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vivências concomitantes ao World Congress

Raquel Mombelli flávia Cristina de Mello

Atentas à grande diversidade de origens e realidades sociais apresentada pelas pessoas inscritas no 18º Congresso Mundial da União Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas, a IUAES, a Comissão Organizadora do evento elaborou a proposta de uma rede de hospedagem que pudesse acolher pesquisadoras/es de outras partes do país e do mundo, contando com a solidariedade dos participantes do evento que morassem em Floria- nópolis e com a receptividade da comunidade local da Ilha.

Inspiradas pela experiência da edição de 2017 do Congresso Mun- do de Mulheres/Fazendo Gênero, ocorrido também na Universidade Fe- deral de Santa Catarina (UFSC), as experiências de hospedagem solidária mostraram-se extremamente ricas e interessantes aos que delas partici- param, além de isotópicas ao tema desta edição do Evento: “Um Mundo de Encontros: O passado, o presente e o futuro do conhecimento antropoló- gico”. Assim, com o objetivo de incentivar e viabilizar a participação de pesquisadoras/es de 92 países diferentes, desenvolvemos canais que esti- mulassem arranjos de Hospedagem Solidária, nos quais inscritos no Con- gresso trocassem informações sobre hospedagem e pessoas moradoras de Florianópolis disponibilizassem suas casas para acolher participantes de outras cidades e países.

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Além disso, organizamos uma lista de possibilidades de hospedagens alternativas, com preços mais baixos que hotéis convencionais, em estabe- lecimentos que concordassem em oferecer algum tipo de desconto ou aten- dimento especial aos inscritos no Congresso, relação de estabelecimentos que denominamos “Hospedagem Alternativa”. O link de Hospedagem Al- ternativa, disponibilizado no site oficial do IUAES, também foi pensado aos moldes da experiência do Congresso Fazendo Gênero/Mundo de Mulheres para congressistas que não desejassem ou não tivessem recursos financeiros para ficar em hotéis e que não quisessem ou não conseguissem propostas de hospedagem solidária.

Acreditamos termos alcançado o objetivo de incentivar a vinda de congressistas que não teriam condições de comparecer ao evento sem o apoio à hospedagem, e relatos das vivências de participantes da proposta de hospedagem solidária revelam ricas oportunidades de troca de expe- riências, tanto do ponto de vista social quanto cultural, para os visitantes e para pesquisadores, estudantes, famílias e moradores locais que abriram suas casas para acolher voluntariamente congressistas de origens diversas.

Uma das primeiras providências para viabilizar os arranjos de Hos- pedagem Solidária foi a divulgação da ideia entre as pessoas envolvidas na Comissão Organizadora, o que resultou efetivamente na acolhida de deze- nas de pessoas nas casas das próprias pessoas envolvidas na organização do evento, em particular de estudantes brasileiros que estavam inscritos como monitores.

Criamos também um link na página do evento, que remetia a uma página criada no site de relacionamentos Facebook, para viabilizar a co- municação direta entre as pessoas dispostas a receber participantes em suas casas e pessoas inscritas no Congresso. A partir do Facebook1, as pes-

soas interessadas acessavam o grupo fechado através de uma solicitação de participação e, ao ingressarem no grupo, apresentavam suas ofertas ou demandas de hospedagem. Foram mais de 200 solicitações de pedido de

entrada na comunidade do Facebook “Hospedagem Solidária do IUAES”. Os participantes da comunidade do Facebook tinham nacionalidades diversas: Índia, Rússia, Itália, México, Colômbia, Portugal, Chile, Estados Unidos e Bélgica. Do Brasil, vinham de vários estados: Pará, Mato Grosso, Bahia, Rio de Janeiro, Natal, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, Brasília, Goiânia, entre outros. A comissão desempenhou um papel de mediação, controlan- do as autorizações de solicitações de ingresso na comunidade, identificando lugares e instituições de procedência, assim como as atividades vinculadas ao congresso, sem, contudo, interferir ou se responsabilizar pelos acordos realizados. Para auxiliar na comunicação, a Comissão Organizadora dispo- nibilizou tradutores para intermediar o diálogo nas quatro línguas oficiais do 18º IUAES: português, inglês, francês e espanhol.

