Uma das marcas principais da identidade do circense tradicional é ter conhecimento amplo sobre os vários aspectos que envolvem o trabalho no circo. Essa característica é construída a partir do seu nascimento, quando ele passa a ter contato desde muito cedo com o trabalho desenvolvido por sua família. Essa, que por sua vez, transmite a ele conhecimento variado o bastante para saber fazer quase tudo em uma organização circense, seja na montagem da estrutura ou na execução de números. Esse conhecimento cotidianamente construído é como a mesma intensidade demandado, pois é exigido dos circenses tradicionais se envolverem nas atividades desenvolvidas, exceto naquelas delegadas momentaneamente a funcionários. Assim, todos os integrantes dos circos pesquisados contribuíam de alguma forma na produção do espetáculo, pois no
[19] [...] circo não tem peso morto. Ou você faz qualquer coisa para o circo, você vende pipoca, você vende refrigerante, você vende qualquer coisa. Você tá ali no circo, você é considerado como um do circo. Não importa qual serviço você faz [...] [C03].
A metáfora “peso morto” presente no fragmento acima é frequente no discurso dos integrantes das famílias proprietárias. Observa-se no discurso de C03 a ligação dessa metáfora com o trabalho no circo, podendo ela ser decomposta em duas partes para facilitar o seu entendimento. Analisando-se somente o léxico “peso”, observa-se a sua relação com algo que possa ser carregado, mas com algum grau esforço, estando essa parte da metáfora relacionada ao transporte, nas mudanças, de tudo o que compõe o circo, tanto a parte estrutural quanto os pertences de cada um dos circenses. Completando a metáfora, o enunciador usa do termo “morto” para significar algo inanimado, sem vida, usando para isso uma característica própria de seres vivos. Sendo assim, a análise conjunta dos léxicos “peso” e “morto” relaciona a metáfora à ideia de que todos no circo tenham que ter uma função para serem levados com o grupo, ou seja, serem transportados.
Assim sendo, o circense deve fazer “qualquer coisa para o circo”, pois estando no circo ele deve contribuir desempenhando alguma atividade, tendo em vista a carga de trabalho à qual os circenses estão submetidos e também como forma de compensar o esforço para transportá- lo. Nesse sentido, a frase “não importa qual serviço você faz” denota que todos, independente se artista ou não, devam contribuir em algum serviço que esteja precisando de ajuda. Essa contingência é comum no período da montagem do circo, quando a situação obriga os desocupados momentaneamente a ajudarem. Como exemplo disso, observei mulheres trabalhando na montagem, o que é incomum tê-las nesse tipo de trabalho. “Como estava muito pesado para nós, as mulheres do circo nos ajudaram” [Diário de campo, 17 de julho de 2015]. A causa desse efeito é, sem dúvida, a prática panóptica de vigilância, que impede os corpos de ficarem parados diante de tanto trabalho. Com isso, principalmente nos dias de grandes esforços, as pessoas se mantêm a vista e realizando qualquer tarefa que seja. Afinal, ninguém quer ser um “peso morto” e, portanto, todos encontram um jeito de serem produtivos, ou seja, de serem “pesos vivos”.
Do poder que obriga os circenses a serem produtivos, nem mesmo crianças e idosos escapam, como demonstra o fragmento abaixo.
[20] [...] não é porque ela tá velha ou é porque ele é novinho demais que ele não tem
utilidade [...], é o caso do [...] meu filho. Ele faz falta no espetáculo. Ele tem seis
anos. Quando ele tá aqui, ele alivia a gente. Ele entra na borboleta. Ele entra numa palhaçada, que vai dar um “upgradezinho” no espetáculo, entendeu? Ele dá um recado, ele vai lá e ele volta aqui. Então faz falta, não é? O funcionário do circo ele
não tem um limite de idade, não tem. Você é novo demais, não! Você é novo demais
pra bater marreta, mas pra fazer uma outra coisa, não é! [C01].
No início do fragmento discursivo selecionado a palavra “velha” surge em contraste com o termo “novinho demais” e em conjunto designam que independentemente da idade dos circenses todos eles têm uma “utilidade”. Parafraseado Foucault (2011), o poder torna os corpos úteis, sendo isso também uma realidade no contexto circense. Sendo assim, C01 revela não haver “limite de idade” para alguém ser útil, em outros termos, ser considerado um trabalhador circense. Com isso, ele reforça o tema “ser útil” como uma condição à que todos devem se submeter. Em relação ao filho, C01 diz que ele “é novo demais pra bater marreta”, mostrando que as funções do trabalhador circense se alteram levando em consideração as condições físicas e habilidades de cada um, fortalecendo assim, a ideia de que o circense vive de maneira contínua um ciclo de aprendizagem, abrangente o suficiente para fazer dele alguém com habilidades múltiplas, até que seja capaz de armar o circo e executar números.
Ao chegar à velhice o circense tradicional, que desde a infância foi acompanhado por mudanças de ofício, passa a ocupar funções bastante específicas. Nos circos pesquisados essas pessoas trabalhavam nas bilheterias ou nas lanchonetes. Também eram conselheiras em diversos assuntos, guiando, dessa forma, o comportamento dos mais novos. Com isso, às vezes visivelmente debilitados, muitos deles trabalhavam mesmo após a aposentadoria, o que ratifica a não existência de “peso morto” no circo. Nesse sentido, o trabalho e a utilidade findam-se quando não há mais o que se possa fazer, ou seja, com a chegada morte.
A necessidade de ocupação e consequente contribuição para a produção coletiva do espetáculo faz do circense tradicional um trabalhador com habilidades que só podem ser aprendidas ao longo de vários anos através do compartilhamento de saberes. Em cada uma de suas tarefas observam-se tecnologias desenvolvidas e usadas por seus antepassados. O mesmo não se pode dizer sobre alguém que não é tradicional de circo, pois em comparação com os tradicionais pressuponho terem pouca experiência. Diante disso, quando se trata de executar tarefas especializadas e ligadas, principalmente, aos números, são os circenses tradicionais, ou os integrantes da família proprietária que as realizam, conforme a FIG. 4. Ela retrata três integrantes da família proprietária montando um equipamento para execução de número aéreo. Ao lado, à esquerda da figura, um contratado apenas os observava.
FIGURA 4 - Trabalho realizado por integrantes de umas das famílias proprietárias Fonte: Arquivos de pesquisa.
As gerações carregam consigo os nomes das famílias e isso atesta se o indivíduo tem ou não conhecimentos variados e habilidades múltiplas necessárias para trabalhar no circo e se são capazes de atuar em diferentes áreas. Desse modo, em um agrupamento circense os que são descendentes da família proprietária ocupam posições privilegias na hierarquia e, por meio dela, exigem obediência a contratados. O comando, portanto, exerce-se por meio de relações de poder que têm a tradição circense e o consequente acúmulo de conhecimento como instrumentos de poder.