• Aucun résultat trouvé

La puissance publique doit donc porter un autre modèle de production et de

Este item tem como principal preocupação apresentar de que maneira se pode dar uma nova perspectiva à pergunta que orienta este trabalho. Notadamente, as interpretações historiográficas que consideram o Sudoeste do Paraná constituem-se a partir de diferentes enfoques, os quais estruturam a forma como os levantes de 1957 e a estrutura agrária e fundiária do espaço são pensados. A partir desse cenário, o conceito de representação social do espaço passa a ser de suma importância para a elaboração de uma análise crítica, orientada, sobretudo, ao elencar os diferentes lugares em que tais textos são produzidos.

Nessa perspectiva, Roger Chartier tem grande relevância para se avaliar tal orientação teórica. Chartier, ao apresentar de que maneira a história cultural delimita-se por meio de um novo campo de estudos, sob a “designação de história das mentalidades”, destaca que esses novos caminhos apresentados à história procuram superar tanto a “antiga história intelectual literária, como a hegemônica história econômica e social”.31

Dessa maneira, esse novo enfoque apresenta à história cultural em que medida as práticas e representações podem ser pensadas enquanto objetos de estudos. Assim, no entendimento de Chartier, a história cultural “tem por principal objetivo identificar o

31 CHARTIER, Roger. Introdução. Por uma sociologia histórica das práticas culturais. In: _____. A História Cultural entre práticas e representações. Col. Memória e sociedade. Trad. Maria Manuela

modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”. Tal perspectiva nos permite interpretar de que maneira podem ser percebidas distintas representações sociais de “uma determinada realidade social”.32

No caso aqui privilegiado, o enfoque se volta em um primeiro momento à maneira como alguns autores – que possuem elevado reconhecimento em suas produções – interpretam o Sudoeste do Paraná, ao considerar seus levantes sociais e sua estruturação fundiária.

Para Chartier,

[...] as representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza.33

É necessário, portanto, deixar claro que cada discurso elaborado sobre o Sudoeste do Paraná seja visto em base a seu lugar de elaboração. Vamos analisar rapidamente, enquanto exemplo, dois autores que serão considerados mais a frente e que produzem interpretações sobre a região Sudoeste do Paraná e seus levantes sociais: o primeiro deles é Rubens da Silva Martins, que escreve com especial atenção para a conjuntura política e constrói sua representação sobre a região a partir dos posicionamentos políticos dos envolvidos na questão agrária de 1957; sua apropriação é, portanto, política, por esse motivo, representa esse espaço sobre este viés, ao mesmo tempo em que minimiza a conquista dos colonos. Além disso, Martins também entende que a “Revolução agrária” foi uma desordem e desobediência às autoridades, consequentemente, não reconheceu a violência praticada pelas companhias colonizadoras.

Por outro lado, Iria Zanoni Gomes elabora seu discurso a partir de um espaço social reconhecido – o acadêmico –, assim, sua argumentação pode ser vista como oposta à de Martins. Isso, em grande medida, deve-se por apropriar-se da conjuntura social a partir de suas experiências pessoais, isto é, de quem viveu aquele período. Deste modo, elabora sua representação social do espaço a partir de uma argumentação sustentada, tanto na academia, quanto na experiência social, com uma clara valorização dos sujeitos ora oprimidos, os colonos.

32 Id. Ibid. p. 16, 17.

33

Notamos, assim, que “as percepções do social” não são discursos “neutros”, pois produzidos a partir de estratégias e práticas sociais, suscitam um olhar atento para o local de onde cada um é elaborado. Cada qual procura impor uma autoridade e legitimar um espaço para sua feitura. Nestes termos, para Chartier, devemos ficar atentos às lutas de representação:

Por isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação. As lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. Ocupar-se dos conflitos de classificações ou de delimitação não é, portanto, afastar-se do social – como julgou durante muito tempo uma história de vistas demasiado curtas –, muito pelo contrário, consiste em localizar os pontos de afrontamento tanto mais decisivos quanto menos imediatamente materiais.34

Chartier ressalta, ao fim de suas considerações, que apoia as escolhas metodológicas de Pierre Bourdieu. Para tanto, procura exaltar que essa perspectiva não significa um afastamento do social – com referência às críticas negativas direcionadas à história cultural, assim, sua discussão procura versar a importância dessa concepção, ao alertar as relações que podem ser estabelecidas a partir de determinada representação.

Nesses termos, ressalta-se que é necessário pensar o conceito enquanto uma relação postulada “entre o signo visível e o referente por ele significado”. Esse entendimento permite perceber a “relação de representação – entendida, deste modo, como relacionamento de uma imagem presente e de um objeto ausente, valendo aquela

por este, por lhe estar conforme”.35

Notamos, assim, a relação de força e poder que o conceito de representação permite compreender, em especial, ao postular o relacionar tanto de uma “imagem presente”, como de um “objeto ausente”.

Ao tomarmos como exemplo a representação social do espaço – neste caso, do Sudoeste do Paraná, dos levantes de 1957 e de sua estrutura fundiária diferenciada –, esses aspectos podem ser percebidos tanto nas produções bibliográficas que procuram retratar o espaço social, suas lutas e transformações, quanto no que se refere às apropriações comemorativas que monumentalizam – sobretudo em relação à Revolta de 1957 – os marcos simbólicos da região e procuram dar duração e estabilidade à representação construída.

34 Id. Ibid. p. 17.

35

Para que fique clara a perspectiva privilegiada a partir de Chartier, selecionamos um exemplo prático de um dos seus trabalhos. Trata-se do texto “Práticas e representações: leituras camponesas em França no século XVIII”. A intenção de Chartier, neste trabalho, é pensar que tipos de leituras faziam os camponeses da França no referido século. Para tanto, utiliza-se de um conjunto documental diferenciado, notadamente, - os textos dirigidos ao abade Gregório em resposta às suas questões relativas aos costumes de leitura das gentes do campo.

Suas análises acima das respostas permitem conceber de que maneira,

[...] os testemunhos reunidos por Gregório ensinam, por um lado, como os letrados da província representam, para si ou para os outros, os leitores camponeses, e por outro, nessa mesma representação – como as suas leis e motivos próprios, e que traduz, mutila, transforma –, quais eram algumas das práticas populares do impresso.36

A argumentação de Chartier é elaborada após concluir que quem responde a Gregório são os letrados das províncias francesas e que essas repostas procuram representar, “para si” e para os “outros”, os leitores camponeses. Isso acontece, sobretudo, em razão da maneira como os letrados percebem as leituras camponesas, isto é, procuram representar mais acima das representações constituídas sobre esses indivíduos do que sobre as práticas que poderiam ser verificadas no espaço.

Além de propiciar uma melhor compreensão sobre o emprego do conceito de representação social, o exemplo de Chartier permite perceber de que maneira podemos verificar as práticas sociais a partir das representações constituídas sobre determinado espaço ou grupo. Nesse sentido, este trabalho procura dar uma nova perspectiva à maneira como a região Sudoeste do Paraná foi e vem sendo interpretada. Isso significa considerar as concepções constituídas sobre este espaço, ou seja, de que maneira as representações calcadas em discursos buscam constituir-se a partir das posições de poder e dominação que procuram representar.

Documents relatifs