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Dalânea Cristina flôr Jucilaine Zucco Juliana da Silva Euzébio Juliane Di Paula Queiroz Odinino Letícia Cunha da Silva Regina Ingrid Bragagnolo Rita de Cácia Oenning da Silva Saskya Bodenmuller

Crianças no IUAES foi um evento político e lúdico que oportunizou a acolhi- da de crianças cujos familiares estavam inscritos no evento 18th IUAES que aconteceu em Florianópolis entre 16 a 20 de julho de 2018, e que salientou o protagonismo infantil e a importância da reflexão e da presença das crianças em eventos e para o desenvolvimento da Antropologia. Considerando que crianças são protagonistas capazes de criar e refletir sobre a cultura (SILVA, 2008; COHN, 2002) e sobre diferenças e desigualdades diversas, influindo ativamente em mudanças e tomando o brincar como linguagem mediadora fundamental nesse processo, o evento contou com 32 crianças de diferen- tes nacionalidades, gêneros, grupos sociais e étnicos. Essas vivenciaram por uma semana momentos de troca entre si e entre a equipe de organizadoras/ es e monitores/as, advindos/as de diferentes lugares do Brasil. Contaram com um momento especial no Congresso Mundial, onde puderam interagir com os/as participantes do evento como um todo, o Seminário das Crian- ças. A primeira experiência de acolhida das crianças na UFSC foi realizada em 2010, no Seminário Internacional Fazendo Gênero, e repetida em 2013 e 2017 já no espaço e em parceria com o Núcleo de Desenvolvimento Infantil

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– NDI. No decorrer dessas experiências, as crianças puderam desfrutar, nas propostas de acolhida, de um amadurecimento em torno dos aspectos que envolviam a relação adulto-criança e criança-criança e, consequentemen- te, de suas dinâmicas de acolhida (ODININO, 2014; WIGGERS, BRAGAG- NOLO, 2014). Este aprofundamento foi sendo desenvolvido por meio de um envolvimento do projeto com o evento como um todo, no envolvimento integral da equipe organizadora nas atividades durante a acolhida e num envolvimento com as pautas da programação do evento, onde as crianças puderam se sentir parte desse. Esse processo consolidou-se como um rico e profícuo espaço de problematização acerca das práticas de cuidado das crianças, do papel do estado e das famílias, do protagonismo infantil, do caráter do encontro de crianças e adultos, entre outras.

Conjugando com os debates do feminismo, o “Crianças no 18th

IUAES” se concretizou como um ato político em defesa dos direitos das

mulheres pesquisadoras, no seu direito de levar filhos/as para lugares pú- blicos e de trabalho e reivindicação de mulheres e homens que querem partilhar a vida acadêmica com suas crianças, a exemplo da experiência histórica da pauta das mulheres pela luta por creches desde os anos 1970 (ROSEMBERG, 1984). Crianças no IUAES foi também um espaço para a vi- sibilização dos povos indígenas do sul do Brasil. Foi ainda um evento que possibilitou a visibilização de uma Educação Infantil pública e de quali- dade dentro das Universidades, sendo acolhida dentro do NDI da UFSC. A participação das professoras do NDI e o conhecimento que possuíam sobre o espaço, materiais e possibilidades pedagógicas disponíveis, sobre- tudo o conhecimento sobre a especificidade do trabalho já desenvolvido na instituição, favoreceram o planejamento dessas ações e a execução das atividades junto às crianças durante a semana.

Assim, o objetivo do Crianças no IUAES no decorrer da acolhida as crianças, foi organizar tempos e espaços para que as crianças de diferentes idades, gêneros, culturas, línguas e identidades se conhecessem, interagis- sem e produzissem sentidos e significados sobre essa diversidade. Planeja- da pela equipe organizadora para acolher 30 crianças, as inscrições podiam

ser feitas pelo site do evento e pessoalmente nos dias do evento no local da acolhida, enquanto houvessem vagas. A busca por vagas foi um pouco maior que o esperado e, ao final, pôde-se acolher 32 crianças de 2 a 12 anos, entre elas 20 meninas e 12 meninos, sendo duas suíças, uma mexicana, um japonês, crianças de diferentes estados do Brasil, diversas delas indígenas xokleng e uma parintintim, que tendo acompanhado seus pais e cuidadores no Congresso, durante uma semana puderam se conhecer, partilhar sabe- res, jogos, brincadeiras e reflexões.

