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Il n’est pas question de développer de l’IA pour elle-même, comme une fin

Sobre a presença indígena em fins do século XIX no espaço que posteriormente seria reconhecido como Sudoeste do Paraná, Wachowicz salienta que:

[...] esta região era habitada, segundo o recenseamento de 1890, por 9.601 habitantes. Desses, 4.173 eram índios e/ou mestiços, o que corresponde a mais de 40% do total da população. O Brasil desta forma colhia o mais importante fruto da política adotada pelos pai-bang Condá e Viri.65

Para além dos dados sobre a presença desses sujeitos no espaço estudado, cabe considerar que o autor indica ter sido o “uti possidetis”, isto é, a posse ou ocupação do espaço por caboclos e indígenas, o diferencial para que o presidente estadunidense Grover Cleveland desse o ganho de causa ao Brasil na conhecida Questão de Palmas (1895), disputa que envolvia o Brasil e a Argentina sobre o território em questão.

Figura/Mapa 1: Mesorregião Sudoeste do Paraná. WIKIPEDIA:

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Mesorregi%C3%A3o_do_Sudoeste_Paranaense.> Acesso em 26 de

setembro de 2016.

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Apesar de ter formação em História Wachowicz é considerado memorialista por muito pesquisadores, ganhou reconhecimento acadêmico por seus trabalhos que abordam as diferentes regiões do Paraná, além daqueles que destacam a presença de imigrantes poloneses no estado.

65 WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. 2. ed., Curitiba: Lítero-

Todavia, Wachowicz destaca a importante atuação de Condá e Viri, indígenas que eram conhecidos como “colaboracionistas”, ou seja, mantinham boas relações com os fazendeiros de Palmas e de Campo Erê. Tais figuras podem ser vistas enquanto convenientes ao extermínio de outros grupos indígenas que eram reconhecidos como “refratários” e opositores às frentes de reocupação. Para Wachowicz, “a divisão dos índios em colaboracionistas e refratários levou-os à guerra fraticida”.66 Cabe, entretanto, reconhecer que atribuir aos próprios indivíduos ou aos próprios indígenas o seu extermínio é retirar a responsabilidade dos fazendeiros e de outros que viam na presença indígena um entrave ao “desenvolvimento”.

Wachowicz, ao apresentar o que considera como “frente de exploração cabocla”, basicamente a partir do início do século XX, indica este espaço ainda como “um imenso vazio demográfico”, ao destacar que “os fazendeiros de Palmas, únicos capitalistas da região, nunca se interessaram em investir na colonização de terras que não fossem campos de criatório”.67

É importante mencionar que, apesar da significativa presença indígena, a região ainda é tratada como “vazio demográfico”.

Wachowicz menciona, em relação aos indivíduos identificados como caboclos, que a migração desses sujeitos para a região se deve, em grande medida, ao “descontentamento” em relação à definição das fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina em 1916, já que muitos caboclos não queriam ficar sob “jurisdição catarinense”. Dessa forma, destaca-se a criação, no ano de 1918, da colônia Bom Retiro, no atual município de Pato Branco, cuja prioridade era “albergar essa gente e tentar

reunir no Sudoeste a população cabocla do contestado”.68

Ao definir o que considera caboclo no Sudoeste do Paraná, Wachowicz indica que o mesmo “não precisava ser necessariamente descendente de índio. Para o indivíduo ser classificado como caboclo, precisava ter sido apenas criado no sertão, ter hábitos e comportamentos de sertanejo”. Em relação ao tamanho das posses, sugere que a “grande maioria dos caboclos era o que se poderia denominar de pobres, possuíam 5, 6, 8 alqueires de posses”.69 66 Id. Ibid. p. 10. 67 Id. Ibid. p. 65. 68 Id. Ibid. p. 73, 74. 69 Id. Ibid. p. 104.

Na percepção da socióloga Iria Zanoni Gomes, em termos sociais e econômicos, a ocupação da região pode ser indicada como fruto de distintos processos, de uma ocupação extensiva para intensiva, conforme pondera:

O processo histórico de ocupação do Sudoeste do Paraná pode ser dividido em duas fases: a primeira, antes de 1940, de ocupação extensiva da terra, que se caracteriza por uma “economia cabocla”, voltada basicamente para a exploração da erva-mate, madeira e criação de suínos. A segunda, de

ocupação intensiva, se refere ao efetivo processo de ocupação da região.

Esse processo, iniciado na década de 40, intensifica-se na década seguinte com os migrantes gaúchos e catarinenses, descendentes de europeus, que haviam colonizado as “regiões antigas” do Rio Grande do Sul.70

Nesse processo de reocupação do espaço, cabe observar novamente a presença de populações nativas, reconhecidas como indígenas. Protasio Paulo Langer, em “Toldos Guarani na Gleba Missões na década de 1950: os indígenas na memória dos colonos”, ressalta que “essa paisagem era primitivamente ocupada por povos da família linguística Guarani”, ao reconhecer e alertar que, no meio acadêmico, essa população

“era considerada – e ainda é, por boa parte da produção” – como “sorrateira e alheia”.71

Da mesma maneira, os projetos de ocupação e exploração da fronteira agrícola brasileira procuraram excluir a existência desses sujeitos, isto é, eles não faziam parte dos interesses nacionais.

