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IL Y A PLUSIEURS DEMEURES DANS LA MAISON DE MON PÈRE

Com o objetivo de entender como a teoria do Curso da Ação está sendo utilizada pelos pesquisadores, foi feita uma busca em duas bases científicas por artigos que estivessem relacionados com o tema. Para isso, foi utilizado o método de revisão descrito no Apêndice A. Todos textos aceitos foram resumidos no Quadro B.1 do Apêndice B com seus respectivos objetivos, métodos de pesquisa e resultados. A partir desses 11 trabalhos, breves conclusões puderam ser geradas.

A primeira delas foi que o Curso da Ação ainda não é um método popular entre as análises do trabalho. Uma possível justificativa seria devido ao corpo de conhecimento robusto contido nos fundamentos do método e a forma como essa teoria é apresentada. O professor Francisco Lima, um dos editores do livro O Curso da Ação: método elementar de Theureau (2014), fez um alerta nesse sentido logo no início da obra. Ele comenta sobre o estilo barroco da escrita do autor e aponta que o arcabouço conceitual é extremamente completo, por

ser inspirado por Peirce e Varela e por utilizar e criar termos pouco usuais como enação, “aberto”, representâmen, instância de referencial, sigo tetrádico e hexádicos. Acrescenta-se aqui, o nível de detalhamento sobre a ação do indivíduo estudado que Theureau descreve em seus exemplos, demandando tempo para atingir tal densidade de informação e analisa-la.

Outro aspecto que se notou, e por isso os critérios de aceitação de artigos foram amplos nas pesquisas, foi que apenas sete (LAHOUAL; FREJUS, 2013; FILLIPI; THEUREAU, 1993; MATIAS, 2015; PAIRIS, 2015; FONSECA, 2012; ANTIPOFF; FRADE, 2016; ANTIPOFF; LIMA, 2017) dos 11 artigos tiveram o Curso da Ação aplicado como método de pesquisa em estudos de casos. Os quatro restantes (ROCHA; LIMA, 2018; CHRISTO et al., 2018; THEUREAU, 2000; MARMARAS; PAVARD, 1999) discutiram sobre o Curso da Ação como parte de uma revisão bibliográfica sobre métodos de análise da atividade ou de análises dentro de temas como ação situada e antropologia cognitiva.

Outra situação que se destacou foi o pouco uso do signo tetrádico. Alguns autores referenciaram o signo em algum momento da revisão bibliográfica de seus trabalhos (FONSECA, 2012; MATIAS, 2015; ANTIPOFF; FRADE, 2016; ANTIPOFF; LIMA, 2017), porém, somente Fonseca (2012) foi quem realmente utilizou dessa ferramenta para investigar as experiências do engenheiro de obras. Pode-se atribuir a isso à dificuldade ou ao nível de detalhe exacerbado do desmembramento das unidades do curso de ação em aberto, representâmen e instancia de referencial.

Essa pesquisa bibliográfica, por outro lado, mostrou o carácter versátil do estudo do Curso da Ação, pois, como definiu Theureau (2014) esse método analisa em primeiro a atividade prática. Logo, foram encontrados artigos que analisaram as estratégias e decisões de esportistas, o desempenho de alunos em um projeto participativo na escola, o comportamento de consumidores-produtores de energia, a inteligência prática vivida na atividade de engenheiros e pedreiros em canteiros de obra, a concepção de sistemas de suporte de coordenação na atividade de controle de tráfico urbano e a simulação de salas de controle de reatores nucleares.

Apesar das possíveis limitações e dificuldades enfrentadas pelos autores, o cognitivismo se torna démodé nos trabalhos que circundam o Curso da Ação, dando lugar aos conceitos de ação situada e inteligência incorporada nas análises tratadas por ele. A atividade humana é então cognitiva, autônoma, incorporada, situada dinamicamente em um mundo que

existem outros atores, individual e coletiva, tecnicamente constituída, cultivada e vivida (THEUREAU, 2000).