No centro do debate sobre a importância da acolhida encontra-se a relação social estabelecida entre adultos e crianças, sobretudo nestes espa- ços de produção e circulação de conhecimentos; também a problematiza- ção dos modos como se desdobram as relações intergeracionais, que traz à tona a importância de um aprofundamento acerca da condição social das crianças nos diferentes contextos. Destaca-se ainda a dimensão política pela via da corresponsabilidade da prática de cuidado dos diferentes agen- tes sociais. Nas propostas de sua programação vêm sendo problematizados os vínculos sociais estabelecidos culturalmente entre crianças e seus pares e entre os adultos; as masculinidades e feminilidades atribuídas ao dualis- mo da paternidade/maternidade; o papel do estado enquanto promotor de políticas de cuidado das crianças, tomado para além das esferas intrafami- liares e doméstica; bem como uma proposta de acolhida voltada para uma escuta sensível, num partilhamento de experiências lúdicas e pedagógicas entre crianças e adultos e na exaltação do protagonismo infantil.

Numa sociedade onde o tempo livre é cada vez mais escasso e as rela- ções mediadas cada vez mais por máquinas e pela tecnologia, o encontro e o espaço do livre brincar, assim como uma programação de atividades com linguagem apropriada ao grupo, fizeram desse evento um lugar especial para as crianças partilharem experiências. Toda a programação contou com uma variedade de profissionais e pesquisadores/as interessados/as em contribuir com a temática, contatados/as por meio das reuniões gerais de planejamen- to do 18º Congresso Mundial da IUAES. Estes/as diferentes agentes contri- buíram tanto na realização de intervenções como apresentação da peça de

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teatro “Donzelas Guerreiras”, integração das crianças indígenas que seriam acolhidas pelo projeto “Este Lugar Também é Seu”1 durante este período com

as demais crianças inscritas no evento, realização de pintura corporal indíge- na ministrada por Laura Parintintim, realização de jogos diversos, inclusive com a participação especial de Esther Pillar Grossi, oficina audiovisual e a produção de um documentário com as crianças oferecido pela equipe da Usi- na da Imaginação2, passando por visitas à LaBrinca (brinquedoteca do Colé-

gio Aplicação da UFSC), às exposições “Índios do Brasil” e “Tecendo Saberes pelos caminhos Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng”, no Museu de Ar- queologia e Etnologia da UFSC; pelo oferecimento de passeios, a proposição de painel fechado sobre a temática “Dilemas intergeracionais e intercultu- rais: políticas de cuidado, corresponsabilidade do cuidado, protagonismo in- fantil e vivências da maternidade em diferentes contextos” finalizando com o Seminário XIII “Diálogos Antropolúdicus: sobre imaginários e corporifi- cações interculturais”. Tendo em vista que se tratava de um grupo múltiplo em vários sentidos (etário, étnico, cultural, social, de gênero etc.), o plane- jamento precisou ser flexível e teve como eixo principal a brincadeira, que se caracterizou como meio pelo qual as crianças se comunicaram e interagiram, superando as barreiras linguísticas, a timidez e o estranhamento inicial.

A chegada das crianças no primeiro dia e a constituição desse coletivo foi um grande desafio para a equipe que, portanto, organizou a recepção

1 O Projeto de Extensão “Este lugar também é seu: uma contribuição para a permanência dos acadêmicos indígenas na UFSC”, coordenado pela pedagoga Dalânea Cristina Flôr, realiza, desde 2016, o acolhimento das crianças, filhas dos acadêmicos da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, durante o período em que as aulas ocorrem no Campus desta Universidade, em Florianópolis. Junto ao acolhimento das crianças, o projeto tem o objetivo de proporcionar a troca interétnica entre crianças indígenas e crianças matriculadas nas diferentes escolas de educação básica localizadas no Campus Universitário; possibilitar a ampliação dos conhecimentos das crianças indígenas a partir do uso de diferentes espaços/projetos da UFSC e proporcionar a interação das crianças com servidores docentes e técnicos administrativos em educação da Instituição e acadêmicos de diferentes cursos.

