As configurações deste terceiro quadro contribuem fortemente para que o ator deixe de ser apenas um receptor da informação, como indicaram as informações coletadas na primeira
fase de nossa pesquisa de campo. Essas configurações expressam as variações das disposições que surgiram e que estão aqui representadas como fatores de tendências para as ações sociais, políticas, culturais e religiosas por meio das quais o indivíduo se sente estimulado a agir ativamente no jornalismo. Esses fatores internos de ativação estão descritos no terceiro quadro teórico, exibido adiante.
Chaves para a compreensão: variações dos fatores internos de ativação
FATORES INTERNOS DE ATIVAÇÃO
Disposição para Disposição para
a ação política a ação social
Indivíduo
Disposição para Disposição para
a ação cultural a ação religiosa
Figura 3 – A estrutura da análise dos fatores internos de ativação do cidadão-repórter Fonte: Elaboração própria com base em Lahire (2002; 2004a; 2005; 2006a; 2010a; 2010b)
Na Figura 3, apresentamos mais um quadro da configuração de nosso desenho teórico para explicar a influência das variações que os fatores internos de ativação – as tendências para as ações sociais, políticas, culturais e religiosas – têm na formação das disposições do indivíduo que quer agir ativamente no jornalismo. Com a exceção da disposição para as práticas religiosas, que surgiu na segunda fase da pesquisa de campo, a das entrevistas em profundidade, as demais apareceram como resultado das duas etapas da parte empírica.
Consideramos a inclinação para a ação social como a mais importante para a construção dos esquemas disposicionais, acionados por cada individuo quando age ativamente, porque nas duas fases da etapa empírica uma parte significativa dos entrevistados revelou estar envolvida em atividades que foram motivadas por inclinações para o assistencialismo, a compreensão do sofrimento do outro e a busca de soluções dos problemas coletivos. Parte deles participava de entidades que representavam setores desses agrupamentos, seja pela realização de trabalho voluntário por iniciativa individual ou coletiva. Essas atividades sinalizam que a maioria do grupo tem uma forte tendência para o assistencialismo social, destinando parte de seu tempo a promover ações que podem beneficiar pessoas com as quais não há laço familiar.
Dos 20 entrevistados na primeira fase, 75% já realizaram algum tipo de trabalho voluntário. Na fase seguinte, todos os seis indivíduos analisados declararam tomar esse tipo
de atitude. Consideramos trabalho voluntário a ação executada espontaneamente dentro ou fora da comunidade, sem nenhum tipo de remuneração. Em relação à participação em entidades comunitárias, 35% afirmaram, na primeira etapa, ter frequentado reuniões e mobilizações. Alguns, inclusive, tinham atuado como diretores dessas entidades. Nas entrevistas em profundidade, todos afirmaram desenvolver trabalhos nas comunidades para buscar resolver problemas coletivos.
Nesta tese, a variável disposição para as açõessociais está relacionada às práticas dos cidadãos entrevistados em suas comunidades. A noção de comunidade33 é uma das mais vagas da sociologia, podendo ser aplicada para descrever uma variedade de unidades sociais: de aldeias a organizações internacionais (NISBET, 1996). As comunidades são estruturas sociais nas quais os indivíduos podem ou não estar próximos fisicamente, mas constroem um sentimento de integração, interdependência e identidade (TURNER, 1999; GIDDENS, 2005; ANDERSON, 1991). Com a popularização da internet e o uso cada vez mais massivo do computador, a comunidade pode estar ancorada no mundo virtual34.
Nesta pesquisa, a noção de comunidade pode ser aplicada nos dois sentidos: o da solidariedade, proximidade e afetividade, características da noção mais clássica, e o das relações interpessoais que acontecem nas comunidades virtuais. Isso porque na primeira fase, os entrevistados foram localizados a partir de um canal de interação que o Diario de Pernambuco criou na internet. Na segunda etapa, acompanhamos os indivíduos em suas atividades nas comunidades onde moram e trabalham.
