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Quelles sont les limites de l'incarnation ?

PERSONNE NE PEUT VOIR LE ROYAUME DE DIEU S'IL NE NAIT DE NOUVEAU

24. Quelles sont les limites de l'incarnation ?

A fase inicial desse estudo de caso consistiu na seleção do local para o desenvolvimento do estudo. Foi feito o contato com cinco usinas da região de Dourados-MS,

todas com colheita 100% mecanizada. Dentre das cinco unidades contatadas, três aceitaram o projeto de estudo, porém somente uma deu continuidade.

Foi então apresentada e aprovada a proposta de pesquisa (Figura C.1, Apêndice C) pelo coordenador da colheita mecanizada e pela chefa do setor de Recursos Humanos da empresa analisada, em fevereiro de 2018. Após isso, a pesquisadora realizou junto com um grupo de operadores recém-contratados uma integração onde foram expostas as regras, riscos, regulamentos e procedimentos de segurança organizacionais. Em seguida a integração, a pesquisa de campo foi iniciada logo quando começou a safra de 2018-2019, totalizando 20 visitas, entre os dias 19 de abril a 27 de novembro de 2018.

Para obter uma amplitude de dados e satisfazer a triangulação desses, as visitas ocorreram em diferentes dias da semana e em diferentes turnos: A (6h30 às 14h30), B (14h30 às 22h30) e C (22h30 às 6h30), sempre acompanhadas19 por um facilitador20.

Para chegar até as frentes de colheita, a pesquisadora se dirigia até a sede da usina, no setor de logística, e, de lá, de acordo com a frente designada pelo facilitador, esperava a carona de um caminhão canavieiro que era alocado para determinada frente. Outras vezes, a pesquisadora pegava o ônibus que conduzia os operadores da cidade para o campo.

A duração das visitas ao CTT variou entre 2 a 9 horas, pois dependeu da disponibilidade da colhedora acompanhada. Muitas vezes as máquinas paravam no meio do turno por tempo indeterminado devido a algum problema técnico ou devido à chuva, logo, o Curso da Ação era interrompido e, consequentemente, a visita também. Porém, enquanto a colhedora colhia, a pesquisadora acompanhava o operador do banco do carona de dentro da cabine. Também foram realizadas observações no campo a uma distância segura das máquinas em operação.

Logo, uma das técnicas de coleta de dados foi a observação. Flick (2009) recomenda que além de observações, entrevistas e análise documental são importantes para a triangulação e validação de pesquisas etnográficas e que observações unicamente sozinhas não são suficientes para tirar conclusões sobre um objeto de estudo. Apesar desta tese não ser

19 O acordo estabelecido com o gerente agrícola era que a pesquisadora somente poderia estar nas frentes que os facilitadores estivessem por questão de segurança para ambas partes.

20 A função do facilitador é ser um apoio operacional dos trabalhadores das frentes de trabalho, principalmente CTT. Além disso, eles treinam e avaliam os operadores e tratoristas, com o intuito de conhecer quais eram os pontos fracos para minimiza-los. No turno A, a pesquisadora acompanhava geralmente o facilitador A. Nos turnos B e C, era a vez do facilitador B. Ambos já trabalharam como operadores de máquina por pelo menos cinco anos e foram promovidos a atual função há pelo menos dois anos. O facilitador A foi líder de frente também.

etnográfica, ela tem em comum o interesse por buscar entender o comportamento, as crenças e o que é compartilhado dentro de um grupo social inserido em uma atividade de trabalho. Logo, pode-se considerar como pertinente a recomendação de Flick (2009).

Nesse sentido, Theaureu (2004, 2014) defende que a única técnica que revela a organização implícita do sujeito na sua ação é a captação de suas verbalizações provocadas ou não-provocadas pelo pesquisador. Dessa maneira, as provocações das verbalizações foram feitas como em entrevistas não estruturadas. Entrevistas são uma técnica de abordagem qualitativa que, por meio das trocas verbais e não-verbais estabelecidas entre a interação do entrevistador com o entrevistado, permitem uma compreensão melhor dos resultados, visto que o entrevistado tem um papel ativo na construção da interpretação do pesquisador. Dessa maneira, a entrevista confere confiabilidade à pesquisa, uma vez que o pesquisador não limita suas conclusões somente nas interpretações que concebe sobre o que o entrevistado diz ou faz, ele concede a este último a oportunidade de legitimá-la. Então, o entrevistador conhece como as pessoas percebem o mundo, conhecendo suas crenças, valores e significados atribuídos a si, aos outros e ao mundo circundante (FRASER; GONDIM, 2004).