2 Desenvolvido e filmado por Kurt Shaw, Rita de Cácia Oenning da Silva e Sandra Oenning da Silva, membros da Usina da Imaginação.

dessas em um parque ao ar livre, onde estavam disponíveis brinquedos de areia, galhos, folhas, balanços, escorregadores e muitas árvores. Na me- dida em que as crianças foram ocupando esse espaço, as vozes e silêncios foram se tornando indicativos – para os adultos – das interações e forma- ção de vínculos de afeto e brincadeiras entre as crianças. Algumas delas, especialmente as estrangeiras, demoraram para se integrar com as demais. A organização de um “circuito” com desafios de movimentos, encabeçada pela equipe do NDI, marcou o início das proposições pedagógicas, sendo que essa proposta possibilitou a integração das crianças entre elas, com os adultos e com o espaço. Crianças, sobretudo as indígenas, que já co- nheciam o espaço conduziram as que não conheciam; crianças maiores conduziram as menores; gestos e movimentos indicaram os caminhos e os desafios impostos como subir, descer, se equilibrar, passar por túneis, pular em colchões, rolar em rampas e passar por teias de tecidos que fina- lizaram em uma roda de contação de histórias sobre respeito à diversidade que foi marcada por uma intensa participação das crianças. O gelo havia sido quebrado e, a partir disso, alguns vínculos de amizade entre as crian- ças já eram visíveis.

Importante destacar que, durante essas atividades, as interações e as brincadeiras entre as crianças superaram as expectativas e promoveram interessantes diálogos interculturais e interétnicos. Na exposição “Tecendo Saberes pelos caminhos Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng”, foram as crianças xokleng quem apresentaram aspectos da sua cultura e da vida as demais crianças. Já na exposição “Índios do Brasil” uma importante refle- xão surgiu na interação e dos significados de mundos entre elas: uma crian- ça suíça e uma indígena se colocam em frente a uma imagem de mulheres indígenas nuas sendo carregadas amarradas por homens brancos vestidos e armados. A menina suiça ri e aponta para os seios da mulher à mostra, indicando seu estranhamento para o menino indígena. Ele rapidamente lhe mostra que o que lhe incomoda na imagem é algo bem diferente e aponta para as armas nas mãos dos homens brancos. O diálogo silencioso entre os dois acabou ali, mas ecoou pelo museu, repleto de significado.

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O evento possibilitou uma ampliação dos espaços de articulação, tro- cas, diálogos cotidianos a partir das fronteiras interétnicas e reconfigura- ções identitárias (TASSINARI, 2001; 2014) que vêm ocorrendo, ao longo de três anos, por meio do Projeto “Este Lugar também é Seu”, entre crianças indígenas e não indígenas no contexto da UFSC, sendo o NDI um desses espaços. No estabelecimento dessas relações, diversos saberes e práticas pedagógicas nos pareceram contribuir para a valorização da identidade das crianças indígenas traduzida nos modos de representar sua identidade ét- nica e sua cultura. Observamos relações de estranhamentos (TASSINARI, 2014) nas interações iniciais, especificamente no intercâmbio entre indíge- nas e não indígenas nas perguntas: “ele é índio? ela é índia?” – perguntas essas associadas aos olhares direcionados às vestimentas, seus rostos, ca- belos das crianças indígenas. Aqui ficou evidente dois aspectos: primeiro um olhar estereotipado relacionado à imagem índio com enfeites, poucas vestimentas (sendo que moramos no sul do Brasil e registramos cenas em período de inverno). O silenciamento inicial das crianças indígenas nos fez refletir acerca da necessidade de aproximarmos as crianças, permitindo um diálogo intercultural. Diante do silêncio das crianças indígenas as respostas eram dadas pelos adultos, que afirmavam sua identidade étnica.

