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De uma forma geral, quando os entrevistados mais participativos do fórum colaborativo do Diario de Pernambuco (DP) buscavam informações, os veículos mais tradicionais ainda eram amplamente consultados. Em relação à televisão, 75% tinham o hábito de assistir aos telejornais: 20% faziam isso às vezes e 5%, raramente. O rádio era muito usado. A metade deles recorria a essa mídia com frequência. Enquanto isso, a leitura de jornais e revistas impressas mobilizava 80% dos entrevistados. A distribuição pela tendência de se buscar informação em veículos tradicionais, como jornal e revista impressos, pode ser verificada no quadro a seguir.

Esses dados coletados sinalizaram que, antes mesmo da popularização da internet, já existia entre os integrantes do grupo de cidadãos comuns mais participativos do fórum colaborativo do DP uma forte disposição para se informar.

Na primeira fase, ainda estamos no estado social desdobrado, momento em que o ator falou sobre o que pensa e o que faz a partir de um questionário geral, ou seja, de forma mais superficial, já que foi o primeiro contato que tivemos com os membros do grupo. Só na fase seguinte, quando nos encontramos mais três vezes com seis deles, as respostas foram mais detalhadas. Afinal, tivemos a oportunidade de nos aproximar e perceber as variações inter e intraindividuais. O diálogo se tornou mais espontâneo e natural.

Os seis cidadãos da segunda fase foram indagados sobre as mesmas questões mais de uma vez e tiveram a oportunidade de refletir melhor e lembrar-se de momentos do passado. Tivemos o cuidado de registrar as posições reveladas ou ocultadas para que pudéssemos ter acesso aos esquemas disposicionais individuais que buscávamos estudar. Isso quer dizer que a disposição para o agir ativamente no jornalismo pode se manifestar de forma constituída ou requisitada. Dos 20 entrevistados, 12 declararam utilizar a grande rede por mais de três horas por dia. Do grupo maior, 13 deles revelaram gostar de acessar sites de veículos de comunicação para se informar: oito, sempre; cinco, frequentemente; cinco, às vezes; e dois, raramente.

Quando acessavam as redes sociais, 13 declararam preferir ler textos escritos por jornalistas. Essa preferência, porém, não os impedia de consultar outros blogs, como ressaltaram 15 entrevistados, de acordo com o quadro abaixo.

Configuração dos entrevistados pelo hábito de consultar blogs escritos por jornalistas

Dos 20 atores entrevistados, metade decidiu produzir um espaço próprio para divulgar as informações que lhes interessavam, o que apontou para a disposição de ser repórter- amador. Desse grupo que tomou a atitude de criar um blog autoral, alguns chegaram a manter mais de um endereço – um voltado para assuntos pessoais e outros para temas mais gerais que interessavam, por exemplo, às comunidades onde moravam ou trabalhavam. Todos apresentaram uma forte tendência para querer escrever o que desejavam, sem passar por nenhum filtro imposto pelos conglomerados de comunicação.

Não é objetivo dessa pesquisa fazer nenhum estudo de recepção sobre o fórum colaborativo do Diario de Pernambuco (DP), mas algumas informações reveladas por esses cidadãos acerca de suas participações nesse espaço foram importantes para se verificar que eles não apenas acessavam o espaço para obter informação na internet, mas para colaborar com o processo de produção da notícia do veículo. Através dessas informações, pudemos ter pistas sobre a força das disposições sincrônicas, processadas nas relações que são mantidas de

um ator com os outros. Neste caso, dos cidadãos que mais interagiam com os jornalistas daquele veículo e os demais participantes do fórum.

Dos indivíduos mais participativos, os chamados cidadãos-ouro, oito se cadastraram em 2007, quando o fórum foi criado; cinco, em 2008; cinco, em 2009 e dois, em 2010. De todos os assuntos listados no canal de interação entre o DP e os internautas, um concentrava as atenções dos participantes mais ativos: o tópico transporte e trânsito. Dos 20 pesquisados, 14 revelaram a sua preferência por este tema, até porque utilizavam o transporte coletivo.

Desse grupo, doze colaboravam com assiduidade para o fórum do jornal: três, diariamente; quatro, semanalmente; e cinco, mensalmente. Os oitos restantes já foram parceiros constantes, mas afirmaram, no questionário, que deixaram de participar com frequência, preferindo apenas ler e acompanhar as discussões por motivos diversos, como 1) a falta de tempo para postar novidades, 2) o site lento, pesado e pouco atrativo, 3) as brigas entre os inscritos que resultaram em trocas de insultos, 4) a mudança gráfica na versão impressa do DP, que retirou a página exclusiva do cidadão publicada às terças-feiras, 5) a redução do aproveitamento das sugestões enviadas pelos internautas nas matérias publicadas pelo impresso, depois dessa mudança, 6) a dedicação maior ao blog pessoal e 7) a concentração dos debates no tópico transporte e trânsito.