Portanto, os procedimentos de coleta de dados na análise do trabalho dos operadores de colhedora foram as seguintes:

a) observações: como mencionado, as observações foram realizadas de dentro da cabine da colhedora em operação. O objetivo foi capturar o que era observável da atividade do operador, ou seja, seu comportamento diante dos cenários de colheita, quais funções acionava, quais informações buscava ou o perturbava, e quais interações verbais e não- verbais eram feitas com o restante da equipe;

b) entrevistas não estruturadas: foram feitas entrevistas face a face, onde a pesquisadora e operador estavam sujeitos às influências verbais, não-verbais (pausas e silêncios, movimentos corporais, e percepção do volume e tom de voz) e às decorrentes das reações faciais do interlocutor. Essa modalidade de entrevista permitiu identificar sentimentos de tensão, indignação e felicidade ao longo das atividades observadas. Em relação a sua estrutura, as entrevistas foram não-estruturadas, dado que a pesquisadora introduzia o tema da questão e deixava o entrevistado livre para discorrer sobre o mesmo, fazendo apenas interferências pontuais. Esses temas eram referentes a dúvidas que emergiam sobre as ações dos operadores ou eram afirmações que a pesquisadora fazia para entender se o que tinha interpretado era verdadeiro. A partir do momento que os operadores faziam a autorreflexão de suas ações/sentimentos/decisões, eles

reavaliavam seus atos, buscando o que os motivavam a agir daquela maneira, o que eles perceberam e o que eles consideraram da situação;

c) Relatórios: Para auxiliar na análise do Curso da Ação dos operadores, alguns dados sobre o contexto do canavial e sobre os resultados da colheita foram coletados. Então a cada visita feita foram gerados e disponibilizados pela empresa relatórios com os seguintes itens (no dia 26 de abril não foram gerados relatórios, por causa de perdas de dados no sistema):

i. Características dos canaviais, tais como: nome da fazenda, localização, declividade do terreno, porte, idade, variedade, produtividade agrícola, tipo de plantio, estágio do corte e condições de colheitabilidade;

ii. Qualidade da cana colhida: quantidade de perdas e das impurezas carregadas pelas colhedoras estudadas. Os valores de perdas diárias de cana atribuídos a cada equipamento eram calculados com base no TCH estimado do talhão, enquanto as impurezas eram calculadas por uma média da frente;

iii. Dados da plataforma de monitoramento21, referente aos tempos de máquina

operando e máquina parada. Foram gerados para cada dia de visita três relatórios. O primeiro era o Relatório de Horas, onde foram somados a quantidade de tempo em cada evento operacional ao longo do dia. Eventos neste estudo referem-se aos apontamentos: auto-deslocamento, corte de cana, aguardando transbordo, aguardando manobra de transbordo, manobra auxiliar e manobra de fim de linha. O segundo, Relatório de Linha Tempo do Equipamento, continha os registros dos eventos em função do tempo corrido. O último, Relatório de Ocorrências de Velocidade, também continha todos os eventos detalhados em sequenciamento, mas mostrando a velocidade da colhedora no dado momento e sua localização em latitude e longitude.

Para capturar as observações, entrevistas e verbalizações não-provocadas, gravações de áudios e de vídeos foram realizadas utilizando um telefone celular Samsung A8+ e uma câmera de aventura GoPro Hero 5 Black. Um suporte de cabeça para a GoPro foi utilizado para filmagem do ângulo de visão do operador dentro da cabine da colhedora, algumas

21 Plataforma de monitoramento é uma plataforma digital que contem softwares embarcados de monitoramento desenvolvidos para cada operação. Esses sistemas possibilitam a coleta de informações produtivas de forma automática (SOLINFTEC, 2018). Os operadores apontam na plataforma o motivo de cada mudança operacional, assim pode-se saber quanto tempo a máquina se dedica a cortar cana, os tempos de parada, de manobra, aguardando transbordo, etc.

vezes acoplados na cabeça do operador. Além das gravações, anotações em caderno foram feitas durante todo o turno observado, registrando considerações da pesquisadora sobre o que era observado e entrevistado.

Esses registros foram compilados em um diário de campo após cada visita concluída. Era redigido em forma de crônica o turno observado, digitalizando o que era anotado no caderno, transcrevendo todos os áudios e capturando imagens das filmagens, de forma que todas essas informações se complementassem e o Curso da Ação fosse reconstruído.

