Andrea Vieira Zanella Kércia Priscilla figueiredo Peixoto Thainá Castro Costa
A comissão de instalações artísticas emergiu de uma conversa, de alguns palpites e uma inquietação. Como fazer de um evento tão potente, com pessoas de lugares diversos e culturas distintas, um espaço de estudos, trocas e, ao mesmo tempo, de acolhimento e afecções? Várias comissões estavam já trabalhando nesse sentido, como, por exemplo, a comissão de bem-estar, a comissão responsável pelas crianças, a comissão de cultura. Mas a possibilidade de participantes estarem nas atividades por elas pro- movidas não era certa. Poderiam alguns/mas virem ao Congresso Mundial de Antropologia e retornarem aos seus locais de trabalho, seja no Brasil ou em algum outro dos mais de 90 aqui representados, com a experiência aca- dêmica em sentido estrito.
Nossa aposta estava alicerçada na compreensão de que o pensar não se descola do sentir, pois a cognição está amalgamada à emoção e à vonta- de. Trata-se de conexões constitutivas das possibilidades de estar em rela- ção com o conhecimento já produzido e com as diversas práticas culturais, condição para a emergência de algum novo, na ciência, na arte e na vida.
Com essa aposta é que trouxemos a arte para espaços não canônicos. Dos museus e galerias, a transladamos para as salas de aula, os auditórios, os corredores, os jardins da universidade. Seja na forma de pequenos detalhes nas paredes, mesas e no chão, seja na forma de instalações com propostas
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imersivas, esteve a arte presente no evento a provocar conexões, movi- mentos, proximidades. Arte na vida, arte para a vida, arte potência de vida.
Para a construção e desenvolvimento da proposta, investimos na constituição de um grupo de trabalho e assumimos a tarefa de pensar os espaços em que as atividades do evento aconteceriam. Em encontros in- formais as ideias foram emergindo: ideias-respostas à comissão geral do evento que nos indicava suas necessidades, ideias-propostas cunhadas no diálogo com nossas experiências, potências e expectativas.
Foram constituídas três frentes de trabalho: uma, encarregada de preparar as salas e auditórios em que as atividades acadêmicas acontece- riam; outra, que construiu 3 geodésicas; por fim, a terceira frente trabalhou em parceria com a comissão da feira de artesanato com a preparação do espaço físico que acolheu os/as artesãos/ãs e suas artes.
Para as salas de aula e auditórios, confeccionamos fuxicos que foram afixados nos batentes das portas de cada espaço de trabalho, a anunciar, a distância, tratar-se de lugar de acolhida de alguma atividade do evento. Os fuxicos e as coloridas fitas a eles acopladas estiveram presentes também no auditório Garapuvu, em colunas que sustentavam cestarias de povos originários do Brasil e bonecas negras confeccionadas pela artista da cidade Dalvelisa Medeiros da Costa.
Essas bonecas, altivas e esguias, ocuparam o palco principal do even- to junto com cestas de variados tamanhos, confeccionadas por artistas in- dígenas de lugares variados. Estavam entremeados às bonecas e cestos al- guns metros de chita, tecido com o qual foram confeccionados os fuxicos. A chita é um tecido popular, pura expressão de brasilidade. Tecido de algodão florido e de cores alegres, a chita está presente de norte a sul do Brasil em vestimentas de festas juninas, em cortinas, toalhas de mesa e ob- jetos de decoração. No congresso a chita esteve presente em todos os espa- ços, seja nos fuxicos afixados nas paredes, nas toalhas das mesas dos audi- tórios e lançamento de livros, seja em pequenas flores que foram colocadas sobre as mesas em vasos confeccionados com a técnica de papelagem.
A equipe da comissão de instalações artísticas trabalhou ardua- mente na confecção dos vasos e fuxicos. Foram vários encontros para que
garrafas plásticas ou de vidro descartáveis, resgatadas de seu destino, fossem transformadas, com pequenos pedaços de jornal e cola feita à base de água e amido de milho, em vasos. A areia assentou as flores confeccionadas com fuxicos de chita. Um trabalho coletivo, conectivo, que agregou pessoas de diferentes gerações e gêneros, em tardes regadas a conversas e alegria. Cor- pos disponíveis ao encontro com corpos outros, trocas intensas que foram se concretizando na medida em que os fuxicos e garrafas foram sendo con- feccionados.
As discussões mais recentes dos campos dos museus deflagram que as instituições e metodologias que temos atualmente não dão conta das deman- das sociais que vivemos. Deste modo, nos propomos a pensar uma museologia atualizada, condizente com as realidades dadas no século em que vivemos, e que se busque a dialogar e representar diferentes atores sociais. Neste senti- do, nos apropriamos de Hélio Oiticica em sua reflexão “museu é o mundo”, possibilitando que os objetos se deslocassem e dialogassem para além das 4 (quatro) paredes das instituições museais. Por isso, para além da acolhida nas salas e nos auditórios, entendemos que seria importante ocupar espaços não tradicionais da Universidade, gerando reflexões autônomas aos indivíduos que se permitissem interagir com a arte. E foi assim que surgiram as geodési- cas dos sentidos. As geodésicas podem ser entendidas como a menor distância que une dois pontos – o que na prática deu origem a construções cupulares, existentes desde a antiguidade e utilizadas por diversos povos.
