Clarté textuelle
6. Logique de la grammaire de texte
6.1 La progression thématique
Retomando a argumentação dos novo-clássicos, autores como Joseph Stiglitz, Gregory Mankiw e David Romer, fundaram na década de 1980 a escola novo- keynesiana. Tais autores voltaram a afirmar a existência da mão invisível do mercado entretanto, entendiam que esta seria ineficiente. Para tal escola, o equilíbrio com desemprego seria explicado pelas imperfeições de mercado devido à rigidez de preços e salários, além da assimetria de informações existente entre os agentes econômicos.
Para Lima et al(1999), o debate de hoje entre o mainstream ortodoxo ocorre entre novos-clássicos e novos-keynesianos, um exemplo disso pode ser observado pela justificativa dada pelos novos-keynesianos para a existência de rigidez de preços e salários numa tentativa de contra-argumentar as críticas dos novo-clássicos aos velhos- keynesianos, através da explicação de microfundamentos para a macroeconomia, como o custo de menu e o salário eficiência.
Sicsú (2007) apresenta que, para os novos-keynesianos, a curva de oferta agregada seria inelástica no longo prazo e, portanto, não existiria desemprego involuntário, além disso, para eles as flutuações econômicas também não existem. Assim sendo, “a microeconomia walrasiana seria útil e macroeconomia keynesiana inútil, como instrumento de análise de longo prazo” e, desta forma, os novo- keynesianos não estariam negando os novo-clássicos, apenas afirmando sua “inadequação para o curto prazo”.
1.4 – Considerações a respeito das Políticas de Keynes em relação ao Keynesianismo Convencional
A partir das discussões anteriores, podemos perceber como Keynes contrariou as ideias liberais, ao afirmar categoricamente a não-neutralidade da moeda, pois, na medida em que a mesma configura-se uma forma de riqueza, e inserida em um ambiente de constante incerteza, consegue afetar as decisões dos agentes entre investimento e retenção de riqueza sob forma monetária mais líquida. Neste contexto, a economia é claramente marcada por instabilidade e, então, um dos principais objetivos das políticas
de Keynes é a diminuição dessa instabilidade através da diminuição da incerteza, da garantia do pleno emprego, e da garantia de uma igual e justa distribuição de renda e riqueza na sociedade.
Para Keynes, a ação fundamental do Estado estaria centrada na sua capacidade de promover políticas que criassem um ambiente econômico seguro, que, por sua vez, estimularia os agentes privados a se arriscarem e não ficarem restritos à aplicações em ativos líquidos. Isto é, caberia ao Estado promover ações que atingissem todo o conjunto de investimentos privados, regulando o ritmo de investimento e garantindo maior atuação em áreas em que o investimento privado não conseguisse atuar de forma concreta. Portanto, ao Estado caberia a tarefa de sustentar um nível estável de demanda agregada ao longo do tempo, que estimulasse os empresários a efetuarem novos investimentos que gerassem lucros e novos empregos, em vez de preferirem acumular ativos líquidos.
A possibilidade de planejamento, no sentido de elaborar planos de intervenção para compensar um eventual hiato de investimentos privados, foi reforçada, na visão de Keynes, pelo fato de o governo não ser apenas mais um a tentar adivinhar as tendências futuras, mas de ser, em grande medida, um construtor do futuro, através do poder mobilizador de recursos e influenciador da demanda agregada. A esfera de atuação do governo não se sobrepõe à esfera privada. Pelo contrário, o governo deve auxiliar a criação de um ambiente estável e seguro para a ação dos agentes privados (CARVALHO, 1999: 269).
A questão central das políticas de Keynes encontra-se ancorada justamente nessa capacidade de o Estado promover um ambiente estável e seguro macroeconomicamente, para a tomada de decisões dos agentes privados em âmbito microeconômico. Isto é, o que Keynes propôs foram políticas que visassem à socialização da incerteza, que é própria do sistema capitalista, e impulsionasse, desse modo, a demanda. Assim sendo, as políticas de Keynes devem ser vistas como ações concentradas em múltiplas áreas, levando sempre em consideração que cada política irá impactar na economia de forma distinta e em intensidade específica, consequentemente, “uma estratégia abrangente deve ser desenhada para maximizar a eficiência do uso de cada ferramenta” (CARVALHO, 1999).
Assim sendo, não podemos cair na simplificação feita por muitos de que qualquer tipo de ação mais ativa do Estado seria uma política keynesiana. Esse não foi o intuito de Keynes. Não se trata de uma intervenção deliberada e não planejada em momentos em que a iniciativa privada não consegue sustentar a demanda agregada, aquilo proposto por Keynes. Poderíamos dizer que as ideias de Keynes caíram em uma “popularização” em que qualquer intervenção do Estado é vista como “política keynesiana”. Assim sendo, muito mais do que políticas keynesianas, deveríamos pensar em políticas de Keynes. Isto é, antes de sairmos atribuindo qualquer ação mais ativa do Estado aos escritos de Keynes, devemos entender que o que ele propunha ia além do que meras ações imediatistas e passageiras ocorridas apenas em momentos de instabilidade. Tratava-se de uma posição estratégica, de um compromisso explícito do governo em promover o pleno emprego, relacionando o setor público e o setor privado. Seguindo essa linha de abordagem, para Sicsú (2008) as políticas macroeconômicas são a base fundamental para uma estratégia de desenvolvimento, e essa estratégia deve preocupar-se com três etapas: o objetivo final da sociedade; a trajetória macroeconômica para se alcançar tal objetivo final; e as políticas públicas objetivando sempre a justiça social e a manutenção do desenvolvimento. Isto é, as decisões de políticas macroeconômicas não podem estar focadas apenas no curto prazo e, portanto, dissociadas de uma estratégia de longo prazo que vise à geração de emprego e de renda em toda a sociedade.
A necessidade de o Estado participar ativamente da vida econômica de uma sociedade não está relacionada às especificidades de certo período histórico ou a alguma falha do sistema capitalista que pode ser corrigida. (...) Turbulências econômicas são da natureza do sistema, surgem no seu interior e de forma repentina (...). E tais turbulências tendem a se transformar em crises quando não há a intervenção anticíclica do Estado (SICSÚ, 2008: 145).
Assim sendo, as políticas de Keynes configuram-se em ações conscientes e planejadas e que são elaboradas e postas em prática por governantes de Estado que utilizam as políticas monetária e fiscal, atreladas a políticas de preços e salários e que, acima de tudo, preocupam-se com a forte ligação das políticas de hoje com as de amanhã, ou seja, das políticas de curto prazo com as políticas de longo prazo com o objetivo maior de garantir o pleno emprego.
A partir das considerações acima expostas sobre as políticas de Keynes, a proposta deste trabalho é tentar utilizar todo este arcabouço teórico para entender as políticas macroeconômicas brasileiras do período pós 1999 e tentar identificar se as atuais políticas, especificamente, Regime de Metas de Inflação, consequentemente o controle das taxas de juros, e também a geração de superávits primários, são compatíveis com as políticas de Keynes.