Na fase seguinte, vamos verificar que esses motivos, citados por eles para diminuir o interesse de colaborar ou mesmo não enviar mais sugestões ou comentar com o jornal, podem ser considerados um fator de inibição para ação de interagir e participar do fórum, o que os incentivou a instituir um espaço autoral. Quando a disposição para colaborar com o processo de produção da notícia foi afetada, percebemos que uma parte do grupo se sentiu estimulada a criar um canal próprio de comunicação, completando assim o processo que nos levou ao conceito do jogo para o agir ativamente no jornalismo, como vamos aprofundar na segunda parte da análise.

Quando indagados se acompanhavam as notícias que eram produzidas na versão impressa do veículo, a partir das sugestões enviadas através do fórum, 15 indivíduos afirmaram ter esse hábito, já os outros não se interessavam em verificar o que era publicado, contentavam-se em participar da ação de interagir apenas no mundo virtual. Por isso, a mudança editorial do DP (o fim da página impressa intitulada Cidadão-Repórter) não foi percebida por todos. A maioria, contudo, notou: 16 entrevistados. Do grupo, 11 afirmaram que a retirada da página, publicada às terças-feiras, desestimulou a participação no fórum. Cinco discordaram e três não quiseram opinar.

Essa falta de estímulo estava ligada, segundo oito entrevistados, ao fato de o nome de quem remeteu a sugestão da pauta, no caso do cidadão comum, não aparecer de forma destacada nos textos e nas fotos publicadas, como acontecia anteriormente. Para nove indivíduos, o aproveitamento das sugestões diminuiu com a mudança. Não havia mais um espaço exclusivo para o cidadão que colaborava. De acordo com eles, o material foi aproveitado de forma desorganizada e pulverizada ao longo dos cadernos impressos do DP.

Mesmo com esses problemas apontados, 14 continuaram colaborando e lendo o material postado no fórum; cinco não quiseram mais postar e optaram por ler esporadicamente e um não quis opinar, o que indica, como mostra o quadro a seguir, que a disposição para continuar a colaborar com o processo de produção da notícia do DP, independentemente das mudanças descritas anteriormente, seguia forte.

Configuração dos entrevistados pela disposição de colaborar com o fórum colaborativo do DP

As mudanças nas disposições sincrônicas (contextuais) foram afetadas à medida que os atores, que não concordaram com a nova postura editorial do Diario de Pernambuco, não se sentiram mais motivados a enviar sugestões de pautas. Apesar disso, observamos que eles

continuaram a consultar o fórum e a interagir, mandando comentários, principalmente para outros cidadãos comuns que estavam inscritos. Essa informação foi relevante para que pudéssemos perceber a forma como as disposições se manifestavam em cada um dos seis indivíduos da segunda fase de maneira constituída ou requisitada. Elas se revelam pela interpretação dos comportamentos coerentes ou contraditórios do ator.

Outro dado importante para avaliar as práticas do cidadão comum no jornalismo foi o fato de parte dos entrevistados ter afirmado que interagiam com outros veículos. Dos 20 membros do grupo, 14 colaboravam apenas com o fórum do DP, mas seis já remetiam pautas para outras empresas de comunicação. Três entrevistados tinham, inclusive, participado ativamente de programas de rádios, dois deles contribuíram para a instalação de rádios comunitárias em seus bairros. Outro cidadão chegou a participar de um programa sobre os problemas da cidade em uma rádio comercial. Essas informações nos ajudaram a traçar os primeiros sinais para o estudo das disposições sincrônicas. Nela, observam-se os contextos nas quais as ações são realizadas e se elas são tomadas de forma recorrente.

A forte disposição para agir ativamente foi expressa ainda pela vontade que nove indivíduos afirmaram ter: o sonho de estudar jornalismo para exercer essa atividade de forma profissional. Apenas um deles ingressou em um curso de jornalismo, mas não continuou a estudar por problemas financeiros, como detalharemos adiante. Essa vontade está ligada à busca pela competência para participar do processo de produção da notícia.

O conceito de competência está relacionado a saberes ligados a uma circunstância ou a uma prática bem particular, inserida em um determinado contexto. Os conceitos de disposição e de competência estão próximos, contribuem para formar a nossa noção do agir ativamente. Essa expressão representa a conexão entre o estar disposto e o ter competência para que o cidadão comum acione inconscientemente os esquemas disposicionais que o motivam a ser produtor da informação.

Os noves integrantes do grupo que revelaram o sonho de estudar para ser jornalista vincularam essa vontade ao gosto pela leitura e pela escrita e ao desejo de informar os outros atores sobre os problemas das comunidades em que viviam. Observamos que eles conectaram o exercício do jornalismo às disposições para as ações políticas, sociais e culturais cotidianas. Por isso, esses fatores lastrearam três das quatro variáveis de ativação interna de nosso desenho de configurações disposicionais, exposto no capítulo que tratou da metodologia.

Os noves cidadãos que declararam ter vontade de entrar em uma universidade para cursar jornalismo exerciam outras atividades profissionais até mesmo o único que chegou a iniciar o curso. Eles revelaram que o curso de jornalismo poderia ser feito posteriormente,

como uma atividade secundária e não principal. Alguns gostariam de fazer o curso para se aprimorar na produção dos textos, que produziam para sugerir matérias e comentar as noticias que a grande imprensa veiculava, e também para produzir as informações que divulgavam em seus blogs pessoais.