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LE CHRIST CONSOLATEUR

As variáveis agronômicas relevantes às situações de colheita são a idade, a produtividade agrícola e a variedade da cana, o número de cortes sofridos pelo canavial e a sistematização da plantação. Pode-se dizer que a principal dessas variáveis é a produtividade agrícola (TCH), visto que o TCH é produto de um equacionamento que envolve a idade e a variedade da cana e o número de cortes e sistematização do canavial. Se passar do tempo ótimo de colheita, se a cana for de uma variedade que não produza colmos densos, se o canavial tiver passado do terceiro corte e/ou se tiver deficiência de adubo na plantação, a cana provavelmente terá um TCH qualificado como “fraco”. Apesar de tal interdependência de causalidade, cada variável agronômica é tratada separadamente para evidenciar outras condicionantes que elas impõem à colheita.

5.1.1.1 Idade, número de corte e variedade da cana-de-açúcar

Em um canavial que passou do tempo ideal de colheita ocorre a germinação indesejada de novos brotos ao redor do pé da cana adulta, implicando no aumento de impurezas dentro do transbordo. Isso acontece porque geralmente os filhos nascem desalinhados da rua do plantio e os divisores de linha não conseguem puxar essas plantas para dentro da máquina. Os pés de cana que saem da linha do plantio são chamados de “Tiguera”.

De regra, quanto maior o número de cortes, menos denso é o canavial, mais falhas são presentes e, com isso, mais plantas daninhas27 são encontradas. Além disso, os sulcos onde estão fixadas as raízes da cana ficam mais rasos, influenciando na decisão da altura do corte.

Canaviais de primeiro corte têm os sulcos mais profundos, isso quer dizer que as plantas são mais firmes e, por isso, o corte pode ser feito rente ao solo sem o risco de arrancar soqueira. Então, a caixa que sustenta as faquinhas do disco de base da colhedora tem que estar mais inclinada do que em uma colheita de canavial mais antigo, para se obter um corte basal rente sem perder tocos. Entretanto, mesmo com essa regulação mais inclinada do corte, algumas vezes perder tocos é inevitável em sulcos cuja profundidade é acentuada. Nesse caso, os

27 Na usina visitada, qualquer tipo de planta estranha à cana era geralmente chamado de “braquiária”, nome à rigor atribuído a um tipo de capim de forragem para gado, mas neste trabalho considerado como um termo genérico.

operadores 9 e 11 explicaram que podem “afundar” a máquina, mas mesmo assim não conseguem alcançar a base da planta, pois essa se esconde na fenda da terra.

A variedade da cana é responsável por suas propriedades, como a quantidade de palha e a dureza do colmo, e intervém diretamente na qualidade da carga e nas perdas deixadas no campo. “A cana que eu mais gosto de colher é a 7515 (...) porque ela é uma cana em pé, não cai tanto e ela não tem tanta palha”, opinou o operador 4. O operador 8 colhia uma planta parecida com a do operador 4, no entanto, sua variedade era de uma “cana quebradeira”, caracterizou ele, pois quebrava fácil e podia deixar perdas em pedaço no campo.

5.1.1.2 Sistematização do canavial

A colheita mecanizada da cana-de-açúcar exige uma sistematização que considera, ou deveria considerar, as curvas de níveis e a topografia do terreno de forma a projetar ruas de cana extensas, ou seja, tiros28 de colheita extensos, reduzindo assim o número de manobras necessárias na colheita. As manobras são classificadas na usina como operação auxiliar, quer dizer, necessárias, porém não produtivas. Logo, quanto menor é seu tempo de execução e sua quantidade, menor o tempo perdido, e maior tempo pode ser dedicado ao corte da cana. Além da dimensão das ruas, a sistematização do canavial envolve os preparos e cuidados com o terreno, a terraplenagem, o plantio de ruas paralelas e canas enfileiradas.

