Mostre-me alguém que esteja doente, mas feliz; em perigo, agonizando, no exílio ou na desgraça, mas feliz. Por todos os deuses, eu estaria diante de um estoico!
Atribuído a Epíteto (ARMESTO, 2004, p. 142)
O estoicismo (do grego: Στωικισμός) é uma corrente filosófica da Grécia Antiga, fundada por volta de 310 a.C por Zenão de Cício em Atenas. Com acentuada preocupação com a ética, o estoicismo, é uma escola da época helenística57.
O mais influente movimento filosófico que floresceu nos tempos helênicos foi o estoicismo. Menos rigidamente ligado ao solo da Grécia metropolitana do que às grandes escolas de Atenas, alguns dos seus mais célebres representantes vieram do Oriente e depois do Ocidente Romano (RUSSELL, 2001, p. 152).
Zenão ensinava suas ideias em público, e não em uma escola fechada e privada, na ágora58 da acrópole59 de Atenas, em um pórtico colorido (em grego στο ποικίλη - stoa poikíle: pórtico pintado). O termo estoicismo, pelo qual sua filosofia é conhecida, provém de stoa (MANNION, 2004, p. 48).
Zenão não era cidadão ateniense e, como tal, não tinha direito de adquirir um edifício; por este motivo dava suas lições num pórtico que fora pintado pelo célebre Polignoto60. Em grego, pórtico se diz stoa, e por esta razão a nova escola teve, justamente, o nome de stoa ou
57
A época helenística é nome dado ao período que se segue às conquistas de Alexandre Magno das terras do Mediterrâneo oriental e da Ásia até a Índia. A era do helenismo estende-se até a expansão imperial romana e é frequentemente considerada um período de transição, declínio e decadência entre o brilho da Grécia Clássica e o poder do Império Romano (LELLO, 1954, p. 1200).
58
Ágora (do grego γορ, assembleia) é um termo que, na Antiga Grécia, designava a principal praça pública das cidades (LELLO, 1954, p. 44).
59
Acrópole (do grego κρόπολις, cidade alta) era uma cidadela, na parte central das cidades gregas, localizada na região mais elevada do relevo (LELLO, 1954, p. 70).
60
Polignoto é um renomado pintor grego do século V a.C. Nascido na ilha de Tasos, foi levado para Atenas graças ao seu excelente trabalho. Em Atenas, teve seu valor reconhecido e lhe foi concedida a cidadania ateniense. É citado por inúmeros autores da antiguidade, inclusive por Aristóteles, que elogiava o valor moral de sua obra (LELLO, 1954, p. 579).
pórtico, e seus discípulos foram chamados “os da Stoa” ou “os do Pórtico”. (REALE, 2011, p. 14).
Como teoria ética, o estoicismo é uma disciplina austera e, se comparada com as teorias das escolas da era clássica, pode parecer insossa. Não obstante, conquistou mais adeptos do que as doutrinas de Platão ou de Aristóteles (RUSSELL, 2001, p. 153).
A ética estoica sempre foi considerada impressionante e admirável, mesmo por gente que não concorda integralmente com ela. Não é fácil praticá-la - mas a dificuldade de ser posta em prática talvez esteja fadada a ser uma característica de qualquer ética digna desse nome (MAGEE, 2001, p. 46).
O estoicismo surge após as campanhas de Alexandre Magno na Ásia e, por isso, tem grande influência oriental. Com a morte de Alexandre e a consequente decadência grega, o espírito resignado dos orientais encontrou seara fértil entre os gregos.
Alexandre Magno, discípulo de Aristóteles, mudou a história do mundo que afetou o desenvolvimento da filosofia. Num prazo surpreendentemente curto, ele conquistou mais ou menos todo o mundo conhecido pelos gregos antigos, da Itália à Índia, incluindo boa parte do que hoje é chamado Oriente Médio, junto com vastas áreas do norte da África (MAGEE, 2001, p.40).