Já a disposição para a açãopolítica foi alçada a uma variável importante, fazendo parte do desenho de configurações para se estudar os fatores internos de ativação, porque a maioria dos entrevistados, nas duas etapas, expressou a importância de práticas relacionadas ao exercício da política de forma ampla, que procura melhorar a vida na sociedade. Desse grupo,
33 Não é objeto central dessa tese aprofundar o conceito de comunidade, mas podemos citar algumas referências.
O estudo de Tonnies (2009) foi um dos primeiros. Nele, a concepção de comunidade está vinculada à ideia de entendimento, um tipo ideal de relação social que viria a se contrapor ao conceito de sociedade. Para Weber (1987), a noção de comunidade se baseia na orientação da ação social, no sentido de solidariedade. Ela é criada a partir de qualquer tipo de ligação emocional, afetiva ou tradicional. Os conceitos de comunidade e sociedade não são excludentes. A noção de comunidade é utilizada para que se compreenda a transição da sociedade tradicional para a sociedade moderna. À medida que as sociedades se tornam mais complexas, as populações se multiplicam e os movimentos migratórios se intensificam, as comunidades crescem. O efeito mais visível desta mudança são as comunidades criadas pela urbanização dos grandes centros, embora não fiquem restritas às cidades, também podendo ser encontradas no interior. Nesse contexto, para Bauman (2003), o conceito de comunidade não é o de um paraíso perdido, de uma zona de conforto, imagem que prevalece na memória coletiva. Estar em uma comunidade significa, segundo ele, administrar a liberdade em zona de conflito. A vida individual oferece riscos. A vida em comunidade é um lugar de segurança se resgatarmos a noção mais tradicional de proximidade e de afetividade entre parentes e amigos.
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No capítulo que trata sobre o jornalismo, abordamos o conceito de comunidade virtual, já que os indivíduos entrevistados foram localizados a partir de um fórum colaborativo existente na internet. Rheingold (1996) foi um dos primeiros estudiosos a usar o conceito de comunidade virtual.
apenas um não quis responder às questões relativas à prática política, como o exercício do voto. Três deles não votaram: um era estrangeiro e dois outros não tinham idade para tirar obrigatoriamente o título de eleitor, a partir dos 18 anos. Os demais declararam que faziam questão de escolher os seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo.
Assim, dos 17 cidadãos do grupo que, na primeira fase, responderam às questões do questionário relativas ao mundo político, 85% disseram que antes de votar avaliavam as propostas dos candidatos, 70% levaram em consideração a identificação pessoal com o candidato, 65% cobraram as promessas feitas durante a campanha e 40% procuraram se informar sobre o partido do candidato. Outro indicador que corrobora a importância da prática política é que 85% dos indivíduos pesquisados tinham o hábito de buscar informações sobre o tema na internet. Os seis entrevistados da segunda fase estão inseridos nessa estatística, três deles, inclusive, não descartam a possibilidade de, no futuro, vir a disputar um cargo eletivo.
A disposição para a ação política à qual nos referimos nesta tese está relacionada aos significados clássico e moderno da política. O primeiro é mais amplo, dizendo respeito a tudo o que se refere à cidade, ou seja, ao que é civil, urbano, público e social. O segundo é mais específico, tratando de conceitos que passaram a ser utilizados posteriormente, como o de ciência política, para indicar, de uma forma ou de outra, as atividades que estavam ligadas às ações de Estado (BOBBIO, 1986a).
A expressão prática política pode ser utilizada em vários sentidos. Nesta tese, contudo, está vinculada a ações que viabilizam a solução de problemas coletivos que podem trazer uma melhor qualidade de vida às comunidades. Nas entrevistas realizadas, parte dos indivíduos participa, como descrevemos anteriormente, de grupos que se reúnem para reivindicar políticas públicas e ações que funcionam como molas propulsoras do exercício da democracia representativa no mundo ocidental.
Para alguns teóricos da política, a participação deve ser limitada por controles institucionais com normas e estruturas organizacionais que poderiam criar uma sociedade mais justa. Outros, contudo, preferem argumentar que a sociedade civil35 organizada é uma
35 O conceito de sociedade civil foi criado para se contrapor à noção de sociedade natural e servir de sinônimo
para sociedade política, o Estado. Para Hobbes e Kant, a sociedade civil nasce para estabelecer uma autoridade através de leis que nortearão as ações dos indivíduos. Depois, o conceito de sociedade civil adquire um novo significado, o de sociedade civilizada para se distinguir de sociedade de povos primitivos. Já Hegel compreende que a sociedade civil é um “Estado externo”, possui algumas características de Estado, mas ainda não é isso uma vez que não tem uma organicidade forte. Marx trouxe um novo significado: a sociedade civil é a sociedade burguesa instituída pelas relações econômicas, estabelecendo a dicotomia sociedade-estado. Para Gramsci, também há uma distinção entre sociedade civil e Estado. Os organismos privados estão na sociedade civil e os organismos públicos, no Estado. Os dois grupos fazem parte da superestrutura. O significado que prevalece hoje é o da linha que demarca o que é privado do que é público. A sociedade civil é formada pelo indivíduo que é
etapa da evolução da participação popular, impulsionada por movimentos de partidos políticos ou de outros tipos de grupos sociais (CRICK, 1996).
