Refletir as distinções entre as definições de campo e cidade ou rural e urbano passa pela análise de alguns autores que apresentam significados que podem ser considerados clássicos nas ciências humanas e sociais. A primeira que ganha ênfase nesta análise é a presente no trabalho organizado por José de Souza Martins, Introdução crítica à sociologia rural, no qual se encontra o artigo de Galpin, Sorokin e Zimmerman “Diferenças fundamentais entre o mundo rural e o urbano”.
Este artigo, ao suscitar pontos sobre a constituição do urbano e as diferentes “faces” que este meio apresenta em comparação ao rural, permite pensar nas características ou definições simples e compostas, que, colocadas ao lado dos municípios analisados neste trabalho, permitem algumas reflexões, ou seja, diferenças ocupacionais, de contato com a natureza, de tamanho e densidade populacional das comunidades.
Em relação às diferenças ocupacionais, sugerem-se questionamentos como: o que faz um sujeito ser um “urbanita”, em um meio “urbano” de pouco mais de 7.000 habitantes? A mesma questão pode ser feita ao contato com a natureza. Que contato tem com o meio natural que o cerca? Que contato tinha antes de ser um cidadão do meio urbano? Todas essas questões permitem refletir quais relações socioculturais esses
sujeitos podem ter no espaço urbano e, ao mesmo tempo, que relações lhes eram apresentadas no meio rural.
Essas indagações são elaboradas ao ter em mente alguns municípios da região Sudoeste do Paraná. Boa parte dos municípios deste espaço possui uma população que não ultrapassa os 10 mil habitantes. Em sua totalidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a população da região em 2010 era de 404.779 mil habitantes, distribuídos em 37 municípios. Ao mesmo tempo, se observada somente a taxa de urbanização, em comparação com as outras regiões do Paraná, temos o menor índice do estado, de 58,58%. Esses dados ainda podem ser colocados ao lado da população das duas maiores cidades da região, Francisco Beltrão e Pato Branco, que eram de 78.943 e 72.370 mil habitantes respectivamente, o que dá um total de 151.313 mil; somente esses dois municípios correspondem a aproximadamente 37,4% da população total da região.
Desse modo, quase 40% dos residentes no Sudoeste paranaense, independente da área rural ou urbana, residem nos municípios de Pato Branco e Francisco Beltrão, enquanto 60% habitam os outros 35 municípios. Assim, se dividirmos esses números, a média populacional destes 35 municípios é de aproximadamente 7.200 habitantes. Evidentemente que se trata de um cálculo médio, existindo municípios com população maior e menor que a média. Mas, em grande medida, mostram-se evidências de uma caracterização em que prevalece um baixo grau de urbanização, com um elevado número de municípios caracterizados por uma baixa e média densidade populacional. Isso significa um elevado número de pequenos e médios municípios.
Dessa maneira, o ponto fundamental que esta pesquisa pretende expor – com a análise das fontes – é entender os espaços rurais e urbanos no Sudoeste do Paraná a partir destas distinções clássicas. Assim, o trabalho de Galpin, Sorokin e Zimmerman deixa evidente que a oposição conceitual entre rural e urbano é comumente percebida como de um urbano ou de uma cidade com um significativo grau de urbanização e de um rural ou de um campo em que as características de vida monótona e de atraso são atreladas.50
Todavia, esta análise procura questionar esses elementos, demonstrar como o heterogêneo e o homogêneo podem ser vistos naquilo que é entendido como rural e
50 GALPIN, Charles J. SOROKIN, Pitirim A. ZIMMERMAN, Carlo C. Diferenças fundamentais entre o
mundo rural e o urbano. In: MARTINS, José de Souza. Introdução crítica a sociologia rural. São Paulo: Hucitec, 1981. p. 198-224.
urbano, assim como em relação ao aspecto ocupacional e tantos outros. Isso significa pensar que elas podem ser diferenças fundamentais, entretanto, cada espaço possui suas próprias singularidades e se constitui de acordo com as características sociais que são apresentadas.