Como estado, o império de Alexandre foi efêmero. Depois de sua morte, os seus generais dividiram o território em três partes. O império europeu, ou antigônida, sucumbiu aos romanos em pouco mais de cem anos. O reino asiático, selêucida, se desintegrou e foi tomado pelos romanos, a oeste, e pelos partos e outros, a leste. O Egito, sob o domínio dos Ptolomeus, tornou-se romano sob o domínio de Augusto (RUSSELL, 2001, p. 144).
A introdução da filosofia estoica em Atenas, pelo mercador fenício Zenão (cerca de 310 a.C), foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. Tanto o estoicismo como o epicurismo - a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer - eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz, embora subjugado ou escravizado (DURANT, 2000, p. 110).
A permanente sensação de insegurança provocou um desinteresse pelos assuntos públicos e uma decadência geral da têmpora moral e intelectual. Os gregos da antiguidade falharam no enfrentamento dos problemas políticos do seu tempo e igualmente os homens do período helenístico. Afinal, coube ao gênio organizador de Roma dar ordem ao caos e transmitir aos tempos posteriores a civilização dos gregos (RUSSELL, 2001, p. 146).
“O modelo da polis implica na substituição do padrão. O padrão-
polis é substituído pelo padrão-natureza, um padrão adequado aos grandes
impérios que ampliam suas fronteiras territoriais, políticas e culturais” (ASSIS, 2002, p. 21).
Os estóicos pregavam a condução da vidano equilíbrio e na sabedoria, portanto, a polis, ao contrário do que se verifica em Platão e Aristóteles, não é pressuposto para o alcance da virtude, pois essa filosofia se desenvolve numa comunidade universal, em que a verdade prepondera e é ocupada por sábios (não apenas governada por eles, como propõe Platão). Assim ao tirar a força da ideia de polis, os estóicos elaboram um pensamento com fundamentos universais... (BAGNOLI; BARBOSA; OLIVEIRA, 2009, p. 56)
Os estoicos sustentavam as virtudes do autocontrole e do desapego das coisas materiais como modos de se alcançar a sabedoria e a integridade moral. O homem virtuoso é aquele que consegue controlar suas paixões e somente deste modo, desprezando as glórias mundanas, está apto para alcançar a perfeição moral.
A relação entre o controle da vontade e o refreamento das paixões, para os estoicos, assumia as feições de um modo de vida, que só era possível graças à ideia de que as ações humanas devem ser guiadas pela razão. O mundo da razão é o mundo da Natureza, é o mundo que experimentamos pelos sentidos, e, portanto, é realidade.
O núcleo da filosofia estoica está na concepção de que não pode haver nenhuma autoridade superior a razão. Desdobrando as concepções dessa crença, chegamos aos mais importantes princípios da filosofia estoica. Primeiro, o mundo tal como nossa razão o apresenta a nós, isto é, o mundo da Natureza, é toda a realidade que existe. Não existe nada de “superior”. E a própria Natureza é governada por princípios racionalmente inteligíveis. Nós mesmos somos parte da Natureza. O espírito de racionalidade que impregna os homens e a Natureza (vale dizer, tudo) é o que se entende por Deus. Assim concebido, Deus não está fora do mundo e separado dele, mas totalmente impregnado no mundo - Ele é, digamos, a mente do mundo, a autoconsciência do mundo (MAGEE, 2001, p.46).
Essa filosofia exortava à prática de meditação para tornar possível se alcançar uma vida de acordo com a Natureza graças à razão. Desse modo se chegaria à sabedoria e à felicidade, só cabíveis na ausência de paixões, que conduziria, igualmente, à ausência de qualquer sofrimento.
Na construção filosófica dos estoicos há uma tendência acentuada por orientar a razão a um uso prático. Tal razão, que há de guiar as atitudes do homem à harmonia, desdobra-se em um liame muito próximo à Natureza. A universalidade da razão corresponde à universalidade da natureza e mesmo da condição humana (MASCARO, 2012, p. 93).