Por esse motivo é que, neste trabalho, tanto a frente de exploração cabocla, quanto a chegada de migrantes de outras regiões do estado e do Brasil, são considerados processos de reocupação do espaço. Ou seja, as populações nativas são reconhecidas como os primeiros ocupantes desta região. Isso significa pensar como, mesmo documentado a partir do trabalho de Langer, boa parte da historiografia que se dedicou a pensar o processo de ocupação desta região negligenciou a presença desses sujeitos. Na maioria dos casos, é apresentada ao leitor uma ocupação do espaço indicado enquanto “vazio demográfico”. Uma concepção ancorada na ideia de colonização em que somente a partir do momento em que os migrantes gaúchos e catarinenses chegam à

região é que ocorre a ocupação da mesma.72

70 GOMES, Iria Zanoni. 1957: A Revolta dos Posseiros. Curitiba: Criar Edições, 2005. p. 13.

71 LANGER, Protasio Paulo. Toldos Guarani na Gleba Missões na década de 1950. Os indígenas na

memória dos colonos. Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas – NEPPI/Campo Grande, ano 9, n. 17, jul./dez. 2009. p. 34, 35.

72 Em relação à noção de vazio demográfico, mesmo esse conceito tendo suas bases a partir de critérios

geográficos, sua utilização acaba reduzindo as populações indígenas e, ao mesmo tempo, indica que somente com a chegada dos migrantes sulistas a região passa a ser civilizada e deixa de ser um espaço vazio. Além do mais, não conseguimos supor a quantidade exata de indivíduos que já ocuparam esse

Entretanto, Langer, a partir de um expressivo número de fontes orais, demonstra como essa presença foi significativa e, mesmo não sendo “possível ouvir, diretamente, as imagens gravadas na memória dos indígenas. Isso porque não localizamos representantes diretos dos grupos que ocupavam aquela região”, é significativo o

número de toldos elencados por seus entrevistados.73

Importa destacar que as vivências constituintes de diferentes sujeitos em outras pesquisas me permitem confirmar não só a significativa presença desses indivíduos, mas também resquícios dessa ocupação, sobretudo em artefatos cerâmicos – que são indicados como pertencentes a esses grupos – encontrados em propriedades agrícolas da região.

Além de Langer, em contexto contemporâneo, alguns trabalhos têm considerado ou mesmo mencionado a existência dessas populações na região. Isso demonstra que, de alguma maneira, tais sujeitos estão sendo pensados ou, mesmo minimamente, considerados. Entretanto, em nível regional e estadual, existe uma carência de pesquisas

que abordem a exclusão desses indivíduos da “sociedade convencional”.74

A partir desse contexto, em relação aos caboclos, de acordo com Wachowicz, a entrada na década de 1940 pode ser designada como o fim da “frente de exploração”. A partir de então, “o caboclo não resistia a uma oferta de compra de sua posse. Era só o colono, vindo do Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina, fazer uma proposta e o negócio se concretizava”.75

Essa transição se intensifica com a criação da CANGO, que passa a recepcionar os migrantes distribuindo lotes aos que não os haviam adquirido junto aos caboclos. Neste ponto, ganha destaque o cenário que antecede o movimento dos colonos na década de 1950. São esses migrantes que lutaram pelo título da terra a partir da luta social, que ficou conhecida como Revolta dos Colonos ou Posseiros.

espaço ao longo dos séculos. Outros trabalhos já se propuseram pensar e associar a noção de vazio demográfico junto aos grupos indígenas. Para maiores esclarecimentos ver a pesquisa de Vânia Maria Losada Moreira: <http://www.angelfire.com/planet/anpuhes/ensaio30.htm> Acesso em 26 de julho de 2017. Quem também possui inúmeros trabalhos sobre essa temática é o historiador Lúcio Tadeu Mota, dentre as suas pesquisas de destaque, evidenciamos: MOTA, Lúcio Tadeu. NOVAK, Éder da Silva. A política indigenista e os territórios indígenas no Paraná (1900-1950). Fronteiras. Dourados-MS, v. 18, n. 32, Jul./Dez. 2016.

73 LANGER, op. cit. p. 39.

74 Dentre as pesquisas que procuraram abordar tais aspectos em contexto contemporâneo podem ser

destacadas: SCHKALEI, Cleiton Alexandre. Índios, caboclos e europeus: uma percepção sobre os pioneiros no estado do Paraná. Anais do VII Seminário Estadual de Estudos Territoriais e II Jornada de

Pesquisadores sobre a questão agrária no Paraná. Ponta Grossa-PR, 2014. ZATTA, Ronaldo. A

colonização oficial do sudoeste paranaense e mito do “vazio demográfico”. Anais do XV Encontro

Regional de História, 15: Curitiba-PR, 2016.

75 WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. 2. ed., Curitiba: Lítero-

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