No acompanhamento das tratativas de “Hospedagem Solidária” nos deparamos com o fato de que parte das pessoas inscritas no IUAES preferia contatos em esfera privada, fora de redes sociais. Além disso, ficou evidente um corte geracional na comunicação entre participantes das comunicações sobre Hospedagem Solidária. Os mais jovens buscavam, e mesmo prefe- riam, se comunicar através de redes sociais. A grande maioria das pessoas que acessaram a página do Facebook tinha menos de 40 anos. Acima desta faixa etária, encontramos certa resistência das pessoas a oferecerem suas casas em esfera pública e preferiram escrever para o e-mail da Comissão de Hospedagem Solidária ou contatar diretamente alguma pessoa conhe- cida da comissão organizadora para disponibilizarem um quarto em suas casas. Diante destas constatações, disponibilizamos um e-mail no site do evento através dos quais colhíamos informações de pessoas demandando e ofertando hospedagem solidária e colocamo-los em contato, conforme afi- nidades linguísticas.

Outra dimensão interessante de ser observada é que se evidenciou uma rede prévia, particularmente entre brasileiros/as e antropólogos/as do Mercosul, de relações sociais entre pesquisadoras/es e estudantes que participaram do evento, que se revelou fundamental para a distribuição das inúmeras hospedagens ocorridas durante o evento. Um breve levantamento

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de hospedagens mostrou que estas redes foram configuradas através de amizades pessoais, relações de pesquisa e/ou trabalhos de campo que foram acionadas para agrupar participantes do evento previamente e que deter- minaram parte da hospedagem solidária que ocorreu durante o evento.

À medida que a demanda de pedidos de Hospedagem Solidária au- mentava e o congresso se aproximava, o reforço para que os/as congres- sistas locais abrissem suas casas foi intensificado, de forma a garantir que o máximo de congressistas fossem recepcionados. Foi dado foco especial ao envio de novas mensagens por meio das redes sociais, em especial para monitoras/es locais para acolherem monitoras/es externos em suas casas, promovendo a aproximação dos congressistas nesta condição e entendendo serem os estudantes público-alvo fundamental das ações de apoio à estadia durante o evento. A presença significativa de estudantes e jovens pesqui- sadoras/es foi garantida também por um edital de apoio, com recursos da Wenner Gren, e subsídios para transporte e alimentação que auxiliaram a vinda de uma centena de congressistas dos países do Sul Global. Ficamos felizes diante da constatação de que a proposta de Hospedagem Solidária somou-se a um conjunto de ações que, além de proporcionar ricas trocas culturais, foi vital para viabilizar a participação de muitas pessoas que não teriam condições de participar do 18º IUAES sem estas ações.

Para além da hospedagem solidária, constatamos que a página do Fa- cebook atuou como canal de comunicação durante o congresso, com re- lação a ofertas de caronas ou propostas de compartilhamento de serviços de transporte, como táxis, uber, etc. para deslocamento dos locais de hos- pedagem até a UFSC. A bolsista Maria Luiza Scheren destacou-se na etapa final de organização da hospedagem solidária pelo Facebook, colocando es- tudantes em contato para hospedarem-se juntos e dando uma série de ex- plicações para que pudessem ter um lugar para ficar durante o Congresso. Destacamos, em particular, um grupo de estudantes da UNILA que veio em uma van da universidade e que proporcionou caronas diárias a um grupo grande de estudantes que estavam hospedados com eles. Outras articula- ções se deram ainda durante a abertura do Congresso, com jovens que não

tinham onde dormir, sendo levados por vários membros da comissão orga- nizadora para suas casas. O mesmo aconteceu no final do Congresso, quan- do alguns congressistas decidiram ficar mais alguns dias em Florianópolis e foram levados para a casa de membros da comissão organizadora, já como amigos.

Por tudo isso somos imensamente gratas a todos/as, professoras/es, pesquisadoras/es, estudantes, comunidade universitária e população de Florianópolis, que abriram suas casas para receber as antropólogas e antro- pólogos congressistas de várias partes do Brasil e do mundo.

Acreditamos que as ações ligadas à Hospedagem Solidária, assim como várias outras ações pensadas para facilitar o acesso e a acolhida das antro- pólogas e antropólogos que vieram à UFSC participar deste lindo evento, que foi o 18º Congresso Mundial da IUAES, contribuíram efetivamente para tornar o congresso mais humano, mais afetivo e rico em vivências, propi- ciando expandir as redes de pesquisa e também de trocas culturais. Além disso, foi condição indispensável para muitos que não teriam como parti- cipar do Congresso se não através desta proposta, o que muito nos alegra.

Deixamos aqui o nosso muito obrigada, mais uma vez, pela hospita- lidade generosa daqueles que receberam, pelas possibilidades das trocas, encontros e expansão de mundos e olhares pela realização desta proposta. Esperamos que esta experiência continue acontecendo nas próximas edi- ções do IUAES World Congress.

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ANEXO

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