A escola estoica [...] dizia que o Universo era um continuum governado por uma “alma do mundo”, conformava-se a princípios racionais que a razão humana podia descobrir. Como somos parte dessa ordem natural, não há realidade transcendente. Não deveríamos tentar resistir à ordem natural, e sim aceitar calmamente o que nos acontece (LAW, 2008, p.28).
Os estoicos acreditavam em uma Divindade que determinava o nosso fim. Todavia, essa Divindade, da mesma forma que os próprios estoicos, não era do tipo cordial. Ela era denominada logos, ou mente, e o caminho para a felicidade era tornar-se consciente do programa do logos61 e concordar com a mente Divina. Os estoicos também usavam a palavra pneuma, ou sopro, que é a alma do Universo. Todas as almas individuais derivam da Superalma. Essa é uma forma primária de monoteísmo com uma pitada de monismo Pré-Socrático (MANNION, 2004, p.49).
O estoicismo foi seguido por numerosos filósofos e homens de Estado primeiramente na Grécia e, em seguida, por todo o mundo helenizado. Posteriormente, em Roma, fundiu-se com as ideias romanas de dignidade e virtude. Enfatizou-se, então, que a virtude é o meio de alcançar a felicidade e a sabedoria, e é ela que nos torna indiferentes aos infortúnios e vicissitudes. A escola do Pórtico “teve influência indiscutível sobre a ética cristã, que começava a se difundir na época em que Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio escreveram” (MAGEE, 2001, p. 46).
A filosofia grega tardia enfatiza sistemas referentes às melhores escolhas práticas para a felicidade pessoal ou para o bem da sociedade. Por exemplo, o estoicismo, que realçava o altruísmo, a moderação e a autodisciplina como ingredientes da felicidade pessoal, teve grande influência sobre o cristianismo. As outras prescrições estoicas - o fatalismo e a indiferença como remédio contra a dor - conquanto mais difíceis de serem assimiladas pelo cristianismo, assemelham-se às doutrinas preconizadas na extrema Eurásia, mais ou menos no mesmo período, por Buda e seus adeptos (ARMESTO, 2004, p. 143).
61
Logos (palavra; discurso, gr.) - Na filosofia de Platão, Deus como fonte das ideias. Por extensão, para os estoicos, significa também razão. Para a escola dos neoplatônicos, um dos aspectos da Divindade. Na teologia cristã, o Verbo de Deus, segunda pessoa da Trindade (LELLO, 1954, p. 90).
No estoicismo, a virtude consiste em viver conforme a Natureza, sob o princípio de autoconservação. Os animais irracionais obedecem aos impulsos de sobrevivência para a preservação da espécie. No entanto, o ser humano, como ente racional, deve conduzir a sua vida escolhendo o caminho da virtude de acordo com a Natureza.
O maior bem é a virtude, que consiste em viver em uníssono com o mundo. No entanto, não se deve interpretar isto como mera tautologia, baseado em que tudo o que é está em completa unissonância com o mundo. Trata-se, antes, de que a vontade de uma pessoa seja dirigida de tal forma que se misture com a Natureza, em vez de se opor a ela. Os bens materiais têm pouco valor. Um tirano pode privar um homem de todas as coisas externas que ele possui, até mesmo da vida, mas não lhe pode tirar a virtude, que é uma posse interna e inalienável. E assim chegamos à conclusão de que, ao rejeitar os falsos atrativos dos bens externos, um homem se torna perfeitamente livre, pois sua virtude, a única que importa, não pode ser atingida por pressões exteriores (RUSSELL, 2001, p. 154).