Às vezes é inevitável o plantio em forma de bicos ou zonas de dematação devido à forma triangular ou diagonal dos talhões. A Figura 5.3 ilustra algumas dessas formações. A marcação A (Figura 5.3) exemplifica um bico, onde os tiros vão diminuindo, aumentando o número de manobras necessárias para colher determinada quantidade de cana. As marcações B, C e D na mesma figura ilustram zonas de dematação. Nesses casos, existe um carreador onde as ruas de cana morrem. Aproximando a região C (Figura 5.4), pode-se notar que a primeira rua começa onde a seta amarela aponta. Porém, quando o operador entra no talhão e não percebe isso, principalmente à noite, ele faz a trajetória traçada pela seta vermelha, começando a colher pela segunda rua. Quando chega no ponto na altura da seta amarela, o operador poder não notar que tem uma nova rua começando ali e a máquina tenta processar a cana dos dois lados, vindo provavelmente a “embuchar” - se diz então que o operador “cortou a rua”.

Figura 5.3 - Exemplos de bico e dematação

Fonte: adaptado de Fotografias Aéreas (2018) Figura 5.4 - Aproximação da Região C

Fonte: adaptado de Fotografias Aéreas (2018)

Uma área com bico é um cenário não raro e deve ser contornada logo na sistematização do plantio. Quando os operadores entram nela precisam reportar para o terreirista, para que ele tenha ciência que o tempo de enchimento dos transbordos aumentará. O operador 10 manifestou felicidade por ter conseguido um talhão com tiros grandes, pois “quando está em um talhão cheio de bico é o dia todo no sofrimento”.

A sistematização da plantação condiciona alguns modos operatórios. A irregularidade dos terrenos intervém na regulação da sensibilidade do CICB. Em um terreno plano, roda-se com sensibilidade baixa; em um terreno mais ondulado, aumenta-se a sensibilidade. Quanto maior a sensibilidade, menor é o tempo de resposta no ajuste da altura do corte pelo sistema. Porém quando o terreno é irregular, o CICB não consegue responder à variação do solo, tornando-o ineficaz.

5.1.1.3 Produtividade Agrícola (TCH)

A cana pode ser classificada pelos operadores em cana forte ou cana fraca. Segundo o operador 9, a forte tem um TCH a partir de 90 e é uma cana de primeiro ou segundo

corte, enquanto a fraca tem um TCH menor do que 90~80 e geralmente é encontrada em canaviais de terceiro ou mais corte. A produtividade agrícola é uma das principais variáveis agronômicas, porque ela influencia (i) na capacidade de colheita e, por conseguinte, na velocidade de operação; (ii) na regulação da máquina; e, (iii) no uso do Field Cruise.

A capacidade efetiva de colheita está relacionada a quantidade de cana colhida em determinado tempo e, principalmente, a qualidade desse material colhido. E isso tem a ver com a produtividade agrícola pelo fato de que a colhedora demanda um tempo para processar (cortar, picar e limpar) a cana alimentada. Se essa cana for forte, a quantidade de massa que entra na máquina por tempo é maior, se comparada a uma cana mais fraca, operando em uma mesma velocidade de deslocamento. Logo, quanto maior o TCH, menor deve ser a velocidade. Nesse sentido, o operador 9 determinou que em cana forte a colhedora tem que andar a menos de 6 km/h, mas quando o TCH varia entre 80 e 100 e o terreno é favorável, o operador consegue andar um pouco mais. Em convergência a esses dados, o operador 8 afere uma velocidade ideal de 6 km/h para um TCH igual a 70.

Quanto a regulação da máquina, a cana fraca, por ser leve, exige que a chapa defletora fique mais fechada e que as rotações dos extratores sejam reduzidas, visto que os colmos podem ser ejetados da máquina com facilidade. Além disso, quando se opera numa cana forte, o rolo tombador tem que ter sua posição projetada para frente, com o intuito de inclinar melhor a cana, facilitando a função dos divisores de linha e impedindo que a cana alta e densa bloqueie a visão do operador desde a cabine.

O uso do Field Cruise está associado à produtividade agrícola da cana, porque esse implemento limita a potência da máquina, de modo a otimiza-la, economizando combustível. No entanto, os operadores concordam que quando a cana tem o TCH muito elevado, exige-se mais potência da máquina para produzir maior pressão no corte e na limpeza. Logo, o limitador da potência atrapalha esse processo, aumentando as chances de embuchamentos.