Em relação à participação popular no processo de discussão de políticas públicas de Estado, a Constituição brasileira de 1988 foi um marco histórico na criação de mecanismos para estimular a ação dos cidadãos. A nova legislação redirecionou a responsabilidade dos investimentos públicos da União para os municípios. Com isso, a sociedade civil passou a ficar mais próxima das instâncias de poder que decidem como os recursos públicos serão aplicados.
Nesse contexto, o poder de pressão dos indivíduos cresceu. Para atender à demanda, o Estado instituiu alguns fóruns de discussões, que podem ser consultivos ou deliberativos, como o Programa do Orçamento Participativo (OP), adotado por diversas prefeituras brasileiras, como a do Recife entre 2001 e 2012. A maioria de nossos entrevistados mora na capital e parte dos que afirmaram participar de entidades comunitárias, também assiste às reuniões do OP. Isso indica que há uma interseção entre as disposições para as ações política36 e social.
Já a definição da disposição para a ação cultural também considerou as manifestações dos indivíduos entrevistados nas duas etapas de nossa pesquisa. A maioria demonstrou que as práticas culturais, como a participação em grupos culturais e o consumo de bens culturais, a exemplo da leitura de livros, jornais e revistas e a frequência a shows e visitas a bibliotecas ou livrarias, são atributos importantes para a construção das disposições do agir ativamente no jornalismo.
Dos 20 entrevistados na primeira fase, 75% tinham o hábito da ler com frequência e 25% mais esporadicamente e 50% declararam ir a livrarias e bibliotecas com bastante assiduidade. Como a maioria desse grupo tinha uma renda individual de até três salários mínimos, o hábito de ir a locais que cobram ingressos, como cinema, teatro, show e museu, não era tão praticado em função da condição financeira.
independente e que se reúne a outro indivíduo pela vontade natural, contrapondo-se ao que é público, ao Estado. (BOBBIO, 1986b e KUMAR, 1996).
36 O estudo da política tem início na Grécia, principalmente com Platão e Aristóteles, autores que abordavam
esse tema de formas diferentes. Platão enfatizava a observação dos fenômenos políticos enquanto Aristóteles priorizava a análise das características dos valores da política através da teoria política (BLONDEL,1996). O mundo da política ganhou outra dimensão com o uso massivo da internet. Em um mundo conectado em rede, a política tem se transformado através das diversas possibilidades de participação política, que leva a diferentes graus de ação política. A internet proporciona uma maior aproximação entre a opinião pública e o mundo político. Esse debate, contudo, não é o objeto central dessa tese até porque só ele poderia servir como tema de pesquisa.
Uma parte desses indivíduos revelou que as atividades culturais estão associadas ao sentimento de pertencimento às comunidades, como é o caso de Pedro do Batuque, que participa de grupos musicais que retratam em suas letras a realidade do local em que vive. Assim como outros pesquisados, ele frequenta circuitos culturais alternativos nas comunidades onde mora e trabalha.
Para a sociologia, cultura é um termo que representa, de uma forma geral, ideias, práticas e objetos criados pelo homem. É resultado da capacidade que o indivíduo tem de transformar o ambiente natural, criando símbolos e valores que sejam compartilhados coletivamente para se estabelecer um estilo de vida. A cultura proporciona significados e fornece regras para a ação social sem os quais os indivíduos não poderiam compreender uns aos outros (HALL, 1996).
A cultura é observada através de comportamentos e objetos produzidos pelos atores. Existem variações culturais e não é possível promover comparações tentando estabelecer hierarquias (GIDDENS, 2005). Por isso, não devem ser compreendidas em função de uma determinada visão, mas a partir delas mesmas. A importância da dimensão da cultura cresceu a partir da segunda metade do século XX, quando a sociologia passou a analisar uma diversidade de fenômenos sociais resultantes do desenvolvimento do individualismo nas sociedades (JUNQUEIRA 2009; 2010).