Para os estoicos, qualquer sentimento, seja o prazer ou a dor, deveria ser combatido e dominado pelo homem. Dessa forma, aquele que conseguisse viver em um estado de imperturbabilidade emocional era considerado um ser superior. E havia um motivo para se tentar viver sem grandes emoções: o homem deveria buscar na Natureza o seu ser universal, que seria somente atingido pela racionalidade. Os outros animais, considerados irracionais, agiriam somente com instinto. E o homem deveria agir somente pela razão, negando qualquer tipo de sentimento que pudesse interferir na racionalidade. Agindo somente com a racionalidade, usurpando qualquer sentimento, o homem atingiria o seu ser absoluto (ALBEGARIA, 2012, p. 67)
No estoicismo, são as paixões que impedem uma conduta adequada, sábia e virtuosa, pois desviam os homens da razão. Para o homem livre das paixões, pleno de autocontrole, senhor de si, aquilo que poderia parecer um mal se revela como algo positivo dentro de um plano maior e natural, ou seja, mais que suportar a dor é acolher o que o destino nos reserva com serenidade.
Os estoicos entendiam a sabedoria como a maior das virtudes e da sabedoria surgia a coragem, o autocontrole e a justiça. Não havia meio-termo na filosofia estoica. Os indivíduos eram ou totalmente bons ou totalmente maus, completamente sábios ou perfeitamente tolos. Aqueles que condenam o declínio da civilização podem identificar-se com os estoicos, que afirmavam a mesma teoria há mais de dois mil anos (MANNION, 2004, p.49).
O sábio não erra nunca, porque não possui opinião, mas ciência. O sábio faz tudo bem o que faz, porque o faz com reto logos, com justo espírito. O sábio é grande, robusto, altivo e forte. Grande enquanto pode conseguir coisas que escolhe e se propõe; robusto, enquanto se
engrandeceu espiritualmente em tudo; altivo, enquanto participa da altura que compete a um homem egrégio e sábio; forte, enquanto munido de força que lhe compete, sendo invicto e invencível. Ademais, o sábio é rico, nobre e belo: rico, ainda que mendigo, nobre, mesmo que servo, belo embora fisicamente feio, porque possui a sua riqueza, nobreza no logos. O sábio é livre, porque quer tudo o que é necessário; suporta e aceita tudo o que é querido pelo destino. O sábio basta a si mesmo, porque no logos possui tudo de que necessita (REALE, 2008, p. 105).
A sabedoria estoica reside na capacidade de se alcançar a felicidade graças a um ânimo imperturbável do homem senhor de si. “Esta é a célebre apatia62 estoica, isto é, a anulação e a ausência de qualquer paixão, que é sempre e somente perturbação da alma. A felicidade é, pois, apatia, impassibilidade” (REALE, 2011, p. 104).
Assim, a sabedoria e a virtude tornam o homem livre e feliz. Sabedoria e virtude significam erradicar e eliminar todas as paixões tornar-se sereno e indiferente aos sofrimentos impostos pelo destino.
Trata-se da apatia estóica - elimina-se toda a piedade, compaixão e misericórdia, pois estes são defeitos e vícios da alma. O sábio não se comove em favor de quem quer que seja; não é próprio do homem forte deixar-se vencer pela piedade e afastar-se da justa severidade (GONZAGA; ROQUE, 2011, p. 272).
O sábio estoico conserva a fleuma, pois sua vontade adere perfeitamente ao seu dever em obediência a uma ordem cósmica maior e natural, que não lhe é imposta do exterior, mas que floresce no seu íntimo. Destarte, ele, pacificamente, quer aquilo que deve em comunhão com o que a sua razão lhe impõe, vivendo calma e dignamente.
Como pressuposto básico da ação humana, o estoicismo apresenta a eudaimonia63; que não consiste na busca do prazer, mas no constante exercício da virtude. Viver conforme a Natureza: esse passou a ser o imperativo ético por excelência dos estoicos (BOMBASSARO; PAVIANI; ZUGNO, 2003, p. 159).