À medida que fomos conversando sobre os costumes das comunida- des indígenas, confirmando com elas um dado ou outro sobre sua cultura, relacionando hábitos de indígenas e não indígenas, apreciando exposição, filmes e histórias sobre a cultura indígena, percebemos um processo de ressignificação das relações sociais indígenas e não indígenas acerca da di- versidade étnica e cultural que ora se aproximavam ora se diferenciavam (GRANDO, 2014). Assim, durante o congresso da IUAES as crianças indí- genas se mostraram muito confortáveis com o espaço do NDI, sendo elas as anfitriãs, transitando confortavelmente pelos espaços, solicitando mate- riais que sabiam que existiam, brincando com as outras sem qualquer difi- culdade, respondendo a perguntas sobre si com muita facilidade.

Outro aspecto importante a ser destacado foi que durante o even- to houve uma riqueza de trocas entre crianças de diferentes idades.

A presença de um bebê indígena e dos adolescentes que o acompanhavam tensionou as dinâmicas de divisão de proposição de atividades por faixa etá- ria, revelando um rico campo de possibilidades proporcionado por este tipo de encontro entre adultos e crianças, mediado pelo cuidado. As crianças pequenas participaram de todas as atividades, contando com a interação de todas as crianças, seus cuidadores e monitores/as, atentando-se às práticas de cuidado e afeto. Um adolescente indígena acompanhava seu irmão bebê de quase dois anos, fazendo o papel de “cuidador”. Este fato gerou uma si- tuação muito peculiar e que deu visibilidade àquela ideia de que precisa de uma aldeia para cuidar de uma criança. O bebê, transitando pelo meio das outras crianças, brincando, caminhando livremente pelo parque, vai até os brinquedos de parque, sobe e desce, pega um objeto ou outro com o qual se depara e brinca especialmente de futebol com seus parceiros de idade mais avançada. Ele não quer brincar isoladamente; faz questão de ficar entre as crianças maiores, principalmente entre as crianças indígenas. O tempo todo é acompanhado pelo irmão adolescente, que não demostra nenhum desconforto ou sobrecarga com o papel que assumiu. As outras crianças in- dígenas jogam bola, correndo pelo campo, mas o tempo todo cuidam para não esbarrar no bebê e o ajudam sempre que ele precisa, sem, no entanto, deixar que este cuidado atrapalhe suas brincadeiras. O cuidado das crianças indígenas maiores com o bebê fica tão evidenciado que, com o tempo, ve- mos as crianças não indígenas também demonstrando certo cuidado com o bebê, o que não costumamos ver na cultura não indígena.

Uma das interações mais difíceis de iniciar foi a dos estrangeiros não falantes do português – entre os suíços e o japonês com as demais crian- ças; no entanto, essa interação aconteceu mediada pelos organizadores e pelos jovens indígenas, que acharam no futebol um primeiro ponto para o vínculo. Na brincadeira de futebol as expressões corporais permitiam a comunicação não verbal, já que eram crianças de três nacionalidades dis- tintas, todas bilíngues, falantes de outra língua para além da sua materna. Essa mediação deu certo pela sensibilidade e pelo desejo de cada uma das crianças em superar seu isolamento dado pelo lugar linguístico/cultural.

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Depois de algumas jogadas e rebatidas, o menino indígena convidou o me- nino japonês para cabecear a bola ao invés de chutar; para tanto, faz gesto corporal de avanço e elevação de corpo, o que não foi entendido pelo me- nino japonês. Então o menino indígena repetiu o mesmo movimento, mas desta vez com a bola na mão, apontada para a cabeça. O menino japonês faz sinal afirmativo com a cabeça, os dois sorriram e a brincadeira continuou; um jogava a bola com a mão e o outro cabeceava a bola. Aqui, para além do diálogo sobre as possibilidades ou impossibilidades linguísticas, nos inte- ressou pensar que o jogo/brincadeira de futebol transporta fronteiras inte- rétnicas, permitindo aproximar e estabelecer relações que na continuidade do evento objetivaram ampliar o reconhecimento das diferenças identitá- rias e interculturais.