3.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Levando em conta as referências bibliográficas revisadas no capítulo 2, os resultados encontrados nos textos revisados, percebe-se que inter-relacionar indicadores de desempenho com variáveis de velocidade, tipo de máquina, modelo de plantio, preparo de terreno, e somente esses tipos de variáveis do sistema técnico de operação não trouxeram conclusões convergentes e passíveis de replicação. A composição e as configurações dos conjuntos de variáveis no CTT são amplas, e molda-las em pesquisas experimentais, sem considerar a situação natural e a atuação do sujeito, traz apenas cenários que retratam parcialmente a realidade. Dessa maneira, esta tese insistirá no potencial que o método do Curso da Ação tem para responder as questões de pesquisas aqui formuladas e, assim, obter conclusões fidedignas às situações naturais de trabalho.

Considerando o objetivo proposto “avaliar como as variáveis tecnocêntricas e quantitativas empregadas no cálculo da eficiência global da colhedora de cana-de-açúcar são influenciadas pela ação do operador, sob a perspectiva da ergonomia da atividade” e os objetivos específicos será feito a análise do trabalho à luz do Curso da Ação dos trabalhadores da colhedora de cana-de-açúcar. Próximo capítulo detalha como foi realizada esta pesquisa e de que modo pretende-se analisar seus dados.

4 MÉTODO DE PESQUISA

Este estudo tem abordagem qualitativa, a qual se justifica pelo interesse centrado na compreensão da lógica operacional produzida pelas atividades vividas dos operadores de colhedora de cana-de-açúcar, bem como as estratégias adotadas para ação, a partir das perspectivas e significados atribuídos para estes. Adota-se a abordagem qualitativa às pesquisas da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões dos atores em relação ao modo como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam (MINAYO, 2010). Fraser e Gondim (2004) e Goldenberg (2007) completam essa descrição adicionando que tais estudos contribuem para a compreensão interpretativa das experiências dos sujeitos inseridas no contexto vivenciado na sua complexidade. Destarte, as descrições das situações visam compreender os sujeitos em seus próprios termos, vendo o mundo por meio da perspectiva dos estudados.

Esta pesquisa é estruturada em três fases: revisão bibliográfica; visita técnica prévia em uma usina de cana-de-açúcar para familiarização do cenário CTT; e, a análise do trabalho dos operadores de colhedora de cana-de-açúcar sob a perspectiva do método do Curso da Ação de Theureau (2004) com uso de procedimentos de coleta de dados da Triangulação (ZAPPELLINI; FEUERSCHUTTE, 2005).

A revisão bibliográfica trouxe o entendimento do estado da arte dos temas tratados nesta tese, além de contribuir com a metodologia de pesquisa. Em virtude disso, foi feita uma revisão sobre a cultura da cana-de-açúcar, de modo a entender quais são as variabilidades encontradas em um canavial e quais são as etapas de seu ciclo de vida. Uma revisão sobre a máquina colhedora de cana foi realizada com o intuito de entendimento do funcionamento de seus componentes, uma vez que a máquina é o artefato de trabalho do operador aqui analisado. Tal entendimento é fundamental para a compreensão de suas ações nas observações posteriormente feitas no campo. Mas essas ações também são influenciadas pela organização que envolve o sistema de CTT, logo um estudo sobre tal sistema foi necessário para a compreensão do contexto de trabalho do operador de colhedora. Além disso, foi feita uma análise crítica dos estudos que tratam o desempenho do CTT em termos de disponibilidade, velocidade e qualidade, indicadores considerados no OEE. Após essa análise, foram revisadas as particularidades do trabalho do operador de colhedora de cana-de-açúcar. Para finalizar a primeira parte dessa etapa, um estudo bibliométrico foi executado para identificar lacunas existentes de estudos que dizem respeito ao CTT, à atividade de trabalho e ao OEE em conjunto.

A segunda parte da revisão literária foi realizada com o intuito de direcionar o método de pesquisa. Logo, uma síntese sobre a evolução da Teoria da Atividade foi feita em vista a entender os fundamentos da Ergonomia da Atividade, tema tratado posteriormente. Seus paradigmas e linhas de pensamentos foram traçados de forma a guiar a tese para uma abordagem que analisa o trabalho de forma descontinuada entre o prescrito e o real. Após isso, uma revisão sobre a ergonomia cognitiva foi detalhada para o entendimento da importância da linguagem no estudo do trabalho, pois a partir dela pode-se entender o significado das ações dos operadores. Por fim, foi estudada a teoria do Curso da Ação, teoria que concebeu o método de igual nome, cujo significação da atividade pelo sujeito é fundamental para compreensão de como ele realiza sua atividade e tem as ações explicadas pelo encadeamento dos signos tetrádicos.