A diferença é a questão fundamental que se busca pensar nesta análise. Como é possível observar, as atribuições do urbano e do rural como distintos e com diversas peculiaridades que os diferenciam tornam estes espaços construções sociais muito mais complexas do que a realidade que encontramos.
É importante ressaltar que essas análises não se apresentam como julgamentos, mas sim como indícios que pautam o estudo da região. Nesses termos, ainda em relação à definição conceitual e ao caráter de diferença enquanto elemento fundamental para se pensar os espaços rurais e urbanos no Sudoeste do Paraná, apresento o trabalho de Raymond Williams: O campo e a cidade na história e na literatura. Williams procura evidenciar as imagens e associações em relação ao campo e à cidade. Assim, ao demonstrar como elas persistem, destaca-se que o objetivo do livro é descrevê-las e analisá-las junto a uma experiência histórica variada.
Com esses elementos, baseia-se no exemplo inglês, por entender que o mesmo possui especificidades, especialmente ligadas à Revolução Industrial, que transformou estes espaços.51 É com essa intenção que inicia seu trabalho, ao pensar os espaços entendidos como campo e cidade. Dessa maneira, destaca que em torno das comunidades existentes, “historicamente bastante variadas”, firmaram-se poderosas generalizações:
O campo passou a ser associado a uma forma natural de vida – de paz, inocência e virtudes simples. À cidade associou-se a ideia de centro de realizações – de saber, comunicações, luz. Também constelaram-se poderosas associações negativas: a cidade como lugar de barulho, mundanidade e ambição; o campo como lugar de atraso, ignorância e limitação. O contraste entre campo e cidade, enquanto formas de vida fundamentais, remonta à Antiguidade clássica.52
Williams remonta as representações que podem ser consideradas “clássicas” em relação aos espaços urbanos e rurais. Destarte, têm-se generalizações que são distintas e distantes do que vem a ser a realidade histórica. O campo como espaço de vida natural,
51 WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011. p. 12.
52
paz e inocência opõe-se à cidade que se associa às comunicações e luz, o mesmo vale para o primeiro visto junto a associações negativas de “atraso, ignorância e limitação”, enquanto a cidade como local de tecnologia e de ambição.
Essas designações acabam por ignorar as variadas relações que se pode encontrar nesses distintos espaços. Conforme esclarece o autor, “a forma de vida campestre engloba as mais diversas práticas – de caçadores, pastores, fazendeiros e empresário agroindustriais”,53
em organizações que, em exemplos próximos a nós, podem-se apresentar em propriedades regradas pela agricultura familiar ou geridas pela agro-exportação, assim como em grandes propriedades, latifúndios produtivos ou improdutivos, arrendatários ou trabalhadores assalariados do campo. Enfim, tem-se uma variada rede de relações que podem se apresentar ao espaço entendido como rural ou campo e o mesmo vale para a cidade, que pode ser vista tanto como “capital do Estado, centro administrativo, centro religioso, centro comercial, porto e armazém, base militar, polo industrial”.54
Segundo Williams, existe uma realidade variada de relações presentes nesses espaços que não se limitam somente às atribuições clássicas. Desse modo, essas colocações assentam ainda mais em evidência as premissas ou diferenças básicas entre os espaços urbanos e rurais anteriormente apresentadas com base no trabalho de Galpin, Sorokin e Zimmerman. As diferenças fundamentais apresentadas por esses autores entram em choque com as exposições de Williams, levando em consideração que tratam de realidades distintas em tempo e espaço. Todavia, insistem em uma mesma premissa: questionar as atribuições comumente conferidas aos espaços rurais e urbanos.