Por parte dos estoicos, a negação do prazer como quase sinônimo de eudaimonia nunca foi, de fato, uma verdade. Eles jamais desconsideraram o mundo sensível. Fizeram justamente o oposto.
62
Apatia [Do gr. apatheia] - estado de insensibilidade, de quem não é suscetível a nenhuma emoção. Filosoficamente, estado em que a alma se torna insensível às paixões e à dor; para os estoicos, estado de insensibilidade emocional ou esmaecimento de todos os sentimentos, alcançado mediante o alargamento da compreensão filosófica. Etimologicamente: gr. apátheia 'insensibilidade, calma estoica, apatia', através do lat. apathía; composto de a(n) dito privativo, negativo, do grego, + patia do grego páthé, és estado passivo, sofrimento, mal, doença, dor, aflição (HOUAISS, texto digital).
63
Eudaimonia (gr. eudaimon, feliz composta de (eu) bem disposto e (daimon) que tem um poder divino) - Teoria moral fundada na ideia da felicidade concebida como bem supremo (LELLO, 1954, p. 936).
Valorizaram demais o sensível e, então, tentaram encontrar um modo de não “cair de joelhos” diante das frustrações da vida, de que raramente alguém escapa. O autocontrole racional não era algo imposto, mas adquirido na compreensão que temos ao perceber que o logos comanda o cosmos, e que isso independe de nós. O controle racional significa harmonizar-se com o cosmos, pois somos parte dele e esse todo segue um plano racional (GHIRALDELLI Jr., 2010, p.63). “O estoicismo como filosofia permaneceu um movimento organizado por cerca de quinhentos anos. Com ele e por meio dele, a filosofia ocidental deixou de ser especificamente grega e tornou-se internacional” (MAGEE, 2001, p. 46).
As mais vívidas e admiráveis exposições do estoicismo se encontram nos escritos dos últimos estoicos, todas em latim. As figuras de relevo aqui são Sêneca (c. 2 a.C - 65 d,C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.). Não foram pensadores originais no sentido de aprofundar significativamente as doutrinas estoicas já existentes, mas eram escritores tão bons que suas obras são lidas até hoje, inclusive fora dos meios acadêmicos (MAGEE, 2001, p.47).
A escola filosófica fundada por Zenão sobreviveu por toda a antiguidade e, para fins didáticos, costuma-se estudá-la em três fases de sua evolução: o estoicismo antigo do século III a.C., na Grécia; o estoicismo médio do século II a.C., já sendo assimilado por Roma; e o novo estoicismo, também chamado de estoicismo imperial, pois floresceu junto com o advento do Império Romano e teve seu auge durante o Principado.
2.1 – O Estoicismo Antigo (grego)
Como já foi dito, o estoicismo surgiu em Atenas, na Grécia, e foi uma corrente filosófica fortemente ativa por séculos, atravessando fronteiras e alcançando grande adesão dos pensadores romanos. Durante esse longo espaço de tempo e com sua consequente absorção por outras culturas, é compreensível que o pensamento estoico tenha se adaptado, evoluído e se modificado.
Para melhor entender essa evolução, os doutrinadores costumam estudar o estoicismo em três fases distintas, como já se mencionou, denominando a primeira delas como estoicismo antigo grego - desenvolvido no século III a.C. É chamado grego, pois surgiu na Grécia, mas, a bem da
verdade, ele já nasce com uma vocação cosmopolita, pois seus primeiros filósofos, apesar de ensinarem em Atenas, são estrangeiros.
Os estudiosos já esclareceram suficientemente que na história do Pórtico é necessário distinguir três períodos: o período do antigo pórtico, que vai do final do século IV a todo século III a.C, no qual a filosofia do Pórtico é gradativamente desenvolvida e sistematizada por obra da grande tríade de escolarcas64: Zenão, Cleanto e, sobretudo, Crísipo. (REALE, 2011, p. 15).