Estas instalações foram projetadas com o intuito de retirar os objetos dos espaços sacros dos museus e exposições deslocando-os pelo território, ocupando a Universidade, e propondo a todos os públicos presentes que vivessem as experiências sensoriais das geodésicas a partir de seus próprios referenciais. Para isso, foram confeccionadas três geodésicas com canos de PVC e parafusos. Todo o processo foi artesanal e colaborativo, contabilizan- do mais de 20 horas de trabalho entre o GT. As geodésicas foram dispostas da seguinte maneira:
Geodésica 01 – Sons do Brasil: Teve como proposta criar um espa- ço de descanso onde os públicos pudessem usufruir dos diversos sons
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característicos no Brasil. Para isso montamos uma playlist com 36 horas de músicas advindas de todas as regiões, além de sons cotidianos, tais como: buzinas, anúncio de produtos em feira etc. No interior da geodésica o públi- co se deparava com um banco circular e 07 (sete) caixas de som de diversos períodos (década de 1960 até os dias atuais).
Geodésica 02 – Sincretismo e visualidades: Esta geodésica buscou explorar a visualidade das práticas sincréticas brasileiras, portanto, foram disponibilizados 05 (cinco) minialtares com divindades sagradas de várias religiões. Esta instalação é intermediada com redes de pesca que se inter- põem à visão do espectador. Disponível ao público estava um filtro de barro com canecas de diversos materiais, os quais poderiam ser acessados e livre- mente utilizados.
Geodésica 03 – Cheiros e memórias: Nesta geodésica buscou-se pro- por uma experiência olfativa. Sem qualquer informação escrita, o público se deparou com 12 caixas cruas de MDF em diversos formatos e tamanhos, cada uma continha um aroma: canela, chá mate, orégano, coentro etc.
As geodésicas foram experiências muito bem-sucedidas entre os públicos presentes, sendo diariamente acessadas e largamente utilizadas. A geodésica dos sons se tornou um lugar habitual para pequenos cochilos, havendo muitos registros orais junto à Comissão solicitando a não desmon- tagem da instalação após o evento, o que mostra que, para além do público externo, a própria comunidade acadêmica se identificou com um espaço de descanso rápido. A geodésica dos cheiros gerou grandes conversas entre os públicos sobre suas memórias.
O trabalho da comissão de instalações artísticas objetivou, assim, grandes e pequenas produções, em geodésicas e detalhes. Os fuxicos grandes, dispostos nas entradas de cada uma das salas do evento, combi- navam com os pequenos fuxicos afixados no crachá de cada participante. A delicadeza e a força marcante das flores das estampas vivas das chitas, assim como as proposições das geodésicas, expressavam os sentimentos dos integrantes.
A feira de artesanato foi outro acontecimento que contou com a co- laboração da comissão de instalações. O desejo de imprimir também no
espaço da Feira a arte e beleza dedicada ao evento, materializada pela co- missão de instalação, se uniu à profunda vontade de tornar o espaço da Fei- ra belo e carregado de significados, também transmitidos por cada objeto vendido. A princípio, o encontro de integrantes da comissão de instalação e da feira de artesanato foi permeado por ideias tão vivas quanto as cores da chita. Aos poucos, flores, cestas, cheiros e outros elementos decorativos dividiram lugar com a necessidade de garantir mesas, cadeiras e outros ma- teriais para estruturar e proporcionar conforto aos expositores e uma boa apresentação dos produtos.
A disposição para o trabalho e a boa energia que fluíram do encontro de integrantes das duas comissões favoreceram a equação das necessidades para a estruturação da Feira. As mesas e parte das cadeiras foram empres- tadas do Patrimônio da UFSC. Os arquitetos que compunham a comissão de instalações desenharam a planta baixa pensando na disposição das mesas – com suas diferentes medidas – no espaço disponível para a Feira. Ajuda- ram, também, com outros membros da equipe, na montagem da Feira, car- regando mesas, cadeiras, estantes, painéis. Enquanto isso, parte da equipe se empenhava em recortar flores de chita para colar nas toalhas de algodão cru que revestiram as mesas dos expositores não indígenas.
Na área da Feira dedicada aos povos indígenas, as toalhas foram pin- tadas pelos indígenas com os grafismos característicos de cada uma das três etnias do Sul do Brasil ali representadas: Guarani, Kaingang e Xokleng. Enfim, o empenho da comissão de instalações artísticas foi imprescindível para a estruturação e beleza da feira de artesanato. Sonhos concretizados em detalhes únicos, que combinaram perfeitamente com as pessoas que expuseram e venderam seus objetos e com aqueles que prestigiaram a Feira.
Ao final do evento fica o registro de um trabalho potente, construído por um grupo de pessoas que teceu afetos amalgamados ao desejo de pro- vocar afecções. As pessoas que integraram a comissão de instalações ar- tísticas, às quais agradecemos a parceria e oportunidade de trocas, foram: Silvia Zanatta da Ros, Alexander Cordoves Santieban, Valentina Nicoletti, Adriana Barbosa Ribeiro, Leticia Zanella Sais, Mariana Zabot Pasqualotto,
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Deysi Garcia Rodrigues, Luis Enrique Lazaro Garcia, Dianelis Gonzalez Pavon, Debora Luiza Pereira, Renan De Vita Alves de Brito, Luiza dos Santos Mattos, Laura Cordoves Prieto, Thainá, Castro Costa Figueiredo Lopes, Luciana Silveira Cardoso, Fernanda do Canto, Maria Luisa Marco- lino, André Franco Cardoso, Augusto Alencar Barbosa, Caroline Santos e Souza, Mayara Lacal Cunha, Pedro Cesco Litwin, Rodrigo Vieira Silveira e Taynara Cassetari.