Williams demonstra que seu objetivo é observar as imagens e associações que são atribuídas a esses espaços. Ao desvendar como se constituem e se constroem os espaços urbanos e rurais, deparou-se, junto ao exemplo inglês, a um fato fundamental:
[...] as atitudes inglesas em relação ao campo e as concepções de vida rural persistiram com um poder extraordinário, de modo que, mesmo depois da sociedade tornar-se predominantemente urbana, a literatura, durante uma geração, continuou basicamente rural.55
53 Id. Ibid. p. 11.
54 Id. Ibid. p. 11. 55
Desse modo, a observação histórica tanto em literaturas, como enquanto experiência, fê-lo notar que, “mesmo no século XX, numa terra urbana e industrializada,
é extraordinário como ainda persistem formas de antigas ideias e experiências”.56
Apesar de Williams atribuir esse contraste apenas ao exemplo inglês, ele pode abranger uma gama excepcional de processos, em locais distintos no tempo e espaço. Sinalizar isso é referir-se ao que é construído para as extensões do campo e da cidade, para as associações e as diferenças de descrições que sempre taxam o rural como decadente, prestes a ser engolido pelo urbano que se desenvolve e é sinônimo de tecnologia, luz e ambição.
Essas interrogações mostram-se extremamente importantes para a análise deste trabalho, pois se colocam junto às transformações ocorridas na região Sudoeste do Paraná. O recorte desta pesquisa, ao remontar o início dos anos 1940 e ao apresentar-se até o tempo presente, traz uma abordagem ampla que coloca em cena as transformações nesse espaço, de um local ocupado por populações nativas que são expulsas – dizimadas –, para uma realidade em que se desenvolve uma pequena urbanização junto a uma agricultura muito bem suprida tecnologicamente. Tem-se, assim, em um recorte de aproximadamente 70 anos, significativas transformações que, de acordo com a representação que as caracterizam, podem ser indicadas como rurais, locais de vida tranquila, de contato com a natureza, ao mesmo tempo em que se pode encontrar um rural tecnológico que produz para o mercado interno e externo, o qual possui centros comerciais considerados urbanos.
Observam-se associações e imagens que podem ser construídas e devem ser avaliadas enquanto problema. Tem-se uma realidade histórica variada e que sofre constantes transformações no tempo presente. Nota-se que a preocupação e as motivações de Williams não são únicas e se retroalimentam de acordo com a realidade a ser observada.
Williams destaca que existe um problema de perspectiva. Conclui isso após uma detida análise sobre a realidade inglesa em relação ao campo, o qual está associado a uma caracterização bucólica que cada literato dá a esse espaço. Assim, ver o campo como um local em que as relações estão por desaparecer é como uma “escada rolante”, a qual deve ser considerada de acordo com a perspectiva histórica de cada autor ao escrever. Para Williams, essas perspectivas têm significados diferentes em épocas
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distintas e põem em questão valores diversos, que devem considerar elementos como a religião, a política, a cultura, valores diferenciados que cada perspectiva histórica possui ou cada período histórico tem.57
Para pensar outras questões sobre as construções e diferenciações em relação a estes espaços, é possível refletir o item que Williams intitula “O homem do campo de hoje”. Neste ponto, sugere que há certa influência da Inglaterra rural, por vezes positiva e outras, negativa. Aponta isso ao indicar o rural como subsidiário do “passado rural inglês” ligado às “concepções a respeito da boa vida, desde o estilo da mansão senhorial até a simplicidade da cabana”. Assim, para Williams, esses elementos persistem na literatura inglesa e foram até fortalecidos. Dessa maneira, consegue-se perceber uma importância inversa no século XX, entre a economia rural e a relevância cultural das ideias rurais.58
Essa contextualização torna possível a observação da importância econômica do mundo rural em locais com um significativo grau de urbanização ou industrialização. Apesar de persistir certa importância econômica, a mesma não pode ser comparada em contexto histórico, no qual o setor agrícola sempre teve algum destaque. Nesses termos, para o autor, existe uma inversão de valor em um contexto recente, em que se dá mais destaque para os valores e ideais rurais, do que a sua participação econômica efetivamente mostra.
De maneira geral, neste item, Williams apresenta considerações sobre o rural em um contexto recente junto à análise da literatura, sempre relacionando com o que pensava a sociedade quando determinada literatura foi escrita. Os diários de memórias aparecem para Williams como expressão que melhor descrevem as “paisagens campestres” e a “gente do interior”. Considera, assim, que os mesmos podem despertar, no leitor, experiências já vividas.