A base teórica foi estabelecida por meio da literatura e apresentada nos capítulos 2 e 3, enquanto uma base prática inicial ocorreu em uma visita técnica a uma usina paulista com o intuito de entender o funcionamento de uma frente de colheita de cana-de-açúcar e como ela está inserida no CTT. Essa usina sucroenergética está localizada na região norte do estado de São Paulo. Em 2016, a empresa moía 3.800.000 t/ano de cana, apresentava 6 frentes próprias de colheita totalmente mecanizada, contando com 20 colhedoras, 32 transbordos e 34 caminhões responsáveis pelo transporte da cana das frentes para a moenda. Informações sobre os macroprocessos do CTT foram colhidas a partir de entrevistas não estruturadas com um consultor logístico prestador de serviço dessa usina, com o líder da frente visitada, com o gerente de motomecanização, com o operador de tráfego e com operadores de colhedora e motoristas de caminhão. O gerente de motomecanização foi a principal fonte de informação, pois além de sua experiência como gestor dessa área, possuía experiência profissional em todas as subáreas dessa gestão, além de ter começado sua carreira no setor canavieiro como operador de máquina. Tal levantamento teve como resultado a elaboração do fluxograma da Figura 2.11, publicado no artigo de Freitas et al. (2019), no qual apresenta os macroprocessos agrícolas da monocultura da cana-de-açúcar. Os dados colhidos nessa visita somente foram utilizados nesta tese à título de conhecimento da autora sobre a dinâmica operacional do CTT.

Com bases teórica e práticas definidas, a terceira etapa da pesquisa foi a análise do trabalho do operador de colhedora de cana-de-açúcar conduzida em contextos reais de colheita mecanizada, sob a perspectiva do Curso da Ação defendido por Sève et al. (2002) e Theureau (2002, 2014). A coleta de dados foi feita utilizando o procedimento da triangulação de dados, técnica que combina diferentes métodos de coleta e de análise de dados, diversos

sujeitos, diferentes perspectivas teóricas e distintos momentos no tempo para consolidar suas conclusões sobre o fenômeno que está sendo investigado (ZAPPELLINI; FEUERSCHUTTE, 2015), no caso o Curso da Ação dos operadores de colhedora. Essa consolidação acontece por causa desses diferentes dados que validam e ampliam as interpretações feitas pelos pesquisadores (STAKE, 2011).

Assim, foram feitas 20 visitas nas frentes de colheita de uma usina sul-mato- grossense. Dessas 20 visitas, 17 foram feitas nas frentes de CTT; uma visita foi feita em uma ronda entre frentes de fertirrigação, adubação, plantio e colheita; e, uma nas frentes de plantio e muda.

Cada visita à usina foi realizada durante um turno específico previamente combinado com os dirigentes. Nas frentes de CTT, cada turno foi observado o Curso da Ação de um determinado operador e registradas suas verbalizações provocadas ou espontâneas e parte de suas atividades, majoritariamente, de dentro da cabine da máquina colhedora. Para entender as restrições e efeitos extrínsecos do trabalho na colhedora, diálogos realizados com os líderes e supervisores das frentes e facilitadores foram considerados. Essas conversas tiveram como temas: metas de produção, dinâmica da frente de trabalho, riscos da operação, condições do canavial, indicadores de qualidades aferidos empiricamente, níveis de perdas tolerados, relações entre manutenção e operação, motivos de parada, etc. Além disso, foram obtidos relatórios com informações sobre as características dos canaviais, da colhedora sobre as velocidade e tempos de operação e dos resultados da qualidade da cana colhida nos dias de visita. Esta etapa de pesquisa de campo durou sete meses, entre abril e novembro de 2018, excluindo o intervalo de tempo anterior dedicado às negociações entre a empresa e a pesquisadora.

Os tópicos a seguir detalham os procedimentos de coleta de dados das análises do trabalho dos operadores de colhedora, como foram selecionados os participantes no estudo e como foi realizada a análise dos dados para se chegar ao objetivo final desta tese. Além dos procedimentos metodológicos, foram inseridas nesse capítulo a caracterização da unidade estudada e a descrição da tarefa designada aos operadores nas últimas sessões.