Assim, a despeito das diferenças linguísticas, culturais e de gênero entre as crianças participantes, foi notório que a brincadeira se constituiu numa “linguagem universal” que ultrapassou as dificuldades de comuni- cação verbal e estabeleceu um elo, uma ligação entre estas crianças (sejam elas estrangeiras, indígenas e de regiões tão diferentes de nosso próprio país), e destas com os adultos. Foram proporcionadas intervenções focadas na ludicidade – desde a organização dos espaços até o planejamento das atividades rotineiras. A recepção das crianças e as atividades desenvolvidas durante o evento se deram preferencialmente no ambiente do parque, ao ar livre, deixando claro que a sua estada no evento tinha uma intenção de interação pelo espontâneo, das relações possíveis que cada um fosse cos- turando por si pelo brincar, favorecidas pela organização do contexto e da riqueza do espaço do NDI. Destacando o brincar como linguagem universal, uma espécie de mana (MAUSS, 1974) que circulava entre todas as crian- ças, as relações se construíram de modo dinâmico e alegre, costurando seus vínculos e seus afetos a partir de gostos e experimentações muito originais, através de jogos e de brincadeiras como a de casinha, de fazer filme, de es- colinha, de estudante, de barco, de bola etc. Segundo Benjamin, “nada é mais próprio da criança que combinar imparcialmente em suas constru- ções as substâncias mais heterogêneas” (BENJAMIN, 1985, p. 246-247).

Para Benjamin, a “imitação está em seu elemento na brincadeira e não no brinquedo”, ou seja, imitar não é reproduzir, mas identificar-se para com- preender. “A criança quer puxar alguma coisa e se transforma em cava- lo, quer brincar com areia e se transforma em pedreiro, quer se esconder e se transforma em bandido ou policial” (BENJAMIN, 1985 p. 108), quando não se transforma em “moinho de vento e trem”, imitando não só as pes- soas, mas toda espécie de coisas (BENJAMIN, 1985, p. 108). A brincadeira foi tida pela equipe organizadora do evento e na prática das crianças como uma política entre mundos, uma linguagem que consegue ir do particular ao universal, uma estética que, embora tenha regras, vale mais pelo jogo que pelo resultado, pela performance e pelo improviso que pelo espetáculo em si, pelo momento prazeroso que pela obrigação e vale muito mais pela repetição do brincar que pelo possuir o brinquedo. Benjamin evoca a po- lissemia da palavra spiele na língua alemã, que como verbo representa ao mesmo tempo brincar e jogar ou representar (teatro). Entre o brincar e o jogar, o autor aponta as vias de confluência que os instalam em uma direção própria da repetição, em que o “de novo” é o prenúncio de uma trajetória que não cessa (BENJAMIN, 1985). Assim foi o brincar durante a semana no

IUAES: iniciava na hora da chegada e seguia até a hora de sair do NDI, no

final da tarde e em vários casos seguindo no estar junto das crianças depois do evento, que passaram a costurar relações novas entre seus respectivos pais ou responsáveis – ocupando também um lugar especial para os adultos organizadores em suas interações com as crianças, por meio de uma escuta atenta e sensível bem como uma grande disposição para fluir em seus re- pertórios lúdicos para, com e entre crianças.

Uma das brincadeiras mais populares durante o encontro das crian- ças foi a do Gato e do Rato. A brincadeira consistia em uma grande roda, onde no lado de dentro estava o gato, querendo fugir; já do lado de fora o rato, que deveria fugir tão logo esse escapasse da cerca humana, que por sua vez deveria impedir sua saída da roda. A brincadeira foi sugerida por uma das crianças quando, na oficina de audiovisual, se propôs jogos onde cada um pudesse assumir personagens. Foi também essa brincadeira que

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as crianças quiseram levar para o Seminário das crianças, um espaço cen- tral no evento reivindicado pela equipe organizadora, pensando em tornar central o que nos eventos anteriores havia sido periférico – a presença das crianças no evento.

A partir da interação das crianças no congresso da IUAES, podemos trazer algumas reflexões sobre a brincadeira e a importância da mesma como lugar de comunicação, vínculo, afeto, experiência e, portanto, apon- tar o livre brincar como uma política e uma estética fundamental ao ser humano. Foi no sentido de expor e valorizar a ludicidade, fazer pensar na importância do improviso e do livre brincar na vida das crianças (e, por que não dizer, dos adultos) que organizamos o Antropolúdicos, um semi- nário das crianças que ocupava o espaço privilegiado do evento. Nesse, as crianças puderam apresentar o que combinassem entre si, e elas decidiram

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