A análise demonstra que o papel da literatura acaba por provocar o que os indivíduos têm de rural dentro de si e, nesse contexto, os diários de memórias acabam sendo aqueles que melhor expressam essas experiências. É possível considerar que, de alguma maneira, todos temos algo de rural dentro de nós, algum vínculo que pode ser tanto afetivo, como emocional, o qual, segundo os exemplos explorados por Williams, pode ser inspirado na literatura.
57 Id. Ibid. p. 27.
58
Pode-se considerar ainda que, em uma conjuntura recente, o rural passa a se representar a partir do urbano. Neste ponto, Williams é muito crítico em relação à literatura inglesa, pois, em alguns casos, constroem-se imagens de um rural somente a partir de uma breve observação, sem um contato maior com este espaço, conforme pondera: “Assim, o respeito genuíno transformou-se numa forma de elogio que excluía o conhecimento humano, reduzindo os trabalhadores à categoria de seres não humanos, e sim „naturais‟”.59
Dessa maneira, este trabalho também pretende entender mais esse rural que é discutido de diferentes formas, tentando uma aproximação junto aos sujeitos deste espaço, uma aproximação que os compreendem a partir de seus espaços de trabalho e vida, enquanto sujeitos do processo.
É neste ponto que se questiona o conceito de rural ou campo no contexto brasileiro recente: que rural representa o Sudoeste do Paraná? A estrutura fundiária em pequenas propriedades é realmente uma realidade ou apenas uma construção assentada nos levantes de 1957? Que modelo de relações urbano/rurais prevalece e prevaleceu neste espaço? Esses são questionamentos que perpassam a estrutura deste trabalho e procuram apresentar novos horizontes à historiografia regional que trata sobre o assunto e a questão agrária no Brasil.
Nessa conjuntura, a análise documental mostra-se como um campo fértil para compreender as transformações ocorridas no Sudoeste do Paraná com o passar dos anos. Ao mesmo tempo em que as fontes orais, junto às experiências dos sujeitos do processo, pretendem privilegiar as diferentes percepções e vivências, de acordo com o contexto em que cada uma é apresentada. Conforme Williams nos instiga a pensar, é necessário observar a história do homem do campo como uma “história comum, tal como deve
ser”, de um homem do campo que sobrevive em um mundo urbano e industrial.60
Assim, ao citar Fred Kitchen e sua autobiografia de 1939, destaca que nela existe o registro de todos os tipos de trabalho no campo e das condições de vida neste espaço; “sem nenhum dos gestos estereotipados a respeito do passado e do bucolismo”, apresenta características de quem reside no meio rural e fala de coisas características desse espaço. Não é um rural idílico, percebe o espaço em que reside sob seu ângulo, ou seja, as relações entre os residentes no campo com o meio urbano e também as inter-
59 Id. Ibid. p. 425.
60
relações entre os trabalhadores agrícolas daquele espaço.61 Conforme Williams analisa sua obra:
Com sua veracidade, apresentando os dias difíceis juntamente com os dias bons, as frustrações com as satisfações, Brother to the ox representa a voz autêntica do homem do campo de hoje, que sobrevive num mundo basicamente urbano e industrial, que entra e sai desse mundo sem perder os vínculos concretos do trabalho e da comunidade. O que desperta admiração não é apenas a ausência de mitos, alusões e pseudo-história, e sim a percepção do contexto, das maneiras como homens sem terra e sem dinheiro trocam de emprego, numa economia em mutação, sentindo na carne o que normalmente é abstraído, mesmo numa visão histórica verdadeira. Esse é o mundo reconhecível do trabalhador moderno observador e inteligente, no caso um trabalhador rural durante a maior parte de sua vida, mas não toda ela.62
Em certo sentido, este fragmento expressa algumas pretensões deste trabalho: demonstrar a realidade dos trabalhadores do campo, os processos que cercam e cercaram a realidade agrária nacional e como isso reflete na estrutura agrária brasileira e da região em questão; privilegiar tanto as trajetórias dos sujeitos do processo através da fonte oral, como também as consequências das transformações na agricultura brasileira, a partir da segunda metade do século XX.