As visitas no CTT foram o núcleo desta pesquisa. Porém, outras três visitas tiveram destinos diferentes nos canaviais, mas trouxeram contribuições para o entendimento holístico do contexto de trabalho do operador da colhedora: 92000 5970

a) A visita do dia 3 de maio foi realizada junto ao supervisor que responde pela usina a NR12, norma que trata da Segurança em Máquinas Agrícolas. O objetivo foi fazer uma ronda em diferentes frentes de trabalho para verificar o nível de aderência das máquinas à norma. Nessa rota foi possível conhecer o ciclo de produção do canavial e como as frentes distintas estão interligadas, vertical e horizontalmente. Essa ronda passou pelas frentes de fertirrigação, de adubação, de plantio e de CTT;

b) A visita do dia 20 de julho ao campo foi cancelada, porque choveu. Logo a pesquisadora permaneceu na sede da usina coletando informações a respeito de perdas de cana no campo, idade dos equipamentos acompanhados e informações para entendimento de como eram calculadas as metas de produção de cada frente. Esses dados foram colhidos com o coordenador da colheita mecanizada, o mesmo que autorizou o estudo. Além disso, foi também feito o contato com os operadores responsáveis por passar os dados de disponibilidade das colhedoras, qualidade da cana colhida e caraterísticas geográficas e agrônomas dos canaviais que foram visitados;

c) A visita do dia 5 de setembro foi às frentes de Muda e Plantio, onde foram conhecidos esses processos. A primeira frente colhe as mudas, um processo de colheita da cana comum, se não fosse pela alteração do tamanho dos rebolos, que ficam maiores, pelo foco quase que exclusivo na qualidade do corte e pelas máquinas modificadas para não danificar as gemas da cana. Essas mudas são colhidas de acordo com a demanda do plantio (caso essa demanda não ultrapasse a capacidade de produção) e transportadas por caminhões pequenos. O Plantio, por sua vez, recebe as mudas e as plantam com máquinas plantadoras automatizadas.

Algumas entrevistas não-estruturadas foram feitas com os líderes e supervisores das frentes nos intervalos de parada da máquina, principalmente nas primeiras visitas, quando a compreensão do processo da colheita e aspectos relacionados à organização e à tarefa eram ainda primários para a pesquisadora. Outras entrevistas não-estruturadas também foram realizadas com os facilitadore durante toda a safra e versavam sobre a organização e a operação, visto que eles já tinham sido operadores de colhedora e agora trabalham com treinamento e avaliação dos operadores do CTT.

Como apontado antes, 20 visitas foram realizadas. Essa quantidade de observações serviu como forma de captar informações sobre as diversas situações de trabalho ao longo de uma safra. Stake (2011) ressalta que as observações ou interpretações não se repetem perfeitamente e, por isso, a triangulação dos dados também serve para esclarecer significados pela identificação das diferentes formas pelas quais um caso é visto (STAKE, 2011). Da mesma maneira, Fraser e Gondim (2004) reconhecem que o número de entrevistas não é o importante para a compreensão do tema em uma pesquisa qualitativa, enquanto a exploração e compreensão dos diferentes pontos de vista que se encontram demarcados em um contexto são os fatores que devem ser pretendidos. As autoras continuam afirmando que em um ambiente social específico, o espectro de opiniões é finito, uma vez que a partir de uma determinada quantidade de entrevistas percebe-se o esgotamento das respostas quando elas tendem a se repetir e novas entrevistas não oferecem ganho adicional para a compreensão do caso estudado. Seguindo essa abordagem, o número de visitas, observações e entrevistas entre os diferentes atores visou primeiramente contemplar um ciclo anual de trabalho, apreendendo as possíveis situações pertinentes de uma safra. Ao fim dessa coleta, observou-se que algumas situações se repetiam e ações e verbalizações eram semelhantes entre os operadores, podendo dizer que o objetivo das visitas foi cumprido e o esgotamento atingido. Por outro lado, sabe-se que esse esgotamento é genérico, porque no detalhe da atividade, como os operadores 13, 16 e 17 opinaram algo similar ao que o operador 14 disse: “todo dia tem alguma coisa nova para aprender”.

A triangulação dos dados empíricos (observações e entrevistas) teve como resultado uma complementaridade das informações obtidas pelas diferentes fontes de evidência. Todavia, quando considerados os relatórios provenientes da plataforma de monitoramento, percebeu-se uma divergência dos dados obtidos entre esses documentos e os dados empíricos. Essas divergências são tratadas no capítulo 6, quando uma análise do OEE da colhedora foi feita.