversando, tocando contatos, fazendo Exchange, comprando chips brasileiros etc. Mas conforme o tempo passava, muitas ficavam bem irri- tadas, perguntando a todo momento sobre o transporte. Com a demora da van, muitas pessoas passaram a se agrupar por regiões e dividir um Uber –

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isso ocorreu muito com os brasileiros mais jovens. Mas houve o caso também de dois indianos. Era noite de domingo, eles demonstravam muito cansaço e demandavam bastante atenção, principalmente do monitor Caio Russo, o Cacau. À certa altura da hora, a mulher informou que o marido estava pas- sando mal e que eles decidiram arcar com um táxi para a região da Lagoa da Conceição posto que eles só possuíam cartão para efetuar o pagamento. Eles foram então guiados até o taxi, nos certificamos do valor acordado e problema resolvido. Entretanto, fatores-surpresas ocorreram durante a recepção.

Um fator-surpresa foi que muitas pessoas não possuíam o aplicativo do Uber, que permite fazer viagens mais baratas que às dos táxis. Assim, toda a equipe de transporte passou a pedir Uber pelo seu próprio aplica- tivo para essas pessoas, sendo que a maioria dos congressistas pagou em dinheiro diretamente para o motorista. Mas houve um caso isolado: duas pessoas passaram a pressionar a equipe, afirmando que seu transporte ha- via sido garantido pela organização do evento, negando-se a pagar a cor- rida de Uber e a esperar pela van. Assim, a coordenadora fez o pagamen- to para essa viagem. Outro fator-surpresa foi a quantidade de bagagem. A van tinha capacidade para 14 pessoas, quando as malas permitiam, pos- to que muitas pessoas trouxeram mais malas do que era possível colocar no bagageiro da van, fazendo assim com que as malas ocupassem os espa- ços destinados às pessoas.

No dia de domingo, com o aprendizado do dia anterior e em comu- nicação com a coordenação geral do evento, decidimos solicitar uma Doblò da mesma empresa para auxiliar no transporte desse dia. Essa estratégia fez com que diminuísse o tempo de espera de alguns dos congressistas, mas não solucionou o problema por completo. Isso porque por vezes três voos desembarcavam ao mesmo tempo, trazendo um grande contingente de congressistas. Em vários momentos tivemos cerca de 30 pessoas aguardan- do no “nosso cantinho”.

Nesses momentos, a ordem de entrada na van deveria respeitar o iti- nerário mais rápido para que a van voltasse logo e assim fizesse outra via- gem. Então, separar os congressistas por regiões da cidade – UFSC, Centro e

Lagoa da Conceição – foi a alternativa sugerida pela Gabriela para nos auxi- liar com sua expertise nessa logística jamais vivida na mesma dimensão por qualquer monitor ou pela coordenadora do transporte. Mas separar os con- gressistas por regiões não foi uma tarefa tão simples. Muitos congressistas não paravam de conversar entre si. No meio dessa confusão, Alessandra subiu em um degrau que havia em nosso “cantinho” e pediu, em um in- glês (para baixo de básico), que todos prestassem atenção e dissessem qual era seu hotel de destino. Para a surpresa de Alessandra, essa ação foi acompanhada de uma filmagem, feita por um dos congressistas. A expressão daquele que filmava era de um sorriso e uma certa felicidade, como alguém que não queria perder aquela cena da memória. Pensando que esse fenômeno pode ter sido causado pelo inglês básico, ou pela falta do uso de palavras adequadas em inglês, a coordenadora passou a pedir para os monitores bilíngues realizarem essa triagem. No entanto, além de conversarem entre si, os congressistas também tinham bastante interesse em dialogar com os monitores.

Esse intercâmbio que ocorreu durante todo tempo em que estivemos no aeroporto deve ser interpretado como um momento de confraterniza- ção das diferentes nacionalidades. Entretanto, essa demanda por diálogo atrapalhava a organização das pessoas para a entrada na van. Embaraçados, os monitores não conseguiam organizar o grupo, pois não podiam encer- rar a conversa de modo polido. Como coordenadora, Alessandra entrava na roda, pedia licença e dizia que precisava do monitor. Em um desses casos, Cacau foi chamado para organizar os congressistas por regiões, uma vez que a van estava chegando e o embarque deveria ser rápido. Do mesmo modo que Alessandra, mas com um inglês fluente, Cacau subiu no degrau e disse: “Preciso da atenção de vocês agora!” – momento em que todos pararam e olharam atentamente para ele, que continuou: “quem vai para o Centro levante a mão”, as pessoas responderam prontamente. E assim seguiu a fala de Cacau, pedindo que cada pessoa identificasse seu hotel. Após esta tria- gem, o monitor chamava um grupo específico que ia para a mesma região para embarcar na van, então palavras como “follow me!” e “come to me!”

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foram repetidas incessantemente no aeroporto. A habilidade linguística de Cacau, porém, não encerrava o problema.

Como separávamos os congressistas por regiões, quando chamáva- mos aqueles que iam para o centro da cidade, por exemplo, muitos que iam para outra região seguiam o coletivo, sem compreender que ainda não era a sua vez de embarcar. Uma possibilidade de interpretação desse fenômeno é que boa parte dos congressistas não falava inglês e nem mesmo espanhol. Então, quando viam as pessoas se dirigindo à van, achavam que chegara o momento delas também. Explicar que elas ainda teriam que esperar era sempre um constrangimento, pois muitas vezes essas pessoas já estavam na calçada do aeroporto com suas grandes malas e seus rostos cansados. E isso ocorreu por diversas vezes e em outros contextos.