Os estudos sociológicos sobre a cultura podem ser divididos, segundo Melo (2010), em dois grupos: os dos teóricos inscritos na sociologia da cultura e os dos inseridos na sociologia cultural. No primeiro, a cultura é considerada uma variável dependente. Para que possa ser compreendida, precisa ser analisada a partir de outras variáveis da estrutura social. Nele está a maioria dos pesquisadores: dos clássicos, como Durkheim, Marx e Weber, aos modernos, como Bourdieu. No segundo grupo, a cultura é uma variável independente ou determinante na estrutura social, gozando de relativa autonomia. Nele estão Alexander, Kane, Sztompka e Eyerman. Eles defendem a autonomia da cultura, partindo do pressuposto que nada existe fora dela. Alexander (1992; 2002) considera que esta é uma visão contemporânea e, por isso, é um campo em construção.
Esta tese não tem como objetivo central aprofundar os estudos acerca do conceito de cultura, mas reconhecer a importância de sua dimensão como um dos quatro fatores de ativação interna. A disposição para a ação cultural integra o nosso desenho de configuração para que possamos ter acesso às variações disposicionais que contribuem para que o cidadão, analisado nesta tese, queira ser coprodutor e produtor da informação.
Em relação à tendência para as práticas religiosas, essa variável só apareceu na segunda fase da pesquisa de campo, a das entrevistas em profundidade. Não havia nenhuma pergunta sobre o tema no questionário da primeira etapa. Essa variável foi alçada à condição de forte motivadora para as novas práticas jornalísticas do cidadão comum porque cinco dos seis entrevistados tinham, de forma permanente ou esporádica, o hábito de frequentar templos religiosos, seja por influência da família ou de amigos.
Evidenciou-se que há uma vinculação entre a ação de ajudar a comunidade com a doutrina do discurso religioso para “olhar o outro” e “fazer o bem ao próximo”. Observamos que esse fator de motivação interna está conectado ao conceito de dádiva. Ele não se restringe à prática da religião em si, como a frequência às igrejas e aos templos e à realização de rituais específicos das diversas religiões, mas vai além. Está no subterrâneo da disposição de “olhar o outro” e de “fazer o bem”. A ideia de “olhar o outro”, expressa de diferentes formas pelos entrevistados, está vinculada, em parte, à necessidade de se fazer o assistencialismo social a partir da formação religiosa. Esta perspectiva de “olhar o outro”, contudo, não se restringe aos efeitos do fenômeno religioso, transbordando-o, remetendo-nos à teoria da dádiva.
A base dessa teoria está na elaboração de uma obrigação moral que passa pela ação de dar, receber e retribuir. Apesar de existir certos padrões coletivos de moral, os atores não estão presos às obrigações. Eles têm a liberdade de entrar e sair das relações, mesmo que isso possa representar o rompimento de laços de afetividade. O principal sistematizador dessa teoria foi o antropólogo e etnólogo Marcel Mauss37 (2003).
Esse modelo interpretativo do valor das relações sociais, estabelecidas através das interações entre os indivíduos na sociedade, ajuda-nos a refletir sobre as origens da ação do ser solidário e das alianças que são firmadas no mundo contemporâneo, que não podem estar restritas aos aspectos religioso e econômico. Isso porque na convivência social tudo é relevante: da aquisição de uma mercadoria a uma simples troca de sorrisos (MARTINS, 2005). Mauss enaltece que, para a elaboração de culturas, a troca de bens não tem um atributo apenas material, mas, sobretudo, simbólico.
Essa teoria tomou como base estudo de Mauss sobre as modalidades de trocas em sociedades arcaicas. Ele percebeu que o Estado e a relação econômica e os valores originados dela não são universais nem suficientes para substituir as antigas formas de os indivíduos estabelecerem vínculos entre eles em todas as sociedades. Observa-se, segundo Mauss (2003),
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O primeiro texto sobre essa teoria foi escrito em 1924 sob o título “Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”. Como não é objeto da tese aprofundar essa teoria, quem tiver interesse em conhecê-la melhor pode ler: CAILLÉ (1998), MARTINS (2002) e SANTOS (2000).
a existência de uma rede de reciprocidades de caráter interpessoal permeada por gestos e afetividades. As relações sociais de reciprocidade são anteriores às legislações e às regras de mercado.
De acordo com Martins (2005), a dádiva não tem compromisso com a democracia, está mais vinculada à noção de justiça social. O sistema de dádivas pode ser visualizado com mais frequência em comunidades menores, como as da família, dos amigos e dos vizinhos onde existem regras próprias, muitas vezes desvinculadas às lógicas do Estado e da economia de mercado. Ao longo das fases da pesquisa empírica, as variáveis disposições para a ação religiosa, social, política e cultural foram se fortalecendo como atributos que influenciam fortemente para que o indivíduo esteja motivado a agir ativamente no jornalismo.