Zenão de Cício (c. 332 a.C. - 262 a.C.), que foi o fundador da
escola estoica, era de origem fenícia, nasceu em Chipre, na cidade de Cício - atual Lanarca (BOMBASSARO; PAVIANI; ZUGNO, 2003, p. 160). A ilha de Chipre, naqueles tempos, era um importante entreposto comercial que ligava o Mediterrâneo ocidental e oriental (LELLO, 1954, p.1215).
Em 312/311 a.C., chegou em Atenas, proveniente da ilha de Chipre, um jovem de raça semítica, com intenção de tomar contato direto com as fontes da cultura helênica e dedicar-se inteiramente à filosofia. Era Zenão, o homem que deveria fundar a que, talvez, tenha sido a maior das escolas da era helenística (REALE, 2011, p. 261).
Acredita-se que, enquanto estava ainda no Chipre, Zenão, que era de uma próspera família de comerciantes, teve oportunidade de estudar textos de filósofos socráticos. “O pai, Mnasea, que viajava entre Chipre e Atenas como comerciante, levou-lhe, ao retornar de uma de suas viagens, alguns escritos socráticos” (REALE, 2006, p. 261).
Demétrio de Magnésia65, nos Homônimos, refere que seu pai, Mnasea, sendo comerciante, vinha frequentemente a Atenas e daí levava muitos livros socráticos a Zenão ainda criança. Por isso mesmo antes mesmo de deixar a sua pátria, já tinha uma preparação filosófica (REALE, 2006, p. 262).
Quando Zenão se transfere para Atenas, torna-se discípulo de Crátes de Tebas66, filósofo da escola cínica. Depois de ter estudado com Crátes, Zenão adere à Academia de Platão, onde recebe lições de seu escolarca Pólemon de Atenas67.
64 Escolarca (gr. σχολάρχης, skholárkhês) - Diretor superintendente de escolas de filosofia na
Grécia Antiga (LELLO, 1954, p. 570).
65
Demétrio de Magnésia - escritor grego contemporâneo a Cícero (SMITH, 2005, p. 704).
66
Crátes de Tebas (c.368 a.C. - c. 288 a.C.) - filósofo grego helenístico da escola cínica. Ele era originário de Tebas, foi discípulo de Diógenes de Sínope (LELLO, 1954, p. 655).
67
Pólemon de Atenas (c.340 a.C. - c. 273 a.C.) - filósofo grego helenístico, sucedeu Xenócrates na direção da Academia de Platão (LELLO, 1954, p. 577).
Na capital da cultura helênica, não foram os homens das grandes escolas da Academia e do Perípato68 que determinaram a orientação de Zenão, mas foi em primeiro lugar um representante das escolas socráticas menores. Crátes, discípulo de Diógenes69, o Cínico, [...] Mas o cínico Crátes ofereceu a Zenão sobretudo um exemplo prático da vida filosófica (REALE, 2006, p. 262)
Além da voz dos socráticos, Zenão quis escutar a dos acadêmicos. As nossas fontes relatam-nos, de fato, que Zenão foi um discípulo também dos filósofos platônicos Xenócrates70 e Pólemon. Ora, por mais que esse contato com a academia o tenha influenciado e ajudado a amadurecer e a resolver problemas particulares, e dar consistência e espessura especulativa ao seu filosofar, fato este que diferencia o Pórtico de todos os outros sistemas da era helenística, todavia não o impediu de tomar posição diante do problema metafísico em clara antítese a Platão (REALE, 2006, p. 263)
Por volta de 310 a.C., fundou sua escola filosófica no já mencionado Stoà Poikìle (pórtico pintado) da ágora da acrópole de Atenas e, assim, o estoicismo também é chamado de escola do Pórtico.
No campo da ética, encontramos as mais relevantes contribuições de Zenão à filosofia ocidental e suas ideias chegaram até nós muito embora todos os seus textos tenham sido perdidos. “Pouco resta da obra dos primeiros estoicos, exceto fragmentos, mas é possível reunir um razoável