Algumas pessoas da organização do Congresso ficaram responsáveis por buscar certos congressistas no aeroporto. Nessas viagens, muitos deles levaram pessoas das quais não tinham responsabilidade apenas para con- tribuir com a equipe de transporte. Em uma dessas situações um dos pro- fessores da UFSC decidiu levar duas pessoas a mais, além da qual tinha sido designado a buscar. Entretanto, um congressista que ia para outra região da cidade entendeu que receberia carona do professor e foi seguindo-o até o carro, momento em que o professor pediu desesperadamente para a Ales- sandra salvá-lo daquela situação. Apesar de a coordenadora ter explicado ao congressista que ele não iria naquele carro, ele continuou. Tempos de- pois em conversa com o referido professor, Alessandra descobriu que esse congressista era russo e só sabia falar três palavras inteligíveis para nós: IUAES, Rússia e o nome do seu hotel.

Quando “nosso cantinho” ficava vazio, a equipe toda vibrava ou sus- pirava fundo, dependendo do cansaço que já sentíamos, um ato sempre conjunto sem qualquer combinação prévia. Os voos com congressistas nor- malmente chegavam juntos, então por vezes tínhamos um intervalo de 15 minutos a 2 horas de descanso. Nesses momentos, podíamos ir ao banheiro, conversar, reclamar do tratamento que recebíamos de alguns congressis- tas, fumar, nos conhecer e avaliar o andamento do trabalho, aprimorando- -o para o próximo desembarque.

Apesar de todo o percalço envolvido na organização do transporte, como pode ser visto nesse tópico, o intercâmbio entre monitores vindos de diversos Estados brasileiros e congressistas de 94 países distintos gerou um ambiente, tanto no aeroporto quanto nos demais dias do evento, de troca de conhecimento acadêmico, mas também uma solidariedade entre aqueles que trabalharam nas comissões e confraternização entre monitores e con- gressistas. Uma interpretação para isso é que a própria ideia da monitoria foi pensada a partir de uma perspectiva antropológica e interdisciplinar ampla, fruto das trocas e intercâmbios que acontecem durante a pós-graduação, congressos e redes de contatos que se formam e consolidam durante even- tos como esse. Colaborar com a execução do Congresso Mundial da IUAES possibilitou que conhecêssemos pessoas em diferentes etapas de nossa for- mação (graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado), oriundas de diferentes campos disciplinares (Antropologia, Linguística, Ciências So- ciais, “Trabajo Social”, Jornalismo etc.), falantes de diferentes línguas, o que contribui a “ampliar la mirada” e a confirmar uma tese defendida por vários autores (Bourdieu & Wacquant, 2014; Guber, 2005; Martínez, 2007): de que a Antropologia surge justamente dessa diversidade de enfoques e metodologias que caracterizam as Ciências Sociais e Humanas, na qual nos estamos formando. Também foi importante conhecer pessoas de diferentes lugares da América Latina (Argentina, Cuba, Haiti), de diferentes regiões do Brasil (Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Recife, São Paulo etc.) e de alguns países africanos (Benin, Senegal etc.).

Graças a esta enriquecedora experiência, conhecemos mais sobre as pesquisas que vêm sendo feitas nos nossos campos de estudo, contribuindo para nossa formação acadêmica e a construção de redes de contato. Outros temas, distantes de nossas áreas de estudo, também trouxeram experiên- cias sobre a produção no campo da antropologia mundial como, por exem- plo, as pesquisas ligadas aos grupos étnicos poucos estudados no Brasil e Argentina, como são os ciganos, que pelo o que pudemos acompanhar, fo- ram temas abordados em vários dos trabalhos apresentados nos painéis de congressistas europeus.

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Entretanto, durante a organização do evento também houvera de- sencontros e desentendimentos, dinâmicas que acompanham os laços de quem se propõe a trabalhar ou conviver conjuntamente. Uma questão bastante debatida em nossa comissão foi a carga horária de trabalho. En- quanto vários monitores trabalharam mais de 40 horas, alguns não apare- ceram para exercer a monitoria. Em conversa com a equipe da Comissão de Transporte, podemos constatar que todos que trabalharam além das horas solicitadas o fizeram ou por vontade individual ou por identificar a neces- sidade de sua presença, já que os colegas que deveriam substituir seu turno não apareceram. Em conversa com alguns dos monitores que trabalharam em tempo integral, a resposta é a mesma: passar o dia ajudando pessoas de diferentes nacionalidades e figuras emblemáticas da antropologia mundial foi uma experiência que não poderia ter ocorrido apenas assistindo ao Open

Painel (OP), já que nessas funções a troca de conhecimento e aproximação

por meio de amizades se apresentou mais enriquecedora. Mas o que não podemos perder de vista é a vontade de como cada monitor pretende se inserir no Congresso, seja cumprindo as 20 horas e participando como con- gressista no restante do tempo, seja apenas atuando como monitor. Essa escolha deve ser de cada monitor e não da coordenação.

Referências

BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu, Campi- nas, n. 26, p. 329-376, 2006.

BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loïc. Una invitación a la sociología refle-

xiva. Buenos Aires: Siglo XXI, 2014.

GUBER, Rosana. El salvaje metropolitano. Reconstrucción del conocimiento social en el trabajo de campo. Buenos Aires: Paidós, 2005.

MARTÍNEZ, Miguel. La investigación cualitativa etnográfica en Educación. Manual teórico-práctico. México: Trillas, 2007.

Coordenação da monitoria IUAES 2018:

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